O mito de Bhasmasura

A história de Bhasmasura merece aqui ser contada, talvez mais que tudo, pelo facto de exemplificar aquele carácter quase humano, para nós inesperadamente falível, dos deuses do Hinduísmo, que já cá apontámos quando falámos da lenda de Kurma e o Oceano de Leite, que é muito famosa na Índia. Talvez este outro mito, a que dedicamos as linhas de hoje, não o seja tão popular, mas tem um elemento tão inesperado quanto particularmente belo, como iremos mostrar mais à frente.

Bhasmasura e Mohini

Conta-se que Bhasmasura era um grande devoto do deus Shiva, procurando agradar-lhe com a realização constante de inúmeras meditações e de inumeráveis bons actos. Então, um dia o deus decidiu compensá-lo com a oferta de um desejo. O devoto, contente com a inesperada proposta, pediu para obter a capacidade de destruir, transformando em cinzas, todos aqueles a quem tocasse na cabeça, o que lhe foi rapidamente concedido.

Porém, depois, por uma qualquer razão que até parece variar mediante a versão da história, este homem quis então tocar na cabeça de Shiva. Talvez quisesse apenas testar o seu poder recém adquirido, talvez quisesse conhecer os limites do poder dos deuses, talvez estivesse apaixonado pela esposa de Shiva, … mas a verdade é que, qualquer que tenha sido a razão por detrás do seu acto, desejou fazê-lo! Assustado com a possível destruição (?), o deus que este homem tanto tinha admirado procurou então a companhia de Vishnu e pediu-lhe ajuda. Assim, para auxiliar o seu companheiro, este último deus converteu-se em Mohini (um avatar feminino de que já cá falámos antes) e de alguma forma seduziu Bhasmasura – na que parece ser a versão mais famosa do episódio, eles até dançam juntos – levando-o a colocar a mão na própria cabeça, conduzindo-o assim à sua inevitável destruição.

 

É, admita-se, uma história relativamente simples, fácil de resumir, mas nem por isso menos bonita. Nela, talvez o momento mais digno de nota seja até o desse curioso confronto de Vishnu, sob a forma de Mohini, com Bhasmasura, como pode ser visto neste belíssimo vídeo provindo de terras da Índia, e que até resume toda a história de hoje.

Bastante bonito, não é?

A lenda do Bom Jesus de Matosinhos

Terminam hoje as festas anuais do Bom Jesus de Matosinhos, com a sua famosa imagem de Cristo que, segundo a lenda, data do primeiro século da nossa era. Agora, se são muitos os nomes que lhe foram sendo associados ao longo dos séculos (como Senhor de Matosinhos), talvez poucos sejam mais famosos que o original, o “de Bouças”, em virtude de um concelho, hoje já desaparecido, na zona do Porto em que existiu um mosteiro em que esta famosa imagem foi guardada durante séculos, então sob o nome de São Salvador de Bouças. Conte-se, então, a história desta representação de Cristo, tão famosa que até é venerada em Congonhas, nas terras do Brasil!

O Bom Jesus de Matosinhos

Na fotografia acima pode ser visto o chamado Bom Jesus de Matosinhos. É uma representação um tanto ou quanto estranha, como é fácil constatar. Se as imagens que o acompanham são muito mais recentes (se a memória não nos engana terão cerca de quatro séculos), a principal, a do próprio Jesus Cristo, diz-se que data do primeiro século da nossa era. Isto porque, seguindo a lenda, ela foi feita pelas mãos de Nicodemos, um contemporâneo de Cristo que foi o responsável pela sepultura do filho de Deus. Depois, em tempo de perseguição e segundo uma versão da lenda, ela foi atirada aos mares, onde viria a dar à costa nesta cidade do norte de Portugal, dizendo parte da história que isso aconteceu por volta do dia 3 de Maio do ano 124. Na altura faltava-lhe um braço, o esquerdo, que foi encontrado na mesma praia a 25 de Maio de 174. Reconstruída então a totalidade da representação original, diz-se depois que a imagem foi escondida no tempo dos ataques muçulmanos, só tendo sido recuperada no século de Afonso Henriques, e assim se pode resumir o cerne de toda a sua história.

 

Mas… quem tiver mais interesse nestes temas poderá fazer-se uma questão bastante óbvia – como sabemos tudo isto? Que provas há de todas estas coisas? A verdade é que…. nenhumas, ou quase nenhumas, porque em dada altura os registos da chamada Igreja de Bouças foram destruídos num incêndio, e então nada de muito real e comprovável se pode afirmar sobre esta misteriosa imagem do Bom Jesus de Matosinhos. É provável que tudo isto se trate de pura lenda e nada mais, até porque Alexandre Manuel Viegas Maniés, na sua tese de mestrado O Crucificado Bom Jesus de Matosinhos: Estudo técnico – conservação e restauro de uma escultura medieval, demonstra um conjunto provas que atestam que a imagem foi produzida após o século VII da nossa era, sendo por isso medieval. A cruz é mais tardia.

 

Mas, por um momento esqueça-se isso. Suponha-se que apesar da imagem parecer um tanto ou quanto estranha (o que até pode atestar, de forma indirecta, a sua idade significativa), data mesmo do primeiro século da nossa era. Se assim o fosse, como explicar que a cruz, e Cristo crucificado, só se tenham tornado símbolos cristãos vários séculos mais tarde? Ou como explicar que, também nesse primeiro século da nossa era, já existissem crentes dessa nova religião em Portugal? Surpresa, surpresa (!), é também para explicar isso que surge uma outra lenda associada a esta!

 

Matosinhos e a Origem da Vieira de Santiago

Conta-se então que em meados do século I vivia na zona que é hoje Matosinhos um tal Gaio ou Caio Cárpio. Enquanto festejava o seu casamento numa zona próxima da praia avistou no mar uma estranha barca. Tentando aproximar-se dela, reparou que o seu cavalo conseguia correr miraculosamente sobre as águas, chegando até à embarcação que transportava o corpo de Santiago (famosa de uma lenda do norte de Espanha que já cá contámos antes). Ficou maravilhado com o prodígio, claro está, convertendo-se posteriormente ao Cristianismo, mas ainda nessa altura – presume-se que quando estava a voltar do local de barca… – caiu às águas e saiu delas “matizado” de vieiras (ou seja, coberto delas!), levando não só ao (então futuro) nome da cidade de Matosinhos, mas também à suposta introdução da religião cristã em Portugal, e ainda à subsequente associação dos famosos moluscos com as terras de Compostela!

 

 

Claro que também tudo isto é pura lenda, da qual não existem quaisquer provas reais, mas falar-se do Bom Jesus de Matosinhos é, talvez mais que tudo, falar-se de uma constelação de lendas que foram sendo contadas, recontadas e adaptadas ao longo dos séculos, quase sempre sem provas reais. Por exemplo, os mais atentos poderão ter notado que se passaram cerca de 50 anos entre o momento em que foi encontrada a imagem de Cristo e a recuperação do seu braço; como se soube disto, tantos séculos mais tarde? Um autor da primeira metade do século XVIII, António Cerqueira Pinto, explicou-o dizendo que foram encontradas nas antigas ruínas de São Salvador de Bouças um monumento com dois números inscritos, um 124 bem visível e um 50 quase apagado… e que apesar da ausência de qualquer contexto para a numeração, se tomou então estes números como os do ano descoberta da representação cristã e do respectivo braço, o que soa quase a uma absurda brincadeira!

 

Hoje, fruto de estudos como os de Alexandre Manuel Viegas Maniés, sabe-se que esta representação de Jesus Cristo é medieval, precedendo em alguns séculos a cruz que ainda a acompanha. Como tal, não pode ser do primeiro século da nossa era, não pode ter sido feita por Nicodemos, ou pelo menos não sem que se tentem inventar todo um conjunto de absurdos para, na senda do tal António Cerqueira Pinto, se tentar descartar – ou evitar miraculosamente – as provas que agora temos. Em pior caso, pode sempre recorrer-se à infame ideia de “o Diabo falsificou todos os testes e provas para iludir os crentes”, o que é sempre muito triste…

Mas, mesmo que as histórias de hoje se tratem de meras lendas, continuam a ser importantes na cultura portuguesa, sendo celebradas (quase) todos os anos nos locais em que se crê que aconteceram. E isso não é mau, desde que se saiba reconhecer onde termina a pura lenda e começa o culto religioso propriamente dito. Talvez seja a essa reflexão, mais que tudo o resto, que nos dias de hoje nos convida este Bom Jesus de Matosinhos, aquele antigo São Salvador de Bouças que já era bem conhecido nos longínquos tempos do nosso primeiro rei…

O que são os santos populares?

Esta altura do ano é famosa em Portugal pela celebração dos chamados santos populares. Estamos todos muito habituados às sardinhas, aos manjericos, às marchas lisboetas, a uma ou outra celebração popular da nossa respectiva região, mas… se toda a gente parece saber, mais ou menos bem, em que consistem as celebrações, afinal de contas quem são essas figuras, e porque são elas celebradas de uma forma tão grande? É desse tema que aqui falamos hoje, até porque nos fizeram essas mesmas perguntas há umas horas.

O que são os Santos Populares?

Os chamados “santos populares” são, como até pode ser visto na imagem acima, Santo António de Lisboa (identificável pelo penteado e pelo Menino Jesus ao colo), São João (aqui identificável pela face jovem e pela ovelha, símbolo do rebanho de Cristo) e São Pedro (sempre fácil de identificar por ser representado com as chaves do Céu). São todos os três figuras bastante conhecidas no nosso país – uma pessoa comum poderá nem saber identificar, por exemplo, uma imagem como Santa Iria, mas muito poucos são as pessoas ignorantes sobre a identidade de aquele santo de careca ao léu e menino ao colo – mas o que faz deles, nessa sequência, três figuras tão conhecidas e tão dignas de serem festejadas com tão grandes festas?

 

A resposta, curiosamente, vem das próprias lendas associadas pelos Portugueses a cada uma destas três figuras ao longo dos séculos. Se figuras como, por exemplo, Santo Ovídio ou São Torpes são muito conhecidas em determinadas regiões do país, já estes três são-no por todo o país, mas com alguns aglomerados de maior popularidade em alguns locais. Progressivamente, isso contribuiu para os Antigos irem contando histórias sobre eles, que escapam completamente ao espírito das figuras originais, sendo uma espécie de relatos apócrifos que juntam (muita) ficção e (quase nenhuma) realidade. Recordem-se, a título de ilustração deste ponto, histórias como a da Festa de Santo António (em que o santo é reduzido a um jovem milagroso que, como qualquer outro, queria apenas ir a uma festa); a popularidade do nome João em Portugal; e as muitas lendas nacionais que colocam Jesus e Pedro como viajantes que se envolvem num qualquer problema. Estes não são casos únicos – relembrem-se, igualmente, as histórias de Nossa Senhora e o Linguado ou do devoto a São José – mas esta tríade é composta por um conjunto de três figuras que ao longo do tempo se tornaram muitíssimo populares entre o nosso povo e, como tal, passaram as ser chamados santos populares – isto, não só por serem do povo, mas igualmente em virtude da sua grande estima pública.

Uma festa dos Santos Populares

Poderia, no entanto, ser-nos colocada uma questão adicional – porquê estes três? Porque não outros santos, como o São Vicente de Afonso Henriques, ou aquela Nossa Senhora das centenas de nomes? Claro que esta última está num patamar completamente diferente, imediatamente abaixo da Santíssima Trindade, não sendo sequer comparável a figuras definíveis como “meros santos”, mas em relação às restantes possibilidades não é fácil perceber-se o porquê de terem sido estes três, em detrimento de um grupo de quaisquer outros, que se foram tornando populares. Por isso, se nos fosse feita aquela tal pergunta, a resposta seria, nada mais, nada menos, que algo como “não sabemos, apenas foram crescendo em popularidade ao longo do tempo, tal como em outros países os santos contemplados com essa elevação popular foram outros.”

 

Qualquer que tenha sido a razão, a elevação de aqueles três aos santos populares por definição teve e tem alguns aspectos um tanto ou quanto estranhos, igualmente difíceis de explicar. Por exemplo, quando falamos de Mouras Encantadas, muitas das suas lendas dizem que elas tendiam a surgir de forma mais frequente na Noite de São João. Porquê essa, e não uma outra? Em termos de certa brincadeira, poderíamos teorizar que as pessoas ficavam bêbadas e imaginavam coisas que não estavam mesmo lá, mas deixando de lado essa jocosa possibilidade, não é fácil compreender-se o porquê da associação da noite desse santo – a de 23 de Junho – com esse misticismo bem nacional.

 

Enfim, as linhas de hoje já vão longas. Volte-se à identidade dos santos populares e o porquê de eles serem celebrados como o são hoje em dia. Em relação ao primeiro ponto, eles tratam-se de Santo António de Lisboa, São João e São Pedro, e – para avançarmos para o segundo – são hoje celebrados de uma forma muito específica por terem sido, ao longo do tempo e por razões que não são claras, escolhidos pelo povo nacional como os maiores representantes da santidade no nosso país.

O mito de Ceneia (e Ceneu)

O mito grego de Ceneia, posteriormente conhecida como Ceneu, talvez pudesse ser considerado menor, não fosse a estranha transformação por que passou a sua personagem principal. É, na verdade, uma das duas(?) figuras da Mitologia Grega que podemos considerar verdadeiramente transexual, por ter nascido com o sexo feminino mas, por razões que iremos abordar já a seguir, ter vindo a falecer como homem (a outra é Tirésias, para quem estiver com essa curiosidade).

O mito de Ceneu, anteriormente Ceneia, em combate com os Centauros

Ceneia era uma mulher muito bonita, tão bela que atraiu a paixão de Poseidon, deus dos mares. Este quis consumar o seu desejo carnal com ela, e ela aceitou essa proposta em troca de um pequeno favor – visto que não queria ter filhos, pediu ao deus que a transformasse num homem invencível na guerra. E assim foi feito, ela transformou-se num poderoso homem chamado Ceneu!

Infelizmente, as versões que nos chegaram deste mito já não nos recontam as aventuras por que o herói depois passou, mas foram pelo menos uma ou duas – se alguns autores o colocam entre os Argonautas, todos parecem concordar que ele foi uma das grandes figuras da batalha dos Centauros contra os Lápitas. Aí, posta a teste a sua famosa invencibilidade, os monstruosos opositores não conseguiram derrotar Ceneu, optando então por atirá-lo ao chão, antes de lhe bater com pedras e árvores, levando-o a ficar aprisionado para toda a eternidade, ou a cair no submundo – uma versão pouco conhecida diz até que esta figura, nascida Ceneia, teve a necessidade de se suicidar, para não passar o resto da sua vida debaixo da terra…

 

Este mito de Ceneia e Ceneu é, portanto, relativamente simples, mas tem um aspecto que até dá muito que pensar. Se, conforme nos dizem as várias histórias que nos chegaram, a heroína fez um pedido pessoal ao deus dos mares, e pelo menos uma fonte literária atesta que esse pedido foi feito “porque ela não queria ter filhos”, o que terá ela pedido a Poseidon nas versões mais antigas do mito? Será que queria ser homem, tinha a intenção de ser invencível na guerra, ou terá sido este último elemento uma espécie de efeito secundário da sua transformação? É uma pergunta à qual as fontes existentes não parecem responder explicitamente, mas Acusilau de Argos, naquela que é das que nos chegaram potencialmente uma das mais antigas representações deste mito, dizia que a jovem se queria transformar num “homem invencível”, sem que seja explicado o intrigante porquê por detrás desse pedido… mistérios dos mitos gregos!

O mito de Jormungandr, a Serpente de Midgard

Se há uns dias nos pediram um mito nórdico, hoje decidimos falar aqui sobre a Serpente de Midgard, também conhecida como Jormungandr, Jormungand ou Midgardsormr. Esses seus nomes significam, respectivamente, algo como “enorme monstro” e “serpente do mundo” (relembre-se que o mundo = Midgard, neste contexto), por razões que se tornarão fáceis de compreender face aos mitos que a envolvem. Não são muito substanciais, mas dada a importância significativa desta figura vale a pena resumi-los por cá.

A genealogia da Serpente de Midgard

Contava-se então que esta Serpente de Midgard, ou Jormungandr, era uma das filhas de Loki, possivelmente um dos mais famosos deuses nórdicos, bem como irmã de Fenrir, a que já cá fizemos alusões antes. Se, hoje em dia, a relação deste deus específico com Thor é bem conhecida, até através de filmes da Marvel que adaptam parte da história de ambos, talvez por aí se consiga compreender a relação muito directa que esta criatura tem com o deus em diversas histórias.

 

Uma primeira história diz que num dado dia Thor foi desafio a levantar um gato. A tarefa poderá parecer-nos muitíssimo simples, a não ser que o felino em questão fosse muito pesado, mas o que ele não sabia é que esse animal era uma versão metamorfoseada da Serpente de Midgard. Assim, só com imensa dificuldade é que consegue levantá-lo um pouquinho do chão – diz a lenda que se tivesse sido capaz de o erguer ainda mais, o próprio universo poderia ter sido destruído!

Jormungand ou Midgardsormr, a Serpente de Midgard

Uma segunda diz-nos que um dia, quando Thor estava a pescar, após vários contratempos o deus atirou um enorme anzol para o mar. Quando sentiu ter apanhado algo e puxou o seu anzol de volta, o deus apercebeu-se então que tinha capturado Jormungandr, que já se preparava para o atacar com o seu veneno mortalíssimo. Pegou no seu famoso martelo para se defender e matar a serpente, mas quem o acompanhava, temendo bastante o que viria a acontecer na sequência desse confronto – e já lá iremos! – limitou-se a cortar a corda que prendia o anzol, repondo a normalidade por detrás de toda a situação. Mas, se essa parte do mito fica por aqui, parece-nos ainda importante frisar que esta trama parece ter sido bastante popular, podendo ser vista representada em monumentos como o que decidimos apresentar acima.

 

Mas a terceira, e sem qualquer dúvida a mais importante de todas as histórias que envolvem esta criatura, é mais inquietante e merece indubitavelmente ser contada na sequência da anterior. Quando o gigantesco acompanhante de Thor cortou a corta que o deus usava para pescar, conforme já contámos, fê-lo por saber de antemão o resultado do confronto entre estes dois grandes opositores. Qual era ele, poderão perguntar… bem, o confronto de este deus das trovoadas com Jormungandr, a Serpente de Midgard, era uma das condições necessárias para a ocorrência do  Ragnarök, o fim do mundo. Para tal tomar lugar, este filho de Odin deveria ferir mortalmente o seu opositor serpentesco, que em troca o envenenaria, num episódio que acabaria por causar a morte de ambos.

 

Mas… porque era então esta figura mitológica nórdica tão importante? Não poderia resumir-se a mais uma criatura entre tantas outras? Qual a ligação entre ela e essa estabilidade do mundo e/ou do universo, a que parecem fazer alusão as histórias acima? Talvez ainda não o tenhamos tornado suficientemente claro para quem não conhecer os mitos originais, mas um dos nomes deste infame animal era Midgardsormr, ou “serpente do mundo”, por se crer que era tão – mas tãooooo! – grande que circundava todo o nosso mundo, chegando depois a morder a sua própria cauda*. Portanto, retirá-la dessa posição, mesmo que pelo mais puro acidente, era muitíssimo perigoso…

 

Sim, esta Serpente de Midgard, também conhecida como Jormungandr ou Midgardsormr, até poderia mesmo ter sido apenas mais uma criatura mitológica como tantas outras, mas foi essa sua ligação ao Ragnarök, a esse previsível fim do mundo nos mitos do norte da Europa, que contribuiu pelo menos em parte para a sua imortalização na cultura ocidental. Existiam muitas outras pré-condições para a eventual ocorrência desse derradeiro evento (e.g. a morte de Baldur é provavelmente uma das mais famosas), pelo que certamente voltaremos a todo esse tema no futuro…

 

 

*- Para quem estiver a pensar nisso, esta famosa imagem, muito conhecida entre nós como um ouroboros, não é originária dos mitos nórdicos, até porque também pode ser encontrada recorrentemente em muitas outras culturas pelo mundo fora. Mas esse é um tema fascinante, pelo que prometemos voltar a ele um outro dia!