A lenda da Peninha (em Sintra)

Se já cá aludimos anteriormente a esta lenda da Peninha, em Sintra, quando falámos de locais como a Ermida de São Saturnino ou a Anta de Adrenunes, entre outros temas, só hoje sentimos a necessidade de a contar por cá. Isto porque, fazendo recentemente um binge-watch dos antigos programas de José Hermano Saraiva, notámos que também ele já tinha falado de muitas das lendas nacionais que aqui abordámos anteriormente. Assim, poderíamos estar correr o erro de “chover no molhado”, de falar de coisas para as quais já existem uma infinidade de relatos. Portanto, se falamos aqui hoje desta lenda, não é apenas para a recordar, mas mais que tudo para lhe adicionar alguns elementos que, aparentemente, já quase ninguém parece saber.

A lenda da Peninha

Nas imagens acima pode ser visto o sintrense Santuário da Peninha em dois momentos da sua história. Do lado esquerdo, o local tal como era no século XIX, e do lado direito o mesmo espaço como pode ser visto hoje, no início da terceira década do século XXI. Quase que apetece jogar às diferenças com as duas imagens, tão repletas de elementos que as aproximam e as afastam, mas no cume deste pequena penha – ou “penhinha”, posteriormente “peninha”, o que deu nome ao local – ainda existe uma belíssima capela que data de inícios do século XVIII. E é também mais ou menos dessa altura – fazendo fé no Santuário Mariano de Frei Agostinho de Santa Maria – que nos chegou preservada a lenda por detrás deste recanto religioso.

 

Conta-nos ela que num data cujo tempo já esqueceu uma pastora andava por estes locais. Parece que era muda, no início, mas uma estranha ocorrência depressa a curou – ela encontrou uma misteriosa senhora neste penedos, que a instou a ir para casa e a pedir pão à sua mãe. A jovem sabia que, fruto da pobreza familiar, não havia qualquer pão em sua casa, mas quando seguiu o pedido da bela dama acabou por encontrar, miraculosamente, o alimento que foi instada a procurar. Posteriormente, ela levou mais gente ao local em que tinha encontrado esta enigmática dama; não a conseguiram reencontrar, mas viram, isso sim, foi uma imagem de Nossa Senhora dentro de um espaço que ora aparece definido como uma lapa, ora como uma caverna. Por três vezes levaram a estatueta para São Saturnino, a escassos metros de distância, por três vezes ela regressou à lapa/caverna, até que decidiram construir o chamado “Santuário da Peninha” no local de todo este milagre.

 

Assim se conta a lenda da Peninha, com mais ou menos detalhes. É provável que já a tenham lido ou ouvido em outros sítios, é uma famosa lenda da zona de Sintra, mas quem quiser prestar mais atenção à história encontrará um problema, que é a referência a uma lapa ou caverna como o local de origem de uma imagem miraculosa que recebeu o nome de Nossa Senhora da Peninha. Onde está esse local? Será que ele até existe, ou é mera ficção da lenda?

A lapa e caverna da Peninha

Fomos então procurá-lo e encontrámos tanto uma lapa como uma caverna na Peninha, o que poderá ter contribuído para a confusão presente nas versões do relato lendário. Em ambos os casos, por razões de segurança não achámos prudente explorar todo o seu interior, mas isto comprova que os locais mencionados na lenda existem mesmo, dando validade a toda a história e à ideia de que o santuário foi construído, de facto, neste local por aí existir pelo menos um espaço como o referido na narrativa, onde se dizia que outrora apareceu uma imagem miraculosa da mãe de Cristo.

 

Face ao perigo, ao difícil acesso e ao facto dos locais estarem hoje com algum de lixo, desaconselhamos veemente todos aqueles que queiram tentar entrar nesta lapa e na caverna, mas o próprio Santuário da Peninha, já esse, tem um panoramo belo e, se o encontrarem aberto – o que é raro – a capela local é verdadeiramente digna de ser visitada. Podem vê-la no vídeo abaixo:

Mas toda esta lenda da Peninha ainda não fica por aqui. Se esta Nossa Senhora da Peninha curou miraculosamente a pastora da sua mudez, e lhe deu pão, há aqui também um terceiro milagre que é muito menos conhecido. Conta-se, nesse seguimento, que quando o santuário original estava a ser construído ele era de muito difícil acesso aos trabalhadores. Então, a santa fez brotar uma fonte num sítio relativamente próximo deste – agora até chamada “Fonte da Peninha” – para que os construtores e os futuros fiéis tivessem ao menos alguma água para beber. Ela ainda existe hoje, foi renovada recentemente, tinha água quando a fomos reencontrar, mas é difícil de ver do topo da montanha; em alternativa, quem caminhar para este local vindo da Malveira da Serra poderá, sem muita dificuldade, encontrá-la pelo caminho pedregoso.

 

Falar da história e da arquitectura do próprio santuário já escapa aos nossos objectivos de hoje, mas neste relato da lenda da Peninha de Sintra deixamos ainda uma curiosidade final. Lembram-se das duas imagens que mostrámos acima? Se antes, no século XVIII, até pareciam viver pessoas nas casas próximas do santuário (como a gravura parece mostrar), elas estão hoje, como o próprio santuário, renovadas mas quase abandonadas. Quase nada têm no seu interior, porque estão, como o grande recinto quadrangular no cume, inacabadas desde a reconstrução que aqui teve lugar em inícios do século XX. Até quando…?

 

 

P.S.- Voltamos hoje às nossas publicações, com uma semana repleta de cinco temas de diferentes áreas!

Em homenagem aos falecidos de Covid-19, duas semanas de interregno

Durante as próximas duas semanas – a última deste ano, e a primeira de 2022 – iremos fazer um pequeno interregno em termos de novas publicações. Decidimos fazê-lo não só porque a situação nos afectou pessoalmente, mas porque sentimos que a ocorrência e publicação diária de novos casos de Covid-19, de um já-quase banal “hoje foram X novos infectados e Y novos mortos”, é profundamente redutora do valor imensurável da vida humana. Não são Y óbitos, não são pura e simplesmente meros números, mas sim Y seres humanos, pessoas de carne e osso como nós, que adoeceram e faleceram em virtude de toda esta pandemia. Como tal, estas duas semanas sem escrita quererão homenagear, em espírito e em letra, tanto os que já sofreram e faleceram nesta pandemia, como os que ainda poderão vir a sofrer as suas consequências no ano que aí vem. A nossa compaixão está com todos eles, bem como com os profissionais de saúde que tanto têm trabalhado ao longo deste tempo de pandemia.

 

Face ao que se anda a passar, fizemos uma doação a uma associação de apoio ao Covid-19 (até porque é para coisas como essas que cá temos publicidade…), e convidamos possíveis leitores a fazerem o mesmo, doando a algum projecto pelo qual sintam uma maior afinidade ou, em alternativa, deixando a sua própria homenagem virtual na secção de comentários abaixo.

A estranha trama de “Gladiador 2”

Faz já quase 22 anos que o filme Gladiador apareceu nos cinemas de todo o mundo. Dado o seu enorme sucesso, a ideia de uma sequela sempre foi demasiado tentadora, mas à presente data ainda não existe um Gladiador 2… mas até podia já ter existido (!), e é disso que aqui falamos hoje – como se faz uma sequela de um filme em que – spoilers, para quem nunca tenha visto o original – o herói morre no final?!

Poster de Gladiador 2

Na imagem acima pode ser visto um cartaz do filme original, seguido por uma versão (falsa, da autoria de Isabel Eeles) de um possível cartaz para Gladiador II. Tem, perto do canto superior esquerdo, um pequeno texto associado, “What we do in life… echoes in eternity”, que é como quem diz, na língua de Camões, “o que fazemos na vida tem eco na eternidade”, numa breve alusão a uma história outrora proposta para um novo filme, uma continuação do anterior. E qual era mesmo ela, então?

 

Simplificadamente, a trama de Gladiador 2 – na versão da história que nos chegou, que foi escrita por Nick Cave – contaria o que se passou depois da morte de Maximus Decimus Meridius. O herói, trazido de volta à vida por um misterioso Mordecai, encontra os deuses do Olimpo num templo misterioso. Estes, agora decrépitos, propõem-lhe uma curiosa troca – o assassinato de Hefesto, que de alguma forma que não é muito explícita traiu os outros deuses e começou a acreditar no Cristianismo, em troca da sua vida e do regresso da sua família.

A história deste Gladiador 2 continua, depois, com o herói trazido de volta à vida, a reencontrar o seu filho Marius, que o esqueceu, entre outras figuras do primeiro filme, entre os quais Lucius Verus, outrora um jovem que admirava o combatente da arena, mas agora o antagonista. Entre vários confrontos entre Cristãos e Romanos, chega-se ao final da história, em que o herói – naquela que é provavelmente a sequência mais estranha do guião – se vê nas mais diversas batalhas que foram tomando lugar ao longo da história mundial, desde as Cruzadas até à Guerra do Vietname. O filme termina com Maximus Decimus Meridius, condenado a uma grotesca imortalidade (o porquê não é claro), numa casa de banho do Pentágono, pouco antes de discutir a estratégia a adoptar numa qualquer guerra dos nossos dias.

 

Se grande parte do filme toma lugar ainda nos tempos da Antiguidade, é a introdução de elementos mitológicos, bem como de um estranhíssimo final, que mais surpreende em toda esta ideia para uma potencial trama de um Gladiador 2. O guião em questão é relativamente fácil de encontrar online – até pode ser lido aqui – mas há que deixar claro, na escrita e leitura destas linhas, que se há novas notícias, relativamente recentes, de que este segundo e novo filme ainda está planeado para o futuro, a trama será agora provavelmente muito diferente da apresentada acima. O que pode até ser bom, ou mau, dependendo do que depois aí vier…

“Missa do Galo” – qual a origem do nome?

Nesta altura do ano também se ouve falar muito de uma Missa do Galo. Mas qual é a origem desse estranho nome?

A origem do nome da Missa do Galo

Sobre a origem do nome da Missa do Galo, existem um grande número de teorias – nos mais diversos sites e artigos é dito que se poderá ter devido ao facto de um galo ter cantando aquando nascimento de Jesus Cristo (desconhecemos tal lenda em tempos da Antiguidade…); que já existiu uma tradição de sacrificar um galo neste dia (mas porquê?); ou que esta missa tomou o nome do facto de terminar tão tarde que até já estes animais cantavam quando as pessoas regressavam a suas casas; entre outras hipóteses pouco ou nada atestadas historicamente, ou sequer comprovadas de alguma forma mais significativa. Mas então, de onde vem mesmo este nome?

 

A ideia de uma “Missa do Galo” poderá ter uma origem muito mais interessante, mas muito pouco referida em outros locais, que até explica o porquê dessa missa natalícia ter tomado esse nome comum em Portugal e Espanha, mas raramente em outros países. Explique-se. Já cá falámos, anteriormente, da grande importância de Prudêncio, autor do século IV, na cultura ibérica – pense-se, por exemplo, na sua influência nas lendas de Santa EuláliaSão Cassiano de Ímola e São Vicente – mas além de nos ter deixado muitas outras histórias de santos maioritariamente ibéricos, também nos legou vários hinos que ainda são cantados nas igrejas e mosteiros dos nossos dias. Entre eles conta-se um Hino ao Canto do Galo, que tradicionalmente parece ter sido cantado nesta altura do ano – i.e. do solstício de inverno, em que os dias eram mais pequenos – e que nos revela a verdadeira identidade do agora-famoso “galo”.

E quem é ele? Nada mais, nada menos, que o próprio Jesus Cristo, que nasceu e veio ao mundo para trazer luz à escuridão que os Cristãos associavam ao Paganismo. E, de facto, o mesmo hino até apresenta diversos paralelismos entre o próprio animal cantor e a grande figura cristã, levantando a possibilidade significativa de que essa missa tenha ocupado o mesmo lugar que em outros tempos tinham os vários cultos associados ao solstício e posterior crescimento dos dias.

 

Assim, face a tudo isso, é bastante provável que a origem do nome da “missa do galo” venha do facto de ela representar o nascimento de Jesus Cristo como o de um galo que veio trazer uma nova luz ao nosso mundo, num contexto que até tem diversos vectores metafóricos, constantes ou subentendidos num dos hinos de Prudêncio que ainda é conhecido de uma forma significativa, bem como cantado, nos nossos dias.

O mito de Saturno e a Saturnália

Nesta altura do ano é sempre apropriado falar-se do mito de Saturno e do antigo festival da Saturnália. Isto porque é muito comum referir-se, por estes dias, que a data do nosso Natal, bem como alguns elementos da própria celebração, provêm de um festival romano chamado “Saturnália”… mas será isso mesmo verdade, ou pura fantasia?

Em busca de uma resposta, comecemos por recordar aqui o mito de Saturno, que não é, no seu cerne, senão o do Cronos grego com um novo nome. Tal como referimos há já uns meses:

Cronos (…) era um dos titãs. Resumidamente, foi ele que destronou Urano, tendo cortado com uma foice os genitais do próprio pai (sim, este é um daqueles mitos gregos mais chocantes e grotescos), acção de que nasceu a deusa Afrodite. Depois, ascendendo ao trono do Olimpo, reinou com um punho de ferro. Mas tinha medo de ser destronado por um filho, como ele próprio tinha feito ao seu pai, e então quando lhe nasciam filhos e filhas, ele engolia-os. Fê-lo repetidas vezes, até que lá nasceu Zeus, cuja mãe substituiu por uma pedra. O futuro deus da trovoada foi então amamentado e criado por uma cabra, e mais tarde logo e destronou este Cronos, com pelo menos uma fonte literária a nos dizer que também ele castrou aquele que o gerou, antes de ascender ao trono do Olimpo.

Este é o mito de Saturno, ou Cronos, tal como ele era conhecido entre os Gregos da Antiguidade, e que pode ser encontrado em obras tão famosas como a Teogonia de Hesíodo, mas também em vasos gregos como o mostrado abaixo, em que esta figura divina parece prestes a aceitar Zeus/Júpiter ou uma pedra:

O mito de Saturno

Contudo, quando os Romanos pegaram nesta figura de Cronos e fizeram dele o seu Saturno, também lhe parecem ter adicionado pelo menos uma nova aventura, a que já cá fizemos uma alusão anteriormente:

O vencido [i.e. Saturno] fugiu para Itália, onde veio a conhecer o deus Jano, entre outras aventuras muito pouco conhecidas.

 

Feita então esta breve introdução, pergunte-se agora o que foi a Saturnália…

Este festival parece ter-se baseado num evento grego de nome Kronia, numa evidente relação com o nome da mesma figura divina entre os Antigos Gregos, e era uma celebração que tomava lugar durante vários dias e celebrava a antiga Idade de Ouro, que se cria que este titã tinha trazido ao mundo antes de ser derrubado pelo seu filho. Infelizmente, as fontes literárias que nos chegaram não nos contam como eram todas as festividades que tomavam lugar, mas sabemos, pelo menos, que incluíam alguns jogos e debates, uma troca de prendas, a eleição de um rei da festa (como ainda temos no “nosso” Carnaval), e – talvez o elemento mais famoso – uma inversão temporária de papéis, em que ou passavam a ser os “donos” a servir a comida aos seus escravos, ou comiam todos em conjunto e numa mesma mesa, numa simbólica igualdade.

 

Face a estas características, é claro que o festival era muito popular, pelo que os Cristãos poderão ter tido alguma dificuldade em acabar com ele. Seria, portanto, de supor que até foi, eventualmente, ocupado pelo “nosso” Natal, mas… ao contrário do que muitos artigos de revistas e jornais dão a entender, isso não aconteceu bem assim. Na chamada Cronografia de 354, este festival inicia-se a 17 de Dezembro – e sabemos, por outras fontes, que parece ter-se prolongado até dia 23 – enquanto que o dia 25, em si, aparece associado a Sol Invictus e ao nascimento de Cristo em Belém, na Judeia. Dois eventos, uma só data, atestados sem dúvidas no ano de 354 d.C. … mas sem que nunca seja explicado qual a relação entre eles (se é que existia…), ou o porquê de ter sido essa a data definida para o importante evento cristão. Teorias até existem muitas, mas certezas há poucas ou nenhumas!

 

Neste seguimento, faz sentido acreditar que o nosso Natal copiou alguns elementos de festivais dos Romanos – nomeadamente os da Saturnália e do dia de Sol Invictus – mas não sabemos em que medida é que esses festivais anteriores influenciaram o nosso. E desconhecemos isso porque não temos, hoje, qualquer fonte literária credível que explique como foi definida a suposta data do nascimento de Jesus Cristo, ou que nos informe até que altura se foram prolongando os vários festejos que os Romanos tradicionalmente associavam ao nome de Saturno. Em ambos os casos, poderão tratar-se de puras coincidências, ou de uma tentativa cristã de associar novos festejos a datas que já eram populares… e quem quiser dizer mais que isso ou mente, ou fá-lo sem conhecimento de causa!