O milagre de Maria Troncanita

A história de Maria de Guadalupe Troncanita, serpense nascida no século XIX, poderia ser uma mera lenda como tantas outras que vão passando por estas páginas. Porém, Ladislau Piçarra, editor de um jornal da cidade de Serpa em inícios do século XX, diz ainda ter falado com ela antes de 1904, e que a própria até lhe contou toda a ocorrência miraculosa com a sua própria voz. Acreditando-o uma figura fiável, talvez como o autor dos mais famosos Fenómenos do Entroncamento, temos poucas razões para afirmar que esta história é uma mera lenda, sendo mais apropriado chamar-lhe o mesmo que alguns jornais da época lhe chamaram, uma espécie de milagre!

O milagre de Maria Troncanita

Segundo a própria, quando Maria Troncanita tinha por volta de 50 anos de idade nasceu-lhe um netinho. O que deveria ter sido uma ocasião feliz depressa se tornou o seu contrário, já que a mãe da criança faleceu quando esta tinha apenas três dias de vida. Face à ocorrência, e certamente no mais pleno desespero, a Troncanita decidiu então pedir ajuda e rezar a Nossa Senhora de Guadalupe – a de Espanha, provavelmente não a Virgem de Guadalupe do México – que, alguns dias depois, fez operar o milagre de esta senhora voltar a ter leite para dar ao seu netinho – e importa frisar, como a própria também admitiu, que já tinham passado mais de 10 anos desde que tinha tido o seu último filho. E depois, o fluir desse leite supostamente prolongou-se por 14 meses…

 

Terá sido isto verdade? Vimo-lo considerado como uma pura lenda, e nada mais, em diversas fontes literárias que consultámos, mas então como explicar que Ladislau Piçarra ainda tenha, segundo até nos deixou por escrito num seu jornal da época (o mesmo que é citado ali na imagem…), falado com Maria Troncanita e ouvido toda a história reportada acima da própria boca da então idosa, na altura já muito avançada em anos? Será que foi ele o enganado, talvez por alguma idosa mais mentirosa que se tentou fazer passar por uma personagem potencialmente lendária da região? A título de curiosidade, fomos ver se ainda havia alguma família com esta apelido na zona de Serpa, mas não conseguimos encontrar qualquer descendente da famosa figura. Ou a sua prole já acabou, passados cerca de 100 anos, ou o contado acima era, de facto, pura lenda e nada mais. A verdadeira resposta, como muitas vezes em coisas como estas, terá de ficar para quem acabar por ler estas linhas…

“Mickey au Camp de Gurs”, de Horst Rosenthal

Mickey au Camp de Gurs, de Horst Rosenthal, é uma obra fácil de definir mas nem por isso menos estranha. É, essencialmente, uma história completamente apócrifa do Rato Mickey que foi escrita e ilustrada por um cartoonista de ascendência judia no ano de 1942, quando este já se encontrava preso num campo de concentração nazi em Gurs, uma povoação no sudoeste da França. Depois, o seu autor foi transferido para Auschwitz, onde viria a ser morto, mas de alguma forma mais ou menos desconhecida esta sua estranha criação foi passando de mão em mão até chegar aos nossos dias, sendo apenas publicada no ano de 2014, com uma capa em que é tornado muito claro que foi “Publié sans autorisation de Walt Disney“, ou seja, escrito e publicado sem qualquer chancela oficial da empresa da Disney. Presume-se, como é mais que natural, que a empresa não se tenha oposto à sua publicação dado o contexto em que a obra foi produzida e a sua importância cultural na sequência da Segunda Guerra Mundial.

Mickey au Camp de Gurs

Mas qual é a história contida neste Mickey au Camp de Gurs? Na verdade, ela é relativamente simples – o famoso herói dos desenhos animados andava a passear numa qualquer rua de França quando foi abordado por um estranho polícia que lhe pediu os documentos. Como ele não os tinha, nem nunca tinha precisado deles, foi preso e, quando lhe pediram os papéis de identificação, visto que também não os tinha, pensou-se que era um judeu e foi levado para um campo de concentração nazi. Por lá, a maior parte das aventuras relatam as estranhas vivências que se tinham num local como esse – um exemplo pode ser visto na imagem acima – até que o Mickey lá se lembra que é apenas um boneco animado e, como tal, desaparece por magia e reaparece logo em terras da América, o novo local da liberdade, da igualdade e da fraternidade.

 

É uma história breve, com menos de 15 páginas, em que cada sequência tem uma imagem ilustrativa e algum texto que narra essa parte da aventura, mas o seu elemento mais digno de nota é, sem qualquer dúvida, essa estranha representação animada do Rato Mickey num contexto em que muito raramente o esperaríamos ver. Claro que é uma obra apenas para adultos, dada a sua linguagem, em alguns momentos menos própria – para as crianças, que elas em alternativa vejam uma outra publicação nossa, sobre a personagem mais velha da Disney, muito mais indicada para elas!

A lenda Kung da origem do sexo

Esta lenda da origem do sexo de hoje provém dos Kung, um povo que vive nos desertos próximos de Angola. É mencionada na obra Nisa: The Life and Words of a Kung Woman, de Marjorie Shostak, que lhes chama mais propriamente “!Kung”, mas apesar do seu tema principal, que tentamos sempre evitar, é uma pequena história cujo charme até pode recordar uma das pinturas de Kolongi Brathwaite, que reproduzimos abaixo.

Fire and Desire, painting by Kolongi Brathwaite

Conta-nos então esta lenda da origem do sexo, que se atribui aos !Kung, que em dada altura existia uma aldeia em que apenas viviam duas mulheres. Em outro lugar existia uma aldeia povoada apenas por dois homens. Um dia, estes últimos encontraram o local em que viviam as primeiras, mas quando tiveram a intenção de as raptar, não as conseguiram encontrar excepto durante a noite. Quiseram fazer amor com elas, cada um com a sua parceira, mas ainda não sabiam como realizar esse acto. Tentaram a boca, as orelhas, os olhos, o nariz, …, mas sempre sem sucesso. Até que as mulheres decidiram educá-los, “a boca serve para comer, as orelhas servem para ouvir, os olhos servem para ver, o nariz serve para respirar”, e assim por diante, até que lhes apresentaram o local da sua vagina. Conhecendo então esse novo local, os homens fizeram amor com elas durante toda a noite e na manhã seguinte partiram, para tentarem ensinar o que tinham aprendido a outras pessoas.

 

O que esta lenda tem de muito especial é o facto de não só apresentar as relações sexuais como algo que já era conhecido do sexo feminino, mas igualmente como algo que foram elas a ensinar aos homens. Hoje, pensa-se talvez demasiado no sexo como algo masculino, desejado maioritariamente por esse sexo, mas esta lenda Kung da origem do sexo inverte esse paradigma, talvez como um pequeno vestígio de tempos matriarcais, numa cultura em que, como apresentado em alguns dos capítulos da obra de Marjorie Shostak, este acto pertence aos dois e é frequentemente desejado por membros de ambos os sexos, que nele conseguem encontrar o seu prazer comum.

A dupla lenda das Amazonas

Falar-se aqui da lenda das Amazonas dá-nos uma oportunidade invulgar de abordarmos duas histórias bastante distintas numa só publicação. Claro que elas andam de mãos dadas, de uma forma que já poucos parecem conhecer hoje em dia, mas a segunda delas só pode ser compreendida no seguimento da primeira, o que nos levou à evidente necessidade de as contar em associação. Para tal, comece-se então pelo início de toda esta história.

A lenda das Amazonas

Nos mitos e lendas da Antiguidade Clássica existia uma estranha civilização que era conhecida pelo nome de Amazonas. Era composta exclusivamente por mulheres guerreiras, todas elas tão prolíferas nas artes da guerra como os seus congéneres masculinos. Depois, uma vez por ano, cruzavam o rio local (algures na Ásia Menor), aproximavam-se de um aldeia em que só existiam homens, e ora os violavam a todos, ora decidiam deixar nesse local todos os rebentos do sexo masculino que tinham sido dados à luz nos passados 12 meses.

Esta poderia uma história como tantas outras da mesma altura, de espécies estranhas que viviam em locais longínquos e raramente eram vistas pelos seres humanos (como os Blémias, os Centauros ou os Ciclopes), mas o notável é que estas Amazonas tinham, ocasionalmente, um papel em alguns dos mitos da Grécia Antiga – Teseu casou com uma, Hércules defrontou outra, Aquiles matou uma terceira na Guerra de Tróia, etc. Como tal, gerou-se uma ideia segundo a qual esse povo era verdadeiro, existia mesmo, potencialmente em terras da Ásia, mas ninguém sabia muito bem onde era esse local. Portanto, toda esta história foi ficando na mente de alguns, presa durante séculos entre ficção e realidade…

 

E assim poderia ter permanecido até aos nossos dias, não fosse algo que aconteceu com Frei Gaspar de Carvajal por volta do dia 24 de Junho de 1541. Nessa altura ele, juntamente com um pequeno grupo de soldados, explorava um rio que encontraram em terras do Brasil. Enquanto o faziam, foram atacados pelas flechas de um grupo de nativos locais. Entre vários homens, estes viajantes conseguiram ver algo que lhes pareceu muitíssimo digno de nota – aí se encontravam também ferozes mulheres guerreiras, que pareciam controlar os habitantes do sexo oposto como seus soldados… e então, estes viajantes concluíram tratarem-se certamente das Amazonas, aquelas figuras guerreiras de que apenas tinham ouvido falar nos mitos e lendas da Antiguidade… e por essa coincidência de carácteres pensaram também que aquele rio por onde viajavam era o presente nessas conhecidas histórias, levando, aparentemente, ao nome que ele ainda hoje tem – o Rio Amazonas (!), por pensarem que aí vivam, nesses meados do século XVI, as mesmas mulheres guerreiras que em outros tempos tinham defrontado figuras como Teseu e Aquiles!

 

O que eles encontraram não eram, como é óbvio, as Amazonas de que falavam os autores gregos e romanos da Antiguidade. Estes exploradores apenas viram o que queriam ver, nessa pura coincidência da fortaleza de espíritos, mas talvez tenha sido esse carácter forte das mulheres locais da época (por contraste com as ocidentais, então mais submissas), que terá levado àquela conotação negativa de rapariga no Brasil, como contámos anteriormente. É debatível. Já o nome do rio, esse, parece sê-lo menos, fruto de um mito pagão da Antiguidade que não deixou de ir sendo relembrado ao longo dos séculos…

A mulher e o macaco, um estranho “amor”

Esta história de hoje é uma cuja origem é difícil de identificar. Ela menciona o nosso país, e dá até alguns elementos que poderão tornar possível a sua identificação, mas não conseguimos dar esse último passo. É uma trama que aparece no Compendium Maleficarum, obra de inícios do século XVII, como uma história que parece ter sido muito conhecida oralmente. Podemos inferir isso porque neste caso, e contrariamente ao que acontece a muitas outras histórias da mesma obra, o autor não menciona onde a leu, o que destoa num texto que dá exemplos de centenas de histórias de feitiçaria, mas menciona (quase) sempre a autoria e identificação da obra onde teve acesso a cada uma delas. Mas, deixando-se essas considerações para trás, reconte-se agora esta pequena aventura que Francesco Maria Guazzo incluiu na sua obra.

A história da mulher e do macaco

Uma mulher cometeu um crime agora desconhecido e foi deportada para uma ilha quase deserta, em que apenas existiam alguns macacos. Com pena dela, os animais foram-lhe dando comida e, ás tantas, um deles levou-a para uma caverna, onde a forçou a fazer amor com ele. E, com o passar do tempo, nasceram alguns frutos dessa estranha relação.

Algum tempo mais tarde um navio português atracou nessa ilha e, vendo esta mulher por lá, decidiu levá-la de volta a terra. O macaco, que tanto a parecia ter “amado”, não estava no local, mas quando se apercebeu do que estava a acontecer levou cada um dos filhos do “casal” para a praia e ameaçou-a com gestos, propondo-se afogá-los. Quando ela não voltou do barco, ele acabou mesmo por afogá-los, antes de se pôr a nadar e a seguir o barco onde a antiga companheira viajava, mas não conseguiu alcançá-lo. Então, o animal parece ter-se perdido nas ondas.

A mulher, essa, foi levada para Portugal. O nosso rei da altura – cuja identidade não é revelada – condenou-a à fogueira, por ter vivido uma espécie de amor tão pouco natural, mas com o auxílio de terceiros a pena foi comutada para prisão perpétua, e esta acabou por tornar-se “uma história contada por todo o Portugal”, como Guazzo a apelida.

 

Dadas as suas características gerais – em particular, a possibilidade de uma tão estranha ilha e de um amor mulher-animal – é provável que esta fosse apenas uma história oral contada entre os navegadores portugueses, como a da Ilha Encoberta, mas pouco mais conseguimos descobrir sobre ela, além da informação que Francesco Maria Guazzo dá no seu Compendium Maleficarum. Também Georges T. Dodds tentou descobrir a sua origem, mas apenas chegou a uns tais “Anais de Portugal” de um qualquer “Castanheda”, obra que ainda não foi descoberta… Por isso, se um dia alguém encontrar estas linhas e souber mais sobre a sua origem, por favor deixe um comentário com mais informação – esse tipo de ajuda já aqui aconteceu antes, relativamente à história de Pincho de Benaciate, e nestas coisas alguma colaboração adicional é sempre bem vinda…