A lenda da Viagem de São Brandão

Quando pensamos nos maiores navegadores da história do mundo, é muito provável que o nome de São Brandão não se encontre entre eles. É uma figura provavelmente ainda hoje famosa na Irlanda, juntamente com várias outras figuras que introduziram o Cristianismo no país (como o grande São Patrício), mas pouco conhecida em Portugal, e face à sua lenda – ou potencial mito, se preferirem chamar-lhe isso – decidimos que podíamos aqui falar um pouco sobre este santo.

A lenda da Viagem de São Brandão

São Brandão, “o Navegador”, é, como este cognome dá logo a entender, um santo irlandês tornado famoso pelas suas viagens. Crê-se que nasceu em finais do século V, mas os relatos das suas aventuras, pelo menos nas versões que nos chegaram, são do século X, sugerindo que são compostos mais por ficção do que com fundamentos de realidade. Isto, caso existam as mínimas dúvidas, face ao mapa acima e ao que vamos reportar a seguir.

 

Conta então esta história, retirada de um texto de nome Navigatio Sancti Brendani Abbatis, que numa dada altura da sua vida São Brandão ouviu falar da possibilidade de chegar à terra prometida aos santos, localizada nos limites do paraíso terreno. Então, meteu-se num barco com alguns outros monges seus compatriotas e partiu em busca dessa terra idílica, passando por um conjunto de aventuras fantásticas que não podem deixar de nos relembrar a Odisseia homérica ou a História Verdadeira de Luciano. Entre outros eventos – e só para dar três pequenos exemplos – os navegantes atracam num peixe-ilha de nome Jasconius; encontram um local em que está aprisionado Judas Iscariotes, condenado a sofrer por metade de toda a eternidade; e chegam efectivamente ao local que procuravam. E depois voltam a casa.

 

De um modo geral, esta lenda da viagem de São Brandão até é bem menos interessante do que poderá parecer a uma primeira vista, mas tem um elemento curioso – segundo alguns leitores do texto original, a acreditar-se nestas viagens do santo, terá sido ele um dos primeiros europeus a chegar a terras da América do Norte. O percurso mais concreto, essa correspondência entre a lenda e possíveis factos, é muito variável, mas tenta identificar com locais reais as ilhas pelas quais o herói passa na história, para depois dizer, de alguma forma, que o local que ele procurava era algures nos EUA ou Canadá.

Será verdade? Onde acaba a lenda e começa o facto, em toda esta história? Será que este santo navegador até foi o primeiro descobridor europeu da América do Norte, vários séculos antes de Colombo? Não sabemos, nem temos razões reais e fiáves para acreditar nisso, mas é algo de muito curioso que se diz em relação a toda esta história e que, portanto, tínhamos igualmente de deixar por cá. A resposta, como em muitos outros casos semelhantes, fica para quem ler estas linhas.

“O Oriente”, de José Agostinho de Macedo

O Oriente, de José Agostinho de Macedo, é um poema épico escrito em inícios do século XIX sobre os descobrimentos de Vasco da Gama. Face ao tema, qualquer leitor português poderia perguntar-se “Mas… não é esse o tema dos Lusíadas de Luís de Camões?”, o que seria uma excelente questão. Na verdade, o grande herói do épico de Camões é o povo português, enquanto que o famoso descobridor pode ser considerado uma das suas personagens principais.

 

Face a essa pequena, mas também significativa discrepância, José Agostinho de Macedo parece ter sentido que Vasco da Gama merecia ser homenageado numa obra em que tivesse um papel mais principal, um épico sobre as suas conquistas e descobertas marítimas. Como tal, este poeta começa por mostrar algo que certamente irá intrigar um leitor do seu épico – ele mostra que o génio de Camões não o é assim tanto, mas que esse famoso poeta nacional, que tendemos a ver como o grande rei dos nossos autores de poesia, na verdade retirou muitos dos seus episódios e dos seus versos de autores que o precederam. O que tem, necessariamente, de levantar uma questão – terá sido Camões um plagiador? Ou, como se define o plágio no reino da poesia? Bastará copiar-se um verso, um episódio? É uma questão demasiado complicada para ser resolvida num mero punhado de linhas, mas mereceu ser mencionada aqui porque parece ter sido essa a grande razão por detrás da escrita deste outro poema com um tema tão semelhante ao dos Lusíadas, que este novo autor tanto critica na introdução da sua obra.

Vasco da Gama, herói de 'O Oriente', de José Agostinho de Macedo

Voltemos, portanto, a O Oriente de José Agostinho de Macedo. É um poema épico em 12 cantos, que segue Vasco da Gama desde a sua partida de Lisboa até à chegada e conquista das terras da Índia. Pelo caminho, este herói e os seus navegantes passam por terras bem reais, e têm até algumas aventuras verosímeis, até que lhes surgem as acções do grande opositor do poema – o Diabo, que pretende afastar os Portugueses do Oriente, de forma a que os povos que vivem nessas terras continuem as suas práticas pagãs. Ele tenta, sem sucesso e por várias vezes, impedir a chegada à Índia e a disseminação do Cristianismo no Oriente, mas Vasco da Gama vai tendo o apoio e inspiração de diversas figuras místicas, das quais a mais notável nos pareceu ser o espírito do Infante Dom Henrique… okay, se não existe um épico que celebre os seus feitos (como pensámos um dia), pelo menos ele surge, aqui, como o grande inspirador e predecessor deste novo herói, o que acaba por ser um pormenor muito interessante e digno de nota.

 

Porém, ao mesmo tempo, essa referência à aparição do Infante Dom Henrique também nos conduz ao grande problema deste poema épico – ele tem, aqui e ali, alguns momentos interessantes, significativos e aprazíveis numa obra com o pano de fundo dos Descobrimentos Portugueses, mas eles são raros. A leitura da obra nem sempre desperta curiosidade, mas alguns dos seus momentos até podem fazer o leitor pensar algo como “esta sequência até é interessante”. E talvez seja essa a melhor forma de conhecer este poema; não através da sua leitura completa, do início ao fim, mas apresentando-se a possíveis leitores apenas alguns dos seus momentos mais significativos, e.g. o notável episódio que já referimos acima, entre alguns outros, como esta primeira estância do primeiro canto de O Oriente, com que decidimos terminar as linhas de hoje:

Canto a sublime empresa, e o Lusitano,
Que, toda rodeando a Africa ardente,
A fúria assoberbou do vasto Oceano,
E abriu as portas do vedado Oriente;
Com mais valor que é dado a peito humano,
As bases foi lançar do Império ingente,
Que fez, crescendo em paz, crescendo em guerra,
Os portugueses imortais na Terra
.

A lenda de Dom Dinis e o Urso (de Odivelas?)

A lenda de Dom Dinis e o Urso é interessante, já que permite explicar algo que de outra forma seria difícil de compreender. Basta pensar-se no seguinte – onde estão enterrados os reis de Portugal? Salvo algumas excepções pontuais – por exemplo, o caso de Pedro e Inês – eles parecem andar agrupados por grupos em diversos pontos do país. Quando estão sós, tende a existir uma razão para tal. Assim, se o marido de Santa Isabel está em Odivelas, enquanto que a sua esposa está em Coimbra, qual será a razão para tal? Porque mandou este rei construir o Mosteiro de Odivelas, onde está sepultado? Claro que poderão haver razões mais reais que outras – fala-se, por exemplo, do seu desejo de construir um túmulo para uma filha bastarda que morreu ainda adolescente – mas o que nos interessa aqui é a lenda mais do que uma possível realidade.

Dom Dinis e o Urso

Assim, quem olhar bem para o túmulo deste rei, no Mosteiro de Odivelas, poderá encontrar, num dos seus quatro apoios, um pormenor curioso, o mesmo que pode ser visto na imagem acima. Ele mostra um animal, possivelmente um urso, acima de um homem que o apunhala no pescoço. É invulgar, não é fácil compreender a sua presença no local, excepto talvez por relação com a lenda de que aqui falamos hoje.

 

Conta então esta lenda de Dom Dinis e o Urso que um dia o rei de Portugal andava numa qualquer caçada quando, estando então completamente sozinho, encontrou um urso. O monarca tentou fugir, mas o animal perseguiu-o, e com a sua rapidez depressa o apanhou. Então, num momento de enorme desespero, prestes a perder a sua própria vida, reduzido ao estatuto de mero homem, o marido de Isabel pediu ajuda a Deus e aos santos, prometendo, em troca, mandar construir um mosteiro. Inesperadamente, um santo apareceu ao rei e disse-lhe para este usar o punhal que tinha em sua posse; ele assim o fez, ferindo mortalmente o animal e escapando com a sua vida. E, depois, para comemorar esta ajuda divina, cumpriu a sua promessa…

 

Mas se tudo isto até parece relativamente simples, não o é, pelo facto de existirem três elementos que variam mediante a versão da lenda – o local em que tudo isto tomou lugar, o(s) santo(s) evocado(s) por D. Dinis, e o recinto religioso que resultou da sua promessa. Não iremos, hoje, aqui falar da versão mais antiga da lenda de Dom Dinis e o Urso, mas todo o problema pode facilmente ser resolvido fazendo do local Odivelas, dos santos São Bernardo e/ou São Dinis, e do recinto aquele que é agora chamado o Mosteiro de Odivelas. Nesse seguimento, tudo se alinharia para resolver o enigma original – o rei estaria, portanto, sepultando no mesmo sítio em que um dia a sua vida foi poupada por ajuda divina.

 

Mas será verdade? Será que D. Dinis encontrou este urso nas imediações de Odivelas? Uns dizem que sim, outros dizem que o confronto entre homem e animal tomou lugar em Beja, ainda outros acrescentam que a promessa foi cumprida com uma capela nessa cidade, mas… a verdade é que tudo isto são lendas. Como tal, o povo inventa-as e reinventa-as a cada geração. Contamo-la aqui como a ouvimos há umas semanas. Ao leitor, hoje, basta conhecer a história acima, e saber que Odivelas poderá, ou não, ter sido o campo de uma animalesca batalha que nos poderia ter levado a vida de um monarca nacional, e cuja lenda poderá estar aludida no túmulo mostrado acima…

“Vitória de Pirro”, origem e significado da expressão

Vitória de Pirro, também dito vitória pírrica, é uma de muitas expressões que ainda usamos nos nossos dias de hoje e que provêm dos tempos da Antiguidade. Portanto, e visto que a expressão é usada quase sempre em versão portuguesa (não fazendo, portanto, muito sentido falar de uma “tradução” do original, ao contrário do que acontece com expressões como Alea Jacta Est ou Carpe Diem), contamos aqui a sua origem e explicamos o seu significado.

Vitória de Pirro, origem e significado da expressão

Por volta do ano 279 a.C. teve lugar, em terras de Itália, a chamada “Batalha de Ásculo”, entre os exércitos de Pirro* de Epiro (note-se que “Epiro” era uma cidade no oeste da Grécia) e da República Romana. Poderia ter sido uma batalha como tantas outras na Antiguidade, mas o que a tornou digna de nota foi o facto do exército de Pirro ter sido vitorioso… o que, à partida, até poderia parecer uma coisa muito boa, não fosse o facto de ter sofrido tantas perdas no seu seio que se tornou difícil continuar a campanha militar a que se tinha proposto, ainda para mais face a um opositor que lutava no seu próprio terreno e, como tal, tinha um maior número de recursos disponível.

 

Na sequência desta pequena história da sua origem, o que é, então, uma “vitória de Pirro”, também conhecida em Portugal como “vitória pírrica”? É, como no relato acima, um confronto em que o vencedor sofre tantos perdas que, muito provavelmente, quase até lhe seria preferível uma derrota. Por exemplo, na imagem ali em cima podem ser vistos os irmãos Etéocles e Polinices em combate – hoje famosos pela sua ligação a Antígona, acabaram por se matar um ao outro, numa espécie de vitória/derrota mútua que parece corresponder ao tema aqui falado hoje.

Mas, para dar um exemplo mais dos nossos dias, imagine-se que o Brasil vai jogar com a Argentina numa semi-final do Campeonato do Mundo de Futebol. Ganha esse jogo por 1-0, mas seis dos seus jogadores ficam lesionados. Venceu, sim, mas a que preço? Com esses seis jogadores, possivelmente até muito importantes, agora indisponíveis para jogar na final, será que o preço a pagar não terá sido demasiado elevado? Qualquer bom apoiante da selecção brasileira se mostraria preocupado face às condições como essa vitória foi obtida, tal como Pirro se sentiu aquando do final da Batalha de Ásculo, levando-o a dizer – como nos preserva Plutarco – que “se vencermos outra batalha contra os Romanos, seremos então completamente destruídos”…

 

 

P.S.- Este Pirro não deverá ser confundido com o filho de Aquiles, mais conhecido pelo nome de Neoptólemo, que recebeu o primeiro desses dois nomes em virtude do seu cabelo avermelhado – πῦρ (“pyr”) significava “fogo”, como a cor do cabelo do herói mitológico.

A lenda da Zorra Berradeira

A Zorra Berradeira, também conhecida como Zorra de Odelouca (em virtude de um local em que se pensava que ela vivia), é uma espécie de criatura mitológica nacional famosa em terras do Algarve. Nem sempre é muito clara qual era a sua forma física, que parece divergir consideravelmente nas versões consultadas, mas considerando somente o seu nome podemos ser levados a acreditar que ela era uma espécie de raposa velha com poderes mágicos misteriosos e/ou capaz de adoptar diversas formas. Porém, o que torna esta lenda particularmente interessante é o facto de existirem várias versões da lenda que nos contam a sua origem!

A lenda da Zorra Berradeira ou de Odelouca

Nesse seguimento, uma primeira versão da origem desta Zorra Berradeira diz apenas que ela é um espírito demoníaco. Uma segunda, que a liga às Mouras Encantadas, diz que originalmente ela era uma jovem moura, mas acabando por ofender tanto Cristãos como Muçulmanos (de uma forma que não é totalmente clara), por punição divina foi transformada nesta criatura. Já uma terceira, e provavelmente a mais famosa de todas elas, diz que se tratou de um ser humano que fez muitos actos maus na sua vida, sem nunca mostrar qualquer espécie de arrependimento, entre eles o de mudar os limites dos terrenos (que em outros tempos eram assinalados com pedras especiais e, como tal, relativamente fáceis de alterar).

 

Mas qualquer que tenha sido a sua origem, a Zorra Berradeira era uma criatura temível, que no mínimo dos mínimos enloquecia quem tivesse ouvido os seus gritos, e em pior caso até lhes causava a própria morte. E, de facto, nem sequer encontrámos qualquer registo de alguém que a tenha defrontado com sucesso ou derrotado. Será que ainda habita por terras do Algarve, na região da Ribeira de Odelouca? Caso algum leitor seja da zona em questão e já a tiver ouvido, por favor deixe ali em baixo o seu testemunho – tentar vale sempre a pena!

 

Um último ponto… acreditando que esta Zorra de Odelouca já era, originalmente, uma espécie de raposa, ela tem diversos elementos em comum com criaturas como a Huli Jing chinesa. Seria intencional? Será que a história desta criatura veio de terras do Oriente para Portugal, algures no tempo dos Descobrimentos? Nunca vimos qualquer estudo sobre o tema, mas para quem tiver mais paciência seria interessante estudar-se a origem desta lenda; é, contudo, provável que se trate de uma história oral, com raízes já há muito perdidas, e portanto até poderá ser muitíssimo difícil concluir algo sobre a sua verdadeira génese, podendo esta espécie de obsessão com as raposas tratar-se apenas de uma coincidência derivada da forma quase mágica como tendem a desaparecer, de uma forma quase mágica, nos muitos locais onde vivem…