As “Trovas à Morte de Inês de Castro”, de Garcia de Resende

Quando se fala de histórias de amor em Portugal, é certo e sabido que a mais famosa de todas elas é a de Pedro e Inês. Já aqui contámos a sua “lenda” – se é correcto chamar-lhe isso – mas o que trazemos aqui hoje é ligeiramente diferente, as chamadas Trovas à Morte de Inês de Castro, da autoria de Garcia de Resende. O que elas têm de muito especial é que se tratam da mais antiga composição poética sobre o tema – ou, pelo menos, a comprovadamente mais antiga que ainda nos chegou. Como tal, para celebrar o dia de hoje decidimos aqui trazer esse poema, com algumas pequenas adaptações para facilitar a leitura nos dias de hoje.

Recorde-se que a composição que aqui reproduzimos há dois anos fala desta morte do ponto de vista de Dom Pedro. Já esta fá-lo na voz da própria Inês de Castro, numa composição impossível em essa figura nacional nos traz, pela sua própria boca, os derradeiros eventos de que foi vítima. Há mais a dizer sobre eles, claro está, mas já voltaremos ao tema. Por agora, leia-se a própria composição, estas trovas a Inês de Castro de Garcia de Resende:

As Trovas à Morte de Inês de Castro, de Garcia de Resende

Qual será o coração
tão cru e sem piedade
que lhe não cause paixão
uma tão grande crueldade
e morte tão sem razão?
Triste de mim, inocente,
que, por ter muito fervente
lealdade, fé, amor
ao príncipe, meu senhor,
me mataram cruamente!

A minha desventura
não contente de acabar-me,
por me dar maior tristura
me foi pôr em tanta altura,
para de alto derribar-me;
que, se me matara alguém,
antes de ter tanto bem,
em tais chamas não ardera,
pai, filhos não conhecera,
nem me chorara ninguém.

Eu era moça, menina,
por nome Dona Inês
de Castro, e de tal doutrina
e virtudes, que era digna
de meu mal ser ao revés.
Vivia sem me lembrar
que paixão podia dar
nem dá-la ninguém a mim.
Foi-me o príncipe olhar,
por seu nojo e meu fim.

Começou-me a desejar,
trabalhou por me servir;
Fortuna foi ordenar
dois corações conformar
a uma vontade vir.
Conheceu-me, conheci-o,
quis-me bem e eu a ele,
perdeu-me, também perdi-o:
nunca até à morte foi frio
o bem que, triste, pus nele.

Dei-lhe a minha liberdade,
não senti perda de fama;
pus nele minha verdade,
quis fazer sua vontade,
sendo muito formosa dama.
Por me estas obras pagar
nunca jamais quis casar;
pelo qual aconselhado
foi el-rei que era forçado,
pelo seu, de me matar.

Estava muito acatada,
como princesa servida,
em meus paços muito honrada,
de tudo muito abastada,
de meu senhor muito querida.
Estando muito de vagar,
bem fora de tal cuidar,
em Coimbra, de assossego
pelos campos do Mondego
cavaleiros vi somar.

Como as coisas que hão de ser
logo dão no coração,
comecei entristecer
e comigo só dizer:
“Estes homens onde irão?”
E tanto que perguntei,
soube logo que era el-rei.
Quando o vi tão apressado,
meu coração trespassado
foi, que nunca mais falei.

E quando vi que descia,
saí à porta da sala,
adivinhando o que queria;
com grande choro e cortesia
lhe fiz uma triste fala.
Meus filhos pus de redor
de mim com grande humildade;
muito cortada de temor
lhe disse: — “Havei, senhor,
desta triste piedade!”

“Não possa mais a paixão
que o que deveis fazer;
metei nisso bem a mão,
que é de fraco coração
sem porquê matar mulher;
quanto mais a mim, que dão
culpa não sendo razão,
por ser mãe dos inocentes
que ante vós estão presentes,
os quais vossos netos são.”

“E têm tão pouca idade
que, se não forem criados
de mim só, com saudade
e sua grande orfandade
morrerão desamparados.
Olhe bem quanta crueza
fará nisto Vossa Alteza;
e também, senhor, olhai
pois do príncipe sois pai,
não lhe deis tanta tristeza.”

“Lembre-vos o grande amor
que me vosso filho tem,
e que sentirá grande dor
morrer-lhe tal servidor
por lhe querer grande bem.
Que, se algum erro fizera,
fora bem que padecera
e que estes filhos ficaram
órfãos tristes e buscaram
quem deles paixão houvera;”

“Mas, pois eu nunca errei
e sempre mereci mais,
deveis, poderoso rei,
não quebrantar vossa lei,
que, se morro, quebrantais.
Usai mais da piedade
que de rigor nem vontade,
havei dó, senhor, de mim,
não me deis tão triste fim,
pois que nunca fiz maldade!”

El-rei, vendo como estava,
houve de mim compaixão
e viu o que não olhava;
que eu a ele não errava
nem fizera traição.
E vendo quão de verdade
tive amor e lealdade
ao príncipe, cuja são,
pôde mais a piedade
que a determinação;

Que, se me ele defendera
que seu filho não amasse,
e lhe eu não obedecera,
então com razão pudera
dar-me a morte que ordenasse;
mas vendo que nenhuma hora,
desde que nasci até agora,
nunca nisso me falou,
quando se disto lembrou,
foi-se pela porta fora,

Com seu rosto lacrimoso,
com propósito mudado,
muito triste, muito cuidoso,
como rei muito piedoso,
muito cristão e esforçado.
Um daqueles que trazia
consigo na companhia,
cavaleiro desalmado,
de atrás dele, muito irado,
estas palavras dizia:

“Senhor, vossa piedade
é digna de repreender,
pois que, sem necessidade,
mudaram vossa vontade
lágrimas de uma mulher.
E quereis que abarregado,
com filhos, como casado,
este, senhor, vosso filho?
De vós mais me maravilho
que dele, que é namorado.”

“Se a logo não matais,
não sereis nunca temido
nem farão o que mandais,
pois tão cedo vos mudais
do conselho que era havido.
Olhai quão justa querela
tendes, pois, por amor dela,
vosso filho quer estar
sem casar e nos quer dar
muita guerra com Castela.”

“Com sua morte escusareis
muitas mortes, muitos danos;
vós, senhor, descansareis,
e a vós e a nós dareis
paz para duzentos anos.
O príncipe casará,
filhos de bênção terá,
será fora de pecado;
que agora seja anojado,
amanhã lhe esquecerá.”

E ouvindo seu dizer,
el-rei ficou muito torvado
por se em tais extremos ver,
e que havia de fazer
ou um ou outro, forçado.
Desejava dar-me vida,
por lhe não ter merecida
a morte nem nenhum mal;
sentia pena mortal
por ter feito tal partida.

E vendo que se lhe dava
a ele toda esta culpa,
e que tanto o apertava,
disse àquele que bradava:
“Minha tenção me desculpa.
Se o vós quereis fazer,
fazei-o sem mo dizer,
que eu nisso não mando nada,
nem vejo essa coitada
por que deva de morrer.”

Dois cavaleiros irosos,
que tais palavras lhe ouviram,
muito crus e não piedosos,
perversos, desamorosos,
contra mim rijo se viram;
com as espadas na mão
me atravessam o coração,
a confissão me tolheram;
este é o galardão
que meus amores me deram.

 

Volte-se agora ao tema da “lenda” e da composição deste poema de Garcia de Resende. É notável que, para evitar o problema da potencial impunidade de Dom Afonso IV, pai de Dom Pedro, o poeta o tenha representado como uma figura plena de compaixão, que nem sequer queria mesmo matar Inês, e que a vê sem quaisquer culpas onde outros as queriam colocar. Não é ele o culpado pela morte, mas sim uns tais cavaleiros sem nome, provavelmente aqueles que o filho do rei viria a condenar anos mais tarde. Esta é uma espécie de interessante jogo de desculpabilização que pode levantar uma boa questão – quem foi, de facto, o responsável pela morte? Será que o rei da altura nada teve a ver com o que sucedido, contrariamente à forma como muitos o representam hoje? Na versão destas Trovas à Morte de Inês de Castro ele não é uma pessoa má, demonstra-se até compassivo, mas… qual terá sido a verdade histórica no episódio? A resposta fica para terceiros, para quem tenha estudado melhor o tema, porque aqui o que nos interessa é a lenda, e essa ora culpa o rei, ora o afasta das acusações…

A lenda do Kelpie

A lenda do Kelpie, a que dedicamos as linhas de hoje, é provavelmente uma de muitas que se foi popularizando nos últimos anos. Talvez fruto da globalização de histórias mitológicas, ou talvez por ser (hoje) uma das criaturas mitológicas mais famosas da sua localização geográfica – por contraste, por exemplo, com os quase-esquecidos Spunkies – é agora um ser vagamente conhecimento por toda a Europa, e talvez mesmo por mais que um continente. Portanto, nada como lhe dedicar umas linhas no dia de hoje.

A lenda do Kelpie

Essencialmente, o Kelpie é uma criatura com capacidades de transformar a sua forma física. Nunca é explicado muito bem qual a sua forma original, mas a mais famosa das suas transformações é inegavelmente em cavalo, como mostra a imagem acima. Então, quando os habitantes da região viam um belíssimo cavalo abandonado, e notavam o quão dócil ele parecia ser, tentavam montá-lo, e o animal lançava-se automaticamente às águas, afogando aquele que o montava.

Poderá, portanto, parecer uma espécie de criatura aquática como as Sirenas, que engana as pessoas e as conduz à sua morte, mas o que esta lenda do Kelpie tem de particularmente interessante, além de muito digno de nota, é que também parecem existir histórias em que é atribuído um carácter muito diferente a este animal. Nessas, é dito que ele se sente incrivelmente só e apenas pretende ter novos amigos, mas não compreende que os seres humanos não conseguem respirar debaixo de água, conduzindo-os para a sua destruição mais por desconhecimento do que por uma qualquer espécie de maldade. Até encontrámos uma referência, supostamente credível e real de finais do século XVIII, em que ele é a vítima, mas do que um atacante, quando um homem reconheceu esta criatura e o atacou com uma espada, desfigurando-lhe a face!

 

Mas o tema de hoje ainda não se fica por estas breves considerações sobre possíveis histórias do Kelpie. Diz-se, nas histórias que o incluem, que ele mora sempre perto de algum Loch – um lago, em Português actual. Visto que algumas delas o associam ao famoso Loch Ness, isso levanta a possibilidade de que o conhecido monstro desse lago, seja, nada mais nada menos, que uma mera transformação desta outra criatura, o que pode explicar o porquê de ser tão difícil encontrá-lo. Será verdade? Será um mero reaproveitamento de uma antiga lenda local para os nossos dias de hoje? Não é fácil sabê-lo, mas fica essa sugestão de uma possível identidade secreta para aquele que é o mais famoso dos monstros aquáticos dos nossos dias…

“Preso por ter cão e preso por não ter”, origem e significado

Preso por ter cão e preso por não ter é uma expressão que ainda se utiliza muito hoje em dia. Ela pode parecer que faz algum sentido, até que alguém pense um pouco mais em todo o tema e se aperceba de que toda a ideia é um pouco estranha, quer dizer, porque razão seria alguém preso por não ter um canídeo? Ou pelo facto de o ter, se o pobre animal nunca tiver feito nada de errado? Não é uma ideia de fácil compreensão – ao seu verdadeiro significado, já lá iremos – mas existe uma pequena lenda que parece explicar a origem de toda a expressão.

Preso por ter cão e preso por não ter, origem e significado

Conta-se que no tempo das Invasões Francesas foi imposta uma lei segundo a qual todos os moinhos nacionais tinham de ter um cão a guardá-los. A ideia seria, supostamente, a de garantir que ninguém andava a roubar as farinhas e que pagava a totalidade dos seus impostos.

Um dia, em cumprimento dessa mesma lei, um determinado moleiro, cujo nome ou a localidade de residência já há muito foram esquecidos, obteve o seu cão, um belíssimo cão como o da imagem acima, com um nariz esbranquiçado. E tudo estava bem, mas quando os Franceses fizeram uma vistoria ao respectivo moinho, viram este cão assim mesmo, com o seu nariz branco, e supuseram que o animal andava a comer parte da farinha – e isto levou a que o seu dono fosse preso por algum tempo.

Depois, ele acabou por ser libertado e decidiu livrar-se do tal cão, face aos problemas que este lhe tinha criado. Livrou-se do animal, como pretendia, mas foi novamente visitado pelos Franceses no mesmo dia – azar dos azares! – e levado para a prisão uma segunda vez, agora pelo facto de não ter o animal que a lei lhe exigia. E, face a uma tal estranheza, terá então sido ele o primeiro a dizer “fui preso por ter cão e preso por não ter!

 

Terá sido esta verdadeira origem da expressão “preso por ter cão e preso por não ter cão”? Será que há mesmo uma verdade histórica por detrás do que aqui considerámos pura lenda? Não sabemos, e seria agora muito difícil conseguir descobri-lo com 100% de certezas, mas o seu verdadeiro significado é compreensível – as leis devem ser criadas de uma forma lógica, com limites que se possam perceber devidamente, sob pena de acontecer às pessoas o mesmo que teve lugar com o moleiro de toda esta história. Uma pessoa não pode – ou, pelo menos, teoricamente não deveria poder – ser culpada por um mesmo acto e pelo seu contrário, e é a isso que se refere a expressão a que dedicámos as linhas de hoje!

O filme animado “Kureopatora” (de 1970)

Kureopatora, que é como quem diz “Cleópatra” em Japonês, é um filme animado que foi lançado nos cinemas em 1970. Certamente que ele não estreou em Portugal, e as razões para tal são fáceis de compreender – é um filme pejado de erotismo (até os seios da heroína podem ser vistos no póster!), mas sem que seja verdadeiramente pornográfico. É, talvez até mais que tudo, um filme estranho, que parece não conseguir decidir o que quer ser.

O filme Kureopatora

A trama de Kureopatora é relativamente simples – num futuro distante, uma espécie extraterrestre ataca a terra e quer pôr em marcha algo a que chamam o “Plano Cleópatra”. Então, para investigarem em que este consiste, os heróis da história tomam uma espécie de máquina do tempo para irem ao tempo da governante egípcia… e até aqui tudo bem, mas o filme está pejado de momentos eróticos, quanto mais não seja pelo facto da heroína se dispor a utilizar toda a sua sexualidade em favor da protecção do Egipto. A trama vai-se desenvolvendo com alguns momentos com piada, outros mais filosóficos, uns quantos baseado em história muito real, outros já mais ficcionais, mas… se a iconografia, as imagens que vão sendo vistas no ecrã, são quase sempre artisticamente belas, já a trama é bastante estranha, com momentos de uma sensualidade enorme a serem imediatamente seguidos por piadas que só interessam aos mais parvinhos dos espectadores, como quando um dos viajantes no tempo, encarnado num leopardo, se tenta envolver sexualmente com mulheres humanas.

Portanto, se o objectivo da aventura era descobrir-se o verdadeiro sentido do tal “Plano Cleópatra”, em que consiste ele? Evidentes spoilers, mas a ideia passava pelos tais extraterrestres se disfarçarem de mulheres para poderem controlar toda a sociedade humana através da sua sexualidade. Claro que isto poderia levantar centenas de questões filosóficas importantes, mas elas são completamente excluídas do filme em favor de um erotismo muito pouco aparazível – por exemplo, uma das personagens da história é uma escrava egípcia que anda constantemente com os seios ao léu – e de dezenas de momentos secundários que parecem destoar na seriedade da trama.

 

Kureopatora é, portanto, um filme que ainda hoje parece ser conhecido pelo seu erotismo animado, mas tem uma história aborrecida. Não vale mesmo a pena que se percam quase duas horas para o ver do início ao fim. Estranho mesmo é o facto do seu produtor ter sido Osamu Tezuka, que é muito conhecido por várias outras séries animadas japonesas, no seu geral muito mais interessantes do que qualquer coisa que este filme tenha para nos oferecer…

O Homem do Chapéu de Ferro e a Velha da Égua Branca – duas lendas (quase) perdidas

Falar sobre as lendas por detrás do Homem do Chapéu de Ferro e da Velha da Égua Branca não é tarefa fácil. Isto porque estas são duas figuras nativas da Mitologia Portuguesa, à semelhança do Secular das Nuvens e do Homem das Sete Dentaduras, que estão hoje já quase perdidas, mas que, ao mesmo tempo, parecem ter alguma espécie de antiga ligação entre elas. Por isso, comece-se por falar das lendas de estas duas figuras individuais, antes de se voltar ao tema de uma possível ligação entre elas.

 

A lenda da Velha da Égua Branca

A lenda da Velha da Égua Branca

Conta-se que, originalmente, esta mulher viveu no tempo de Jesus Cristo, e que nessa altura ela era muito sovina. Um dia, quando foi visitada por essa famosa figura religiosa, recusou-se sequer a dar-lhe um pequeno pedaço de pão. Cristo castigou-a através de um pequeno milagre, fazendo com que o próximo pão que ela cortasse se esvaísse em sangue. Essa estranha ocorrência assustou tanto esta mulher que ela acabou por morrer em apenas três dias… e depois voltou à vida, eternamente condenada a vaguear pelo mundo fora numa égua branca, sempre com a mesma faca sangrenta na sua mão, um provável símbolo do crime que paga eternamente, vivendo agora sob o nome de Velha da Égua Branca.

 

A lenda do Homem do Chapéu de Ferro

A lenda do Homem do Chapéu de Ferro

Também este homem, cujo verdadeiro nome o tempo há muito fez esquecer, viveu na altura de Jesus Cristo. Dizia-se que foi um dos soldados que torturou essa figura religiosa na sequência de acontecimentos que levaram à sua Paixão. Por essa sua acção, também ele foi amaldiçoado por Cristo, mas a pouca informação que nos chegou não preserva completamente o que se passou em seguida. Ele tornou-se o Homem do Chapéu de Ferro, talvez para punir o peso da inconsciência dos seus actos, e é representado como uma das mais estranhas dos mitos e lendas de Portugal. De facto, num caso como este é mesmo melhor referir a informação que nos foi preservada por Teófilo Braga, ligeiramente adaptada para facilitar a leitura:

O Homem do Chapéu de Ferro aparece logo que dá meia-noite e o galo canta, à beira das estradas, por baixo das oliveiras, das figueiras ou junto às fontes. Vagueia até à terça noite, umas vezes acompanhado por um porco preto que grunhe de momento a momento, outras de um grande veado cuja armadura toca o zimbório das torres, ou ainda de um galo negro como a noite de trovões. Todos estes animais que o acompanham, cada um na noite que lhe foi destinada, são o Diabo que toma diversas figuras. Esta entidade mítica tem o poder de causar a tempestade, de fazer parar os raios e de arrasar o mundo, caso o galo, o porco ou o veado o inquietem. Também, para se vingar dos homens que odeia, assalta-os, rouba-os e mata-os. Depois tudo é fumo e labaredas que saem da terra como vulcões. Traz um enorme chapéu de ferro enterrado na cabeça. É uma figura colossal, tem a boca rasgada como a de um monstro, deitando chamas quando se enche de raiva, e a sua cor é a do bronze. Todavia foge quando avista a Velha da Égua Branca.

 

Qual a ligação entre estas duas figuras?!

A última frase da citação de Teófilo Braga deixa claro que se cria, na altura, numa qualquer ligação cósmica entre o Homem do Chapéu de Ferro e a Velha da Égua Branca, mas qual terá sido ela? Se, originalmente, ambas as figuras já se encontravam ligadas a punições de Jesus Cristo, é talvez possível que tenham sido marido e mulher, ou que tivessem alguma outra espécie de conexão pré-morte, que permaneceu após o seu falecimento para a vida humana. Mas, qual terá sido ela, isso é, muito infelizmente, algo que se perdeu com o tempo. Poderíamos aqui apresentar “quinhentas” outras teorias, mas a pura e dura verdade é que as fontes literárias que nos chegaram e que ainda mencionam estas duas figuras não explicam muito mais do que o que já foi apresentado acima. Isto também acontece com muitas outras figuras mitológicas nacionais – e.g. a Peeira de Lobos ou o Tardo – porque, de uma forma agora muito infeliz, em outros tempos não existiu uma verdadeira sistematização na tentativa de preservar as figuras nativas do nosso país, estando elas hoje apenas acessíveis em breves lampejos como os apresentados ali em cima…