“Golpe do baú”, origem e significado

A expressão golpe do baú é digna de nota em virtude da sua origem e significados, que foram sofrendo alterações ao longo do tempo. Assim, ela tem dois grandes polos de sentidos – um primeiro, mais antigo, em que a ligação entre a expressão e o acto era quase óbvia; e um segundo, mais recente, em que, por razões culturais, a ligação anterior se foi perdendo mas parte do significado se manteve até aos nossos dias de hoje. Nesse contexto, para explicar o significado que a frase tem nos nossos dias é imprescindível apurar a sua origem histórica, como faremos abaixo.

Qual a origem e significado de 'dar o golpe do baú'?

Em outros tempos, possivelmente até já na Antiguidade – como pode demonstrar a lenda de São Nicolau – era característico que antes de um casamento o noivo recebesse uma espécie de dote por parte da noiva e respectiva família. Essa espécie de oferta, directamente monetária ou já de bens, era destinada a ajudar a mudança da figura feminina para uma nova casa, onde podia, muitas vezes, ser vista mais como um incómodo e prejuízo monetário do que como uma verdadeira adição à família. Nesse seguimento, muitas vezes era comum que o tal dote fosse guardado numa arca ou baú, para estar bem seguro num tempo em que ainda não existiam instituições bancárias… e isto levou, progressivamente, à ideia de que algumas pessoas menos bem intencionadas pudessem vir a casar exclusivamente para tomarem para si parte das posses da família da noiva.

 

A ideia foi-se mantendo ao longo dos séculos – continua a aparecer em diversos romances medievais, e mantém-se em obras mais recentes – mas progressivamente lá acabou por se ir perdendo ou modificando, sobrevivendo nos nossos dias em um punhado de tradições, como a do pai da noiva, tradicionalmente, pagar a cerimónia do casamento. Mas, se o agora-proverbial golpe do baú deixou de ser tão literal, manteve-se a sua ideia subjacente, em particular quando existe uma grande diferença de estatuto entre os dois noivos, seja – como originalmente – em termos de dinheiro, de beleza ou de idades, dando uma espécie de sugestão de que duas pessoas apenas se ligaram por laços de matrimónio a bem do vil metal, o que levou à expressão anglófona de gold digger, i.e. alguém que apenas casou com o objectivo de “sacar” o ouro, as posses materiais, da suposta alma gémea.

 

Portanto, a expressão que se refere a “dar o golpe do baú” é, hoje, uma alusão a esta última parte da evolução da ideia original, dando mesmo a entender que duas pessoas apenas casaram em virtude do proveito desigual – seja masculino ou feminino, apesar do sentido original, que tornava quase impossível às mulheres realizarem este golpe – que essa união traz a uma delas, i.e. a menos rica, mais nova ou mais bonita. Existe, de facto, um certo sexismo na expressão, mas é uma boa forma das más línguas justificarem algumas simpatias entre duas pessoas que, à partida, pareçam ter muito pouco em comum…

A lenda de São Torpes

A lenda de São Torpes merece ser contada aqui em virtude do facto de esta figura santa ser relativamente famosa em terras de Portugal. Contudo, se o santo não nasceu nem viveu no nosso país, como é ele associado a terras portuguesas? É isso que iremos explicar hoje.

Sobre a lenda de São Torpes

Conta-se que Caius Silvius Torpetius viveu no primeiro século da nossa era em Pisa, na Itália, mais precisamente no tempo do imperador Nero, aquele grande destruidor de Cristãos. Converteu-se ao Cristianismo pelos ensinamentos de São Paulo, admitiu a sua fé frente ao próprio monarca da altura e foi condenado a múltiplas torturas, que variam mediante a fonte literária consultada. Contudo, o que elas concordam é no destino final deste homem – a sua cabeça foi-lhe cortada e ele foi atirado ao mar, num barco juntamente com um cão e um galo (que se supõe que devessem comer o corpo do falecido).

 

Aqui termina a vida de São Torpes, propriamente dita. A sua cabeça foi depois encontrada em Pisa, e como aconteceu no caso de São Vicente este pequeno barco tinha de ir parar a algum lado. São-lhe atribuídos vários destinos, mas entre os mais notáveis para estas linhas contam-se a bela cidade de Saint-Tropez, em França, a que ele deu o nome; e uma praia na zona de Sines, em Portugal, a que o santo também emprestou o nome, e na qual – segundo a lenda local – a localização do corpo do mártir foi revelada em sonhos a uma mulher da região, que ficaria conhecida como Santa Celerina (e sobre a qual pouco ou nada mais se sabe). Não há qualquer registo do que aconteceu aos dois animais que o acompanhavam.

 

Contudo, toda esta lenda associada à Praia de São Torpes deve ser vista com enorme cepticismo. Se se acredita que este santo viveu no primeiro século da nossa era, não só os primeiros relatos da sua vida surgem quase mil anos depois, como estão repletos de anacronismos, de informação falsa e de elementos claramente copiados de outras histórias de santidade e de martírios – numa versão portuguesa do século XVII, por exemplo, o santo até ultrapassa cinco sequências de tortura distintas, cada uma delas copiada de famosos martírios da Antiguidade, antes de lhe ser finalmente cortada a cabeça… e, como tal, é muito provável que esta seja uma história ficcional, ou pelo menos uma em que o potencial cerne da verdade se foi perdendo ao longo dos séculos e é hoje impossível de traçar.

A Lenda do Menino dos Olhos Grandes

Na cidade algarvia de Olhão, mais precisamente num local que tem o nome de Largo do Carolas, pode ser encontrada uma estranha estátua cuja imagem reproduzimos um pouco mais abaixo. Ao viajante comum esta poderá parecer uma representação intrigante, mas para os habitantes locais – e quase somente para eles, daí termos decidido falar desta pequena história nas linhas de hoje – é sobejamente conhecida esta referência a uma lenda do Menino dos Olhos Grandes.

A lenda do Menino dos Olhos Grandes

Quem era este menino, ou mesmo o que lhe aconteceu, provavelmente permanecerá um mistério até ao final dos tempos, mas diz esta espécie de lenda que numa data desconhecida de inícios do século XX, e sempre durante a noite, podia ser visto na cidade de Olhão uma criança muito estranha. Uns diziam que estava sempre a chorar, outros que tinha uma pequena cesta consigo, ainda outros acrescentavam mais um ponto aos estranhos eventos, mas, de um modo geral, todos concordavam em três grandes características – ele tinha olhos grandes (e daí, muito naturalmente, o nome pelo qual ficou conhecido!), era magicamente muito pesado, e nunca dizia uma única palavra. É apenas essa a sua “história”, repita-se que não se sabe de onde veio nem para onde foi, mas por alguma razão difícil de precisar as populações locais nunca o esqueceram, passando os relatos dessa estranha ocorrência por via oral, de pais para filhos, até aos nossos dias de hoje.

 

Mas porquê, tamanha importância associada a uma história tão estranha, breve e incompleta? Terá sido por este Menino dos Olhos Grandes (quase) partilhar o seu nome com o da cidade? É até possível que sim, mas sempre ouvimos dizer que o nome de Olhão se deve ao facto de terem existido muitos “olhos de água”, ou seja, pequenas nascentes, na região. O facto do menino também ter “olhões”, i.e. olhos de um tamanho maior do que é habitual, parece ser mera coincidência e nada mais. Mistérios…

A lenda da Espada de Dom Sebastião

A lenda de que aqui falamos hoje, a da Espada de Dom Sebastião, vem da Madeira e inclui-se num contexto lendário de que já cá falámos anteriormente. Em suma, em outros tempos e até mais ou menos os inícios do século XIX abundavam as lendas que ligavam o famoso monarca de Portugal a toda a espécie de espaços místicos, lendários e misteriosos. Muitas delas foram sendo esquecidas, outras podem ser vistas em manuscritos esquecidos da BNP (talvez um dia sejam digitalizadas!), mas hoje decidimos cá contar mais uma.

Locais desta lenda da espada de Dom Sebastião

Entre muitas outras lendas sobre estes temas, contava-se então, sobre esta possível espada de Dom Sebastião em terras da Madeira, que o monarca tinha passado pelo local quando se dirigia para a Ilha Encoberta e decidiu que já não precisava do seu equipamento guerreiro. Então, descansando por alguns minutos nesta outra ilha, pegou na sua espada a atirou-a para algum lado – uns dizem que foi para a Penha d’Águia, outros para a Ponta do Garajau. Em ambos os casos, os locais são de difícil acesso e, como tal, dificilmente alguém que ouvisse esta história seria capaz de recuperar a espada do rei desse possível local. Assim, como a Excalibur do Rei Artur, ela perdurava apenas na imaginação dos habitantes da ilha, onde esta história acabou por nos chegar, já numa forma escrita, em inícios do século XX.

 

É provável que, na sua forma original (e que certamente antecida o século XIX), esta lenda da Espada de Dom Sebastião contasse com mais elementos, como uma possível razão para o atracamento no local, ou a proposta de alguma recompensa para quem conseguisse recuperar a arma do monarca, mas ao longo do tempo tudo isso parece ter sido esquecido. Hoje, apenas se lembra, e até de uma forma muito ténue, que a espada do rei desaparecido pode estar escondida algures nesta bela ilha, à espera de quem verdadeiramente a quiser encontrar…

A lenda de Nossa Senhora de Sacaparte

O muito incomum nome de Nossa Senhora de Sacaparte está hoje quase esquecido. Talvez quase até tanto como está o convento que um dia tomou o seu nome, na freguesia de Alfaiates, município do Sabugal. O original datava (provavelmente) do século XIV, depois foi reconstruído no século XVIII, mas hoje está assim, como mostrado abaixo, quase tão olvidado como a pequena lenda que lhe deu esse nome:

Nossa Senhora da Sacaparte, a lenda e o convento

Mas, então, de onde vem esse estranho nome de “Sacaparte”? A lenda refere que, num tempo agora já esquecido, mas provavelmente anterior ao reinado de Dom Dinis, os Castelhanos tentaram invadir Portugal e chegaram ao local próximo de onde existe este convento. O combate entre os dois exércitos foi relativamente rápido, mas depressa se aproximava a noite. Face ao enorme frio que se antevia na região, um dos combatentes nacionais evocou Nossa Senhora e disse “Virgem, saca-nos a boa parte” (ou seja, algo como “deixa-nos ficar com o que nos pertence”). Assim foi pedido à mãe de Cristo e assim se cumpriu – os Castelhanos retiraram-se para as suas terras e os Portugueses mantiveram este pedaço de território como seu, honrando a santa no local em que lhes prestou ajuda.

 

Se as lendas de combates entre Portugueses e Castelhanos abundam em Portugal – recordem-se, por exemplo, histórias como as do Castelo de Faria ou de Aljubarrota – esta é um pouco diferente, por tentar explicar o nome de um local. Claro que esta é uma explicação muito ténue, pouco satisfatória até ao povo, mas se existia alguma outra origem para o nome desta Nossa Senhora de Sacaparte, o tempo parece tê-la feito esquecer. Só assim se compreende que em dada altura o nome tenha mesmo sofrido uma pequena alteração para Sacraparte, i.e. parte sagrada, de explicação muito mais natural e fácil de entender, mas sem uma lenda associada (ou, pelo menos, alguma que tenhamos conseguido descobrir).