O mito dos Aloidas

Falar do mito dos Aloidas implica, quase obrigatoriamene, falar de um ciclo mitológico da Grécia Antiga conhecido como a Gigantomaquia. As fontes originais para essa sequência de mitos perderam-se ao longo dos séculos, mas chegaram-nos, de uma forma parcial, em obras como a Gigantomaquia de Claudiano, que nos permitem saber, curiosamente, que Camões se terá inspirado nestes episódios mitológicos para o seu Adamastor. Mas então, perdida essa grande maioria dos relatos da guerra entre os Gigantes e os deuses do Monte Olimpo, o que podemos dizer sobre estas duas figuras que dão título à publicação de hoje?

O mito dos Aloidas

Oto e Efialtes eram dois gigantes irmãos, filhos do deus Poseidon e da mortal Ifimedia, que seduziu o monarca dos oceanos derramando muitas vezes as águas do mar sobre os seus seios; porém, como esta já era casada com um tal Aloeu, os seus filhos receberam o nome comum através do marido dela, em vez de do deus. Depois, os dois gigantes foram crescendo continuamente, até que atingiram uma enorme estatura, comum à sua espécie, e decidiram pôr em prática um plano bastante invulgar – quiseram empilhar diversas montanhas para, subindo depois para cima de todas elas, conseguirem atingir o Olimpo celeste e destronar os seus habitantes.

 

Infelizmente, a ausência de fontes literárias que contem todo o episódio torna difícil conseguir reconstituir toda a sua aventura, mas sabemos que os Aloidas não foram capazes de atingir esse seu objectivo. E existem duas grandes versões para explicar o porquê de não o terem conseguido. Numa delas, possivelmente a mais famosa, Zeus precipitiou-se dos céus com o uso do seu famoso raio. Numa outra, que até diz que os dois irmãos eram imortais excepto aos seus próprios golpes, a deusa Ártemis tomou a forma de uma corça e interpôs-se entre eles; esperando capturar o belíssimo animal, ambos o visaram como destino das suas flechas, acabando por, numa estranha coincidência, se atingirem mutuamente. E, assim, Oto e Efialtes faleceram!

 

Como os mais famosos mitos de Tífon e Equidna, esta aventura dos Aloidas peca, hoje, pelo facto de sabermos muito pouco sobre ela. Temos o seu início, sabemos parte do seu desenvolvimento, conhecemos até como terminava toda a aventura, mas mesmo assim desconhecemos a forma como ela tomava lugar na fontes originais da Mitologia Grega. Portanto, tem de nos bastar um breve relato do que se passou, como o descrito acima…

Uma profecia portuguesa do século XVI

Quando aqui falámos sobre o Rei Rodrigo mencionámos uma de muitas profecias do regresso de Dom Sebastião e/ou da monarquia portuguesa. Supostamente encontrada em Alenquer, e também alegadamente do tempo de Dom Sancho II – ou seja, do século XIII – esta é uma de muitas profecias que foram surgindo no século XVI, procurando inspirar o povo português a não aceitar o domínio de Espanha. Já cá falámos de exemplos semelhantes, como o Pretinho do Japão e as famosas Profecias do Bandarra, mas o que este outro exemplo tem de notável é o facto de ser uma profecia muito curta mas nem por isso menos interessante – o manuscrito, que pode ser visto na imagem abaixo, tem um (grande) título no primeiro parágrafo, o texto em Latim no segundo, e uma tradução para Português, num total de oito linhas, no terceiro. E ela diz mais ou menos o seguinte:

Profecia portuguesa do século XVI

Isidoro e Cassandra, filha do Rei Príamo de Tróia, concordando juntamente em um parecer disseram, “E nos derradeiros dias reinará na Maior Espanha um rei duas vezes, dado piadosamente. Ele reinará por meio de uma fêmea cujo nome começará [por] Y e acabará por L. E reinará sendo moço, e limpará os [uma ou duas palavras ilegíveis] e maus costumes dos Espanhóis, e o que o segue não será consumido. [palavra ilegível] o porá por terra. E visitará a Terra Santa e porá o final do crucifixo sobre o Santo Sepulcro e será o Maior Supremo Monarca e toda a igreja [palavra ilegível] renovará.”

Claro que toda esta profecia é uma clara ficção – não aparece em qualquer texto real atribuído na Antiguidade a Cassandra de Tróia (o mais notável será certamente Alexandra de Licofron), nem parece ocorrer nos de Isidoro de Sevilha – mas ela não deixa de suscitar algumas boas questões. Que o nome começado por Y e terminado em L seria “Isabel”, então grafado “Ysabel”, é provável, mas porquê esse nome em concreto e porquê a necessidade de incluir os outros elementos, de um rei católico supremo que viria da Península Ibérica no final dos tempos para controlar todo o mundo? Era uma ideia relativamente comum na época, até em terras de Portugal, mas como todas essas ideias foram surgindo na fantasia popular já não é completamento claro.

 

Pelo sim, pelo não, se um dia voltar ao poder monárquico uma regente de nome Isabel, não se esqueçam desta profecia portuguesa…

Porque são os Judeus odiados?

Explicar porque são os Judeus odiados é um tema que preferiríamos nunca ter de abordar por cá. Contudo, dadas as circunstâncias actuais somos como que obrigados a fazê-lo. Discutir-se se Hitler tinha ou não sangue judeu é profundamente estranho (p.s. – não temos sequer qualquer prova real disso…), quase dois passos mais à frente da negação do Holocausto, até porque implica o absurdo de querer sugerir todo um conjunto de barbaridades crescentemente mais estranhas, como a de partidos políticos nacionais que apoiam guerras. Por isso… dêem-se alguns passos atrás e pergunte-se de onde vem todo esse grande ódio por um dado grupo religioso, com um brevíssimo resumo de uma história completamente real e que teve o/um seu pináculo nos famosos horrores da Segunda Guerra Mundial.

 

Os Judeus no tempo dos Romanos

Todo este tema tem de começar no tempo dos Romanos, por ser um dos muitos períodos notáveis da história judaica. Se este povo não era forçado a venerar os deuses de Roma, grande parte das obras latinas que nos chegaram dessa época parecem representá-los como um grupo à margem da sociedade, uma espécie de excepção única a uma regra que vigorava para todas as outras pessoas, e isto em virtude de acreditarem, única e exclusivamente, num só deus. Tenha-se até em conta que os Romanos não conheciam muito bem a religião judaica, como pode ser visto no caso de Tácito, autor latino do primeiro século da nossa era, que considerava que esse povo venerava um burro… e isso poderá ter levado a todo um conjunto de crenças que, felizmente, depois se foram provando falsas, já que também vieram, em tempos mais antigos, a ser associadas aos Cristãos.

Jesus com cabeça de burro?

A Ascensão do Cristianismo

Um segundo momento notável da história judaica é, sem qualquer dúvida, o nascimento e ascensão da religião cristã. Jesus até podia ser judeu, esta nova religião pode ter nascido dessa anterior, mas a relação entre as duas religiões parece ter tido, desde o seu início, alguns conflitos. Famosas são as palavras do Evangelho Segundo São Marcos, em que este povo admite a sua culpa pela morte do Filho de Deus, dizendo algo como “que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos”, numa espécie de proto-anti-semitismo, que depois muito se viria a prolongar nos séculos.

Porém, o que isto tem de particularmente notável é que representa somente um pequeno passo da evolução do Cristianismo. Em diversas obras de inícios da nossa era, hoje muito pouco lidas, podem ser encontrados momentos que ecoam esta culpabilização dos Judeus, e outros em que a mesmíssima acção é imputada apenas aos Romanos… sendo isto bastante notável no caso de Pôncio Pilatos, que em algumas obras é o vilão e acaba afligido por todas as doenças do mundo, e em outras é representado como um herói pio e tristemente incapaz de salvar o filho de Deus.

Assim, para se dar um vilão à história da crucificação de Jesus Cristo, numa opção entre os Judeus e os Romanos, os primeiros acabaram por “ganhar”, sendo então vilanizados por centenas de anos…

 

As Duas Cartas dos Judeus

De facto, os séculos foram passando e os Judeus foram sendo odiados pela sua recusa em se converterem à nova religião, bem como seu (suposto) papel na morte de Cristo. Muito poderia ser escrito em relação a este período, mas o momento mais importante é provavelmente o da aparição, em finais da Idade Média, de duas cartas que se atribuíam a estes religiosos.

A primeira delas, quase inofensiva, atestava que tinham existido um grupo judaico que se tinha oposto à crucificação de Cristo, e que depois emigrou para terras que são hoje de Espanha. A segunda, mais conhecida sob o nome de Carta dos Judeus de Constantinopla, é um texto a dois momentos, na forma de uma epístola e respectiva resposta – num primeiro, surge a questão do que fazer em relação às políticas anti-judaicas ibéricas; num segundo, e em resposta clara ao anterior, é sugerido a estes judeus que se convertam ao Cristianismo, mas somente como forma de vingar a forma como andavam a ser tratados… há, por exemplo, na epístola um momento em que se diz, e parafraseamos apenas:

Se vos querem tirar as propriedades, façam dos vossos filhos advogados, para que tirem as deles. (…) Se vos querem tirar a vida, façam dos vossos filhos médicos, para que os matem a eles. [Ou, numa forma muito geral, a epístola convida a “Se vos querem fazer X, arranjem forma dos vossos filhos também o fazerem a eles”.]

Ou seja, resumindo, os Judeus, esses futuros “cristãos novos” (como viriam a ser chamados por cá, após a sua conversão forçada), por muito que se convertessem à nova religião continuavam sempre sob suspeita, por se acreditar, entre alguns grupos, que era tudo só um grande truque para destruírem a Cristandade pelo seu interior… mas, para quem até se sentir assustado, o curioso é que ambas as cartas são completamente falsas, numa espécie de fake news com já umas boas centenas de anos, que acabaram por contribuir para muitos – mas injustificados – ataques aos crentes judaicos!

Os Protocolos dos Sábios de Sião

Os “Protocolos dos Sábios de Sião”

Mais algumas centenas de anos foram passando, até que surgiram os chamados Protocolos dos Sábios de Sião. Já cá falámos deles antes, mas é curioso que tenham nascido na Rússia (!), com o objectivo de dizer que existia uma grande conspiração judaica para controlar o mundo. Mas, mais uma vez e como discutido anteriormente, são as chamadas fake news, e já há muito teriam sido esquecidas não fosse o facto de proclamarem algo muito conveniente para algumas audiências, dando-lhes uma espécie de inimigo comum contra o qual se podem focar.

 

Hitler e o Ódio aos Judeus

Hoje, fala-se de Hitler e do seu plano para matar (quase) todos os Judeus como se fosse um momento horrendo da história mundial que nasceu num vácuo. E isso é muito conveniente, porque caso contrário implicaria discutir-se um antisemitismo que já existia há séculos – como já aqui vimos – e que foi sendo alimentado, aqui e ali, quase sempre com fake news.

Agora, se por um lado não seria de todo correcto isentá-lo de todas as culpas, ao mesmo tempo há que deixar claro que as acções de Adolf Hitler foram o resultado concreto de séculos de ataques e ódio contra os Judeus, sem que alguma vez parecesse existir uma grande preocupação com a necessidade de averiguar até que ponto eram verdade todas aquelas estranhas coisas que lhes iam sendo imputadas.

 

Porque são os Judeus odiados?

Para se explicar porque são os Judeus odiados imagine-se, a título de exemplo, que existe uma enorme zanga entre duas famílias. Já passou tanto tempo que nenhuma das duas se recorda do porquê da disputa, mas continuam a odiar-se sem cessar. Não vos parecerá isso completamente absurdo? No entanto, é mais ou menos isso que motiva o ódio aos Judeus na nossa sociedade ocidental… é uma história com séculos e séculos, que procurámos resumir acima de forma muito breve, mas que assenta quase exclusivamente em mentiras e em factos muito pouco credíveis, que dificilmente nos poderiam deixar de fazer rir não fosse o facto de terem, ao longo dos séculos, causado a morte de milhares de pessoas, que em muitos casos até só tinham como “culpa” o nome de uma religião a que se encontravam associados.

 

Escusado será dizer que não temos qualquer prova real de que exista uma conspiração judaica para controlar o mundo. Ainda o fomos perguntar a alguns amigos praticantes dessa religião, em tom de muito óbvia brincadeira, mas também eles se riram com o absurdo… até porque, infelizmente, já quase ninguém sabe de onde ela vem! Se tudo isso fosse exposto ao público, como tentámos fazer acima, depressa se nota o absurdo de toda a situação, porque estes ódios, seja contra os Judeus, contra os Ciganos, ou contra qualquer outro povo que seja, é quase sempre fundado em elementos tão ridículos que, ao serem colocados bem à vista, se tornam rísiveis…

 

Quase como conclusão, bastará pensar em tudo isto da seguinte forma – imagine-se que a comunicação social encontra, hoje em dia, um e-mail em que é dito que os adeptos do clube de futebol X planeavam matar todos os do clube Y. Vendo isto nas notícias, acreditariam automaticamente em toda a ideia, ou iriam averiguar a veracidade dos factos aí apresentados?

O ódio face aos Judeus é apoiado na primeira destas duas opções, sem que, num primeiro momento, alguém tenha averiguado a veracidade da infame carta (porque ela era muito conveniente para alguns…); sem que, num segundo momento, alguém a tenha questionado; e sem que, num terceiro instante e por acção dos séculos, as pessoas se tenham apercebido de que aquilo em que iam acreditando se fundava em provas muito fracas, verdadeiras fake news dos nossos dias… e quão absurdo é tudo isso?!

 

Não será já mais que horas de nos questionarmos melhor sobre o porquê de acreditamos em X, sob pena de continuarmos, todos nós, a ser enganados com coisas tão parvas como estas? Parece bem que sim…

O “Agiológio Lusitano” (e três santas cabeças)

Há algumas semanas obtivemos uma cópia dos quatro tomos de uma obra intrigante, o chamado Agiológio Lusitano. A obra, apesar de extensa – o primeiro volume data de 1652; o terceiro, ainda da autoria de Jorge Cardoso, data de 1666; enquanto que o quarto, de 1744, é já da autoria de António Caetano de Sousa – cobre, de uma forma sucinta, as histórias dos muitos santos e relíquias que eram venerados em Portugal nesse tempo, começando com o primeiro dia de Janeiro e terminando com o último de Agosto. A forma como está esquematizada dá a inferir que até estivessem planeados mais dois volumes, Setembro/Outubro e Novembro/Dezembro, mas eles nunca foram compilados ou publicados, deixando, infelizmente, a obra incompleta de uma forma parcial. Ainda assim, dada a sua importância, falemos sobre ela.

Capa do primeiro tomo do Agiológio Lusitano

Na forma como está esquematizado, este Agiológio Lusitano é uma obra simples, que pretendia dizer, para cada dia do ano, quais os santos nacionais que nele eram venerados, aos quais são adicionadas descobertas e transladações de relíquias (e.g. o caso de São Vicente), entre outros temas semelhantes, que pela sua proximidade ao culto cristão poderiam ser associadas a determinadas datas. Em (quase) cada caso, tenta-se contar uma breve história relacionada com essas figuras ou relíquias. Normalmente são pequenas, de apenas alguns parágrafos, mas existe pelo menos um caso, relacionado com o Milagre de Ourique, em que o tema se prolonga por mais de meia dúzia de páginas, adicionando até à história elementos que não aparecem em outras fontes. Depois, como complemento, os autores até dão os seus comentários pessoais em relação a cada história, o que adiciona também algum interesse extra ao tema por eles coberto. E nesse seu tema geral, a obra só peca por, sem dúvida graças à enorme dificuldade de investigar todas as figuras que inclui, não cobrir todos os dias do ano – como já mencionado acima, até foram necessários dois investigadores distintos e quase um século para se chegar ao mês de Agosto!

 

Agora, o que mais podemos dizer sobre este Agiológio Lusitano? Enquanto o íamos lendo fomos tomando algumas anotações pessoais, mas o grande problema com que nos deparámos foi o de ligar a obra com os mitos e lendas de Portugal. Não queríamos apenas apresentar aqui meia dúzia de lendas de santos ao calhas, sem qualquer ligação real entre elas, mas sim incluir um qualquer tema que viesse destes livros mas também estivesse ligado mais às lendas nacionais. Portanto, decidimos referir aqui três histórias de cabeças santas que ainda eram veneradas em Portugal nos séculos XVII e XVIII, numa curiosa mistura que ainda unia o Cristianismo a um conjunto de crenças que ainda hoje podem ser vistas, por exemplo, na famosa Oração de Santa Bárbara.

 

Num primeiro relato é referido um tal “Santo Pastor de Izeda”, de Macedo do Mato, Bragança. O compilador não nos conta o verdadeiro nome deste santo ou os seus feitos, mas diz que a respectiva cabeça, ornamentada com prata, tinha uma capacidade milagrosa – quando era tocada pelo pão, este tornava-se incorrupto e passava a curar muitas doenças, em particular dores de cabeça e mordeduras de cães doentes. Quem desejar fazer um teste, ela estava na “Ermida de São Brás” desta povoação, de que parece já não haver memória.

Outra mencionada neste Agiológio Lusitano é a “Santa Cabeça do Bombarral”, local próximo de Óbidos. Também aqui se desconhece o nome do santo, mas é dito que ele era um lavrador muito bondoso que deixou a indicação de que após a morte a sua cabeça deveria ser preservada. Mais tarde, quando os gados estavam doentes, beijavam ou lambiam esta cabeça e ficavam curados por milagre. O local onde supostamente podia ser vista ainda parece existir, uma pequena capela agora no cemitério do Bombarral – com ajuda das entidades locais, que muito agradecemos, foi possível apurar que esta relíquia já não está no local, tendo sido roubada ou destruída em inícios do século XX.

Agora, para dar um exemplo também do sul do país, em Aljezur existiam duas santas cabeças, as de João Galego e Pero Galego – pai e filho – que eram agricultores que fizeram muito bem nas suas vidas, e cujas cabeças foram então preservadas após a morte, altura em que começaram a fazer milagres, curando dores de cabeça, mordeduras de cães, etc. Estas ainda estão na Igreja Matriz de Aljezur, para quem as quiser tentar visitar.

 

Curiosas são as palavras deste Agiológio Lusitano no final da história desta terceira cabeça – “estas cabeças santas são em todos os tempos os protomédicos e asilos sagrados deste reino” – ligando-as à medicina popular de outros tempos. A sua ligação relativamente comum a São Brás, para quem tiver essa curiosidade, parece advir do facto desse santo ter sido martirizado pelos Romanos, que lhe cortaram a cabeça, um elemento comum em muitas histórias medievais (e.g. o caso de São Torpes).

 

Em suma, este Agiológio Lusitano, apesar de estar incompleto e hoje um pouco desactualizado, é uma obra notável para quem quiser saber um mínimo sobre determinadas figuras religiosas cristãs que foram sendo veneradas no nosso país. Nem sempre as suas histórias são claras, como se pôde notar acima, e a obra também inclui muitas figuras da religião popular portuguesa, algumas das quais se assemelham a puras lendas. Não encontrámos aqui nenhum exemplo nacional extremo como o do francês de São Guinefort, mas estão presentes algumas histórias que não podem deixar de nos fazer esticar a nossa imaginação…

A lenda de Zigu, deusa da latrina

A lenda de Zigu, originária da China, é digna de nota em virtude do incomum espaço a que a sua heroína está associado. Se em religiões panteístas se acredita, de um modo geral, que tudo tem a sua divindade associada, este caso é demasiado curioso para ser ignorado. Assim, contamos aqui hoje a sua história.

Lenda de Zigu

A jovem que viria a ficar conhecida como Zigu – o seu nome original depende da versão da lenda – poderá, ou não, ter sido casada. Mais tarde ela apaixonou-se por um homem, mas este já era casado, e então ela tornou-se sua concubina. A esposa legítima, naturalmente zangada com toda a situação e movida pelo enorme ódio que sentia face à novata, sujeitou-a a toda uma espécie de infindáveis trabalhos humilhantes, até que ela morreu numa latrina. Depois, vendo o que se passou com a (inocente?) jovem, os deuses concederam-lhe uma vida eterna.

 

O estranho de toda esta lenda de Zigu, jovem que depois se tornou uma deusa da latrina, é que nas suas versões mais antigas tudo é exposto de uma forma muito difusa, não sendo sequer claro as circunstâncias exactas da morte da heroína. Será que Zixu – um dos possíveis nomes do homem casado – esteve envolvido na ocorrência? Será que Caogu – que alguns dizem ter sido o nome da esposa – a matou? Será que morreu de cansaço extremo, ao ter de limpar, entre muitas outras coisas, uma casa de banho suja? As versões da lenda a que fomos tendo acesso nada permitem concluir em relação a tudo isso, mas existem outro tipo de provas que nos permitem compreender algo mais sobre as circunstâncias desta morte.

 

Zigu tornou-se, após a sua morte física, uma espécie de deusa associada às latrinas, aparentemente em virtude do facto de ter falecido numa delas. Depois, alguns Chineses começaram a acreditar que ela podia ser evocada para responder a perguntas sobre o futuro. O ritual deveria ser realizado numa latrina e pelo menos uma das versões utilizava palavras como “Zixu não está aqui. Caogu voltou para casa. Jigu [i.e. um nome alternativo desta jovem] pode aparecer e divertir-se”, dando uma ideia muito subtil de que a morte desta jovem possa ter tomado lugar na ausência do seu amado mas na presença da respectiva esposa. O que, no entanto, não quer dizer que a esposa tenha mesmo estado envolvida na misteriosa morte, mas sim que pode tê-lo estado – nunca o saberemos, pelo menos com base nas versões mais antigas da lenda, que foram aquelas a que tivemos acesso até agora!

 

Enfim, se Zigu é considerada uma “deusa da latrina” na religião popular chinesa, é-o por ter falecido nesse local, em circunstâncias misteriosas, levando até a que o seu ritual de invocação tenha de ser realizado nesse estranho recanto da casa. Porém, há que frisar que ela não é uma deusa tutelar das casas de banho, ao contrário do que a sua designação pode sugerir na nossa cultura ocidental, e contrariamente ao que alguns leitores ocidentais até parecem pensar.