“Institutos de Oratória”, de Quintiliano

Sobre esta fabulosa obra de Quintiliano, os Institutos de Oratória, também conhecidos por Institutio Oratoria, muito poderia eu escrever, mas existem, essencialmente, dois elementos que eu gostaria de deixar mencionados por cá.

 

No livro X (de XII) o autor menciona diversos autores que deveriam ser lidos. Além dos óbvios Homero, Vergílio e Cícero, são mencionados muito outros que certamente merecem ser explorados, apesar de muitos deles apenas sobreviverem em fragmentos.

 

No contexto deste blog, achei interessante mencionar algumas palavras do autor no livro III, relativas à forma como os deuses devem ser mostrados e elogiados. Aqui ficam, em tradução inglesa:

 

In regard to Jupiter, for instance, his power in ruling all things is to be extolled; in regard to Mars, his supremacy in war; in regard to Neptune, his command of the sea. In respect to inventions, we extol, in praising Minerva, that of the arts; in praising Mercury, that of letters; in praising Apollo, that of medicine; in praising Ceres, that of corn; in praising Bacchus, that of wine. Whatever exploits, also, antiquity has recorded as performed by them, are to receive their encomium. Parentage, too, is a subject of panegyric in regard to the gods, as when any one is a son of Jupiter; antiquity, as to those who were sprung from Chaos; and offspring, as Apollo and Diana are an honor to Latona. We may make it a subject of praise to some that they were born immortal, and to others, that they attained immortality by their merits, a kind of glory which the piety of our own emperor has made an honor to the present age.

fonte: [uma página que em 2019 já tinha desaparecido]

 

De modo geral, esta é uma obra extremamente interessante, daquelas que qualquer estudante de Clássicas deveria ler (e não só…), mas também tenho a clara certeza que, muito infelizmente, serão muito poucas as pessoas que alguma vez a irão sequer abrir…

O que aconteceu ás relíquias de Jesus Cristo?

Ao ler, há alguns dias, um texto de Adomnán (trata-se de De Locis Sanctis, para quem estiver curioso), que se baseava nas viagens de Arculf (ambos do século VII d.C.), encontrei dois elementos interessantes relativamente ás relíquias de Jesus Cristo, e ao que lhes poderá ter acontecido.

 

Sobre o “Cálice do Senhor”, o usado na última ceia, no capítulo IX é dito que era um copo de prata, tinha capacidade de um quarto francês (não sei qual a equivalência moderna) e duas pegas, uma de cada lado.

 

Depois, no capítulo X, é feita uma referência à lança que perfurou Cristo (aquela a que hoje chamamos a “Lança de Longino”), que estaria então presa numa cruz de madeira, com a haste partida em duas.

 

Além destas duas, é mais tarde referida uma outra, o pano que tapou a cabeça de Cristo sepultado, estando todas estas três relíquias em exposição na altura da visita de Arculf. Agora, se muitas histórias são contadas em relação a esta terceira, as minhas linhas devem-se essencialmente ao cálice. Este cálice é, segundo li, hoje visto como uma construção medieval de Chrétien de Troyes (que escreveu no século XII, devo relembrar), e apenas gostava de mostrar, aqui, que a sua existência é atestada em datas muito anteriores, e até descrito, mas sem quaisquer poderes ou milagres a ele creditados.

“Apologia”, de Tertuliano

Tal como muitas outras obras por cá já referidas, a Apologia de Tertuliano defende o Cristianismo de um conjunto de preconceitos que, no século II, em relação a ele existiam, e privilegia esse vector em detrimento de um ataque mais directo ao Paganismo, como viriam a fazer autores posteriores.

 

A sua referência, aqui, parte de um comentário feito nos capítulos VIII e IX da obra. Aí, é abordado o mito de que os cristãos comiam crianças, tão famoso como a referência a estes venerarem um deus com cabeça de burro. O segundo destes já cá foi abordado, mas sobre o primeiro é aqui dito que este possível ritual envolveria uma criança “em idade de ainda não conhecer a vida”, uma faca, a irmã e a mãe de quem faz o ritual (nem o autor parece saber o que ocorre nos casos em que a pessoa não tenha irmã ou mãe), e um cão. No capítulo seguinte é ainda dito que o fundamento real por detrás deste mito, que provavelmente proviria de sangrentos rituais pagãos, seria o das jovens crianças que eram sacrificadas em honra a Saturno, para comemorar as “mortes” dos filhos do próprio deus.

 

Fica assim explicado, pelo menos parcialmente, mais um mito relativo aos cristãos…

O mito de Édipo – o de Sófocles, o de Séneca, e os outros

Sobre o mito de Édipo, tive recentemente a oportunidade de reler as tragédias de Sófocles e de Séneca relativas a essa figura e achei que deveria escrever um pouco sobre a relação entre elas. Mas antes, vejamos um resumo deste famoso mito:

 

A história de Édipo começa quando seu pai, rei de Tebas, recebe uma terrível mensagem, emitida pelo Oráculo de Delfos: o filho iria matar o pai e casar com a própria mãe.
Quando a sua mulher, Jocasta, teve o primeiro filho, o casal optou por lhe furar os tornozelos, antes de o abandonar. O recém-nascido foi entregue a um servo que, com pena do bebé, e em detrimento da tarefa que lhe tinha sido atribuída,  o entregou a um pastor. Édipo foi, mas tarde, entregue a Pólibo, rei de Corinto, que o adoptou e criou como se fosse seu filho.

Anos mais tarde, Édipo soube, através de um companheiro bêbado, que não era filho do rei de Corinto. Confuso, o herói decidiu consultar o Oráculo de Delfos, que o aconselhou a não voltar à sua cidade natal, visto que “iria matar o seu pai e casar com a própria  mãe”, o mesmo presságio que o seu verdadeiro pai tinha recebido, anos antes. Ao pensar que tinha nascido em Corinto, tomou a estrada em direcção a Tebas, com a intenção de jamais voltar ao reino de Pólibo. No caminho, envolveu-se numa escaramuça e matou o seu opositor, sem saber que se tratava do seu verdadeiro pai, rei de Tebas, de seu nome Laio. Estava, assim, cumprida parte da profecia.
Nos limites da cidade de Tebas, Édipo cruza-se com a mítica Esfinge. Como lhe era costume, o terrível monstro pôs uma adivinha que, se não fosse respondida de forma correcta, conduziria à morte deste herói. Na sua mais conhecida versão, a questão consistiria em enunciar qual é a criatura que tem quatro pernas de manhã, duas durante a tarde e três à noite. Ao responder de forma correcta, este herói fez com que a esfinge se sentisse derrotada e, segundo conta o mito, se precipitasse para a própria morte, vinda do topo da Acrópole da cidade.

Ao livrar a cidade do terrível monstro, Édipo foi recebido como um verdadeiro herói, acabando por se tornar rei e, mais importante, casando com a mulher que era a sua própria mãe. Mais tarde, viria a ter com ela dois filhos e duas filhas.
Passado algum tempo, a cidade de Tebas é afectada por uma praga. Édipo, como rei da cidade, promete descobrir a razão deste infortúnio e punir o culpado. Ao consultar um oráculo, é informado que é necessário encontrar o assassino de Laio. Seja por intervenção divina, ou pelas palavras do profeta Tirésias, vem-se a saber que o assassino de Laio (bem como o causador da praga) era o próprio Édipo. Ao tomar consciência do crime, Jocasta, sua mãe e mulher, suicida-se. Quanto a Édipo, perfura os próprios olhos e é exilado da cidade.
Durante o exílio, Édipo é acolhido por Teseu, rei de Atenas, e será bem tratado para o resto da vida. O trono de Tebas deveria, na sua ausência, pertencer aos seus dois filhos, Eteócles e Polinices, que o teriam em anos alternados. Incapazes de uma tal partilha, entrariam em conflito, no qual ambos seriam mortos. Antígona viria a morrer devido a essa mesma guerra, se bem que indirectamente. Em relação a Édipo, sabe-se que morreu, anos mais tarde, perto de Atenas.

 

 

Tanto a tragédia de Sófocles como a de Séneca abordam a parte final desta história, a altura em que uma praga já afecta a cidade e em que urge a necessidade de descobrir o assassino de Laio. Agora, claro que os elementos essenciais estão patentes em ambas – Édipo nunca deixa de vencer a Esfinge, de matar o pai, ou de casar com a própria mãe – mas também existem alguns aspectos importantes que divergem entre elas.

 

Em primeiro lugar, o Édipo de Séneca mostra-se, desde o início, mais humano, já que nunca deixa de temer que possa ser o culpado pela praga. Já o de Sófocles, até ao momento em que deixa de existir dúvida razoável, nada teme, insistindo em que se procure o assassino de Laio.

 

Um outro detalhe interessante na tragédia de Séneca é o facto desta ser bastante detalhada em alguns elementos que podem ser considerados secundários. Por exemplo, existe uma extensa descrição de um sacrifício destinado a invocar o espectro de Laio, e o momento em que Édipo se cega é retratado com detalhe avassalador, quase assustador nessa forma tão realista como é pintado.

 

Se, na versão de Séneca, o espectro de Laio é invocado, e é através dele que se sabe a identidade do assassino, já na peça de Sófocles esta vai sendo tornada mais clara à medida que a trama avança, e que se vão sabendo mais detalhes.

 

Na versão de Sófocles, Édipo só se cega após encontrar o cadáver da sua esposa/mãe, enquanto que o de Séneca é ainda visto por Jocasta, cego, antes desta morrer. Isto tem especial importância se tivermos em conta que, no segundo caso, o cegamento da personagem titular pode ser visto como um catalista da morte de Jocasta. Além disso, a forma como Jocasta morre também diverge em ambas as tragédias. Enforca-se, fora do palco, na de Sófocles, mas na de Séneca mata-se com a própria espada de Édipo, podendo (parece-me que o texto não é totalmente claro nesse ponto) até ter sido o próprio herói, já cego, a dar o golpe fatal.

 

Finalmente, na versão de Sófocles parece-me que é dada pouca importância ao Destino, no sentido que este é referido mas, a meu ver, pouco pensado. Já na de Séneca o Destino, tal como a possível culpa de Édipo no desenrolar da história, é abordado pelo próprio coro. Pessoalmente, achei interessantes as seguintes linhas, que também nos permitem ver a forma como essa força motora é vista nos mitos gregos:

Whate’er we mortals bear, whate’er we do, comes from on high; and Lachesis maintains the decrees of her distaff which by no hand may be reversed. All things move on in an appointed path, and our first day fixed our last. (…) To each his established life goes on, unmovable by any prayer. To many their very fear is bane; for many have come upon their doom while shunning doom.

Fonte: link

 

Estas discrepâncias permitem-nos também constatar que, apesar de existir uma base comum em todo este mito (já Homero, no livro XI da Odisseia, falava de uma Epicasta que casou com o próprio filho), alguns elementos vão sendo alterados (no mesmo relato de Homero, é dito que o Édipo de Epicasta continuou a reinar após a morte desta), baseando-se simplesmente em tradições diferentes, não fazendo sentido considerar nenhuma das versões como apócrifa ou menos correcta que as outras.

 

Para terminar, falta-me referir a extrema importância do Destino no mito de Édipo. Já muito falei desse tema no passado (é questão de usarem ali a opção de procura para descobrir essas linhas), mas pelo facto de considerar esse tema interessante faço-lhe aqui nova alusão: se, desde o momento do seu nascimento, Édipo estava já destinado a matar o pai e a casar com a própria mãe, seria ele culpado de ambos esses crimes? Ou, qual fantoche, só os cometeu por já a eles estar destinado, sem ter qualquer controlo real sobre os seus actos? Ficam as perguntas, essas perguntas que ao longo dos tempos tanto entreteram os mais diversos autores…

“Discurso aos Gregos”, de Tatiano

Como em muitos outros livros do mesmo género literário, neste Discurso aos Gregos Tatiano tenta mostrar a superioridade do Cristianismo face ao Paganismo.

O Discurso aos Gregos começa por apontar algumas inconsistências teológicas na religião dos seus opositores (uma das mais curiosas aqui referidas prende-se com o facto de Hera deixar de ter filhos, sem razão aparente, após um dado ponto no tempo), mas o elemento mais importante desta obra é sem dúvida a dissertação sobre a antiguidade de autores como Moisés face a figuras como Homero, de forma a tentar justificar que a sua religião era bem mais antiga que a dos opositores. Claro que as provas apresentadas nem sempre são as mais fiáveis (quem ler a obra poderá notar que o próprio autor tem dificuldade em situar no tempo quer a Guerra de Tróia, quer o período de tempo em que Homero viveu), mas servem para apoiar a tarefa a que se propunha, que era pura e simplesmente a de instar os Gregos a que se convertessem à nova religião, o Cristianismo.