“Protágoras”, de Platão

Este Protágoras, de Platão, é seguramente mais complexo que muitos outros do mesmo autor, mas também tem alguns momentos interessantes (e, ainda assim, alguns que, pessoalmente, considero aborrecidos). Aqui, Sócrates discute com o titular Protágoras sobre o que é a virtude, e se ela pode ou não ser ensinada. Inicialmente, Sócrates parece pensar que não, mas o curioso é que todo o debate leva a que, mais tarde, parte das posições das duas personagens principais se alterem: Sócrates passa a acreditar que a virtude pode ser ensinada (resumidamente, “toda a virtude é conhecimento”), enquanto que Protágoras aceita que, afinal, todas as virtudes sejam uma só.

 

Porém, se este texto não é fácil de ler – eu, por exemplo, jamais o recomendaria para uma leitura casual – também nele existe a referência a um mito que, no contexto deste blog, me parece ser óbvio que devo mencionar:

 

De acordo com as palavras de Protágoras, quando os deuses criaram os animais e os seres humanos também incumbiram Prometeu e Epimeteu de lhes dar recursos para a sua sobrevivência (velocidade, força, capacidade de voar ou de nadar, …).  Porém, Epimeteu esqueceu-se de os dar aos seres humanos, pelo que Prometeu acabou por ter de roubar o fogo e a sabedoria de Atena para os dar aos Homens. Eventualmente, estes juntaram-se em cidades, mas nem assim tinham a sua sobrevivência assegurada, pelo que Zeus enviou então um dos deuses para distribuir também justiça e pudor entre os Homens, permitindo-lhes assim sobreviver.

 

 

Este mito, muito semelhante ao do roubo do fogo por Prometeu, tem, segundo a personagem que o conta, como objectivo explicar a razão pela qual todos os seres humanos têm diferentes características (uns são médicos, outros carpinteiros, outros soldados, etc.), mas todos eles percebem de política e de justiça, ou seja, existiriam então virtudes específicas a alguns mas outras que são gerais e comuns a todos. Se ele tinha ou não razão, terão de ler a obra para descobrir…

A ordem de leitura das obras de Platão

Qual deverá ser a ordem de leitura das obras de Platão? Nas próximas semanas irei relê-las, pelo que me deparei com esse problema. Quero aproveitar para explorar aqui os seus aspectos mitológicos. Desengane-se quem esperar encontrar um resumo completo de cada uma das obras, ou até um texto que possa cortar e colar nos seus trabalhos universitários (sim, aparentemente ocorre mais vezes do que se poderia pensar…); não é tanto esse o objectivo, de recapitular cada uma das obras, mas sim o de recordar alguns dos mitos que nelas aparecem, muitos dos quais pouco conhecidos.

 

Mas porque ordem serão, então, essas obras por mim relidas e introduzidas por cá? Bem, no meu caso, vou-me simplesmente cingir à ordem pela qual são apresentadas nos livros que aqui tenho, mas até pode existir uma ordem mais correcta. Não é tão fixa e obrigatória como noutros autores (pense-se em Cícero, em Santo Agostinho, etc.), que repetem frases como “já falei disso numa outra obra”, mas – e de uma forma bastante básica – é fácil constatar que existe efectivamente uma ordem pelo facto de existirem apresentações de novas personagens, que depois se repetem noutros diálogos. Porém, sendo que os temas e exemplos apenas algumas vezes são seguidos entre obras, a leitura numa ordem a que possamos chamar “correcta” não é tão importante como poderíamos pensar, ou como tanto gostam de nos fazer crer.

 

No final poderá vir a existir uma pequena alusão a obras que incluem pouca (ou até quase nenhuma) mitologia.

“História Nova”, de Zósimo

Muito poderia eu escrever sobre esta História Nova de Zósimo, mas no contexto deste espaço existem alguns aspectos mais importantes do que outros. Contrariamente ao que sucede em muitos dos livros de história a que tive acesso no passado, este conta a ascensão e (parcial) queda do Império Romano, mas do ponto de vista de um autor que não é cristão; de facto, em muitos momentos da obra o autor apresenta ideias totalmente contrárias ao Cristianismo, além de apoiar as antigas religiões gregas e romanas. Porém, este aspecto é muito menos focado do que se poderia pensar… é óbvio que o autor não passa o tempo a criticar a nova religião, mas fá-lo, indirectamente, sempre que pode imputar um dado evento a causas religiosas. Seguem-se cinco momentos da obra que achei especialmente interessantes:

 

Num dos livros é contado um episódio em que um dado imperador, e respectivo exército, vêem perto de uma estrada um homem que parece ter sofrido um sem número de chicotadas, um homem que parece estar morto (dele nem recebem qualquer tipo de resposta) excepto nos seus olhos. Este estranho evento é então interpretado como um presságio do futuro que aguardava o próprio império de Roma.

 

Mais tarde, é contada a história de dois ídolos (um de Júpiter Dodoneu e um de Minerva, se não estou em erro) que foram a única coisa a sobreviver a um terrível fogo, e que não pode deixar de nos relembrar muitas das lendas cristãs da mesma época, e até de eventos dos nossos dias.

 

Ainda, ao longo da obra existem múltiplos momentos em que esta ou aquela figura procuram numa igreja o espaço onde ninguém lhes possa fazer qualquer mal, e esse santuário é (quase) sempre respeitado, no sentido que a pessoa não é simplesmente arrastada de lá. De facto, a pessoa parece ter de sair sempre pelo próprio pé, mesmo que isso tenha origem em subterfúgios menos correctos. Assim, um dos “milagres” que teve lugar durante o saque a Roma, em que as pessoas que se refugiavam em igrejas foram poupadas, parece ter muito menos de milagroso do que se poderia pensar.

 

Também, a passagem de Alarico por Atenas é motivo para uma curiosa história – ao olhar para as muralhas da cidade, este rei dos Hunos viu nelas as figuras de Minerva e Aquiles em posição de ataque, razão pela qual acabou por tentar a paz com a cidade, em detrimento de um ataque directo.

 

Ao referir-se a um Imperador como “pontifex maximus”, o autor explica de onde vem esse título. Mais do que a metáfora óbvia desta figura ser a que faz a ponte entre os homens e os deuses, é dito que o nome deriva dos primeiros ídolos; já que nessa altura ainda não existiam templos onde os alojar, teriam sido inicialmente colocados em pontes (talvez como forma de frisar a importância das mesmas? Isso já não é explicado…), e daí o nome.

 

Porém, o objectivo desta obra leva a que acabe por ser muito mais detalhada em alguns aspectos do que noutros. Se à Guerra de Tróia, às conquistas Alexandre Magno ou aos primeiros imperadores são dedicadas apenas algumas linhas, já a vida de Constantino I, a dos últimos imperadores e os eventos mais tardios são providos de um maior detalhe. Culpa das fontes consultadas pelo autor? Talvez, mas infelizmente a obra também está incompleta, e as duas lacunas (ou até o facto de nunca ter sido terminada?) não nos permitem ter acesso àquele que deveria ser o seu final, o saque de Roma por Alarico, do qual poderíamos ter uma importante fonte de informação…

As várias cosmogonias gregas

Infelizmente já não me recordo de onde vem este extracto que tinha por cá guardado, sobre as várias cosmogonias gregas (se alguém o reconhecer, por favor mencione o título da obra ali nos comentários), mas é extremamente importante e interessante no sentido de permitir a um qualquer leitor ter um acesso rápido e sucinto às diversas cosmogonias dos autores gregos da Antiguidade, umas bem mais conhecidas que outras. Aqui fica então este curiosa sequência, para quem quiser saber mais sobre a forma como as diversas opiniões de cada um desses pensadores contrastava com as restantes:

O Caos

While the Homeric cosmogony is confined merely to the mention of ‘‘Oceanus, the father of the gods, and Tethys, their mother’’ (Iliad 14:201), Hesiod presents an elaborate account that may be summarized as follows: First came Chaos, and next Earth, then Tartarus, and Eros. From Chaos came Erebus and Night, and of Night were born Aether and Day. Earth bore Heaven and the great sea, Pontus. Then, impelled by Eros, she united at one time with Heaven, at another with the sea, giving birth thus to different lines and generations of divine beings. Hesiod relates their theogonic conflicts in detail (Theog. 116 to the end). According to Pherecydes of Syros ( c. 550 B.C.), the three original gods, Zeus, Chronos, and Chthonius, always existed; the other gods descended from these three in five successive waves. Zeus, transforming himself into Eros, created the Earth and the Ocean, despite the opposition of the Titan Ophioneus. The most original contribution of the cosmogonic myths of Orphism is their account of the origin of man. He was created from the ashes of the Titans who were destroyed by the thunderbolts of Zeus after they had devoured the infant Dionysos. Man, accordingly, bears within him the germs of evil as well as particles of divinity. The Cosmic Egg (mentioned by Epimenides of Crete, seventh century B.C.) is also an Orphic myth. From the Egg came Heaven and Earth, following the intervention of Phanes, the Orphic pendent of Hesiod’s Eros. The Ionian philosophers, in seeking to give a scientific explanation of the world’s origin, replaced mythical forces by original physical principles (ßrcaà), but did not thereby escape the influence of the old cosmogonies. Later, despite the attractive Platonic theory of the Demiurge responsible for transforming Chaos into Kosmos, the image of the scientific world, as it was projected by Aristotle and completed by Ptolemy the Geographer, imposed itself to such a degree that neither the conceptions of popular belief (see, e.g., Ovid’s Metam 1:5–451) nor the mythical cosmogonies of the Hermetic writings (the speculations of the Poimandres, especially) and of Mithraism could prevail.

A Mitologia do Zodíaco

A Mitologia do Zodíaco

Qual é o teu signo? Hoje, ouvimos perguntas como essa com a maior das naturalidades, sem sequer pensar na Mitologia do Zodíaco que se esconde por detrás de cada uma das possibilidades, mas posso dizer que existem curiosas histórias escondidas em cada um dos seus signos. Claro que não são as histórias originais, as primeiras, as que estavam por detrás da criação inicial de cada signo (uma amiga que percebe mais destas coisas disse que essas remontariam aos Caldeus, ou seriam até anteriores a eles), mas nem por isso se tornam menos interessantes. Aqui ficam elas, essas histórias individuais da Mitologia do Zodíaco, numa forma sintetizada e conforme referidas não só no livro de Lúcio Ampélio, mas também em várias outras fontes. Além disso, para saber (muito) mais sobre cada um dos signos bastará carregar no respectivo nome:

 

Carneiro – o carneiro que transportou Frixo e Hele, mais conhecido pelo seu papel na história dos Argonautas. Porém, também pode ser um carneiro que ajudou Baco a encontrar água, numa incursão à Índia, e que viria a ser divinizado sob a forma de Júpiter Amon;

Touro – num dos mitos mais famoso, este seria o touro (seja enquanto transformação de Júpiter, ou um vero touro, mediante a fonte) que transportou Europa até Creta;

Gémeos – na versão mais famosa são Castor e Pólux, mas o autor também refere a possibilidade de serem Hércules e Teseu;

Caranguejo – um caranguejo que, a mando de Hera, ataca Hércules no seu segundo trabalho. Segundo algumas versões foi o próprio herói que o atirou aos céus, mas noutras ele foi morto por Hércules e colocado entre as estrelas pela mesma deusa que o tinha enviado;

Leão – o Leão da Nemeia, vencido e morto por Hércules no seu primeiro trabalho;

Virgem – a Justiça, colocada entre os céus por Júpiter. Também poderia ser Erígone, filha de Icário, ou Astreia;

Balança – uma balança “normal”, mas importante pela sua simbologia e relação com a Justiça;

Escorpião – o animal que matou Oríon (que, ironicamente, está colocado ao seu lado nos céus);

Sagitário – o centauro Quíron, colocado nos céus após abdicar da sua imortalidade;

Capricórnio – o deus Pã, ou a cabra Amalteia, que amamentou Júpiter na sua infância;

Aquário – Ganimedes, transportado para o Olimpo pelos deuses, de forma a servir bebidas nos festins. Também poderia ser Cécrope;

Peixes – uma das transformações de Vénus e Cupido durante a guerra contra os Gigantes, estando unidos para não se perderem um do outro.

 

Como qualquer leitor conseguirá notar, a forma mais comum de colocação entre as estrelas passava pela realização de feitos notáveis, eventualmente premiada pelos deuses. Claro que existem excepções, como no caso do Aquário ou da Balança, mas será que o mesmo se passa com as constelações? Infelizmente não as posso mencionar todas por cá (Ptolomeu mencionava 48), mas posso dizer que essa tendência da Mitologia do Zodíaco também se parece manter no caso das constelações…