O mito da morte de Hércules

O mito da morte de Hércules é talvez um dos mais singulares da Mitologia Grega, por nos mostrar muito directamente que até o mais poderoso de todos os heróis, o mais famoso dos filhos de Zeus e o realizador de doze grandes e famosos trabalhos, falece como um homem real. Recorde-se então como isso aconteceu:

A morte de Hércules

Aquando de uma viagem, o famoso centauro Nesso teve de ajudar Dejanira, então esposa de Hércules, a cruzar um rio. No entanto, tentou também violentá-la. Quando este filho de Zeus viu o que se passava, optou por ferir mortalmente quem atacava a sua amada esposa, recorrendo a um ataque das suas flechas. No entanto, Nesso não morreu sem que antes desse uma última indicação a Dejanira – esta deveria preservar algum do sangue que saía das suas feridas, o qual asseguraria que o herói jamais amaria outra mulher mais do que amava a sua corrente esposa.

 

Anos mais tarde, Hércules apaixonou-se por Íole, filha do rei Êurito. A portadora do sangue de Nesso, ao tomar conhecimento desta situação, derramou esse mesmo sangue sobre umas vestes pertencentes ao herói, para assegurar que este lhe fosse sempre fiel, tal como lhe tinha sido dito por Nesso. No entanto, mal sabia ela que tal informação se tratava de não mais que um último logro da parte do falecido: quando Hércules usou essas vestes, sentiu em todo o seu corpo uma dor imensa e infindável.

 

Neste ponto, são depois diversas as versões do mito, mas todas elas terminam da mesma maneira: a morte de Hércules teve lugar quando este maior dos heróis gregos ardeu numa pira funerária, sobre o monte Eta. Enquanto que o seu corpo pereceu nesse instante, a sua metade divina foi resgatada por Zeus, que lhe atribuiu a já merecida imortalidade. Existiu, finalmente, uma reconciliação com Hera, a qual lhe deu mesmo a mão de sua filha Hebe, para esposa no Olimpo; o herói parece desaparecer dos mitos depois desse casamento e ascenção ao terreno dos deuses, mas até existem excepções a essa espécie de regra.

Aparência física, idade dos deuses e uma inconsistência na mitologia clássica greco-romana

A ideia para este post surgiu na sequência de uma discussão que tive esta semana, relativa a este assunto. De uma maneira bastante invulgar, pode-se constatar que quase todos os deuses do sexo masculino surgem com barba, enquanto que as deusas surgem com formas generosas. Enquanto que tais características podem ser facilmente explicadas tendo em vista os ideias de beleza da época, e tendo também a atenção de uma característica de deus à imagem e semelhança do homem, característica esta adoptada também pelo cristianismo uns séculos mais tarde, isto levanta certamente uma questão pertinente sobre a idade aparente de cada um dos deuses, bem como algumas inconsistências lógicas. A necessidade de atribuição de idade a uma determinada entidade parece surgir, ao longo dos tempos, sempre agarrada à necessidade de saber o tempo de vida dessa mesma entidade. Enquanto que para os seres mortais tal definição terá obviamente lógica, o mesmo não se poderá dizer dos deuses. Com a existência de diversos mitos que narram alguns nascimentos (sendo que os mitos do semi-deuses Hércules e Aquiles se apresentam como alguns dos mais evidentes), sabe-se à partida que os deuses terão de crescer. No entanto, isso certamente não explica a existências das 3 Parcas (ou Moiras, “Moirae”, Destinos, o que quiserem). Sendo que estas se apresentam como um elemento essencial da vida, função esta a qual era mesmo temida pelos próprios deuses, é-nos também dito que são filhas de outros deuses (a proveniência depende da versão do mito). Assim, isto revela uma grave inconsistência, visto que tornaria impossível a morte de alguém (humando ou imortal) antes do seu próprio nascimento. A não ser que a sua existência se provasse como sendo anterior à dos humanos, isto apresenta-se como deveras estranho. Opiniões?

O mito de Orfeu e Eurídice

O mito de Orfeu e Eurídice sempre foi, para mim em particular, um dos mais belos da Mitologia Grega. É um mito que deixa muito que pensar, a todos os níveis, e em que o músico, poeta, e semideus tem um papel muito principal, como se pode ver neste pequeno resumo:

O final do mito de Orfeu

Orfeu era filho da musa Calíope e de Apolo, e quando tocava a lira (inventada por ele ou a qual lhe foi dada por Apolo, dependendo da origem do mito) aconteciam coisas miraculosas, como as pedras moverem-se, os animais selvagens ficarem mansos ou mesmo as águas dos rios pararem por completo o seu movimento. Amava a ninfa Eurídice, a qual eventualmente morreu – na versão mais famosa da história – devido a uma picada de serpente, a qual sucedeu ao tentar escapar de um perseguidor. Com uma tristeza profunda, pegou na sua lira e dirigiu-se ao reino de Hades, esse mundo inferior, usando mesmo a sua música para convencer o barqueiro Caronte a deixá-lo passar e mesmo a adormecer o lendário monstro Cérbero, finalmente contactando com o deus regente desse reino. A música tocada pelo herói perante este foi tão bonita (mas triste) que o próprio Hades chorou, e com o apoio da sua mulher, Perséfone, deu autorização a que o tocador de lira levasse a sua amada de volta para o mundo dos vivos. No entanto, foi-lhe dito que não poderia olhar para ela, que o seguiria, até que atingisse um ponto iluminado pela luz do sol. Estavam unidos novamente! Porém, quando este estava perto da saída do temível reino, já com a luz do sol a ver-se ao final do caminho, pensou em verificar se ela o seguiria ou não. Teve ainda um mísero tempo para a ver transformar-se num espectro da sua forma original, antes de, punido pelos deuses, a perder para todo o sempre. Assim foi o fim dos amores de Orfeu e Eurídice.

Orfeu e Eurídice

Desesperado, Orfeu nunca mais foi o mesmo. Existem diversas versões relativas á morte deste, sendo algumas das mais famosas aquela em que ele se suicidou ou uma narrando que ao sofreu com esta perda o herói mudou por completo toda a sua vida, recusando-se mesmo a olhar para qualquer outra mulher, o que eventualmente levou uma tribo de mulheres selvagens (as Menéades, caso alguém esteja curioso) a despedaçá-lo, caindo a sua cabeça num ribeiro, mas sem nunca deixar de cantar…

[Continuação posterior, uma pequena análise do mesmo mito:]

Visto que grande parte das versões do mito apresentam Orfeu como um tocador de música e ainda como filho do próprio deus Apolo, a nossa mente irá facilmente associá-lo a mais uma daquelas míticas e figuras com uma beleza fora do normal. No entanto, isto pouco ou nada interessa no caso em questão, com os dotes musicais da personagem em questão a aparecer-nos como o principal do mito. A sua extrema perfeição no acto de tocar lira era considerada como tendo mesmo a capacidade de mudar o imutável, uma provável metáfora para a capacidade da humanidade mudar todo o seu ambiente através do uso de instrumentos, não propriamente dos musicais mas através de outras ferramentas. Ao tocar o seu instrumento para a bela Euridice, este tentava talvez que a sua amada ficasse, também ela, imersa na beleza da sua arte. No entanto, ao ser picada por uma serpente e levada para um reino ao qual damos hoje uma conotação de sofrimento eterno, dá-nos a sensação que tudo o que é belo terá obrigatoriamente um final cruel, em todas as suas vertentes. Sobre a descida ao temível reino de Hades, num primeiro ponto pode-se compreender que o amor é capaz de ultrapassar quase tudo, mas numa análise final e mais cuidada entende-se que nem mesmo o poder lendário deste poderá ultrapassar a letal lei da morte. Opiniões sobre o mito em questão, alguém as tem?

O mito de Pigmalião e Galateia (e sua interpretação)

Hoje conto aqui o mito de Pigmalião e Galateia, famoso das linhas de Ovídio, seguido por uma sua possível interpretação:

Mito de Pigmaleão e Galateia

Talvez uma das lendas de amor mais inverosímeis e estranhas da época clássica seja a de Pigmaleão e a sua estátua favorita [que viria a ficar conhecida como Galateia]. Segundo a tradição popular, Pigmaleão era um soberano cretense, amante da escultura: dedicava todo o seu tempo livre a lavrar a pedra, até que um dia encontrou que tinha esculpido uma figura feminina tão bela que já nunca pôde separar-se dela. Até rogou, e invocou, os deuses do Olimpo para que lhe permitissem casar com aquela estátua de pedra que, de resto, era uma fiel reprodução da deusa Vênus e, por isso mesmo, tinha que ser a deusa quem decidisse o que havia que fazer a esse respeito. Passava o tempo e Pigmaleão sentia-se cada vez mais atraído por aquela efígie que considerava a sua obra mestra. Estava já como transtornado e pedia insistentemente à própria Afrodita /Vênus que lhe procurasse, para a fazer sua esposa, uma mulher idêntica à que ele tinha feito de mármore. Um dia que Pigmaleão se encontrava ensimesmado olhando aquela obra observou que se movia e que descia do seu pedestal de mármore e se aproximava ao seu criador com a mesma forma de um ser vivo. Sem sair do seu assombro, Pigmaleão viu-se em braços daquela mulher que era uma réplica fiel da estátua que ele tinha esculpido. O que é que tinha sucedido? Pois que a deusa Afrodita /Vênus tinha decidido dar satisfação a Pigmaleão e, para isso, nada melhor que converter a sua estátua numa mulher real, à qual se imporá o nome de Galateia. Depois dos acontecimentos mencionados, Pigmaleão e Galateia casaram, viveram felizes e tiveram uma filha chamada Pafo; esta era tão bela que até o próprio Apolo a pretendeu.

(Retirado de um site que em 2019 já tinha desaparecido)

 

Tal como na famosa história de Shakespeare, “Romeu e Julieta”, este mito de Pigmalião e Galateia começa por nos apresentar um amor impossível, a paixão entre um homem e uma estátua, considerada pelo mesmo como a sua obra prima. Então, será que o próprio amor não deverá também ele ser considerado como a melhor das obras, a possibilidade do encontro de uma pessoa que nos compreende e auxilia acima de tudo o resto? Também este, como a possibilidade da transformação de uma estátua em carne viva, é hoje consideradada como muito difícil, ou mesmo impossível. No entanto, tal como o sonho de Pigmaleão se tornou realidade através de uma contínua insistência na crença de uma impossível possibilidade, também cada um de nós deverá agarrar-se aos seus sonhos e lutar por eles. Talvez seja essa a verdade por trás a do mito, que tudo poderá ser vencido ou conseguido através de uma crença contínua, sincera em algo. Tal como Pigmaleão lutou, lutem também vocês pelo que querem.

O mito de Píramo e Tisbe resumido

O mito de Píramo e Tisbe, por muito conhecido que hoje nos seja das obras de William Shakespeare, na verdade vem de tempos da Antiguidade. Ele pode ser recordado assim:

O mito de Píramo e Tisbe

Píramo era o mais belo jovem e Tisbe, a mais formosa donzela em toda a Babilônia, onde Semíramis reinava. Seus pais moravam em casas contíguas; a vizinhança aproximou os dois jovens e o conhecimento transformou-se em amor. Seriam venturosos se se casassem, mas seus pais proibiram. Uma coisa, contudo, não podiam proibir: que o amor crescesse com o mesmo ardor no coração dos dois jovens. Conversavam por sinais ou por meio de olhares, e o fogo se tornava mais intenso, por ser oculto.

Na parede que separava as duas casas, havia uma fenda provocada por algum defeito de construção. Ninguém a havia notado antes, mas os amantes a descobriram. Que há que o amor não descubra? A fenda permitia a passagem da voz; e ternas mensagens passaram nas duas direções, através da fenda. Quando Píramo e Tisbe se punham de pé, cada um de seu lado, suas respirações se confundiam. – Parede cruel! – exclamavam. – Por que manténs separados dois amantes? Mas não seremos ingratos. Devemos-te, confessamos, o privilégio de dirigir palavras de amor a ouvidos complacentes.

Diziam tais palavras, cada um de seu lado da parede; e, quando a noite chegava e tinham de dizer adeus, apertavam o lábio contra a parede, ela do seu lado, ele do outro, já que não podiam aproximar-se mais. De manhã, quando a aurora expulsara as estrelas e o sol derretera o granizo nas ervas, os dois encontraram-se no lugar de costume. E então, depois de lamentarem seu cruel destino, combinaram que, na noite seguinte, quando tudo estivesse quieto, eles se furtariam aos olhares vigilantes, deixariam suas moradas, dirigir-se-iam ao campo e, para um encontro, iriam ter a um conhecido monumento que ficava fora dos limites da cidade, chamado o Túmulo de Nino, e combinaram que aquele que chegasse primeiro esperaria o outro, junto de uma certa árvore. Era uma amoreira branca, próxima de uma fonte.

Tudo ficou combinado e os dois aguardaram, impacientes, que o sol se escondesse sob a s águas e que a noite delas se levantasse. Então, Tisbe ergueu-se, cautelosamente, sem ser observada pela família, cobriu a cabeça com um véu, caminhou até o monumento e sentou-se embaixo da árvore. Enquanto estava ali sentada, sozinha, à luz difusa da noite, avistou uma leoa, que, com a boca ensangüentada por uma presa recente, aproximava-se da fonte, para matar a sede. Ao vê-la, Tisbe fugiu e refugiou-se numa gruta, deixando cair o véu quando fugia. A leoa, depois de saciar a sede na fonte, virou-se para voltar aos bosques, e, ao ver o véu no chão, investiu contra ele e despedaçou-o, com sua boca ensangüentada.

Píramo, que se atrasara, aproximou-se, então, do local do encontro. Viu, na areia, as pegadas da leoa e o sangue fugiu-lhe das faces. Logo em seguida, encontrou o véu, dilacerado e cheio de sangue. – Desventurada donzela! – exclamou. – Fui a causa de tua morte! Tu, mais digna de viver que eu, caíste como primeira vítima. Seguir-te-ei. Fui o culpado, atraindo-te a um lugar tão perigoso, e não estando ali eu próprio a guardar-te. Vinde, leões, dos rochedos e despedaçai com vossos dentes este corpo maldito! Apanhou o véu, levou-o até a árvore onde fora combinado o encontro, e cobriu-o de beijos e lágrimas. – Meu sangue também manchará teu tecido – exclamou. E arrancando a espada mergulhou-a no coração. O sangue esguichou da ferida, tingiu de vermelho as amoras brancas da árvore, e, penetrando na terra, atingiu as raízes, de modo que a cor vermelha subiu, através do tronco, até o fruto.

Enquanto isso, Tisbe, ainda trêmula de medo, e não desejando, contudo, desapontar o amante, saiu cautelosamente, procurando o jovem com aflição, ansiosa por contar-lhe o perigo que atravessara. Ao chegar ao local e vendo a nova cor das amoras, duvidou que estivesse no mesmo lugar. Enquanto hesitava, avistou um vulto que se debatia nas vascas da agonia. Recuou, e um tremor percorreu-lhe o corpo todo, como a água tranqüila se encrespa ao ser atingida por uma lufada repentina de vento. Logo, porém, reconheceu o amante, gritou e bateu no peito, abraçando-se ao corpo sem vida, derramando lágrimas sobre as feridas e beijando os lábios frios. – Píramo, quem te fez isto? – exclamou. – Responde, Píramo! É tua Tisbe quem fala. Sou eu, a tua Tisbe, quem fala. Ouve-me, meu amor, e ergue esta cabeça pendente! Ao ouvir o nome de Tisbe, Píramo abriu os olhos e fechou-os de novo.

A donzela avistou o véu ensanguentado e a bainha vazia da espada. – Tua própria mão te matou e por minha causa – disse. – Também posso ser corajosa uma vez, e meu amor é tão forte quando o teu. Seguir-te-ei na morte, pois dela fui a causa; e a morte, que era a única que nos podia separar, não me impedirá de juntar-me a ti. E vós, infelizes pais de nós ambos, não negueis nossas súplicas conjuntas. Como o amor e a morte nos juntaram, deixai que um único túmulo nos guarde. E tu, árvore, conserva as marcas de nossa morte. Que tuas frutas sirvam como memória de nosso sangue. Assim dizendo, mergulhou a espada no peito. Os pais ratificaram seu desejo, e também os deuses. Os dois corpos foram enterrados na mesma sepultura, e a árvore passou a dar frutos vermelhos, como faz até hoje.

[P.S.- Retirado de um site que em 2021 já tinha desaparecido…]