O que é a Mantícora?

Hoje, falar de uma criatura tão estranha como a Mantícora – ou Manticore, como outros lhe chamam – é quase imperativamente falar de videojogos. Isto porque, se este não se trata de um animal real, que possa ser encontrado algures no nosso mundo, é curioso aperceber-nos que ele é repetidamente representado de um forma muito consistente, quase como se fosse uma espécie animal que se encontre num qualquer jardim zoológico. Se o mesmo até se passa com outra criaturas lendárias, como o unicórnio ou o hipogrifo, mas é obviamente impossível que alguém as tenha visto, de onde nasceu a ideia horizontal de todos estes estranhos animais?

A origem da Mantícora ou Manticore

Procurar informação sobre a origem da Manticora requer uma espécie de viagem no tempo, até há cerca de 2500 anos atrás. Foi nessa altura que viveu um tal Ctésias de Cnido, que escreveu duas outrora-famosas obras sobre a Pérsia e a Índia. Elas já não nos chegaram numa forma completa, mas Fócio de Constantinopla, no século IX da nossa era, ainda as leu e resumiu parte do seu conteúdo. Nesse seguimento, o que essas duas obras têm digno de nota é que continham um espírito que é quase um elogio indirecto a Heródoto, na medida em que apresentavam tantas e tão grandes falsidades que até a famosa obra do historiador grego – e essa ainda nos chegou – parecia mais digna de crédito.

Seres humanos lendários

Então, entre as muitas falsidades contadas por Ctésias na sua História da Índia, apresentam-se relatos sobre uma imensidão de seres que, hoje, definiríamos como apenas e somente lendários, como os que podem ser vistos na imagem acima. Entre essas muitas figuras contava-se então a Mantícora, a que o autor dá tantos pormenores que poderíamos ser levados a julgar tratar-se de um animal real, com as seguintes características – Cara humana, com orelhas iguais às nossas e olhos azuis; do tamanho de um leão; pele vermelha; três filas de dentes; cauda como a de um escorpião, mas capaz de atirar projécteis mortais; e come humanos e animais.

 

Caso não seja óbvio, esta descrição da Mantícora não corresponde a qualquer animal real, que possa ser encontrado hoje, mas alguns autores dizem que poderá ter nascido de encontros com tigres, que não existiam na Europa mas eram comuns na Índia. Tudo é possível, claro, mas mesmo que ninguém alguma vez tenha visto esta criatura com os seus próprios olhos, ela não foi sendo esquecida – se Ctésias escreveu por volta do século cinco antes de Cristo, os autores que se lhe seguiram, como Plínio o Velho e Cláudio Eliano, continuaram a perpetuar esta história, atribuindo-a quase sempre à obra original de uma forma bastante directa, o que nos permite saber, sem quaisquer dúvidas, de onde conheciam esta criatura.

 

Da obra de Ctésias, a Mantícora – ou, com um nome alternativo que também lhe é dado, a “Martícora” – passou então para um conjunto de obras sobre História Natural, chegando à Idade Média, onde foi incluída em diversos bestiários, como se de um animal completamente real se tratasse. Daí chegou aos nossos dias, onde agora aparece em videojogos, filmes e livros, o que não deixa de ser um percurso ilustre para uma criatura que, na verdade, nunca existiu nem nunca pôde ser vista por ninguém…

A lenda do Barbadão

No norte de Portugal, mais precisamente na zona de Barcelos, pode ser encontrado o chamado Solar dos Pinheiros, em que está representada uma figura muito conhecida sob o nome de Barbadão. Que ela está, de alguma forma, relacionada com o fundador da casa (Pedro Esteves, em 1448), ou com o seu filho deste (Alvaro Pires Pinheiro Lobo, que ergueu as respectivas torres), parece-nos quase óbvio, mas que lenda se esconde neste local?

A lenda do Barbadão e o Palácio dos Pinheiros

Neste caso específico o problema não se prende tanto com encontrar uma lenda associada ao local, uma que possamos recontar aqui, mas com a existência de diversas histórias que lhe estão associadas, sendo difícil saber qual, se alguma, era a original, a “verdadeira”, por detrás da famosa representação. Como tal, contamos aqui duas breves lendas que aparecem associadas ao local, e que parecem contar-se entre as mais famosas.

 

A primeira diz que o homem aqui representado era o fundador desta casa, que queria construir enormes torres no local, nem que para isso tivesse de “empenhar as suas barbas“. Porém, o primeiro Duque de Bragança, Dom Afonso, não permitiu que isso fosse feito, por razões desconhecidas, e então as torres passaram a ter uma representação alusiva à expressão, como que a dizer “eu até teria empenhado as minhas barbas para as ter construído maiores”.

 

Uma segunda diz que o Rei Dom João I se apaixonou por uma Inês Pires [Esteves?], que era desta família, no que poderá ter sido uma de muitas infidelidades do monarca. A relação extraconjugal manchou bastante a honra do pai dela, levando-o a proclamar que, em detrimento de vingar toda a afronta matando o novo monarca, jamais tornaria a cortar as suas barbas, que eram então um símbolo de honra. Depois, o rei lá veio a admitir a relação extraconjugal, e a dar nome ao filho nascido dela, mas o avô da criança jamais tornou a cortar as suas barbas, fruto da promessa que um dia tinha feito, ficando com o nome de Barbadão e tornando-se uma espécie de símbolo que depois viria a ser representado neste local.

 

Não sabemos, repita-se, qual destas duas lendas terá sido a “verdadeira”, aquela que gerou a representação que hoje ainda pode ser vista no Solar dos Pinheiros. Poderá ter sido uma delas, ou o busto poderá ter ido parar ao local por uma qualquer outra razão que o tempo fez esquecer. Porém, o que sabemos é que esta representação de um homem com longas barbas, numa pose em que parece quase querer arrancá-las, ou terá inspirado diversas lendas, ou terá de alguma forma obtido a sua inspiração por elas. É uma de aquelas situações do ovo e da galinha, em que é muito difícil saber-se se a representação veio de alguma lenda do Barbadão ou vice-versa, só restando concluir que existe, sem quaisquer dúvidas, uma relação palpável entre ambas, mesmo que já não se consiga (agora) ter a certeza de qual é ela…

A criação na Mitologia Coreana

Falar sobre a criação na Mitologia Coreana, no seu momento inaugural, é provavelmente um dos desafios mais complexos que já passaram por este espaço. Isto porque, segundo todas as fontes que consultámos e todos os coreanos com que falámos, nos foi dito que nenhuma fonte literária primária antiga fala de qualquer espécie de criação do universo e do nosso mundo (se hoje até existem relatos do episódio, são muito mais recentes e foram criados para colmatar essa falha original). É certo que terá existido uma, potencialmente composta por uma mescla de crenças hindus, budistas e taoistas, mas o grande problema é que nenhum texto que nos chegou preserva essa criação tal como se pode depreender que ela tomou lugar. Em alternativa, o que acontece é que a cronologia mitológica coreana, tal como nos chegou, começa com um conjunto de episódios em que está claro que já existiram várias criações substantivas, mas sobre as quais absolutamente nada nos é dito. Como tal, é com base nesses episódios que são escritas as linhas de hoje.

A criação na Mitologia Coreana

Conta-se que um dia Hwanung, o filho do Rei dos Céus, olhou para baixo e viu a belíssima península que um dia viria a ser a Coreia. Cativado por essa enorme beleza, pediu a seu pai autorização para descer do reino em que viviam, mas este estava relutante em deixar que isso tomasse lugar. Acabou por ser convencido, e então Hwanung desceu dos céus, juntamente com os seus barões da chuva, das nuvens e do vento, e estabeleceu-se na zona, posteriormente ensinando aos seres humanos todas as artes, começando com a da Agricultura.

Um dia, uma ursa e um tigre aproximaram-se deste deus, pedindo-lhe que fossem transformados em seres humanos. Insistiram muito no pedido, até porque Hwanung estava relutante em concedê-lo, até que esse deus lhes fez uma oferta irrecusável – se conseguissem viver no interior de uma caverna durante 100 dias, sem nunca verem a luz do sol e comendo apenas alho e artemísia (i.e. uma espécie de planta), ele transformá-los-ia em seres humanos. As fontes não são completamente claras no que aconteceu imediatamente a seguir, mas é dito que a ursa se transformou em mulher após apenas “três vezes sete dias”, enquanto que o tigre depressa se chateou com a tarefa e saiu da caverna, mantendo para sempre a sua forma de animal.

O tempo foi passando, e a mulher – agora chamada Ungnyeo, i.e. mulher-ursa – que um dia tinha sido uma ursa começou a sentir-se cada vez mais sozinha e triste. Pediu então a Hwanung que lhe desse um companheiro, e então este deus, movido por uma grande compaixão, transformou-se em homem, casou com ela e gerou-lhe um filho, Dangun, que veio posteriormente a criar o primeiro de todos os reinos da Coreia.

Ungnyeo, a primeira mulher da mitologia coreana

A falarmos de uma criação na Mitologia Coreana, este é o período mitológico mais antigo a que ainda temos acesso, com a descida dos céus de Hwanung e a fundação de aquela que pode ser considerada a primeira civilização que ocupou a península da Coreia. É natural que levante bastantes questões – por exemplo, quem criou a terra e os animais? Como sabiam o tigre e a ursa da existência de seres humanos? – mas, muito infelizmente e como já frisado acima, as fontes literárias que nos chegaram já nada contam sobre isso.

Ainda assim, há um pormenor curioso em toda esta história – se existem, nos mitos da Coreia, diversas outras histórias em que ursos se transformam em seres humanos, ou vice-versa, nos exemplos em que surgem tigres eles parecem ser sempre considerados como simples animais, que apesar do seu natural poder físico não sofrem transformações. Será pura coincidência, ou uma alusão a este primeiro mito? Não o conseguimos descobrir até à presente data.

 

Mas toda esta história da criação na Mitologia Coreana ainda não fica por aqui. Conforme já aludido acima, existem todo um conjunto de elementos nos mitos da Coreia antiga que nos remetem para crenças hindus, budistas e taoistas. Nesse sentido, é possível que o pai de Hwanung tenha sido, originalmente, aquele deus a que na Índia chamam Indra, também ele “rei dos céus” e a que já cá fizemos uma alusão anteriormente. Nos mitos hindus esse deus, originalmente muito pujante, foi perdendo importância ao longo dos séculos, face a figuras como Vishnu, Shiva ou Ganesha, mas esta interrelação poderá indicar que em tempos mais antigos os mitos coreanos tiveram alguma espécie de criação, uma com contornos mitológicos semelhantes aos dos seus vizinhos. Não sabemos como era, mas as fontes que ainda temos permitem depreender que foi sendo abandonada devido a um conteúdo que poderíamos descrever sucintamente como incrível ou inacreditável. E mais que isso já não nos é possível conhecer neste momento…

O curioso filme “Winds of Change”

Hoje falamos de um filme curioso, Winds of Change, com que nos deparámos há algumas semanas. Ele também é conhecido por vários outros nomes, nomeadamente Metamorphoses e Orpheus of the Stars, naturalmente referindo-se ao facto de conter histórias adaptadas das Metamorfoses de Ovídio, mas este acaba por ser um daqueles casos em que o próprio filme tem tanta ou  mais história que a sua própria trama.

Winds of Change ou Metamorphoses

Na sua forma original, que aparentemente tinha o título de Metamorphoses, este filme distribuído pela Sanrio – a tal empresa mais famosa por Hello Kitty – foi lançado em 1978 como uma espécie de animação musical, na tradição de Fantasia da Disney. Não tinha uma trama contínua, mas sim cinco histórias não relacionadas umas com as outras que, no seu geral, foram retiradas da famosa obra de Ovídio – os mitos de Perseu e a Medusa; Acteon; uma história aparentemente inventada, em que as personagens principais nem têm nome; Orfeu e Eurídice; e Faetonte. Toda a ideia até é interessante, mas quem tiver ido ver esse filme deparou-se com alguns problemas, nomeadamente a ausência de qualquer diálogo (o que tornava difícil perceber as histórias), a reutilização constante das personagens principais (o que dava a falsa ideia de que eram sempre as mesmas); e o facto das músicas não captarem o espírito do que se ia passando no ecrã.

 

Para corrigir estes problemas, uma nova versão do filme foi produzida, aparentemente com o título Winds of Change no Ocidente e Orpheus of the Stars no Japão. À versão original foram cortadas algumas cenas, foi adicionado um narrador, este passou a tentar explicar que existia uma reutilização das personagens mas em papéis diferentes, e as músicas – originalmente muito mais interessantes – foram alteradas para serem condizentes com o que podia ser visto no ecrã.

 

Para a escrita destas linhas fomos ver ambos os filmes, um depois do outro, e o cerne da sua trama é essencialmente o mesmo. Tem algumas cenas bastantes bonitas, como o momento em que Faetonte perde o controlo dos cavalos solares de Hélio, mas em determinados momentos esta até parece ter sido uma criação composta pelos restos de dois filmes diferentes, com heróis muito infantilizados, mas algumas criaturas mitológicas e deuses a serem apresentadas como monstros assustadores. A ideia pode confundir um pouco a audiência, mesmo em Winds of Change, porque se fica um pouco com a ideia de que os seus criadores não sabiam bem a quem queriam destinar o seu filme.

 

Vale então a pena ver Winds of Change, Metamorphoses, Orpheus of the Stars, ou como queiramos chamar às diversas versões deste filme? Não. O filme merece aqui ser mencionado pela sua tentativa de adaptar as histórias de Ovídio para os nossos dias, numa altura em que isso ainda não era muito comum no audiovisual, mas fora isso este já não é um filme que poderá agradar bastante às audiências de hoje em dia.

A lenda de Tamamo-no-Mae (e Daji)

Não estava planeado hoje aqui falarmos de Tamamo-no-Mae ou de Daji, mas uma sequência de coincidências que teve lugar há alguns dias levou à escrita destas linhas, agora bastante presas entre lendas do passado e histórias dos nossos próprios dias.

Daji, a Huli Jing

Quando aqui falámos sobre uma criatura mística chinesa conhecida como Huli Jing, contámos parte da história de uma figura muito famosa na China, conhecida como Daji, que na altura resumimos assim:

Na Investidura dos Deuses (uma novela chinesa de título original Fengshen Yanyi), a principal antagonista é Daji, uma criatura como as que discutimos aqui hoje. Ela matou uma mulher, tomou o seu lugar, e ao longo de toda a obra vai usando os seus poderes místicos e de sedução para manipular o grande monarca da época, levando-o a realizar todo um conjunto de actos absolutamente bárbaros que, em limite, o fazem ordenar a morte de três grávidas somente para lhes abrir as barrigas e poder ver a posição das crianças no seu interior (se acham isto sórdido, convém deixar claro que a mesma novela apresenta diversos actos ainda mais horrendos). É, de facto, ela a grande responsável pela eventual queda do monarca e de toda a sua linhagem, através de um conjunto de mais de 10 grandes crimes que fomentou.

Os actos desta personagem ainda hoje são recordados na China – ainda há algumas semanas uma jovem chinesa nos dizia que quando era criança via filmes sobre isto na televisão e ficava sempre maravilhada com a tremenda beleza física desta vilã – ao ponto de Huli Jing ser também hoje o nome dado às prostitutas (presumivelmente, em virtude da beleza mas também de todas as malvadezas desta mulher). Porém, nessa Investidura dos Deuses, que nos parece ser uma das mais interessantes histórias da China, Daji nunca acaba por ser punida convenientemente. Ela, o poderosíssimo espírito de uma raposa de nove caudas, escapa com vida, naquilo que hoje poderíamos até chamar uma espécie de sequel bait – e admita-se que nem pensámos muito mais nisso até há umas horas atrás!

Parte da lenda de Tamamo-no-Mae

Vieram então dizer-nos que depois de abandonar o corpo falecido desta vilã chinesa, o espírito malévolo desta raposa ocupou o corpo de muitas outras figuras, usando sempre a sua enorme beleza para conquistar muitos outros homens poderosos, que foi levando a cometer novos e horrendos crimes. Andando de corpo em corpo, causando a paixão de diversos outros monarcas, em inícios do século XII foi parar ao Japão, em que adoptou a forma de uma belíssima mulher chamada Tamamo-no-Mae e se tornou uma das amantes do Imperador Toba. Depois tentou matá-lo, procedendo como sempre o fazia, mas acabou por ser derrotada e expulsa do palácio. E continuou viva.

Sesshoseki, a misteriosa Pedra da Morte

Contudo, é também aqui que toda esta história se torna ainda mais fascinante – quando a misteriosa raposa mística escapou do corpo de Tamamo-no-Mae, fugiu para a zona japonesa de Nasu, onde sofreu um golpe quase fatal. Forçada a escolher entre a vida e a morte, decidiu então transformar-se em pedra, de certa forma vivendo entre os dois mundos. Mas ela não se tornou uma pedra qualquer – com os seus eternos poderes místicos foi destruíndo todos aqueles seres que dela se aproximavam, ganhando por isso o nome de “Pedra da Morte” (殺生石, ou Sesshoseki). Segundo uma versão de toda a história, isto continuou a ter lugar até cerca de finais do século XIV, em que um monge budista exorcisou a pedra e lhe colocou um selo protector em redor, para garantir que esta malévola figura nunca mais causava problemas a absolutamente ninguém.

Como pode ser visto na fotografia acima, tirada no ano de 2016, a famosa pedra ainda existia e ainda tinha esse selo protector. Mas depois, por volta do dia 5 de Março de 2022, aconteceu com ela algo de inesperado (a fotografia veio do Twitter e foi aqui adaptada):

Sesshoseki, a misteriosa Pedra da Morte, como está agora

É curioso constatar que já existe há alguns séculos uma história nipónica em que isto tinha lugar. De nome A Roda de Fiar e a Raposa de Nove Caudas (糸車九尾狐, ou Itoguruma Kyubi no Kitsune), nessa história esta famosa pedra partia-se em duas e o espírito que um dia tinha sido o de Tamamo-no-Mae escapava do local, ocupando depois o corpo de uma idosa que aí passava, com o qual se pretendia, antes de mais, vingar da família do homem que lhe tinha morto o corpo anterior. O que, queiramos ou não, só pode ser muito mau sinal!

Como o povo costuma dizer, “não acreditamos em bruxas, mas que as há, há”. Será que aquele malévolo espírito, que se dizia que outrora ocupou corpos femininos lindos, como os de Daji e de Tamamo-no-Mae (entre outros para aqui menos relevantes), está agora livre, escapou do local e se prepara para causar infindáveis problemas outra vez?! Só o tempo o dirá…