A lenda do Peixe-Ilha

É provável que hoje já poucos conheçam o Peixe-Ilha, mas em outros tempos ele já foi uma das mais famosas criaturas aquáticas do espaço europeu. Na verdade, face ao tema quase que apetece dizer que uma aventura que se prezasse e na qual os heróis passassem por uma viagem marítima tinha de incluir pelo menos um pequeno episódio em que esta criatura intervém (ver, por exemplo, a Viagem de São Brandão), sempre em circunstâncias muito semelhantes – os viajantes param numa determinada ilha, acendem uma fogueira por lá, tentam passar a noite no local, sentem uma espécie de tremor de terra, apercebem que não estão numa ilha e vêem-se forçados a escapar rapidamente para o barco que os transportou até ao local. Escapam sempre com vida, mas podem perder alguns companheiros nesta breve aventura.

Um Peixe-Ilha num bestiário do século XV

Que estranho peixe era esse, que tanto parecia incomodar a fantasia dos homens nas suas viagens marítimas? Na altura, tal como hoje, foram-lhe sendo dados os mais diversos nomes e formas, mas nos nossos dias acredita-se que a inspiração por detrás da estranha criatura eram as baleias. Quem já as viu com os seus próprios olhos terá alguma dificuldade em acreditar, mas deve ser esclarecido que estas criaturas eram, muito provavelmente, uma mistura entre facto e ficção. Se, por exemplo, na imagem acima a criatura se assemelha a uma sardinha gigante – e que petisco que se tornaria hoje em dia! – o elemento mais comum nas representações deste Peixe-Ilha parece ser essa paragem de um barco na sua parte superior, com ou sem uma fogueira no local. A forma da própria criatura, essa, varia demasiado, tal como o nome que lhe vai sendo dado nas diversas fontes (Aspidochelone, Jasconius, etc.), razão pela qual sempre preferimos referir-nos a esta criatura por aquilo que ela é, um estranho misto de animal e de ilha.

 

Hoje, fruto das muitas descobertas que foram sendo realizadas ao longo dos séculos, já ninguém parece mesmo acreditar na existência de uma criatura como esta, mas ela pode continuar a ser vista, de uma forma mais rara do que antes, em alguns trabalhos de ficção – terá sido ela a responsável por engolir o Pinóquio, ou por um dos episódios das aventuras do Barão Munchausen? Pelo menos terá inspirado sequências como essas, mas certamente que já não é a mesma criatura de outros tempos, aquele Peixe-Ilha que parecia ser tão temido pelos navegadores, que entre ilhas encobertas e paraísos redescobertos nunca sabiam muito bem o que poderiam vir a encontrar nas suas viagens marítimas…

O mito romano de Perimele

O mito de Perimele é um de muitos mencionados nas obras poéticas de Ovídio. Ele fala brevemente desta figura nas suas conhecidas Metamorfoses, mas talvez seja importante começar por frisar que não parece ser um mito dos Gregos – que até conheciam outras figuras com este nome, mas aparentemente não esta… – mas sim possivelmente uma invenção, ou uma readaptação, ovidiana.

O mito romano de Perimele

Essencialmente, sobre a mais notável de diversas figuras chamadas Perimele, pode dizer-se que foi uma das paixões do deus-rio Aqueloo. Este seduziu a jovem, amou-a e acabou por engravidá-la. Mas, quando o pai da jovem começou a notar a sua protuberante barriga, apercebeu-se do que tinha acontecido e decidiu que não tinha qualquer outro remédio excepto matá-la. Para tal, decidiu atirá-la de um penhasco local, mas quando Aqueloo se apercebeu do que ia tomar lugar com a sua antiga amada, falou com o deus Neptuno, rei dos mares, que em vez de deixar Perimele afogar-se a transformou numa ilha, uma das várias que compõem o arquipélago grego que é o chamado das “Equinadas”.

 

Não conseguimos descobrir o seu nome actual, que parece ter sido alterado ao longo do tempo, mas este é um simples mito de uma metamorfose, entre muitos outros que se foram tornando populares através do poeta latino, mas que não parecem ter qualquer correspondência directa nos mitos dos Gregos. Ou, se ela existia, parece ter sido perdida ao longo do tempo, já que não conseguimos encontrar qualquer referência directa a uma figura com este nome que corresponda à apresentada nos versos de Ovídio. E, em temas como estes, face ao facto do mesmo também acontecer com alguns outros mitos presentes nos poemas ovidianos (e.g. o caso do Ofiotauro, entre muitos outros), essa ausência pode ser muito conclusiva!

Besta negra, origem e significado (e a Besta de Gévaudan)

Falando-se sobre a origem da expressão besta negra, parece fazer todo o sentido uni-la à francesa Besta de Gévaudan. Mas, até para que se possa explicar essa possível relação entre ambas, comece-se pela parte mais fácil, a da origem e significado da expressão, tal como ainda continuamos a utilizá-la no nosso vocabulário actual.

 

A expressão “besta negra” parece ter nascido no século XVIII em França, com uma das primeiras alusões anglófonas a referir uma bête noire, demonstrando uma clara origem da designação no país dos seus vizinhos europeus. Quanto ao seu significado actual, uma de várias definições online que fomos encontrando refere-se a ela como um intrigante “adversário pelo qual se tem especial ódio”. Juntando-se esses dois factos, ou seja, a origem francesa no século XVIII e o significado por detrás da própria expressão, podemos ser levados aos verdadeiros factos por detrás da sua obscura origem. Conte-se, portanto, uma história cujo tempo fez virar lenda.

Besta de Gévaudan

Entre os anos de 1763 e 1767 alguns territórios em França foram atacados por uma criatura misteriosa que ficou conhecida sob o nome de Besta de Gévaudan, em função da área em que atacava e que hoje é conhecida como Lozère*. Diz-se que essa criatura, ou criaturas, mataram muita gente, com os valores numéricos registados a variarem bastante, mas ás tantas veio a acreditar-se que o monstro foi morto em 1765, ao ponto de ele ter sido empalhado e levado para a corte francesa, onde se determinou que media pelo menos 1.7m de comprimento.

Mas, muito infelizmente, depois os ataques continuaram, até que em 1767 um tal Jean Chastel, um agricultor da zona de Lozère, matou uma segunda criatura e os ataques cessaram por completo. Também esta segunda figura animalesca foi empalhada, e posteriormente nasceu a ideia segundo a qual o monstro não era pura e simplesmente um animal menos invulgar, mas em alternativa um loup-garou, aquele ser a quem nos nossos dias é dado o nome de lobisomem. Terá sido verdade? Será que eles até existem? As fontes existentes admitem que ambos os animais eram lobos de um tamanho muito grande, mas o grande problema em conseguir-se descobrir muito mais é o facto de ao longo do tempo terem sido adicionados novos elementos a toda a história, dando à realidade contornos mais lendários e poluindo o relato original ao ponto de, em determinada altura, até se ter vindo a acreditar que só foi possível matar a chamada Besta de Gévaudan com uma bala de prata, um preciosismo agora comum na nossa cultura ocidental.

 

No seguimento desta história, podia fazer sentido ligar-se a criatura morta por Jean Chastel em 1767 à proverbial besta negra presente na expressão dos nossos dias. Não conseguimos descobrir se as suas versões empalhadas ainda nos chegaram até hoje, mas pelo menos esta foi a mais famosa das criaturas francesas num século em que parece ter nascido a expressão. Poderia até ser a mais pura das coincidências, admita-se que sim, mas dada a informação de que ambas as criaturas tinham pêlo de cor negra e de que elas podiam, na cultura da época, ser chamadas “bestas” (por se tratarem de animais selvagens), faz mesmo todo o sentido identificar esta tal Besta de Gévaudan como a criatura a que ainda hoje se alude na própria expressão de génese francesa.

 

*- Curiosamente, o nome desta Besta de Gévaudan parece ter sofrido um número enorme de erros no nosso português – Geuvadan, Gevaldan, Gevoudan, Gevudan, Gevaudam, Geovadan, Gevodam, Gevauda, ou Geuvodan, entre muitos outros, possivelmente nascidos por parte de pessoas que já não sabem, ou apenas desconhecem, o nome dessa área histórica de França!

Qual o personagem mais velho da Disney?

Começamos este ano de 2023 com uma questão curiosa, a da identidade do personagem mais velho da Disney. Quem será ele? O Rato Mickey? A Minnie? O Pato Donald? Alguma outra criação de Walt Disney  entretanto totalmente esquecida? O grande problema em responder a essa questão é  o facto de ela passar por definir em que consiste uma personagem puramente atribuída à Disney.

Personagem mais velho da Disney

De forma muito simplificada, antes de se focar nos seus agora-famosos desenhos animados, Walt Disney parece ter feito diversos pequenos filmes. Mais tarde, dedicou-se a diversas produções nas quais se misturava imagem real e desenhos animados, como a seguinte, que aqui reproduzimos a título de curiosidade:

Este pequeno desenho animado é de 1925 – tem quase 100 anos (!) – e a sua personagem principal era uma menina chamada Alice, derivada da famosa personagem de Lewis Carroll. Poderá ter sido ela a personagem mais velha da Disney, ou a primeira grande heroína criada por Walt, mas uns poucos anos depois, em 1928, foi produzido o primeiro de todos os desenhos animados da Disney – Oswald the Lucky Rabbit, ou Oswaldo o Coelho Sortudo em Português, se preferirem – com um coelho que parece ter sido quase esquecido ao longo do tempo, para apenas ressurgir há uns poucos anos atrás, num jogo de consolas. No mesmo ano apareceu também o primeiro desenho animado do Mickey, que, dada a enorme fama da sua sequência inicial, merece também ser reproduzido aqui:

Esta segunda sequência poderia dar a entender, muito falsamente, que o personagem mais velho da Disney é mesmo o Rato Mickey, ou talvez aquele tal Oswaldo também criado no mesmo ano, mas… quem prestar atenção às duas sequências animadas que apresentámos acima poderá notar que existe uma personagem significativa comum a ambos. Ela parece ter sido readaptada para este segundo filme, quando originalmente era um urso e depois passou a ser uma espécie de gato, mas… ambas contêm uma figura cujo nome mais conhecido é Peg-Leg Pete. O que, para quem conhecer pouco dos nomes das personagens da Disney na sua versão inglesa, corresponde ao “nosso” João Bafo de Onça!

 

O que quer então isto dizer? Quem é, na verdade, o personagem mais velho da Disney? O tema é bastante discutível, mas se nos quisermos focar exclusivamente em personagens originais e animadas, a mais antiga de aquelas que continuam a ser populares nos nossos dias de agora não é nem o Oswaldo, nem o Mickey (como poderíamos pensar, dada até a sua enorme fama dentro da empresa), mas sim um vilão, o João Bafo de Onça, que apesar de ter sofrido diversas alterações significativas ao longo do tempo, já existia em 1925, três anos antes da criação daquele que é o mais famoso de todos os ratos animados!

A lenda de Tannhauser

Entre as muitas lendas alemãs que são pouco conhecidas em Portugal conta-se a de Tannhauser. Talvez já tenham ouvido falar dela através da ópera de Wagner, autor que se focou bastante em temas alemães – recordem-se os casos de Lohengrin, do Holandês Voador e de Siegfried, entre outros – mas salvo essa grande referência, esta parece ser uma história que está quase esquecida nas culturas lusófonas. Por isso, para terminar este ano de 2022, vale a pena recordá-la em língua portuguesa.

A lenda de Tannhauser

Existiram pelo menos dois Tannhauser na cultura germânica. Um deles foi um poeta medieval, que terá vivido em meados do século XIII, enquanto que o outro foi um cavaleiro de que nos fala esta lenda. Há quem diga que poderão ter sido um mesmo, que o poeta terá escrito tanto sobre uma dada deusa que isso acabou por inspirar a história de hoje, mas confesse-se que não conseguimos encontrar uma cópia traduzida das suas obras. Por isso, antes da própria lenda deste herói, achámos que devia ser feita esta pequena nota. Mas indo então ao que interessa.

 

Algures em terras da Alemanha ou da Suíça existe um local misterioso que ficou conhecido sob o nome de Venusberg (i.e. “montanha de Vénus”). Conta-se que no interior desse espaço vivia Vénus, a deusa dos Romanos, juntamente com as suas damas de companhia, em prazeres eternos… não se sabe bem quais, mas pelo contexto depreende-se, no mínimo dos mínimos, que passassem pelos prazeres da carne.

Agora, de alguma forma misteriosa o cavaleiro Tannhauser encontrou a entrada para este local e passou algum tempo a viver no reino da deusa. Depois, um dia – talvez após um só ano, talvez após sete – ele arrependeu-se desse tempo vivido em pecado e decidiu procurar a sua redenção. Foi falar com vários padres, mas todos eles lhe disseram que, face ao número enormíssimo de pecados que tinha cometido, ele não podia ser perdoado. Com dificuldade em aceitar a ideia, o herói procurou o Papa Urbano IV (o que permite datar a lenda no século XIII) e pediu-lhe ajuda… mas também esta figura religiosa recusou fazê-lo, face à enormidade dos pecados, tendo dito algo como “tu só poderás ser perdoado no dia em que o meu bordão florescer.” E assim, com a maior das tristezas, o herói decidiu que só tinha um caminho a seguir, que era voltar para Venusberg

Passaram três dias e o bordão de Urbano IV começou miraculosamente a florescer. O papa, incrédulo com a situação, mandou muitos dos seus subalternos procurarem este cavaleiro, para lhe dizerem que ele estava perdoado, mas já não o conseguiram encontrar. E então, o herói ficou a viver em Venusberg para o resto da sua vida, tendo sido incapaz de obter perdão entre os vivos… mas conta-se que quem passa no local ainda hoje consegue ouvir, no interior da terra, o som dos muitos prazeres que a deusa Vénus tem com este seu grande amante…

 

É muito curiosa, esta presença da deusa romana do amor numa lenda medieval, mas recorde-se que não é um caso único. Diana, deusa da caça, aparecia muitas vezes ligada à feitiçaria e as nossas famosas fadas parecem ter evoluído de antigas divindades, sendo provável que muitas outras áreas da crença religiosa medieval tivessem ligações, hoje já quase perdidas, aos antigos deuses. O que esta lenda faz, nesse sentido, é diz que pelo menos uma delas vivia no interior da terra, sendo de alguma forma possível aos mortais acederem ao local e partilharem aqueles encantos de Vénus a que os poetas faziam referência muitos séculos antes.

Ao mesmo tempo, é igualmente notável a forma como esta lenda de Tannhauser termina. Não tem aquele final feliz a que as histórias dos nossos dias já tanto nos habituaram. Será uma crítica à Igreja, essa existência de pecados que nem o suposto representante de Jesus Cristo na terra pode perdoar? Ou essa inferência não era pretendida na versão original? Talvez, em momentos como estes, seja melhor dizer que lendas como esta oferecem muito espaço para debates entre quem as vai lendo.

 

Mas, para terminar, aqui fica a ópera de Wagner que partilha este nome. A sua trama não é bem a da lenda medieval, ela sofreu diversas adaptações, mas esta versão tem legendas em Inglês e poderá servir para quem quiser conhecer uma ópera.