Beringel e Panóias, dois brasões portugueses

Segundo a informação que temos, serão quase 3100 as freguesias que existem em Portugal. Cada uma delas, se não mesmo todas, têm um brasão associado, e entre eles contam-se representações muito curiosas. Por isso, hoje falamos de dois estranhos brasões de Portugal, os de Beringel e de Panóias.

Os estranhos brasões de Beringel e de Panóias

O primeiro deles, de Beringel, localidade próxima de Beja, é definido da seguinte forma oficial – “Escudo de vermelho, com dextrochero de ouro, com um voo adossado do mesmo e empunhado de uma espada de prata, encabada de ouro. Coroa mural de prata de quatro torres. Listel branco, com a legenda a negro: BERINGEL.

O segundo, de Panóias, localidade próxima de Ourique, define-se oficialmente assim – “Dois braços de carnação vestidos um de ouro, outro de prata, passados em aspa, em ponto de honra. Escudo de azul, com dois braços de carnação vestidos um de ouro e outro de prata, passados em aspa; em ponto de honra, uma cabeça de homem de carnação, com barba e cabelos de negro sobre nimbo de ouro. Coroa mural de prata de quatro torres. Listel branco, com a legenda a negro: PANÓIAS – OURIQUE.

 

Agora, tendo-se em conta que os muitos brasões de Portugal têm sempre a representação de uma lenda local (relembrem-se os casos de Coimbra, de Lisboa e de Moura) ou de algo que caracteriza a região (como nos casos de Benfica, de Matacães, ou da Quinta do Anjo), o que dizer em relação a estes dois? Em ambos os casos parece ser notório que caem na primeira das duas categorias, mas não conseguimos encontrar, mesmo nas fontes literárias mais antigas, qualquer explicação para estas representações, com excepção de um pequeno elemento – originalmente, a cabeça apresentada no brasão de Panóias era a de Jesus Cristo (se os braços lhe pertencem, porquê as cores diferentes para cada um deles?). Sobre a representação presente no de Beringel, nada.

É, portanto, bastante provável que o seu verdadeiro significado nunca volte a ser conhecido, tendo a altura em que ambos os brasões foram desenhados ficado para sempre perdida nas areias do tempo…

O mito de Vertumno e Pomona

Vertumno e Pomona são duas figuras divinas do tempo dos Romanos que, curiosamente, não vêm dos Gregos. Assim, o seu mito é puramente romano, podendo até ter sido uma invenção de Ovídio. Recordemo-lo nas linhas que se seguem:

O mito de Vertumno e Pomona

Conta-se que Pomona era uma deusa romana associada à abundância dos campos, dos jardins e dos pomares. Contudo, era também muito orgulhosa de si mesma, rejeitando todos aqueles que procuravam o seu amor. E, agindo dessa forma, foi desprezando as mais diversas figuras – entre as quais se contavam sátiros! – até que um dia Vertumno, deus dos jardins e pomares, se aproximou dela, disfarçando a sua identidade real. Enganando-a, conduziu-a a um diálogo no qual a deusa acabou por admitir que um único deus merecia o seu amor; e, depois, revelando então a sua verdadeira forma (que não era, nem mais nem menos, que o do deus que ela tinha nomeado), conseguiu obter o mesmo amor que já tinha sido negado a tantas outras figuras!

 

É, portanto, um mito sucinto, este de Vertumno e Pomona, mas nem por isso foi menos significativo ao longo dos séculos. Ainda hoje podemos ver na arte múltiplas representações de ambos (uma delas até no “nosso” Palácio Nacional de Queluz!), apesar do pequeno universo mitológico que os une e que se parece resumir ao mito recontado acima. Eles são, em grupo e talvez mais que tudo, puras representações metafóricas dos pomares, levantando a hipótese de que até possa ter existido um tempo, anterior ao casamento das duas figuras de que nos fala este mito, em que pelo menos um deles até tinha uma associação diferente… contudo, os contornos mais antigos de ambas as divindades, anteriores ao primeiro século da nossa era, estão hoje envoltos em algum mistério, o que nos impede de saber muito mais sobre Pomona e Vertumno, tal como eles eram conhecidos entre os nativos de Itália antes da escrita dos versos de Ovídio.

A lenda do Cavaleiro do Cisne (e Lohengrin)

Quando aqui falámos sobre a Sala dos Cisnes em Sintra referimos que a sua figura principal era uma alusão à lenda do Cavaleiro do Cisne e Lohengrin. Infelizmente, por motivos de tempo, espaço e complexidade não foi possível contá-la nessa altura, mas decidimos fazê-lo hoje. Porém, convém explicar que esta lenda, que na Idade Média foi popular em vários países europeus, tem muitas versões distintas, e não sendo possível contá-las a todas aqui, o que apresentamos abaixo é uma edição sincretizada e muito simplificada dos dois grandes momentos que compõem esta história. Vamos a isso!

A lenda do Cavaleiro do Cisne (e Lohengrin)

Um dia, enquanto um cavaleiro caçava pela floresta, encontrou uma belíssima dama com uma corrente de ouro ao pescoço. Loucamente apaixonados, as duas figuras consumaram o seu amor ali mesmo, antes do cavaleiro levar esta dama consigo de volta ao palácio de que era rei. Depois, os meses foram passando e esta dama deu à luz sete crianças, seis rapazes e uma rapariga, todos eles com correntes de ouro ao pescoço. Porém, uma mulher da corte, mal intencionada e porque estava apaixonada por este rei, matou a dama, lançou o rumor de que tinham nascido sete monstros do corpo da falecida, e depois abandonou os recém-nascidos na floresta, onde eles foram encontrados por um casal de pastores, que optou por criá-los a todos como seus.

À medida que o tempo foi passando a maldade da mulher da corte foi descoberta e o rei enviou um criado para trazer os seus sete filhos de volta. Mas este, subornado pela vingativa mulher e vendo seis das crianças a tomar banho sob a forma de cisnes, roubou-lhes as respectivas seis correntes de ouro, que pretendia destruir, o que os impossibilitaria de regressar à sua forma humana. A sétima das crianças, a do sexo feminino, lá contou ao rei o que se tinha passado; as seis correntes foram recuperadas e cinco dos seus irmãos voltaram à sua forma humana – o sexto, esse, como a sua corrente ficou danificada não poderia voltar a ser humano, sofrendo então um destino misterioso.

 

A história poderia ficar por aqui, mas depois os anos foram passando, até que uma jovem, no seu momento de maior desespero, implorou que algum cavaleiro a ajudasse. Surgiu-lhe uma misteriosa figura, um cavaleiro num barco puxado por um cisne, que a salvou e jurou amá-la até ao dia em que ela lhe perguntasse o seu nome. E se, inicialmente, tudo corria bem entre ambos, através da influência de companheiras mal-intencionadas a jovem veio a sentir a necessidade de perguntar o nome ao seu amado. Este, incrédulo e triste, revelou finalmente o seu nome – “Lohengrin” – e depressa partiu no seu barco-cisne, para não mais tornar a ser visto.

 

 

Esta lenda do Cavaleiro do Cisne e de Lohengrin, relatada aqui a dois momentos, tem muito que se lhe diga. Esconde vários mistérios, mas o maior de todos eles é provavelmente o que aconteceu ao rapaz da primeira parte da história. Será que ele era o próprio cavaleiro, que veio a obter forma humana por razões desconhecidas? Será que era, em alternativa, o animal que transportava este novo Cavaleiro do Cisne? Ou era até uma figura distinta, cuja história está interminada? E de onde vinha, para onde ia, como obteve o título, este Cavaleiro do Cisne? É difícil conseguir sabê-lo porque, como já foi deixado claro acima, existem as mais diversas versões de toda esta lenda, e elas apresentam em alguns momentos informações completamente contraditórias. Por exemplo, na ópera de Wagner, que podem ver abaixo (com legendas em italiano, mas pelo menos está completa!), o cavaleiro e a dama da segunda parte da história até acabam juntos depois da divulgação do seu nome…

Contudo, é importante dizer que nas versões mais antigas não parece existir qualquer ligação entre as duas metades desta história. Assim se preservava o grande mistério do jovem da primeira, mas também ficavam inúmeras perguntas por responder em relação ao cavaleiro da segunda. O que era, na verdade, comum em muitas outras histórias medievais – relembrem-se, por exemplo, as lendas nacionais de Dona Marinha e das Damas dos Pés de Cabra. Talvez tenha sido este problema de face dupla que levou, posteriormente, à interligação dessas duas lendas, originalmente distintas, para lhes dar uma história mais completa e mais ao gosto dos tempos, que já iam mudando – face a essas alterações, alguns até diziam que o misterioso cavaleiro era um familiar remoto de Godofredo de Bulhão, conquistador e primeiro rei de Jerusalém…

Nome e localização da aldeia do Astérix

Qual é o nome da aldeia do Astérix, e onde fica ela? Talvez esta seja uma pergunta de face dupla que já muitos se colocaram ao longo dos anos, enquanto lêem as aventuras fictícias do famoso gaulês. Assim, a melhor forma de responder a perguntas como essas é partir precisamente de um mapa constante nesses livros de banda desenhada, que reproduzimos abaixo:

Nome e localização da Aldeia do Astérix

Sobre o nome da aldeia do Astérix, que na imagem acima é pura e simplesmente denominada “Aldeia Gaulesa”, nunca nenhum autor parece ter sentido a necessidade de lhe dar um verdadeiro nome. Isto porque se presume, mesmo dentro do próprio universo da série, que não tenham existido muitas mais aldeias com poções mágicas e capazes de fazer face ao poderio dos Romanos. Até o prólogo das histórias nos afirma isso mesmo de uma forma muito directa, quando repete, uma e outra vez, a seguinte informação:

Estamos no ano 50 Antes de Cristo. Toda a Gália foi ocupada pelos Romanos… Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resiste ao invasor. E a vida não é nada fácil para as guarnições de legionários romanos nos campos fortificados de Babaorum, Aquarium, Laudanum e Petibonum…

 

Assim sendo, se esta povoação não parece ter nome, onde fica mesmo a aldeia do Astérix? Pelo mapa acima depreende-se que ficasse na costa norte da Armórica, i.e. actual noroeste de França, mas que mais elementos podem ajudar a identificá-la? Os quatro campos romanos são, como é natural, puramente ficcionais, não ajudando na identificação do local da aldeia. Contudo, ao lado esquerdo do povoado gaulês podem ser vistas três pedras no meio do oceano… e, na verdade, na comuna francesa de Erquy, que fica mais ou menos na localização mostrada acima, até existe um cabo conhecido como Trois Pierres, i.e. “três pedras”, que pode ser mesmo a região mostrada na banda desenhada.

 

Nesse seguimento, há que frisar, para quem ainda não o saiba, que a aldeia do Astérix é um local puramente ficcional. Se Goscinny e Uderzo lhe deram a localização acima, não foi, presume-se, com uma intenção de lhe dar quaisquer contornos históricos, que possam levar o leitor a uma localização “real”, mas talvez por pouco mais do que uma mera coincidência. Ainda assim, nos nossos dias de hoje é possível visitar a própria aldeia destes famosos gauleses, como a fotografia interactiva abaixo comprova, em que pode ser vista a casa do chefe da aldeia (que nas versões portuguesas tem o nome de Abracurcix, Abraracourcix ou Matasétix).

Onde é esta aldeia do Astérix, poderão perguntar os mais curiosos? É no chamado Parc Astérix, a quarenta minutos da cidade de Paris, que entre as suas diversas atracções contém uma reprodução parcial da famosa aldeia gaulesa, quase como ela é apresentada nas bandas desenhadas. Infelizmente, não está rodeada por três campos romanos, nem contém todas as casas famosas da série, mas talvez seja o mais fiel que os fãs da série de Goscinny e Uderzo poderão encontrar hoje em dia… e se o nome da aldeia é desconhecido, e a sua localização uma pura ficção, é pelo menos provável que este local agrade aos fãs das BDs, mesmo que numa breve visita virtual como a acima!

 

P.S.- Há que deixar claro, como sempre, que não fomos pagos para escrever absolutamente nada disto…

“Zargueida”, de Francisco de Paula Medina e Vasconcelos

Existem, entre os muitos poemas épicos que foram sendo escritos em Portugal ao longo dos séculos, alguns verdadeiramente surpreendentes, e esta Zargueida, escrita por Francisco de Paula Medina e Vasconcelos no início do século XIX, talvez seja uma delas. É, essencialmente, uma construção poética sobre a descoberta da ilha da Madeira, no século XV, por João Gonçalves Zarco. Dito isso, o tema gera quase automaticamente uma questão – como é que se consegue fazer um épico sobre um tema com esse, que dificilmente terá vilões para o herói defrontar? É aí que entra o famoso engenho que se requer a qualquer bom autor de uma obra semelhante.

Zargueida, de Francisco de Paula Medina e Vasconcelos

A Zargueida é, essencialmente, um poema mitológico, na medida em que existe uma acção terrena relativamente limitada, mas que depois é complementada com um conjunto significativo de episódios com os deuses dos Romanos, inspirados por Camões (que o autor até cita em dados momentos), e com descrições das belezas da Madeira, elementos que enriquecem bastante a trama. Assim, o grande vilão é aqui o deus Pã – a cujos mitos já cá fizemos algumas alusões, e.g. a história que o une a Pítis – que tendo vivido na ilha da Madeira desde tempos imemoriais, a pretende manter somente para si próprio, enquanto que as pretensões dos Portugueses são auxiliadas por deuses como Baco e Júpiter. Entre os episódios mais significativos da trama contam-se a lenda portuguesa de Machim e Ana D’Arfet (ela é recontada de uma forma alongada); a fundação de Lisboa por Ulisses (um tema que parece ter sido sempre muito famoso nos épicos nacionais); e a catábase de Pã, quando este deus procura o auxílio de Plutão, deus dos mortos, para afastar os heróis nacionais da ilha que eles pretendiam povoar, levando a momentos surpreendentes como este:

Enquanto as negras Fúrias vozeavam,
As monstruosas Górgones fremiam,
As Hárpias alígeras grasnavam,
E os Centauros indómitos rugiam.
As Cilas, quais serpentes, sibilavam,
Quais javalis os Sátiros grunhiam,
E era tão dissonante a horrenda grita,
Quanto a glória de Zarco era infinita.

 

Pelo caminho, e num nível mais terreno de toda a acção, podem ser encontrados momentos tão deliciosos, e igualmente convidativos a uma viagem ao arquipélago descoberto por este herói, como o que se segue:

Parte da descrição dos encantos da Madeira na Zargueira

De um modo geral, esta Zargueida é uma obra digna de nota, por abordar de uma forma aventurosa um tema que, à partida, nos pareceria difícil de conseguir num poema épico. É uma obra que certamente recomendamos, e temos mesmo de recomendar, a todos aqueles que sejam apaixonados pelos encantos da Madeira; o texto até poderá já não ser fácil de encontrar num formato físico, mas pode ser encontrada online gratuitamente, por exemplo, na BND.