O “Ciclo Épico” revisitado

Já cá antes foi falado sobre o Ciclo Épico (pode ser visto aqui), mas achei que, ao adicionar mais esta informação, o deveria fazer num espaço totalmente novo, e daí este novo artigo.

 

Se, anteriormente, eu me tinha referido ao Ciclo Épico como sendo composto apenas pelas obras relacionadas com a Guerra de Tróia, também deveria era ter mencionado que, segundo alguns autores (o mais famoso seria Fócio, na sua Biblioteca), existe uma outra composição, maior, dessa mesma colectânea. Além dos já referidos anteriormente, a colectânea (se é correcto dar-lhe esse nome, nesta segunda forma) incluíria também o ciclo de Tebas (a Edipodia, a Tebaida e Epígonos) e a Titanomaquia, sendo a primeira destas obviamente sobre a história de Édipo e de Tebas, e a segunda sobre a guerra entre os deuses e os titãs.

 

Por esta altura eu gostaria de contar um pouco mais sobre todas essas obras, mas infelizmente – e como já foi referido no outro post – elas estão perdidas, existindo só em vagos fragmentos, ou em alguns resumos na Crestomatia de Proclo. Para referir alguns momentos ainda existentes, posso dizer que estas obras contavam que:

 

– O Céu era filho do Éter;

– Existiam outras possíveis origens para os centauros (seriam então filhos de Crono e Filira, seduzida pelo primeiro sob a forma de um cavalo);

– Da união de Édipo com Jocasta não nasceram quaisquer filhos;

– Os cidadãos mortos pela Esfinge não eram anónimos, tinham pelo menos nome (o que, infelizmente, já deverá ter sido pergunta de exame num qualquer curso);

– O mito da Raposa da Teuméssia (a raposa que não podia ser capturada, que viria a ser confrontada com um cão que capturava qualquer presa, tendo ambos sido transformados em pedra por Zeus) era conhecido nessa altura;

– Teriam sido Zeus e Témis a orquestrar toda a Guerra de Tróia;

– Helena era filha de Zeus e de Némesis;

– Páris efectivamente casou com Helena (o que não é claro na Ilíada);

– O Paládio roubado pelos Aqueus era não o original, mas uma cópia;

– Odisseu tinha um outro com Circe, Acusilau, além do conhecido Telégono.

 

Isto poderá parecer não parecer de grande importância, mas o que apresento aqui são apenas as ideias por detrás de 10 fragmentos dessas obras, a mero título de exemplo. Quem quiser saber mais sobre alguns destes textos (em especial, os relativos à Guerra de Tróia) poderá ler muitos dos fragmentos traduzidos em inglês, e até os resumos de Proclo, aqui.

“Sobre os deuses e o mundo”, de Salústio

Creio que o título desta obra de Salústio, Sobre os deuses e o mundo, deixa entender precisamente do que ela fala, mas também esconde um conteúdo muito mais importante do que se poderia esperar. Claro que o autor fala dos deuses e do mundo, mas fá-lo de uma forma extremamente sintética, quase como se este se tratasse de um catecismo.

Por exemplo, num dos momentos iniciais (e que, a mim, me pareceu de especial interesse para aqui) o autor divide os mitos em cinco diferentes tipos, que depois seriam tratados por diferentes pessoas. Os mitos teológicos seriam da competência dos filósofos, os físicos pertenceriam aos poetas, e assim por diante. Vejamos:

Of fables, some are theological, others physical, others animastic, (or belonging to soul,) others material, and lastly, others mixed from these. Fables are theological which employ nothing corporeal, but speculate the very essences of the gods; such as the fable which asserts that Saturn devoured his children: for it obscurely intimates the nature of an intellectual god, since every intellect returns into itself. But we speculate fables physically when we speak concerning the energies of the gods about the world; as when considering Saturn the same as Time, and calling the parts of time the children of the universe, we assert that the children are devoured by their parents. But we employ fables in an animastic mode when we contemplate the energies of the soul; because the intellections of our souls, though by a discursive energy they proceed into other things, yet abide in their parents. Lastly, fables are material, such as the Egyptians ignorantly employ, considering and calling corporeal natures divinities; such as Isis, earth; Osiris, humidity; Typhon, heat: or again, denominating Saturn, water; Adonis, fruits; and Bacchus, wine. And, indeed, to assert that these are dedicated to the gods, in the same manner as herbs, stones, and animals, is the part of wise men; but to call them gods is alone the province of mad men; unless we speak in the same manner as when, from established custom, we call the orb of the Sun and its rays the Sun itself. But we may perceive the mixed kind of fables, as well in many other particulars, as in the fable which relates, that Discord at a banquet of the gods threw a golden apple, and that a dispute about it arising among the goddesses, they were sent by Jupiter to take the judgement of Paris, who, charmed with the beauty of Venus, gave her the apple in preference to the rest. For in this fable the banquet denotes the supermundane powers of the gods; and on this account they subsist in conjunction with each other: but the golden apple denotes the world, which, on account of its composition from contrary natures, is not improperly said to be thrown by Discord, or strife. But again, since different gifts are imparted to the world by different gods, they appear to contest with each other for the apple. And a soul living according to sense, (for this is Paris) not perceiving other powers in the universe, asserts that the contended apple subsists alone through the beauty of Venus.
fonte: aqui

Este seria, segundo o mesmo autor, então o caminho para se poder compreender a verdade por detrás dos mitos. Mais do que meras violações, parricídios e raptos, eventos que os autores cristãos tanto abominavam, existia por detrás desses mitos uma verdade escondida, que não seria tão simples como nos possa parecer.

Bem, mas nem só de deuses vive esta obra, e aborda igualmente temas como a imortalidade da alma, o destino, a existência do mal, a necessidade de sacrifícios aos deuses (e seu objectivo), ou o porquê dos castigos divinos tardarem em chegar, entre outros. As mesmas questões que também incomodavam os autores cristãos da mesma época, importa frisar, e que ainda a nós nos preocupam. Porém, se cada um desses temas daria para encher um conjunto inumerável de linhas, o mais importante em relação a esta obra é certamente o facto de o fazer de uma forma simples, directa, quase que a dizer “a nossa religião, em relação a este tema, pensa X”, algo que para nós só pode ter um valor adicional, até porque muitas dessas informações não nos chegaram de nenhuma outra forma.

Fácil de ler, e até muito interessante para quem estiver curioso sobre a visão destas questões teológicas no século IV d.C. .

As outras obras de Platão

Além das obras já aqui faladas existem muitas outras obras de Platão, as que têm pouco ou quase nenhum conteúdo mitológico. Sobre essas, gostaria de aqui deixar uma simplicíssima sinopse, só para que possam ficar a conhecer o tema principal de cada uma delas, já que uma referência maior, ou até uma análise, sai completamente fora do âmbito deste espaço. Aqui ficam, então, essas informações:

 

– “Primeiro Alcibiades” – diálogo sobre a importância do auto-conhecimento.

 

– “Segundo Alcibiades” – de autenticidade dúbia (i.e. pode não ter sido escrito por Platão), é um diálogo sobre o perigo de fazer pedidos aos deuses sem se ter a total certeza das consequências.

 

– “Apologia” – defesa de Sócrates face a um conjunto de acusações de que era alvo (nomeadamente as de corromper a juventude e adorar novos deuses).

 

– “Axíoco” – diálogo sobre a morte, considerado espúrio. Apresenta uma descrição do submundo, diferente da constante em “Fédon”.

 

– “Cármides” – discute-se o significado do conceito σωφροσύνη (“sophrosyne”), que pode ser traduzido como prudência, bom senso, auto-controlo, etc.

 

– “Clitofon” – poderá não ter sido escrito por este autor. É um curto monólogo de Clitofon contra Sócrates, que nem a ele acaba por responder.

 

– “Crátilo” – é discutido o nome das coisas, mais especificamente se estes são naturais (ou seja, nascem com as próprias coisas), convencionais (definidos pelos seres humanos) ou simplesmente definidos pelos deuses.

 

– “Crito” – passado na prisão, este é um diálogo sobre a justiça.

 

– “Da Justiça” – pequeno diálogo, de autoria dúbia, sobre o que é justo e injusto.

 

– “Da Virtude” – diálogo sobre a virtude, de autoria dúbia, em algumas passagens muito semelhante, quase igual, a outros textos deste mesmo autor.

 

– “Definições” – atribuída a Platão, mas certamente não da autoria deste, esta obra apresenta um conjunto sintético de definições de termos filosóficos.

 

– “Demódoco” – um conjunto de duas obras diferentes sobre a tomada de decisões e o senso comum. Apesar de ser atribuído a este autor, obviamente que não foi escrito por ele.

 

– “Epínomis” – pode ser visto como uma possível continuação de “Leis” (ver mais abaixo), mas também é de autoria dúbia.

 

– Epístolas – existem, ainda hoje, um conjunto de 13 epístolas com suposta autoria de Platão. Têm, porém, pouca relevência para este espaço.

 

– “Eríxias” – diálogo apócrifo sobre a relação entre virtude e riqueza.

 

– “Eutidemo” – um pouco difícil de descrever… pessoalmente, creio que pode ser visto como uma sátira à lógica usada pelos Sofistas, em que se provam coisas totalmente absurdas (mas não tão ilógicas como poderíamos pensar) com argumentos que parecem até ser desenvolvidas de forma a causar confusão.

 

– “Eutífron” – diálogo sobre a piedade, tem lugar numa data próxima do julgamento de Sócrates.

 

– “Fédon” – também passado na prisão. É um diálogo sobre a alma, mas narra igualmente os últimos momentos de Sócrates. Contém, ainda, uma descrição do submundo.

 

– “Filebo” – diálogo sobre o prazer e o conhecimento.

 

– “Hiparco” – pode não ter sido escrito por este autor. Diálogo entre Sócrates e um desconhecido sobre a cobiça.

 

– “Hípias Maior” – diálogo sobre o que é, e não é, o belo.

 

– “Hípias Menor” – sobre a melhor acção? Tem um (pequeno) debate sobre Aquiles e Odisseu, e qual dos dois é melhor.

 

– “Ion” – discussão entre Sócrates e um rapsodo, um declamador de poesia, sobre a forma como este segundo faz o seu trabalho.

 

– “Laques” – sobre a coragem, em que Sócrates admite que ele e os outros intervenientes ainda têm muito mais para aprender.

 

– “Leis” – como o próprio nome dá a entender, trata-se de um diálogo sobre as múltiplas problemáticas que envolvem as leis. De notar, contudo, que Sócrates não aparece nesta obra, e que apesar de existirem aqui algo muito semelhante a mitos, nenhum deles é, a meu ver, de especial importância ou interesse.

 

– “Lísis” – sobre a amizade. Termina com um pensamento que acho muito curioso – se outras pessoas poderiam olhar para o grupo e considerá-los como amigos a dialogar, acaba por ser irónico que eles nem tenham conseguido saber o que é, realmente, a amizade.

 

– “Menexeno” – Sócrates apresenta à personagem titular uma oração fúnebre alegadamente composta por Aspásia, amante de Péricles.

 

– “Menon” – diálogo sobre a virtude, mas que aborda também o conhecimento, a forma como pode ser obtido e transmitido. Inclui, ainda, um diálogo matemático entre Sócrates e um jovem escravo (algo que aqui menciono mais por piada que qualquer outra coisa).

 

– “Minos” – pode não ter sido escrito por este autor. Pequeno diálogo entre Sócrates e um desconhecido sobre as leis.

 

– “Parménides” – difícil de resumir, mas é essencialmente uma conversa entre dois filósofos e um jovem Sócrates.

 

– “Sísifo” – obra espúria, um pequeno diálogo sobre a deliberação.

 

– “Sofista” – também este difícil de resumir, já que é um diálogo entre dois filósofos (Teeteto e um misterioso visitante de Eleia) sobre diversos temas, entre eles a figura do Sofista, a questão do não-ser, etc.

 

– “Teages” – de autoria disputada. Diálogo entre Sócrates e um jovem sobre o tipo de conhecimento que este queria obter. De notar que este diálogo também apresenta a famosa menção à forma como o daemon de Sócrates o influenciava.

 

– “Teeteto” – um relato, em segunda mão, de um diálogo sobre a natureza do conhecimento.

 

 

Os mais atentos poderão notar que na menção a estas outras obras de Platão falta aqui uma, uma que também não foi mencionada anteriormente – “A República”, possivelmente a mais famosa e uma das mais importantes deste autor. Essa ausência é propositada; devido à sua extensão, e ao facto de a ter relido há cerca de um ano – altura em que abordei o segundo dos mais importantes mitos aí constantes (a Alegoria da Caverna e o Anel de Giges) – será deixada para uma oportunidade futura.

 

Porém, na sequência destas mesmas linhas, sinto que devo um pedido de desculpas aos leitores. É, a meu ver, quase absurdo fazer os resumos que antecedem estas linhas, pelo facto de serem sempre incapazes de captar a beleza e interesse de cada uma das obras. Devo então justificar-me. Não pretendo dizer que cada uma delas é acessível a todos os públicos, tal como não quero dizer o contrário, mas muitas delas são obras que qualquer pessoa deveria ler pelo menos uma vez na vida. Infelizmente, são também muitos os que jamais o farão, e que jamais lerão uma única linha dos textos platónicos… daí as referências feitas acima; se pelo menos uma delas servir para tornar um único leitor mais interessado nas obras de Platão, e o levar a ler “Lísis”, “Hípias Maior” ou qualquer outro texto platónico, já me valeu a pena esta estranha tentativa.

“Hálcion”, de Platão(?)

Este Hálcion, anteriormente já atribuído tanto a Platão como a Luciano, é hoje de autoria desconhecida. Nele é abordado o tema do poder divino face ao poder humano, e toda a discussão parte de um misterioso som que o companheiro de Sócrates ouve, e que este segundo identifica como sendo o canto de um pássaro. Sobre esse pássaro, é então dito que era originalmente uma mulher cujo amado marido tinha morrido; procurando-o por toda a terra, foi depois transformada pelos deuses num pássaro, e continuou a sua busca nos céus.

 

Se este mito é sobejamente conhecido (é um dos muitos contado por Ovídio nas “Metamorfoses”), ainda assim este texto leva-nos a uma pergunta bastante interessante – poderiam os deuses realmente transformar uma mulher em pássaro? Como a Sócrates, também a mim me parece impossível conhecer os limites do poder divino, e portanto nada podemos concluir em relação a essa fabulosa questão.

“Político”, de Platão

Tal como a obra Sofista, que lhe é obviamente anterior, este Político de Platão tenta definir o que é um político, o que faz um bom político, e aí por diante. Contudo, para este espaço tem certamente mais interesse um mito que é contado pelo misterioso visitante de Eleia.

 

Este começa por fazer uma alusão à querela entre Atreu e Tiestes. O jovem Sócrates pensa que este se referia ao nascimento do cordeiro de ouro, algo que o seu interlocutor nega, referindo-se a uma outra parte do mesmo mito, na qual Zeus fez o sol passar a mover-se ao contrário. Diz, então, que esta história, como mil outras, tinham uma origem comum, nomeadamente o facto de, por vezes, os deuses permitirem que o mundo girasse só (nas outras alturas seriam eles a movê-lo), altura em que este girava em sentido oposto. Numa dessas alturas passadas, é depois contado, o crescimento dos humanos e dos animais invertia-se por completo, fazendo-os crescer da velhice para a juventude. Como nasciam, então, os animais e os homens? Segundo a mesma personagem, estes eram então gerados pela própria terra, e os mortos voltavam até ao mundo dos vivos. E como se governavam os homens nestas alturas? Segundo esta mesma história, um deus (parece entender-se ser Chronos, mas não é totalmente claro) servia de governador, sendo todas as leis inatas. Quando esse deus se retirou, o mundo inverteu o seu sentido e sofreu um enorme terramoto; eventualmente, todos os males da época actual começaram a surgir de forma progressiva, até que esse deus voltou e nos deu alguma nova estabilidade.

 

Uma interpretação parcial deste mito é dada na própria obra, pelo que a deixarei aqui de parte, mas é muito curioso constatar a referência do autor a uma época em que se nascia com os cabelos cinzentos. Pode parecer uma informação secundária, mas Hesíodo também refere algo de semelhante (comprar com esta obra), dando-a como um dos sinais do fim do mundo. Agora, a este coincidência poderia ser dado um sem número de explicações, mas a mais óbvia é que ambos se baseavam numa mesma tradição comum, num mito que hoje estará parcialmente perdido, e cuja fonte que nos é mais conhecida acaba por ser a obra de Hesíodo.