A lenda do Drac de na Coca

A lenda do Drac de na Coca é uma daquelas que parece ter alguma fama na sua região, em Mallorca, mas que não é assim tão conhecida sequer em outras zonas de Espanha, ao ponto de apenas ter página na Wikipedia em Catalão. Pensámos, portanto, dedicar-lhe algumas linhas por aqui, como no caso do Homem-Peixe de Liérganes, mas depois encontrámos um bom resumo desta história num artigo científico brasileiro, A estranha história da cobra narrada na “relaçam prodigioza da navegaçam da nao chamada S. Pedro, e S. Joam da Companhia de Macao” (Fascunh, 1743) – uma obra portuguesa sobre herpetologia, da autoria de Nelson Papavero e Christian Fausto Moraes dos Santos. O artigo, em si, pode ser lido neste endereço, para quem ficar com essa curiosidade (eles também mencionam mais alguns dragões lendários), mas recordamos abaixo é a lenda de hoje, deste Drac de na Coca:

O Drac de na Coca

Uma das lendas mais conhecidas da cidade de Palma é a do ‘Drac (dragão) de na Coca’. Trata-se de um crocodilo que viveu nas ruas de Palma no século XVII, entre o bairro chamado ‘del Call’ e a Portella. Acredita-se que um jovem crocodilo chegou a essa ilha a bordo de um barco. Uma vez na cidade de Palma, instalou-se na labiríntica rede de esgotos da cidade e à noite saía em busca das vítimas de que se alimentava – gatos e ratos a princípio, mas à medida que crescia e com o aumento de seu apetite passou também a atacar bebês em seus berços e crianças pequenas que se aventuravam a andar pelas ruas. Segundo a lenda, a besta morreu nas mãos do capitão e governador de Alcúdia, Bartomeu Coch, quando se encontrava na Portella de Palma durante uma noite do ano de 1776. O capitão cortejava uma dama dessa zona e enquanto dirigia seu olhar à sacada da casa, dirigindo palavras de amor a sua namorada, emergiu das trevas da noite a terrível besta. Valorosamente o cavaleiro sacou sua espada e tirou-lhe a vida; arrastou-a até os pés de sua amada, oferecendo-a como prova de seu amor, exclamando: “Vet aci es drac, es drac de na Coca” (aqui está o dragão, o dragão do Sr. Coch). A partir da façanha do capitão Coch o “dragão” recebeu seu nome atual, com a femininação (“coca”) de seu nome. Esse crocodilo foi embalsamado e atualmente pode ser visto no Museu Diocesano de Palma de Mallorca. Este crocodilo também mereceu um monumento na cidade, na Praça Santa Eulália.

 

Toda esta lenda do Drac de na Coca é muito interessante, como é habitual, mas recorde-se que também há uma Coca em Portugal e no Brasil. Terá vindo esse nome desta outra figura? Será que ambos são completamente independentes, e que “coca” era, em outros tempos, apenas um nome famoso para um dragão? Mistérios…

As Ruínas Romanas de Vila Cardílio

Há alguns dias passámos em romaria pelas Ruínas Romanas de Vila Cardílio, a cerca de cinco quilómetros do centro da cidade portuguesa de Torres Novas. Elas estiveram fechadas ao público por alguns meses, conforme até nos foi comunicado na altura, mas agora já reabriram numa forma bastante limitada – essencialmente, o possível visitante tem um acesso gratuito às ruínas da própria vila romana, como pode ser visto abaixo, e essa visita é actualmente complementada com alguns painéis explicativos, mas o (pequeno) centro interpretativo permanece ainda temporariamente encerrado e vazio de quaisquer conteúdos para os visitantes.

Ruinas Romanas de Vila Cardilio

Vale então a pena a visita a este local, também chamado, de uma forma mais simplificada, as Ruínas Romanas de Cardílio? Elas são uma espécie de Conímbriga em miniatura, onde neste momento poderão ver alguns mosaicos, colunas incompletas, e a generalidade dos espaços que se costumam encontrar numa villa romana. Contudo, neste preciso momento a visita ainda apresenta muito pouco que possa interessar ao visitante comum, devendo notar-se especialmente que nem o famoso painel de mosaicos que deu nome ao local, com as suas palavras latinas “Viventes Cardilium et Avitam Felix Turre“, pode agora ser encontrado no recinto. Presume-se que ele esteja guardado em local seguro, bem como as outras coisas outrora encontradas neste sítio arqueológico, para uma exposição que no futuro virá possivelmente a ter lugar no tal centro interpretativo, o que é bem compreensível, mas por agora isso também deixa todo o local muito despojado de motivos de interesse para quem não tiver um interesse mais académico em conhecê-lo.

 

Sendo assim, a visita a estas Ruínas Romanas de Vila Cardílio está, no momento em que escrevemos estas linhas, bastante condicionada à ideia de um potencial visitante já saber de antemão o que espera vir a encontrar. Se ele quiser perceber bem toda a história do local, ou conhecer o que foi sendo encontrado por lá ao longo do tempo, por agora ainda não é possível fazê-lo. Talvez volte a sê-lo daqui a uns meses. Mas se, como foi o nosso caso pessoal, passarem casualmente pelo local e o virem aberto ao público – segundo conseguimos apurar, o seu horário é de terça a domingo, das 10h ás 13h e das 14h ás 17h – porque não dar um pequeno pulinho lá, por uns breves minutos, e ficar a conhecer, no mínimo dos mínimos, mais uma das muitas casas romanas que foram sendo encontradas no nosso país?

Os cartazes esquecidos do Monte Estoril (e a Avenida do Lago, que não o tem!)

Hoje, ao falar-se sobre estes cartazes esquecidos do Monte Estoril, talvez mereça começar-se o tema com uma brevíssima introdução mais pessoal. Por vezes, vamos tirando fotografias para ilustrar publicações futuras ou para recordar algum pormenor mais digno de nota, como aconteceu com o tema da Nossa Senhora do Guincho. Alguns desses temas acabam por tomar forma e aparecer por aqui (e.g. o caso da Lenda da Peninha), mas outros vão ficando pelo caminho ou sendo adiados (quase) indefinidamente. E o tema de hoje parte desse último grupo, de algo que por repetidas vezes se pensou abordar por aqui, mas que de forma igualmente repetida se foi adiando, até que uma leitora francesa nos pediu mais informação sobre isto, levando-nos a finalmente escrever sobre tudo isto…

A entrada do Jardim Carlos Anjos, no Monte Estoril

Indo então ao tema de hoje, no Monte Estoril, muito próximo da povoação portuguesa de Cascais, existe um pequeno jardim de nome Jardim Carlos Anjos, em homenagem ao principal fundador da zona. Muito mais poderia ser dito sobre o tema, mas o que nos interessa, hoje, é um cartaz que pode ser visto à sua entrada, que está colocado mais ou menos ao centro na imagem acima. Ele está dividido em quatro partes, três delas com conteúdos publicitários e uma quarta com informação turística. Agora, isto pouco ou nada teria de especial, não fosse o facto do cartaz se encontrar no local há décadas, sem jamais ter sido actualizado, o que permite ao visualizador fazer uma espécie de viagem no tempo até ao passado de toda esta região.

Um dos cartazes do Monte Estoril

Começando do lado esquerdo, a primeira parte do cartaz anuncia o que parecem ser duas empresas de aluguer e venda de imóveis, a “Stella Gameiro, Lda.” e a “Gameiro & Graça, Lda.” Segundo foi possível apurar, a segunda destas ainda existe, continua até no que chamavam “Birre Commercial Centre”, mas os números de telefone já mudaram há muito (no cartaz, ainda tinham apenas sete dígitos, sem indicativo).

Por baixo, um pequeno anúncio a um “Patrick”, que se dizia “Cabeleireiro – Estilista”. Ele já não está no local anunciado, fechou aí em 1996.

Segue-se um anúncio ao “Clube Mimosa”, que nessa altura tinha “banquetes, salas de conferências, health club, tennis, lojas diversas, piscinas aquecidas, putting green”. Mais abaixo chamam-lhe também “Complexo Turístico Mimosa, Lda.” O local ainda existe, mas parece ter perdido esse seu fulgor inicial, com muitas das lojas a serem substituídas por outras ao longo do tempo.

Depois, uma loja chamada “Isto e Aquilo”, que vendia “Artesanato Português” e que estava localizada no cascalense Largo da Misericórdia. Aparentemente já não existe, talvez perdida entre dezenas de lojas semelhantes que agora existem nessa vila.

Ainda, uma empresa que se parece ter chamado “Y Ludus”, ou “Ludus”. Quase nada se diz sobre ela, não existe uma morada ou número telefone, tornando impossível localizá-la.

 

Continuando para a segunda parte do cartaz, esta é curiosa porque apresenta o Estoril em três línguas – Português, Inglês e Francês – mas fá-lo sem que exista uma verdadeira correspondência de tradução entre elas. Dizem, é verdade, mais ou menos o mesmo, mas a forma como o fazem parece ter sido adaptada para melhor cativar o interesse de cada um dos povos. Para quem estiver com curiosidade sobre o seu conteúdo, basicamente eles apresentam o que existe na localidade de uma forma bastante breve.

Outro dos cartazes do Monte Estoril

A terceira parte, reproduzida acima, apresenta um restaurante, obviamente belga, de nome “La Cuisine de Belgique”, localizado apenas na “Praia do Guincho”. Presume-se que na altura não existissem muitos restaurantes por lá, mas o que se sabe é que já não existe nessa forma original. É provável que tenha sido reocupado pelas chamadas “Furnas do Guincho”, um restaurante de preços exorbitantes para enganar turistas.

 

Finalmente, a quarta das quatro partes destes cartazes do Monte Estoril voltam a anunciar o “Clube Mimosa”, referindo mais algumas das suas características, mas também apresenta outras lojas.

A primeira, de nome “Riders – Loja Inglêsa de Equitação”, dizia ter “everything for the horse and rider”, terminando uma enunciação do que vendia com “(…) and many other items for the none rider”. Estava localizada no hipódromo de Cascais.

A segunda, de nome “Health Club Gemini”, existia no número 514 da Avenida Sabóia, também aqui no Monte Estoril. Já não existe há mais de uma década, tendo sido substituído por diversas outras lojas antes de se tornar, mais recentemente, uma das infindáveis imobiliárias da zona.

Abaixo, uma misteriosa “Casa Manuel”, localizada em Bruxelas(!), que dizia ter “Tout le regal du Portugal” e prometia ao leitor “vacances perpetuelles”. Uma breve pesquisa revelou que o local ainda parece existir – é um restaurante – mas poderá ter mudado de local.

O último local anunciado nestes cartazes era o “Coconuts”, que estava localizado na Estrada da Boca do Inferno 7, em Cascais, e anunciava ter “tiger-bar, café califórnia, terrace, pool, tropical-drinks, fruit-juices, snacks, sweets, coffee, liquers, beers, wines, champagne, white bar, vip-bar, ocean-bar, tenns, private parking, live music, disco, coneerts, video, tv, films, slides”. Já encerrou, e todo o espaço é hoje um hotel.

 

Em suma, estes cartazes do Monte Estoril, hoje quase esquecidos no seu local original, preservam-nos uma altura muito específica da evolução da região, em que esta tinha muitos turistas estrangeiros. Poderia dizer-se que ainda os tem hoje, seria correcto, mas o curioso das publicidades presentes no cartaz é que parecem focar-se maioritariamente num público estrangeiro, como se os habitantes locais fossem secundários.

 

É tudo por hoje? Ainda não… resta uma pequena curiosidade, relacionada com este mesmo tema. Algumas das lojas apresentadas no cartaz estavam localizadas numa “Avenida do Lago” do Monte Estoril. Ora, quem for ao local, a menos de um quilómetro de onde estão os próprios cartazes, poderá aí encontrar a avenida mas… nada de “lago”, no verdadeiro sentido da palavra! Que lhe aconteceu? A história é antiga e refere-se à própria génese desta localidade. Nessa altura, pensou-se em fazer um grande lago no local, como ainda hoje o há no Campo Grande lisboeta, que até iria ter a sua própria estação de eléctrico (para quem quisesse descer até à praia e apanhar o comboio para Lisboa), mas com o passar do tempo, e igualmente por falta de fundos, lá se percebeu que a ideia não valia muito a pena e desistiu-se dela. Nesse seguimento, hoje resta no local essa “Avenida do Lago” quase circular, como que a demarcar o contorno que o próprio lago ia ter, mas sem que lá existam as águas, os patos e os barcos que outrora se pensaram colocar neste sítio. Existe, curiosamente, é um jardim do lago, em que o espaço se desejava inserir, mas que ainda hoje permanece assim, estranhamente incompleto, mas sem que já alguém pergunte onde estão essas águas…

“The Castle of Otranto”, de Horace Walpole

Há alguns meses vieram perguntar-nos sobre The Castle of Otranto (em Português, “Castelo de Otranto”), de Horace Walpole, uma obra muito pouco lida em Portugal. É relativamente famosa no estrangeiro, em particular por se tratar da primeira novela com uma estética gótica, mas na verdade de que fala esta obra quase desconhecida entre nós?

The Castle of Otranto (ficcional)

The Castle of Otranto foi publicado em meados do século XVIII. Começa com um prefácio em que o autor diz apenas estar a traduzir um manuscrito antigo que encontrou (é falso, era uma ideia puramente literária comum na época, que até aparecia no Dom Quixote). Depois, a trama propriamente dita começa com a morte de Conrad no dia em que se preparava para casar, esmagado por um elmo gigantesco que caiu de algum lugar desconhecido. O pai deste, Manfred, desejando então ter mais um herdeiro do sexo masculino (já só tinha uma filha, e a esposa não parecia conseguir conceber novamente), criou na sua mente a ideia de casar com a bela noiva do filho. A ideia é repugnante, a recém-solteira Isabella sente-o e tenta evitar essa união a todo o custo, e… é assim que começa toda a aventura, onde as surpresas se vão seguindo e onde há todo um conjunto de ocorrências fantasmagóricas, desde quadros que se movem a fantasmas de cavaleiros e esqueletos vivos.

 

Apesar desses estranhos eventos, este The Castle of Otranto não é uma obra que assuste. É, isso sim, uma que surpreende o leitor página após página, pelas constantes curvas e contracurvas na narrativa, onde quase apenas no final se compreende a origem de todos os elementos místicos da trama. É interessante, é um livro digno de ser lido por quem gosta de novelas ditas góticas, mas o tema de hoje ainda não fica por aqui, há ainda uma breve curiosidade sobre esta obra que merece ser apontada aqui.

 

Otranto é uma povoação no sudeste de Itália, no chamado “calcanhar” da bota, onde ainda existe um castelo (não é ali o da imagem, que é aqui puramente ilustrativa). Assim, no passado alguns estudiosos sugeriram que a trama desta obra foi vagamente baseada na vida de Manfredo da Sicília (século XIII). De facto, existe alguma coincidência entre a história de The Castle of Otranto e a vida desse monarca usurpador, e quem for ler a obra com isso em mente apercebe-se mesmo de algumas coincidências, desde a referência inicial a um manuscrito italiano até a algumas das reviravoltas na acção. Mas nem tudo é verdade na obra, e a presença de muitos elementos misteriosos deixa isso bem claro…

O mito etrusco de Charun (?)

Hoje falamos de um mito etrusco, o de Charun, para demonstrar um aspecto curioso da Mitologia Grega e Romana que muito poucos parecem conhecer. A uma primeira vista, ambas parecem referir as mesmas histórias apenas com alguns nomes diferentes – relembrem-se, por exemplo, os casos de Caco ou de Héracles/Hércules – quase como se os Romanos tivessem decidido roubar todo o património mitológico dos seus antecessores, o que é mais ou menos verdade. Contudo, um passo intermédio desse processo pode ser visto na cultura etrusca. Infelizmente, os mitos que os Etruscos contavam não nos chegaram directamente, mas podemos encontrar alguns deles representados na arte da dua época. E, entre eles, conta-se uma estranha figura que tem o nome de Charun.

O mito etrusco de Charun

Pelo contexto em que ele é representado podemos depreender que se tratava de um deus, ou de uma espécie de demónio do submundo (muitas vezes até é representado com asas), e depressa somos levados a Caronte, o barqueiro dos Gregos, mas o que esta outra figura tem frequentemente na mão não parece ser um remo, como seria de esperar, mas sim um martelo, com o qual ele podia ser visto ocasionalmente a atingir alguém, e que tende a transportar como o faríamos para aquilo que agora chamamos uma marreta. Acreditando que isto não é somente uma coincidência, como se explica que o remo original se tenha tornado um martelo, ou que este Charun nunca seja visto no interior de uma barca? Se, por outro lado, preferirmos atribuir a semelhança de nomes a um puro acaso, porque é que as duas figuras nunca são representadas em conjunto, quando ambas se tratavam claramente de divindades do submundo?

 

É difícil responder a este tipo de questões porque quase nada sabemos sobre a Mitologia Etrusca. Sim, claro que ela tem evidentes semelhanças com a dos Gregos e dos Romanos, nessa sua espécie de passo intermédio de inspiração, mas visto que não nos chegou de uma forma escrita, é hoje quase impossível compreender as alterações que ela foi sofrendo com o tempo. É muito fácil e simples acreditar que na sua forma original Caronte e Charun eram uma só figura, mas como é que o seu remo – e era, originalmente, mesmo um remo, que o deus utilizava para conduzir a barca dos infernos – depois se tornou um martelo parece ser um mistério que já não se consegue desvendar. Teorias, poderiam apresentar-se aqui mais que muitas, mas as certezas, essas, provavelmente já nem existiam nos primeiros séculos da nossa era…