A lenda de Wetaskiwin

A lenda que aqui contamos hoje vem de uma expressão dos nativos canadianos relativa a Wetaskiwin Spatinow. Já iremos ao seu significado, mas por agora basta dizer que a pequena cidade canadiana tem uma lenda para explicar esta origem do seu nome.

A lenda de Wetaskiwin

Em outros tempos, possivelmente na segunda metade do século XIX, viviam na área que se viria a tornar Wetaskiwin duas tribos nativas, os Cree e os Blackfoot. Os respectivos territórios eram separados por um pequeno rio, e os seus limites tendiam a ser respeitados pelas duas nações índias, excepto quando sentiam necessidade de comida e o enorme grupo de bisontes locais cruzava o rio para o lado oposto. E isto acontecia diversas vezes, até porque os animais queriam preservar as suas próprias vidas, até que um dia uma das tribos – já não sabemos precisar qual das duas foi a responsável inicial – lá se zangou com a ocorrência e declarou guerra à outra.

 

Os dois exércitos dirigiram-se então para uma colina local, a futura Wetaskiwin, mas seguindo por lados opostos nunca se viram. Por isso, na sua busca de encontrar a localização dos opositores, dois bravos guerreiros – um de cada tribo, a Criança Búfalo e o Pequeno Urso – subiram até ao topo da colina e espreitaram para o lado contrário… e quando isso aconteceu, ambos deram imediatamente de caras um com o outro! Pela honra das respectivas pátrias, decidiram então combater só com as mãos, sem outras armas, e o conflito prolongou-se por horas e dias. Depois, admitindo a necessidade de descansar, ambos se separaram por um momento. Um deles tirou da sua vestimenta um pequeno cachimbo, fumou-o, e… entendendo que também o seu opositor necessitava de relaxar, passou-lhe o mesmo instrumento. Quando se aperceberam do que tinham feito, já era tarde demais!

 

O que aconteceu aos dois guerreiros? Talvez não seja muito fácil de perceber na cultura portuguesa, mas eles tinham fumado, por completo acidente, o chamado “cachimbo da paz”. As regras de ambas as tribos, como em muitas outras na América do Norte (e até na xenia dos Gregos), diziam que ao fazerem este acto comum, tudo tinha de ser perdoado entre eles. E assim o foi feito, a guerra depressa terminou, e a colina em que o episódio tomou lugar passou a ser conhecida como Wetaskiwin Spatinow, “a colina em que a paz foi feita” pelos Cree e Blackfoot. Claro que depois o nome foi sendo simplificado, até se chegar ao actual.

 

Tema terminado? Ainda não, por aqui faltar um pequeno elemento curioso – a mesma cidade é hoje mais conhecida por alguns anúncios locais que apregoam que, com uma pequena musiquinha, “Cars cost less in Wetaskiwin“, i.e. os carros custam menos na cidade. Podem ouvir abaixo:

Será verdade, ou apenas um outro mito local? Não sabemos, mas os poucos habitantes de Wetaskiwin a quem perguntámos sobre isso afirmaram que sim, que os carros são, de facto, menos caros na cidade. Por isso, se algum leitor ou leitora estiverem no Canadá, mais precisamente na província de Alberta, e quiserem comprar carro, já sabem onde ir…

A lenda da origem da Primeira Guerra Mundial

Esta estranha lenda da origem da Primeira Guerra Mundial é muitíssimo curiosa. Ela vem dos Estados Unidos da América, onde parece ter sido contada, ainda na primeira metade do século XX, para explicar como foi possível a ocorrência de um conflito bélico tão grande.

Lenda da Origem da Primeira Guerra Mundial

Esta lenda da origem da Primeira Guerra Mundial diz então que algures no ano de 1914 um jovem funcionário do Vaticano, cujo nome já foi agora esquecido, quis conhecer os muitos segredos do local. Ele tinha ouvido dizer, por exemplo, que nas catacumbas locais podia ser encontrado uma das costelas de Adão, uma pena do Arcanjo Gabriel, e pelo menos 27 cabeças que se supunham ser a de São João Baptista. Um seu colega, mais velho e mais sábio, negou existirem ainda grandes segredos no interior dessas paredes do Vaticano, mas quis fazer o favor ao jovem e deixou-o, portanto, visitar essas zonas secretas de todo o local. O jovem assim o fez, foi vendo – sozinho – o que existia e deixava de existir por lá, até que se deparou com um pequeno recipiente contendo o nome Tenebrae Aegypti. Curioso, e talvez pelo conhecimento do Latim não ser uma das suas forças, decidiu levantar a pequena tampa… e apenas foi a tempo de ver enormes trevas a escaparem! E no dia seguinte começou então a Primeira Guerra Mundial…

 

Agora, pensando-se bem, esta lenda não é senão uma versão modernizada do mito grego de Pandora (e da sua famosa caixa), mas tem a curiosa característica de ser usada quase nos nossos dias e para tentar justificar a ocorrência de um evento, que na altura ainda se esperaria muito singular, da história moderna. Depois, e provavelmente pela ocorrência da Segunda Guerra Mundial, é uma trama que parece ter perdido o seu charme original – apenas a vimos reproduzida num único livro americano da primeira metade do século XX, e ela parece estar orgulhosamente esquecida até ao dia de hoje, em que decidimos recordá-la por aqui.

A lenda do Aqueduto de Segóvia

Naquilo a que podemos chamar a vida real, sabe-se que o Aqueduto de Segóvia, localizado no centro de Espanha, foi construído pelos Romanos. É um facto pura e simplesmente irrefutável. Mas, ainda assim, não deixa de existir uma curiosa lenda espanhola sobre a sua construção.

Se procurarem na internet imagens deste famoso aqueduto, poderão facilmente aperceber-se do seu tamanho, mas o que pouca gente nota é um pormenor curioso, que pode ser visto na imagem abaixo, e que passa pela existência actual de um pequeno nicho na construção em que está colocada uma estátua da Virgem Maria, que uns dizem ser a Virgen del Carmen e outros a Virgen de la Fuencisla, sendo esta última a padroeira da cidade. De onde vem ela? É, em parte, isso que toda esta lenda local procura explicar.

A Lenda do Aqueduto de Segóvia

Para falar desta lenda, esqueça-se então os Romanos. Pense-se numa Espanha medieval em que este Aqueduto de Segóvia ainda não existia, que é uma condição necessária para toda esta história. Depois, ela conta-nos que, algures nos tempos da Idade Média, uma jovem local trabalhava para uma família nobre e tinha de, com muitas dificuldades, ir buscar água para eles todos os dias. Dia após dia, noite após noite, ela descia uma montanha, andava algumas centenas de metros, subia outra montanha, e só assim conseguia ir buscar o líquido vital, como lhe competia.

Um dia, apareceu-lhe no caminho uma estranha figura. Era o Diabo, que assim se lhe apresentou e lhe prometeu construir algo que tornaria muito mais fácil toda esta procura por água, desde que ela lhe concedesse a sua alma. Incrédula, a jovem muito pensou na proposta, até que decidiu aceitá-la mas com uma pequena ressalva – ele só lhe ficaria com a alma desde que conseguisse construir a totalidade da estrutura numa só noite.

Assim foi combinado, e o Diabo trabalhou toda a noite para construir este tal Aqueduto de Segóvia, mas à medida que o dia se aproximava ele distraiu-se um pouco. Não se tem bem a certeza do que aconteceu – as versões da lenda variam nesse ponto – mas ele lá se distraiu e deixou por construir um pequeno nicho em toda a estrutura. Face a isso, quando o sol lá nasceu, este novo aqueduto estava quase terminado mas não totalmente… e então a jovem ganhou esta espécie de aposta, não só tendo preservado a sua alma, mas também obtido uma importantíssima nova forma de transportar água para a sua cidade. E quanto ao local que o Diabo deixou por construir, em honra da Virgem, que poderá ter intercedido em favor da jovem, foi aí colocada uma das suas representações!

 

Agora, passando desta lenda do Aqueduto de Segóvia para a realidade, é evidente que tudo isto é mera ficção, até porque a estrutura em questão já existia há diversos séculos nesta cidade quando se chegou aos tempos da Idade Média, mas não deixa de ser uma curiosa forma de se tentar explicar a sua existência. O mesmo também acontece no nosso país, mais precisamente em relação a um conjunto de pontes no norte do país, que também aí se dizem ter sido construídas pelo Diabo, mas a verdade é que… estas lendas são é fruto de um tempo em que as populações já não conseguiam compreender como é que dadas estruturas antigas tinham sido feitas, o que se aplica tanto nas referidas pontes do nosso país, como em grandes estruturas no estrangeiro, como aquela a que dedicámos as linhas de hoje…

A história de Maria Sangrenta (ou Bloody Mary)

A história de hoje, conhecida em Portugal e no Brasil como Maria Sangrenta, ou como Bloody Mary nos países ingleses, tem muito que se lhe diga. Isto porque não existia nas nossas culturas há apenas umas décadas, mas depois, fruto de muitos filmes americanos que mencionam alguma forma desta história, foi sendo introduzida em mais e mais culturas pelo mundo fora. O grande problema é que para isso tomar lugar, teve de existir progressivamente uma readaptação da lenda original, uma fixação do seu texto dito “canónico”, que nem sempre corresponde às versões originais, tal como elas eram conhecidas no seu país original.

A história de Maria Sangrenta (ou Bloody Mary)

Existem as mais diversas histórias associadas a Maria Sangrenta ou Bloody Mary, até porque esta partilha o seu nome com um cocktail dos nossos dias, mas a mais importante de todas essas tramas é provavelmente a da origem da figura. Isto porque, no ritual que bem conhecemos dos filmes, alguém se aproxima de um espelho e repete o nome desta figura por um número pré-determinado de vezes, fomentando a apresentação de um monstro feminino que frequentemente causa a destruição do invocador. E até aí tudo bem, é provável que conheçam essa parte de toda a sua lenda, mas quem foi, na verdade, a Mary – ou Maria, para nós – original?

 

Ouvimos, e também fomos lendo, as mais diversas opiniões sobre a sua identidade original. A versão mais espampanante fala da Rainha Maria I da Inglaterra, outras referem Elizabeth Bathory da Hungria, com alguns a ligarem-na a La Llorona ou a “Damas Brancas” como a falsa Teresa Fidalgo. Contudo, as versões tradicionais americanas nunca vão tão longe, falando apenas de uma mulher local que, devido aos seus actos em vida, foi de alguma forma punida, ou instigadora de punições, depois da morte. Por exemplo, uma tal Mary Worth, que se crê ter vivido no século XVII, que era uma menina com a cara desfigurada por uma doença, tão gozada pelos seus companheiros que foi levada ao suicídio ou morta durante um episódio de perseguição às bruxas. Noutras versões, ela matava era os escravos que tinham escapado dos seus donos. E os nomes vão-se seguindo – Mary Whales, Mary Johnson, Mary Lou, … – com as mais diversas histórias, que têm sempre em comum o facto de apresentarem uma menina ou mulher com um mesmo primeiro nome. Qual delas a evocada no espelho, é algo que, como bem nos diz a sabedoria popular, “venha o Diabo e escolha”…

 

Onde entra tudo isto no próprio cocktail que partilha o nome de Blood Mary (que, curiosamente, nunca ouvimos referido pelo nome português de Maria Sangrenta)? Também aí existem as mais diversas versões para o explicar, mas o factor mais notável é o facto da bebida conter bastante sumo de tomate, que associado à vodka lhe dá uma consistência semelhante ao sangue. Terá isto alguma coisa a ver com a história ou lenda acima, ou é apenas uma mera coincidência de nomes? Mais uma vez, isso é apenas algo que terá de ficar à pura opinião dos leitores.

 

Ainda, o que dizer sobre o ritual do espelho, tão presente na última parte da história de Maria Sangrenta ou Bloody Mary? A explicação mais fácil passa pela existência de vários rituais, em culturas pelo mundo fora, que insistiam na ideia de que fixar o olhar num espelho, enquanto se dizia “algo”, tinha alguma propriedade oracular, como a possibilidade de uma jovem rapariga ver antecipadamente o homem com quem acabaria por casar. Existiam até procedimentos semelhantes na nossa cultura portuguesa (e eles continuavam a existir até há menos de um século…), mas o aqui relevante é que essa fixação do olhar pode, em alguns casos, levar a alucinações, sendo portanto possível que as pessoas acreditem, verdadeiramente, que tinham visto uma figura como aquela a que dedicamos as linhas de hoje.

 

Em suma, o que sabemos em relação à história de Maria Sangrenta, ou Bloody Mary? Na sua forma original, que já inspirou tantos filmes, ela poderá ter-se baseado numa qualquer personagem histórica americana, que pelos actos em vida – seja os que cometeu, ou que lhe foram cometidos – ficou na imaginação popular. Depois, ao longo do tempo essa lenda foi-se fundindo com outros procedimentos ligados ao Oculto da sua época, tendo daí nascido todo o ritual do espelho. E, mais recentemente, esquecido todo esse contexto original, foi gerada a forma da lenda que hoje conhecemos…

“Circe”, de Madeline Miller

Circe é o segundo livro de Madeline Miller, na sequência de um de que já cá falámos há algum tempo atrás. Se nesse primeiro a autora reimaginou a trama da Ilíada, nesta espécie de sequela fá-lo de certa forma para a Odisseia homérica, pegando numa das personagens da obra original e tornando-a maior. Mas já lá iremos…

"Circe", de Madeline Miller

Enquanto preparávamos estas linhas, deparámo-nos com uma curiosa distinção entre o que parecem ser as edições de Portugal e do Brasil. Numa delas a obra tem o subtítulo “Feiticeira, Bruxa, entre o Castigo dos Deuses e o Amor dos Homens”, enquanto que na outra apresenta o texto “Uma Heroína, uma Feiticeira, uma Mulher que Encontra o Seu Poder”. É curiosa, essa distinção entre bruxa e feiticeira, de que já cá falámos antes, mas podemos e devemos admitir que Circe, a personagem principal deste texto de Madeline Miller, é tudo o que esses dois subtítulos lhe atribuem.

 

Se nos Poemas Homéricos os leitores pouco vêm a saber sobre a intimidade e o espírito desta Circe, o que a obra de Madeline Miller faz é, essencialmente, construir uma autobiografia da figura. Para tal, toma partido de alguns mitos antigos em que ela já tinha algum papel (e.g. o mito de Cila), insere-a em momentos em que poderia ter estado presente (e.g. o mito de Astérion, o Minotauro), e acrescenta até alguns breves novas histórias, de que o possível mito de Trigon é o exemplo mais notável. Assim, a heroína passa de uma mera figura nas aventuras de Ulisses, a uma mulher. É-lhe dado um passado, um presente e um futuro (incompleto), repleto de romance e de sentimentos, que o original não tinha, ou pelo menos nunca nos é dado a perceber nas obras da Antiguidade que nos chegaram – é provável que tenham existido tragédias, hoje mais que perdidas, sobre os amores desta feiticeira.

Outro aspecto interessante da obra é que ela parece, ocasionalmente, brincar com os leitores mais informados, fazendo aqui e ali referências oblíquas a episódios mitológicos secundários, que nada impactam a trama mas que alguns poderão conseguir reconhecer. Em pelo menos um caso essa característica de Circe fez-nos sorrir, precisamente por aludir por aludir a uma história que nenhuma importância aqui tem, mas que demonstra que a autora estava bem informada do material que rodeia aquele que utilizou.

 

Vale então a pena ler esta Circe de Madeline Miller? Cremos numa resposta bastante positiva, pelo facto de, ao não ter a inflexibilidade da trama da antecessora, o tema ter permitido à autora brincar mais com as personagens e suas relações, chegando a tentar completar a trama da Odisseia com o muito pouco que ainda se sabe sobre a forma original desses episódios. Este é, mais do que um livro mitológico, um romance baseado nas personagens da Mitologia Grega, que por isso até poderá agradar a quem tem menos interesse nos mitos e lendas.