A lenda de John Henry

A lenda de John Henry talvez não seja muito conhecida em terras de língua portuguesa, mas é-o nos Estados Unidos da América. Conta-se entre figuras como Paul Bunyan e Joe Magarac, presas entre lendas e a realidade, em histórias nas quais nem sempre é fácil compreender-se os limites entre a ficção e o facto.

A lenda de John Henry

Por exemplo, sobre este John Henry, conta-se que era um afro-americano que nasceu já com um martelo na mão, provavelmente em meados do século XIX. Depressa cresceu e partiu em busca de novas aventuras, procurando um bom uso para a sua enorme força, até que lá arranjou trabalho nos caminhos de ferro americanos. Uma das suas grandes tarefas era a de auxiliar na abertura de novos túneis, tarefa que desempenhava com enorme destreza, até que um dia se lhe cruzou uma coisa até então nunca vista, uma nova máquina que iria abrir os túneis de uma forma automática. Sobre ela, os seus controladores diziam que iria mudar o mundo, e que já não seria mais preciso de mão humana para a difícil tarefa… e então, desafiaram todos os que estavam presentes nesse momento para uma espécie de competição da abertura de um túnel.

Ninguém aceitou a ideia, parecia-lhes demasiado difícil de vencer… ou, melhor dizendo, ninguém a aceitou excepto John Henry! Máquina e homem combateram lado a lado, para ver qual dos dois era o primeiro a chegar ao lado oposto de uma montanha. Umas vezes um deles adiantava-se, outras vezes o outro, mas no final foi o ser humano o grande vencedor… mas o esforço que fez para o conseguir foi tão grande que o herói acabou por falecer de ataque cardíaco!

 

Terá sido verdade? Ou, pelo menos, terá toda esta história tido uma espécie de fundo de verdade? Como sempre nestas coisas, não é fácil responder a questões como essas, mas pelo menos a tradição popular no local diz que este grande confronto tomou lugar no chamado Great Bend Tunnel (também conhecido como Big Bend Tunnel), no estado norte-americano da Virginia Ocidental. O que, no mínimo dos mínimos, pode levantar a ideia de que “algo” se tenha passado nesse local, mas sem que hoje já se saiba muito bem o que foi. Isto acabou por gerar todo um conjunto de teorias académicas que procuraram localizar o herói ou a sua inspiração, mas que já são um pouco secundárias para a história contada aqui hoje. Por isso, para terminar, sobre essas tais teorias bastará resumir que dizem que este homem existiu mas que a lenda, tal como reportada nas linhas acima, é uma versão muito exagerada de alguns dos eventos por que ele passou. E isso basta-nos.

Algumas adivinhas para o Natal

Na sequência de alguns provérbios e ditados portugueses que aqui publicámos há alguns anos, decidimos hoje publicar algo um pouco diferente, algumas adivinhas tradicionais portuguesas que escolhemos de uma compilação de inícios do século XX. Por razões puramente simbólicas, aqui ficam sete delas:

Algumas adivinhas para o Natal

  1. Qual é o animal que mais se parece com o gato?
  2. Barriga com barriga
    Pança com pança;
    Um palmo de carne
    Faz uma contradança.
  3. Não há uma senhora
    Mais assenhorada;
    Nunca sai de casa,
    Sempre está molhada.
  4. O que é do tamanho de uma bolota e enche a casa até à porta?
  5. Trago uma dama comigo
    Mais formosa do que eu;
    Ela vai com quem na leva,
    Eu fico com quem me deu.
  6. Qual é a coisa, qual é ela,
    Que antes de o ser já o era?
  7. Devendo aos quatro elementos
    O vir a ser o que sou,
    Sempre recebo mau pago
    Da gente com quem me dou.

    Sou abafado, e depois
    Num cárcere me vão pôr,
    Onde não mudo a figura
    Mas do rosto mudo a cor.

    O povo todo me busca
    Pois necessita de mim;
    Tive criação aos murros
    Levo facadas por fim.

 

 

 

(Soluções:)

1. Gata.

2. Guitarra.

3. Língua.

4. Luz.

5. Ouriço e Castanha.

6. Pescada.

7. O pão e as suas fases.

A origem e significado do Kwanzaa

De entre as celebrações que tomam lugar nesta altura do ano é provável que nenhuma delas nos seja tão desconhecida como o Kwanzaa. Em Portugal, talvez até já tenham ouvido algumas referências vagas a estas festividades em séries de televisão americanas, mas normalmente elas não são celebradas no nosso país. Por isso, seguindo o contexto de algumas celebrações desta altura do ano de que fomos falando nas semanas anteriores, hoje falamos deste festival tão pouco conhecido entre nós!

A origem e significado do Kwanzaa

Quase todas as celebrações que tendemos a associar à época do Natal têm origens muito vagas, imprecisas, sem se saber muito bem quando e onde nasceram. Curiosamente, isso não acontece com o Kwanzaa, que nasceu em 1966 pela mão do afro-americano Maulana Karenga. E nasceu, como esse seu criador bem nos informa em obras como Kwanzaa: a Celebration of Family, Community and Culture, de uma necessidade de instituir um festival centrado na cultura afro-americana e que celebrasse as suas origens africanas. Não é, como se poderia supor, uma recriação de algum antigo costume nativamente africano, mas sim uma tentativa de celebrar um conjunto de ideias que os afro-americanos parecem incorporar em si mesmos.

 

Assim, o Kwanzaa é um festival centrado na cultura afro-americana que toma lugar entre os dias 26 de Dezembro e 1 de Janeiro, durante os quais existem um conjunto de tradições, de símbolos e de simbologias que Maulana Karenga criou por si mesmo, mas que procuram sintetizar uma espécie de nova celebração que, segundo ele, não pudesse ser considerada como centrada em outras culturas. Por exemplo, um dos elementos mais notáveis de toda esta celebração é uma ligação ao sempre-simbólico número sete – as sete letras do nome do festival (“kwanza” significava “os primeiros frutos” em suaíli, mas o “a” final foi adicionado para o nome ter sete caracteres), as sete velas (a preta é um símbolo do povo africano, as vermelhas o sangue derramado, e as verdes uma esperança para o futuro, lembrando alguma da simbologia da nossa bandeira), os seus sete símbolos (como visível ali na imagem), e, talvez até mais que tudo o resto, os sete grandes princípios celebrados por toda esta ideia – citando a versão original destes Nguzo Saba em suaíli com a sua tradução inglesa como dada pelo autor, “Umoja (Unity), Kujichagulia (Self-Determination), Ujima (Collective Work and Responsibility), Ujamaa (Cooperative Economics), Nia (Purpose), Kuumba (Creativity), and Imani (Faith).

 

Por tudo isto se pode compreender que o Kwanzaa é um festival arreligioso norte-americano, focado no que o autor considera a cultura afro-americana, mas é interessante notar que não se trata somente disso. No livro que já referimos o autor responde a uma espécie de questões frequentes sobre o festival, deixando claro que também pode ser celebrado por outras culturas e que não é obrigatório celebrar-se como um substituto de celebrações como o Natal – em relação a este último ponto, é mesmo sugerido que existam prendas, mas que pelo menos uma delas se relacione directamente com a cultura africana, até para fomentar essa ideia de uma celebração da cultura nativa dos antecessores. E é, no seu cerne, uma ideia bastante interessante, porque mesmo no nosso país muitas pessoas de ascendência africana foram perdendo essa ligação às suas origens, e um festival como este poderia ajudar nessa importante manutenção de um nexo cultural…

A origem do Sebastianismo

Se já cá falámos anteriormente sobre o Sebastianismo, hoje decidimos ir um pouco mais longe e falar sobre a sua origem em concreto. Claro que já quase ninguém acredita que El-Rei D. Sebastião irá voltar um dia, naquela utopicamente famosa manhã de noveiro, mas a ideia ainda nos é conhecida da Mensagem de Fernando Pessoa, entre outras fontes. Mas, de facto, de onde vem ela? Já lá iremos, principie-se com uma das faces mais visíveis de toda esta história lendária portuguesa.

O túmulo de Dom Sebastião no Mosteiro dos Jerónimos

Hoje em dia, quem for ao Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, poderá lá encontrar um túmulo onde se diz que está alojado o corpo do falecido Dom Sebastião. É um espaço como tantos outros no mesmo templo, mas quando se presta alguma atenção prolongada pode ver-se nele uma área, que até assinalámos a verde na imagem acima, com o seguinte texto em Latim:

Conditur hoc tumulo si vera est fama Sebastus
Quem tulit in Libicis mors properata plagis
Nec dicas falli regem qui vivere credit
Pro lege extincto mors quasi vita fuit.

As palavras mais importantes aqui são Si vera est fama, algo como “se é verdade o que se diz” o corpo de D. Sebastião está neste túmulo. Mas como poderia não estar? Será que ninguém se certificou da verdadeira identidade do falecido? Como é isso sequer possível, tratando-se ele do mais importante dos cidadãos da pátria portuguesa nessa altura? A mera sugestão pode levantar centenas de estranhas perguntas, mas visto que é ela a mais significativa semente do Sebastianismo, decidimos que tínhamos de descobrir uma resposta. Para tal, partimos em busca das fontes literárias da época, fomo-las seguindo, e chegámos a um panorama geral da origem de uma crença que quase chegou aos nossos dias. Portanto, indo agora ao que importa:

 

No ano de 1578 o rei português Dom Sebastião partiu para terras de África, onde queria lutar pela Cristandade. Foram muitíssimos aqueles que o tentaram dissuadir, inclusive quem mais teria a ganhar com a sua morte, mas não conseguiram fazê-lo. As crónicas da época representam-no como um monarca profundamente imprudente, que até tentou liderar pessoalmente os combates no campo de batalha. Falando-se da Batalha de Alcácer Quibir, foram vários os nobres que o viram em combate, mas ás tantas todos eles deixaram de o ver. Isto levanta três grandes possibilidades – ou ele morreu, ou escapou da batalha, ou foi capturado. A terceira opção parece improvável, porque diversos nobres o ouviram a dizer que preferia morrer a sofrer o triste destino da captura, pelo que sobram as duas restantes… e como pelo menos uma pessoa afirmou ter visto o corpo do rei morto, já despojado do seu equipamento guerreiro e com algumas feridas, faz sentido que o monarca tenha morrido! Mas, infelizmente, demorou algum tempo até que outros o pudessem tentar identificar, e nessa altura o corpo já estava tão degradado que era difícil ter a certeza absoluta de quem ele era. Mas, mais uma vez, visto que pelo menos uma pessoa já o tinha identificado, acreditou-se que o corpo recuperado, aquele que ainda hoje está no túmulo do Mosteiro dos Jerónimos, era o do monarca desaparecido.

O Dom Sebastião e o seu Sebastianismo

Mas… depois, começaram a surgir rumores de que o rei tinha escapado da batalha e estava vivo. Maluquices, pensaríamos, até terem aparecido três homens que afirmavam ser o rei retornado de terras de África. Mais uma vez, pareceria completamente incrível, mas nos últimos anos desse século XVI foi encontrado no Mosteiro de Alcobaça um documento inquietante. Já cá falámos dele antes, o chamado Juramento de Ourique, mas entre as suas linhas foi encontrada uma informação que era desconhecida até então. Segundo ela, na Batalha de Ourique foi feita uma profecia a Dom Afonso Henriques com as seguintes palavras:

(…) És amado do Senhor, porque sobre ti e sobre os teus descendentes depois de ti, Ele tem posto os olhos de sua misericórdia até à décima sexta geração, na qual se diminuirá a descendência, mas na mesma assim diminuída, o mesmo Senhor tornará a pôr os olhos e verá. (…)

É provável que se tenha tratado de uma mera falsificação documental, mas a acreditar-se na estranha ideia, D. Sebastião fazia parte dessa tal décima sexta geração – e se o rei tivesse pura e simplesmente falecido, a regeneração da monarquia portuguesa não poderia cumprir-se. O que, muito naturalmente, só podia indicar que ele ainda estava vivo… e assim parece ter nascido a principal ideia por detrás da origem do Sebastianismo!

 

Mas a história ainda não fica por aqui… alguns anos mais tarde, um tal Dom João de Castro, neto do nobre homónimo que ficou famoso pelas suas barbas, veio a conhecer um homem encontrado em Veneza que podia ser o monarca retornado. Parecia sê-lo e até tinha uma história para o comprovar, em que supostamente viajou “encoberto” pelo mundo fora durante 20 anos (e daí o seu futuro título de “Rei Encoberto“), lamentando o seu destino em Alcácer Quibir e procurando redenção pelas suas acções imprudentes. Assim, para trazer à luz do dia esta suposta verdade, esse tal João de Castro escreveu um primeiro livro sobre o tema – o Discurso da vida do sempre bem vindo, e apparecido Rey Dom Sebastião nosso senhor o Encuberto desde o seu nascimento até o presente: feito, e dirigido por D. João de Castro aos tres Estados do Reyno de Portugal: comvem a saber ao da Nobreza, ao da Clerezia, e ao do povo a que já cá aludimos anteriormente – a que se seguiram diversas espécies de sequelas em que defendeu sempre a ideia de que Dom Sebastião ainda continuava vivo e iria voltar um dia!

Marco Tulio Catizone, uma das personagens da origem do Sebastianismo

Mas… pelo menos essa história veneziana era falsa. Não era o monarca português retornado de longas viagens, mas um tal Marco Tulio Catizone, cidadão italiano, que em virtude das suas intrujices acabou por ser executado em 1603. Não é fácil saber se a imagem acima é fiel – provém de um livro publicado em 1728 – mas podemos frisar que quem o viu pessoalmente o considerou muitíssimo semelhante ao nosso rei, o que poderá ter ajudado em toda esta ideia… ainda assim, falecido este possível Sebastião, o Sebastianismo não morreu por completo, mas reaproveitando a ideia da profecia, de que o rei não podia estar morto, a crença foi sofrendo várias metamorfoses místicas, como a da presença do monarca na chamada Ilha Encoberta, mas essas já são histórias que têm de ficar para outro dia…

 

Em suma, qual é essa verdadeira origem do Sebastianismo? De forma breve, esta crença parece ter nascido da associação de três grandes elementos. Primeiro, o facto de Dom Sebastião ter desaparecido em combate, sem que ninguém o tenha visto morrer e sem que existissem múltiplas confirmações da identidade do seu cadáver. Segundo, a posterior “descoberta” de um documento “histórico” alcobacense contendo uma profecia segundo a qual algo de negativo ia acontecer ao nosso décimo sexto monarca. E, em terceiro lugar, o reaparecimento de supostos “Sebastiões”, que sempre se provaram falsos mas que foram mantendo na cabeça do povo a ideia de que o rei desaparecido iria voltar um dia.

 

Mas… para terminar, será que este nosso famoso rei morreu na Batalha de Alcácer Quibir ou ainda sobreviveu por alguns anos após o fatídico dia? A verdade puramente factual é que ninguém o sabe, e daí toda esta origem do Sebastianismo. Si vera est fama os seus restos mortais estão no Mosteiro dos Jerónimos, mas em caso contrário, se o que se diz é a mais pura ficção e nada mais, ninguém parece ter conhecimento do que aconteceu verdadeiramente ao décimo sexto dos monarcas de Portugal…

A lenda ucraniana da Aranha de Natal

Na nossa cultura ibérica pode parecer estranho considerar as aranhas como animais particularmente associados ao período do Natal, mas em países do leste europeu, como a Ucrânia, existe uma certa tradição de decorar as Árvores de Natal com alguns acessórios alusivos a este animal ou às teias que ele tece. A associação (nacional) da aranha à sorte e ao dinheiro já cá foi explicada antes, mas de onde vem esta outra ideia, ligando-as ao período do ano por que agora passamos?

Um exemplo de decoração de Aranha de Natal

Segundo nos foi possível apurar, a razão original por detrás da criação destas decorações parece ter-se perdido com o tempo, mas existem algumas histórias populares no leste da Europa que tentam explicar o porquê de elas existirem. Encontrámos várias, algumas delas com apenas algumas ligeiras variações, mas deixamos aqui as duas que nos pareceram mais dignas de nota.

 

A primeira delas fala de um casal muito pobre. Um dia, encontraram uma árvore de Natal a crescer próxima da sua porta de casa e ficaram muito felizes com a ocorrência. Depois, porém, aperceberam-se que não tinham qualquer forma de a decorar devidamente. Ficaram tristes. Então, no dia seguinte, quando acordaram viram a sua árvore coberta por um leve manto branco, as teias de um conjunto de aranhas que tinham passado pelo local durante a noite. E, se isto não parecer miraculoso o suficiente, quando o casal se aproximou do local notou que estas não eram teias normais, mas sim feitas de ouro e prata, num milage que lhes possibilitou não mais voltar a passar fome!

Uma outra fala-nos de um casa que foi limpa uns dias antes do Natal. Fugindo dos ocupantes humanos, as aranhas que habitavam no local decidiram refugiar-se no sótão, mas ficaram curiosas sobre como a árvore típica desta época estava a ser decorada. Então, a 25 de Dezembro passaram por baixo de uma porta, andaram por toda a casa, foram à sala ver as decorações, e pelos locais em que foram passando deixaram pequenas teias reluzentes, que a magia própria da época transformou em prata, numa espécie de prenda da natureza para quem aí vivia.

 

Não é obrigatório que estas decorações de Aranha de Natal sejam verdadeiramente de prata, como as histórias até poderiam indicar, mas elas tendem a ser reluzentes, como muitas outras associadas a esta época. E, por isso, mesmo que já não se saiba a verdadeira origem por detrás de toda esta tradição do leste europeu, histórias como as acima tentam dar-nos uma espécie de explicação para a sua existência, mesmo que seja ficcional e pareça tão diferente das tradições que temos em nossas casas, tanto em Portugal como no Brasil…