Ainda existe um Templo Romano em Sintra?

Há já algum tempo que nos vieram perguntar se existe algum Templo Romano em Sintra. E de facto, quando se pensa em vestígios arqueológicos do tempo dos Romanos em Sintra, a possível existência de um templo aos deuses de outrora nesta região, de algo semelhante ao Templo de Diana eborense, raramente cruza a mente do viajante comum. Se até existem vestígios vagos de um recinto dessa natureza na zona da Praia das Maçãs, mais precisamente no chamado “Sítio Arqueológico do Alto da Vigia” (a National Geographic até escreveu recentemente um artigo interessante sobre o local), em que foram encontradas agora-famosas inscrições latinas ao Soli et Lunae (as tais que fizeram da serra local o “Monte da Lua”), pouco mais na região levanta, hoje, a ideia de que ele ainda possa existir. Assim, hoje decidimos apresentar um dado local aos leitores e deixá-los julgar as provas por si mesmos.

 

Perto da aldeia de Janas, que fica a cerca de oito quilómetros do centro da vila de Sintra, em Portugal, pode ser encontrada, na beira da estrada, uma capela ou ermida que tem hoje o nome de São Mamede de Janas. A uma primeira vista, ou para aqueles que percebam pouco destes temas, o local actual pouco ou nada parecerá ter de romano, como tendemos a imaginar a arquitectura da altura, até que, com algum estudo, se notem três elementos dignos de nota:

Possível Templo Romano em Sintra, a Capela de São Mamede de Janas

Primeiro, esta capela tem uma planta circular, o que não é muito comum nos locais de culto do Cristianismo, que têm mais habitualmente uma planta rectangular ou em forma de cruz. Contudo, alguns templos romanos também tinham uma forma circular, muitas vezes para permitirem uma fácil circulação de animais no seu interior – e, se isso acontecia em alguns recintos de culto pagão, também sabemos que já aconteceu, no passado, neste espaço que tomou o nome de São Mamede de Janas (actualmente, parece que os animais apenas o circundam pelo exterior).

 

Depois, o local está localizado em “Janas”. Quando a deusa Diana era venerada juntamente com o deus Jano, ela tomava o nome de Jana e o par divino era, de um ponto de vista simbólico, considerado como a Lua e o Sol. Isto torna-se particularmente interessante em virtude do facto de já terem sido encontradas inscrições a esses dois astros na mesma região, o que prova que os Romanos veneravam, de facto, deuses como estes nas localidades próximas – o “Sítio Arqueológico do Alto da Vigia”, já referido acima, está a escassos de cinco quilómetros deste local.

 

Ainda, esta espécie de igreja toma hoje o nome de São Mamede [de Cesareia], que é venerado no calendário católico a 17 de Agosto, e nos locais que a circundam ainda toma lugar, entre os dias 15 e 17 desse mês (ou, mais recentemente, até entre 12 e 20), uma romaria. Ao mesmo tempo, o deus Jano tinha um festival a 17 de Agosto, enquanto que um dos festivais mais famosos consagrados à deusa Diana tomava lugar entre os dias 13 e 15 do mesmo mês.

A ser pura coincidência, tudo se torna ainda mais estranho se tivermos em conta que São Mamede é aqui visto como um “santo protector do gado”, mas esse atributo não lhe parece ser associado em outros locais, em que essa tarefa é frequentemente ocupada por Santo Antão (também conhecido como Santo António do Deserto, que não deve ser confundido com o “nosso” Santo António). Porém, a ligação da deusa romana com a caça, com os vários animais e até com a fertilidade é bem conhecida e está bem atestada de uma forma horizontal na literatura da Grécia Antiga e dos Romanos.

 

Se tudo isto parece indicar a existência de um antigo templo romano em Sintra, ainda devemos considerar as provas que indicam o contrário. E há uma que é preponderante – lemos que em finais do século XX foram feitas escavações arqueológicas no local e foram encontradas duas estruturas anteriores, uma do século IX e outra do século XII, o que parece refutar a possibilidade de que tenha existido aqui um templo romano.

Será, por isso, que existiu um templo pagão próximo deste local, mas não necessariamente aqui, e que a forma deste espaço religioso é apenas uma vicissitude da arquitectura renascentista, que alguns até atribuem a Francisco de Holanda? Serão o nome da povoação, e os rituais aqui praticados, uma estranhíssima coincidência do acaso? Ou será que esta ermida ou capela de São Mamede de Janas foi construída para fomentar o abandono de um antigo culto local, de raízes pagãs mas já sem um templo físico, providenciando alternativas cristãs a um conjunto de rituais que as populações locais se recusavam continuamente a abandonar?

Não sabemos. Com excepção das provas arqueológicas, tudo levava a crer que existiu mesmo um templo romano em Sintra, neste preciso local, e que até poderia ter uma história notável. Sabe-se que Diana foi uma das deusas romanas cujo culto perdurou mais tempo (ver, por exemplo, a explicação por detrás do nome do Templo de Diana em Évora), e que ela foi venerada na zona de Sintra, possivelmente até na companhia do deus Jano. Isto é difícil de negar, que existiu nesta região um templo associado a pelo menos um dos dois deuses, mesmo que ele não tenha estado localizado aqui.

Depois, com o passar dos séculos, o local que lhe(s) esteve consagrado poderia ter sido transformado em local de culto cristão, mantendo-se a sua ligação original aos animais (que ainda eram abençados no local, por se acreditar que assim manteriam a sua saúde e vitalidade), e o nome da antiga figura divina teria sido substituído pelo de uma figura cristã bem conhecida em Portugal e venerada mais ou menos na mesma altura do ano. E esta seria uma boa possibilidade, sem qualquer dúvida, que até faria com que as diversas peças encaixassem quase na perfeição, mas as provas arqueológicas parecem afirmar que tudo isto é uma mera coincidência e nada mais…

 

Portanto, será que a capela ou ermida de São Mamede de Janas foi, em outros tempos, um templo romano em Sintra? Se grande parte das provas apresentadas acima parecem sugerir uma resposta afirmativa, as provas arqueológicas presentes no local parecem afirmar-nos o contrário. Contudo, é igualmente necessário ter algum cuidado com estas afirmações – isto não é o mesmo que afirmar que nunca existiu um recinto religioso dos Romanos no “Monte da Lua”, mas sim que ou ele não esteve localizado neste local preciso, como supúnhamos, ou todas as provas dessa antiga presença in situ se perderam por razões desconhecidas e muito difíceis de explicar.

A lenda da Batalha de Clavijo

A lenda da Batalha de Clavijo merece ser mencionada por cá em virtude de se tratar de um confronto guerreiro puramente lendário na cultura ibérica. Isto porque, se em infindáveis outros casos não nos é possível afirmar se um determinado evento tomou mesmo lugar ou não – por exemplo, no contexto nacional, o que aconteceu a Dom Sebastião depois da batalha de Alcácer Quibir? – já em relação a esta batalha todos os autores e estudiosos dos nossos dias admitem que se trata de uma história completamente ficcional.

Um momento da lenda da Batalha de Clavijo

Lembram-se de quando cá falámos de Guesto Ansures e o chamado “tributo das cem donzelas”? Se nessa altura o herói matou muitos Mouros e salvou seis donzelas, muitas outras continuaram a ser levadas para Córdova, até que o monarca Ramiro I das Astúrias, no século IX, lá decidiu que essa situação tinha de acabar. Juntamente com o seu pequeno exército, ele decidiu combater contra toda esta injustiça, até que se deparou com um enormíssimo número de inimigos na zona de Clavijo. O rei não tinha qualquer forma real de os derrotar a todos, pelo que decidiu tentar descansar uma última noite antes do confronto dessa Batalha de Clavijo. Porém, naquela que ela pensava vir a ser a derradeira escuridão da sua vida, este rei teve um sonho em que lhe apareceu São Tiago* (o tal de Compostela), e o santo prometeu-lhe auxílio na batalha vindoura. Mas, se assim o prometeu, ainda melhor o fez – no dia seguinte o próprio São Tiago, vindo do reino dos céus num cavalo branco e já completamente equipado para a batalha, apareceu no campo de batalha e matou um número enorme de infiéis, ganhando assim até o seu novo título, certamente incrível para um santo, de “Mata-Mouros”.

 

Claro que todo este relato da Batalha de Clavijo é pura ficção, como já dissémos acima, mas há ainda um elemento muito curioso em tudo isto. Se se diz que esta batalha teve lugar no século IX, ela só aparece em fontes escritas por volta do século XIII, e os seus contornos gerais não deixam de lembrar a “nossa” Batalha de Ourique, cuja lenda, muito semelhante à reproduzida acima, só aparece com os seus agora-famosos contornos miraculosos no século XV, e em que São Tiago Mata-Mouros também foi evocado. Em ambos os casos, pelo menos dois séculos passaram entre os supostos eventos reais e a declaração escrita de um intervenção miraculosa nos mesmos.

Nesse seguimento, se sabemos que esta batalha espanhola nunca teve lugar, ou pelo menos não com todos os contornos acima, o que dizer do famoso combate em que interviu o “nosso” Afonso Henriques? Se até sabemos, através das crónicas da época, que teve lugar uma batalha (real) num local com o nome de Ourique, será o famoso milagre nacional uma adaptação de aquele que se cria ter tomado lugar em Clavijo ou, apesar das muitas semelhanças, um acontecimento totalmente independente? Essa resposta, preferimos deixá-la para os leitores…

 

*- Sobre o nome deste santo, deve ser lido o que já aqui foi escrito na nota final sobre a lenda de Santiago de Compostela.

A “História Secreta dos Mongóis” e Gengis Khan

O texto de que falamos hoje, esta História Secreta dos Mongóis, merece aqui uma breve menção tanto por se tratar do texto mais antigo composto na Mongólia, provavelmente na primeira metade do século XIII, como por ser a grande fonte primária para a vida e conquistas de Gengis Khan. Assim, a obra principia com alguns eventos que podem ser considerados puramente lendários, antes de avançar significativamente no tempo para a altura da vida e morte do homem que nasceu com o nome de Temujin, mas que ficou muito mais conhecido entre nós, na cultura ocidental, como “Gengis Khan” – o que, na verdade, é apenas um título de nobreza local, aparentemente criado nessa altura e que teve esta famosa figura como o seu primeiro portador.

A História Secreta dos Mongóis e Gengis Khan

Mas, pergunte-se, será que esta História Secreta dos Mongóis tem algum interesse para o leitor comum? Apesar de possuir algumas características curiosas – e.g. só nos chegou por via de traduções chinesas, como a que é mostrada na imagem acima, e é quase sempre escrita numa primeira pessoa dos vários intervenientes – o grande interesse da obra é mesmo a forma como nos reconta, com o que podemos supor ser um mínimo de fidelidade, toda a história contínua por detrás da figura de Gengis Khan. Portanto, quem quiser saber mais sobre ele e/ou as respectivas conquistas guerreiras, tem nesta fonte primária uma boa opção de leitura, apesar da obra – segundo foi possível apurar – não existir em Português, mas apenas em tradução alemã, inglesa, russa, etc.

Jacaré Bangão, uma lenda angolana

A história ou lenda do Jacaré Bangão não é muito longa, mas parece ter um significado importante para o povo de Angola, que até erigiu uma estátua a este episódio – naturalmente lendário, como a história abaixo muito facilmente provará – na província de Bengo.

A lenda do Jacaré Bangão

Então, quem é o Jacaré Bangão, tão desconhecido em terras de Portugal, mesmo para aqueles que têm ascendência angolana? Conta-se que em outros tempos Angola estava tão repleta de impostos que as pessoas começaram a ficar mais e mais insatisfeitas com toda a situação, ao ponto de um jacaré local ter sentido que também ele os devia pagar. Mas, depois, quando saiu do rio e se dirigiu ao local em que se pagavam os impostos nessa altura, o administrativo que tomava conta dessa tarefa, que até era um cidadão de Portugal, ficou tão intimidado com a presença do animal que fugiu logo do seu posto de trabalho, talvez até para nunca mais voltar.

 

Outras versões da lenda adicionam mais ou menos detalhes a esta trama basilar (uma das versões mais intrigantes que encontrámos refere que este animal era, na verdade, um cidadão angolano transformado pelo poder da magia), mas – e como a estátua acima parece demonstrar – o Jacaré Bangão ficou uma espécie de símbolo da luta angolana contra a gestão dos Portugueses, que se foi prolongando até 1975. Talvez seja até esse facto que melhor explica a representação acima, em que o povo parece levantar e aclamar o animal como um verdadeiro herói da pátria, pelo facto de este ter, de uma forma simbólica e lendária, afastado aquele que era visto como um ocupante colonial que tanto agrilhoava os cidadãos da região com um conjunto de impostos que lhes pareciam cada vez mais infindáveis e intoleráveis. Recordamo-lo hoje para que os seus “feitos” em outros tempos não sejam esquecidos…

A lenda dos Shichi Fukujin

Contamos aqui a lenda dos Shichi Fukujin, de terras do Japão, dada a sua semelhança com uma também famosa lenda chinesa, a dos Oito Imortais, de que cá falámos anteriormente. Esta ligação entre os ambos os países é importante porque, como outros mitos e lendas não deixam de nos recordar – relembre-se, por exemplo, o caso comparável da Kitsune e da Huli Jing – existem várias histórias que foram levadas de um país para o outro, sofrendo alterações significativas nessa transferência. Assim, se não temos a certeza absoluta da ligação entre os 八仙 chineses e os 七福神 japoneses, é fácil constatar que ela existe, podendo, no mínimo dos mínimos, ter sofrido alguma inspiração da sua congénere. Portanto, hoje, falamos deste grupo de sete divindades, cujo nome colectivo pode ser traduzido como “Sete Padroeiros da Felicidade”.

A lenda dos Shichi Fukujin, todos os sete deuses

Essencialmente, as sete figuras que compõem estes Shichi Fukujin podem ser vistas como uma espécie de santos associados a sete domínios da felicidade humana. Em nenhuma ordem específica, eles são:

  1. Jurojin, deus da longevidade, por vezes substituído por Toshitoku, deus do talento, talvez para não ser confundido com uma das figuras abaixo, que se assemelha muito a ele.
  2. Ebisu, deus da prosperidade, abundância e pescadores. Costuma ter um peixe consigo, símbolo da comida necessária para o dia-a-dia.
  3. Bishamonten, deus da guerra, glória e fama. Como é óbvio, tem consigo os instrumentos da guerra.
  4. Benzaiten, deusa da beleza, da família e das artes.
  5. Daikokuten, deus do comércio, protector das colheitas. Com um saco às costas (onde tem a fortuna que pode vir do comércio), ou algumas vezes um martelo (símbolo do trabalho).
  6. Fukurokuju, deus da sabedoria. Careca, alto, muitas vezes acompanhado por uma tartaruga, veado ou garça, símbolos da sua idade.
  7. Hotei, o nosso “Buda Gordo“, que é aqui deus da sorte, das crianças e da popularidade. Com a sua pança à vista e orelhas longas. O seu saco contém prendas para as crianças, com a companhia das quais até costuma ser representado.

O barco dos Sete Deuses Japoneses

Se existem várias lendas associadas a cada uma das figuras destes Shichi Fukujin, a mais importante parece ser a que as une com o propósito de viajar num barco como o mostrado acima. E para que o fazem, poderiam perguntar? Porque é nessa sua viagem que, segundo se diz, no início de cada ano visitam todas as terras e dispensam as várias felicidades aos seres humanos. E isto é importante na cultura nipónica porque dá, de alguma forma, às pessoas um conjunto de tradições para o novo ano – se, na nossa cultura ocidental, fazemos pedidos para cada novo ano, não temos qualquer figura que possamos associar à sua realização; por comparação, numa cultura como a chinesa ou japonesa poderíamos adquirir uma pequena estátua de Hotei, colocá-la em nossas casas e, mesmo que apenas de uma forma meramente psicológica, sentiríamos a sua ajuda, o que facilita um pouco mais a busca pelos nossos objectivos do que um mero “ah, o meu plano para este ano é vender mais coisas na minha loja”.

 

Uma última consideração, relativamente a este tema de hoje – recorde-se que também os Oito Imortais Chineses, como estes Shichi Fukujin, viajam num barco e têm uma tarefa semelhante à descrita acima. O que os distingue, de um modo geral, destas figuras japonesas é mesmo o seu número – isto porque o sete (7) é considerado um número de muito azar na China, mas de muita sorte no Japão! Como tal, se numa pintura – por exemplo, num restaurante chinês ou japonês – virem algumas figuras orientais a viajar num barco, a sua proveniência pode ser inferida através deste pequeno facto – oito na China, sete no Japão!