“Gregório, ou O Bom Pecador”, de Hartmann von Aue

O texto Gregório, ou O Bom Pecador, de Hartmann von Aue, poderá parecer, a uma primeira vista, pouco mais que uma versão medieval do mito de Édipo. Uma edição inglesa do trabalho, a que tivemos acesso, quase que coloca esta composição do século XII também ao lado de uma lenda de medieval de Judas, mas parece-nos que nenhuma dessas supostas inspirações capta o interesse e trama parcialmente únicos da obra original. Por isso, naturalmente que devemos recapitular toda a sua história num punhado de linhas:

Gregório, ou O Bom Pecador, de Hartmann von Aue

O pai e mãe de dois irmãos, um de cada sexo, faleceram. Prometendo então cuidar um do outro, os dois irmãos foram unidos por um grande amor familiar, até que um dia, por intervenção do Diabo, se apaixonaram. Unidos num amor carnal, a jovem engravidou. Estonteados com o horrendo pecado que tinham cometido, o “casal” separou-se e a jovem acabou por colocar o filho num barco, juntamente com uma tábua que explicava a história do bebé e a razão porque foi abandonado assim.

Os anos foram passando. O bebé, que recebeu o nome de Gregório*, foi criado numa aldeia e num ambiente monástico, até que, mais tarde, desenvolveu um amor pela cavalaria e decidiu tornar-se cavaleiro em vez de monge. Depois de algumas peripécias nas artes da cavalaria, e sem o saber, ajudou a mãe a recuperar o seu reino… e esta, entretanto caída numa paxão pelo jovem, acabou por casar com ele. Não tiveram filhos e tudo parecia correr bem, até que uma aia desta rainha descobriu a tábua gravada que o jovem tinha guardado todos esses anos. A verdade por detrás da paixão entre a rainha e Gregório, seu filho legítimo, destruiu ambos, afastando-os para o que pensavam ser toda a eternidade!

 

Até aqui, podemos encontrar alguns vectores comuns entre a trama de Gregório, ou O Bom Pecador e algumas das lendas já referidas acima. Contudo, a história desta obra não fica ainda por aqui – após 17 anos de penitência agrilhoado numa rocha, Gregório é, por intervenção divina, escolhido para se tornar Papa. Reúne-se novamente com a mãe e ambos parecem ser perdoados por Deus, face aos seus grandes pecados… numa espécie de moral final que conduz o leitor à ideia de que todos pecados têm perdão se os respectivos pecadores estiverem verdadeiramente arrependidos.

 

Resumida a obra, podemos então dizer que, na nossa opinião, Gregório, ou O Bom Pecador não é apenas uma versão medieval do mito grego de Édipo, mas sim um texto que se inspirou em diversos mitos e lendas da altura para reimaginar uma história semelhante, uma em que os intervenientes são Cristãos e, como tal, podem obter uma espécie de perdão divina que estava anteriormente negado às figuras da Antiguidade, como o filho de Jocasta ou Judas. É essa a moral da história, a virtude de um arrependimento que se acaba por concretizar no perdão dos pecadores, mais do que naquele sofrimento eterno por que passaram os lendários antecessores do herói desta obra. Gregório, o herói desta obra, não é apenas uma nova versão deles, mas uma espécie de fantasia do que lhes poderia ter acontecido se tivessem vivido na era cristã, numa interessante inovação à história basilar de “o herói matou o pai e casou com a mãe”… e, por isso, toda esta obra de outros tempos mereceu ser relembrada aqui!

 

 

*- O texto é do século XII. Nessa altura já tinham existido sete papas de nome “Gregório”, levantando a possibilidade de que toda esta história se tenha baseado numa qualquer lenda oral da época, relativa a um deles.

O mito de Comatas

Não se pode afirmar que o mito de Comatas se encontre entre os mais famosos da Antiguidade. Por muito que se procure por ele, parece aparecer somente num único poema de um único autor, e mesmo aí é exposto de uma forma muito geral. Terá sido invenção desse poeta, ou será que as suas linhas nos preservam uma história que foi sendo esquecida ao longo dos séculos? Não sabemos responder a essa questão, mas trata-se de um mito tão curioso que dificilmente poderíamos deixar de falar dele aqui.

O mito de Comatas

Mas antes disso, preste-se alguma atenção ao vaso grego acima. Ele contém pelo menos um sátiro, mas quem prestar mais atenção poderá ver que as personagens humanóides se encontram acompanhadas por uma espécie de seres voadores, que, com maior atenção, podem ser distinguidos como abelhas. Isto bate certo com uma visão da Antiguidade em que, seguindo autores como Plínio o Velho e seus antecessores, estes animais eram considerados como pequenos pássaros. E é, de facto, de abelhas que fala este mito de hoje, razão pela qual decidimos mostrar o curioso vaso representado acima.

 

Comatas era um pastor que vivia algures em terras da Grécia. Um dia, viu as nove Musas a passearem, próximas de uma fonte, e tornou-se um enorme seguidor delas, o que até poderá ser uma metáfora para dizer que se tornou poeta. Algum tempo depois, enquanto andava pelos campos, perdeu uma das ovelhas do seu patrão. Este, muito zangado com a ocorrência, fechou o pastor dentro de uma enorme caixa, pretendendo assim deixá-lo para morrer. Contudo, as Musas, tristes com toda esta ocorrência, e desejando poupar a vida do seu seguidor, enviaram-lhe as suas abelhas, que entraram pela fechadura da caixa e deram o seu mel a Comatas. E, depois, quando a caixa foi finalmente reaberta – tarammmmm – este herói mostrou-se vivo, seguro e na mais plena saúde, fruto do auxílio que as famosas sete irmãs lhe tinham dado!

 

Se existem outros mitos gregos em que as abelhas têm um papel significativo – por exemplo, segundo uma versão também terão sido elas, juntamente com Amalteia, que deram comida ao jovem Zeus quando este teve de esconder de seu pai – este é particularmente digno de nota por também apresentar as Musas como figuras intervenientes na história. E isso sim, é muito mais raro no panorama geral dos mitos gregos e latinos da Antiguidade, razão pela qual sentimos que esta pequena história de Comatas tinha de ser recordada por cá…

A lenda de Deu-la-Deu Martins (e o brasão de Monção)

Falar do brasão de Monção e da lenda de Deu-la-Deu Martins é quase a mesma coisa, já que os dois elementos estão tão intimamente ligados que a heroína, bem como uma das suas mais famosas frases, podem ser vistas no símbolo atribuído a esta vila. Mas porquê? Explicá-lo implica, como é muito natural, contar a lenda escondida por detrás de toda esta situação.

A lenda de Deu-la-Deu Martins (e o brasão de Monção)

Conta-se que no tempo do rei Dom Fernando I, na segunda metade do século XIV, Castela tentou invadir Portugal. Algumas vilas e cidades foram sendo conquistadas, enquanto que outras – como o exemplo de Faria já aqui demonstrou – levantaram uma oposição notável a esse invasor. Monção tentou seguir o segundo desses caminhos, mas os Castelhanos cercaram a vila durante meses, até que a comida e a bebida começaram a escassear. Então, uma das habitantes locais, uma tal Deu-la-Deu Martins, teve a ideia de pegar na pouca farinha que ainda tinham, fazer pães com ela, e dá-los aos inimigos, para dar a entender que os locais ainda tinham tanta comida que até se podiam dar ao luxo de a oferecer aos inimigos. E, de facto, a ideia funcionou – pasmados com toda a ocorrência, depressa se retiraram do local, dando a vitória aos Portugueses!

 

Mas então, onde entra a frase “Deus o deu, Deus o há dado“, tão notória no brasão de Monção? Uma versão pouco satisfatória diz que é apenas uma mera versão corrompida do nome da heroína, a tal Deu-la-Deu, já de si muito pouco comum no nosso país (e já lá iremos…), mas uma explicação bem mais interessante diz que essa terá sido a frase proferida pela heroína aquando do instante em que mostrou os pães ao inimigo. O que faz sentido – se os Castelhanos sabiam da fome dos Portugueses, mas ouvissem que por milagre divino os combatentes nacionais andavam a receber comida, rapidamente entenderiam que a sua era uma luta ingrata, desleal, impossível, levando-os – como até informa a própria lenda – a retiraram-se de volta para os seus territórios.

 

Assim se explica a lenda de Deu-la-Deu Martins e a sua ligação ao brasão de Monção, mas uma última questão poderá estar na cabeça do leitor – afinal, de onde vem o estranho nome desta heroína? É provável que se trate de uma alcunha derivada da própria lenda, ou de algum evento real escondido por detrás da mesma, como mostra o caso de Geraldo Sem Pavor. A ter existido uma figura real a inspirar esta heroína, é provável que o seu apelido até tenha mesmo sido “Martins”, mas a sua verdadeira identidade perdeu-se à medida que ela foi tornada uma figura lendária, e hoje estão as duas tão intimamente ligadas que é já impossível separá-las nas suas componentes históricas e lendárias. Portanto, sobre o nome da heroína, será suficiente dizer que é uma alcunha e pouco mais…

Cinco lendas de burlas online

Hoje, apresentamos aqui cinco lendas de burlas online – e assim podem ser consideradas, “lendas”, pela fantasia das histórias que as envolvem. Fazêmo-lo porque, apesar de pensarmos que toda a gente já conhece estas coisas e jamais caíria numa esparrela, conhecemos uma jovem que recentemente acabou por fazê-lo, e lá andava toda preocupada por pensar que alguém tinha vídeos dela de cariz sexual e os ia divulgar caso ela não pagasse um resgate em bitcoins… vamos a isso?

Cinco Lendas de Burlas Online

A lenda do Príncipe da Nigéria

Esta lenda do Príncipe da Nigéria, também conhecida como esquema nigeriano, é talvez a mais famosa de todas as lendas de burlas online de que aqui falaremos hoje. Essencialmente, tudo começa com um e-mail em que é contada a história rocambolesca de um riquíssimo cidadão estrangeiro – que não tem de ser literalmente um príncipe ou viver na Nigéria… – que devido a um qualquer problema político não pode utilizar a sua vasta fortuna no país em que vive. Assim, ele contacta-vos – ignore-se, a bem da história, o fulcral “onde arranjou ele o meu contacto?” – e pede ajuda com a situação, prometendo que se o ajudarem a retirar esse dinheiro do respectivo país poderão ficar com um fatia significativa do mesmo, sempre na ordem dos milhões de dólares ou euros.

O que acontece se aceitarem? Essencialmente, vão sendo informados, uma e outra vez, que a pessoa precisa que paguem um custo de processamento por ela, uma taxa, umas luvas para este e aquele funcionário, e assim por diante, até que se cansem de esbanjar dinheiro, mas sem que alguma vez venham a receber um cêntimo de volta. Por isso, poupem o vosso dinheiro!

Gostaríamos de presumir que ninguém cai nisto, mas há uns anos atrás uma alfacinha passou por esta situação, tendo até ido ao Banco de Portugal tentar levantar o que era supostamente um cheque de dezenas de milhões de euros (!) Foi informada que tinha sido burlada, que mesmo que quisessem não tinham ali disponível aquele dinheiro para lhe dar, mas foi muitíssimo difícil convencê-la de que o cheque não era mesmo verdadeiro… e mesmo após várias tentativas, a pessoa ainda pensava que era o BP que estava a querer burlá-la, para ficar com todo aquele dinheiro para si, o que atesta bem a manipulação psicológica por detrás de burlas como estas.

 

A lenda da Chantagem por Pornografia

A Chantagem por Pornografia, a segunda das cinco lendas de burlas online de hoje, acontece ocasionalmente por e-mail, mas talvez por causa da pandemia parece ter-se tornado até mais comum nas redes sociais, online dating, e locais semelhantes. Na versão mais simples, recebem um e-mail de alguém que vos diz que instalou um vírus no vosso computador, gravou todos os vossos contactos, vos viu num site de conteúdos pornográficos, e a não ser que paguem X dinheiro em bitcoins (isto, por elas serem quase impossíveis de seguir), irá enviar esse vídeo a toda a gente que conhecem. Porém, na versão mais recente – e menos comum em Portugal, excepto no Tinder – falam com uma pessoa online, ela pede-vos pelo menos uma das vossas redes sociais (e copia os contactos de quem vos segue) e sugere terem sexo virtual com as câmaras ligadas. Se o aceitarem (otários!), a pessoa grava-vos e diz que se não pagarem X irá mostrar o vídeo a todos os vossos contactos.

Agora, tudo isto seria super fácil de evitar se as pessoas não fossem completamente otárias ao ponto de fazerem estas coisas estúpidas, mas toda esta burla levanta uma questão a que até os mais burrinhos deveriam saber responder – se pagarem o resgate, quem vos garante que a pessoa no outro lado do ecrã não vos continuará a pedir mais, e mais, e mais dinheiro? Na brincadeira, quando isto aconteceu à jovem já referida acima, um colega disse-lhe “olha, se a pessoa vai partilhar o vídeo… não podes enviar-me já uma cópia antecipada? Para… hum… só para pesquisa, claro!”; ela rejeitou, mostrando que não é assim tão parva, mas num sentido menos jocoso a grande questão acaba por ser essa mesmo – se pagarem o resgate, não têm qualquer forma de garantir que a pessoa apagou o vídeo e, portanto, mais vale não pagar nada!

 

A lenda da Violência Doméstica

Nesta terceira lenda de burlas online convém começar por deixar um ponto muito claro – a violência doméstica é horrível e existe. Ela deve ser levada muito a sério. E, talvez precisamente por essa gravidade, existem pessoas que decidiram usá-la para burlar os outros. Tudo começa com uma conversa inocente numa qualquer rede social. Ao longo do tempo, a pessoa vai-se revelando (quase) perfeita para vocês, mas neste momento tem um marido ou namorado muito ciumento e que abusa dela. Depois, um dia, contacta-vos e diz que precisa da vossa ajuda – finalmente decidiu sair de casa, deixar o abusador, mas precisa de um empréstimo para os primeiros tempos… e diz que vos paga de volta, não se preocupem! Por evidente compaixão, muita gente ajudaria com isso, mas é o errado a fazer, até porque o que se passa nesses casos é quase sempre uma burla com intenção de obter proveito monetário.

Então, qual deverá ser o caminho a tomar? É simples, fazendo fé nas palavras da pessoa, ela deverá ser reencaminhada para um site nacional de Violência Doméstica (damos aqui um exemplo, mas existem muitos mais) e para as forças de segurança. Se o caso for mesmo mesmo real, e não apenas uma burla mal-intencionada, uma pessoa que quer ajuda procura-a, aceita-a, e já existem em Portugal muitas associações que ajudam quem está nessas condições, incluindo dando-lhes guarida gratuita durante o tempo que for necessário.

 

A lenda do Falso Autor

Esta lenda do falso autor, a quarta lenda de burlas online de hoje, existe há muitos anos, desde os tempos em que uma mulher primeiro decidiu escrever sob o nome de um homem, mas em Portugal a sua versão mais famosa é provavelmente a de um certo casal misterioso. Essencialmente, esta burla online passa por representar falsamente quem anda a escrever determinados conteúdos. E porque acontece isto? Porque, por exemplo, se quiserem vender fraldas, isso é mais fácil apoiado por uma mãe de cinco filhos do que por um homem solteiro. De igual forma, se se pretender publicitar hotéis e restaurantes, é mais fácil, por exemplo, fazê-lo por intermédio de um casal de classe média (e tem de ser um casal porque isso permite publicitar temas normalmente associados aos dois sexos, duplicando a audiência), do que por dois ricalhaços de sangue azul.

O que fazer nestes casos? Tudo passa por uma interrogação muito simples – o que nos querem vender? Quer dizer, se alguém anda a realizar esta burla, certamente que o faz por alguma razão… e qual será ela? Descobrindo qual é a razão, descobrirão igualmente que está muito ligada ao que pretendem publicitar constantemente.

 

A lenda do E-mail Bancário

Burla online com nome do BPI

O grande problema em descrever esta quinta burla online é o facto de ela existir num número infinito de formas. Já o vimos associada a bancos, Finanças de Portugal, ISPs (entre eles o Sapo), em anúncios do Youtube, e muitos etcs. Ela passa, essencialmente, por vos veicular uma informação de carácter urgente e à qual, em circunstâncias normais, deveriam querer responder tão depressa quanto possível. Por exemplo, quando vem de um banco, diz que se não fizerem X irão perder acesso ao sistema online (ver a imagem acima); se for das Finanças, informa-vos de uma multa que têm para pagar até ao dia de hoje; podem igualmente ser informados de uma conta para pagar urgentemente, de que foi encontrado um qualquer virus no vosso sistema, e tantas outras coisas, que só estão limitadas pela imaginação humana para inventar novas preocupações.

Em todos esses e-mails ou anúncios vem sempre um ficheiro ou link associados. Com notória preocupação, fazem download de um ficheiro e… na verdade, é um virus que após esse momento tem acesso a todos os vossos dados. Para o evitar, convém terem anti-virus no computador (ou telemóvel) e só abrirem ficheiros cuja proveniência é 100% certa. Proteger-vos, nestas situações, depende apenas de vocês mesmos.

 

E assim termina esta breve descrição de cinco burlas online, naquele que é provavelmente um dos temas mais inesperados que alguma vez deixámos por cá, mas esperamos que ajude mais alguém… e, se alguma vez caíram em burlas online – sejam estas, ou alguma outra – por favor deixem as vossas histórias ali nos comentários!

O dia em que Deus bebeu demais

Volte-se agora a temas mais interessantes. Falar de um lendário dia em que Deus bebeu demais implica recordar parte do que aqui dissemos quando falámos sobre a antiga Esposa de Deus – as crenças dos Judeus, e posteriormente dos Cristãos, não nasceram num vácuo. Elas são fruto de séculos e séculos de evolução. Assim, quem ler bem e com atenção o texto bíblico poderá apurar que à figura divina são aplicados um conjunto de nomes que lhe vêm de mitos e lendas de tempos anteriores, entre eles a designação El. Algumas dessas histórias até são referenciadas obliquamente no Antigo Testamento, para quem prestar muita atenção, enquanto que outras foram sendo progressivamente esquecidas. A que contamos aqui hoje provém de fontes ugaríticas com cerca de 3200 anos e pertence ao segundo desses dois grupos.

Terá este sido parecido com o dia em que Deus bebeu demais?

Conta-se então que El um dia decidiu dar uma festa. Convidou todos os outros deuses para ela – recorde-se, na altura este ainda era um panteão politeísta – e até lhes deu o direito de decidir que partes da carne queriam para si mesmos. E a história prossegue:

Os deuses comeram e beberam, / Beberam vinho até estarem cheios, / [Beberam] novo vinho até estarem bêbados.

Depois, o deus da Lua fingiu ser um cão e escondeu-se debaixo da mesa do banquete; duas deusas deram-lhe comida, até que o porteiro de El levou a mal toda a situação e lhes pediu que não o fizessem. Mas, depois, El continuou a beber mais e mais, até que teve de ser ajudado a regressar para sua casa, e:

El caiu como o corpo de um falecido, / El tornou-se como aqueles que descem ao submundo.

Para terminar esta pequena história, um deus confrontou-o com a ocorrência e duas deusas foram procurar os ingredientes para uma mistura que pudesse curar quem está bêbado, que incluíam pêlo de cão e fezes (entre outras coisas agora desconhecidas). O que isto tem de notável é que na fonte literária que nos chegou, esta pequena lenda do dia em que Deus bebeu demais é depois seguida por uma cura, supostamente real, para todos aqueles que beberam demais, e que até parece mencionar os mesmos componentes que a própria história. Seria, nesse sentido, a lenda uma espécie de mnemónica para uma cura médica, ou uma mera coincidência de circunstâncias? Não sabemos.

 

Mas… quem perceber menos destas coisas poderá querer fazer uma grande pergunta, i.e. será que é correcto identificar este El com o “nosso” Deus? Partilham, no Antigo Testamento, um mesmo nome, mas será isso suficiente para dizer que ambos até são uma só e a mesma figura?

 

A nós, parece-nos correcto dizer que El é um antecessor de Deus da mesma forma que o Zeus dos Gregos o era de Júpiter dos Romanos. Em várias outras fontes ugaríticas até podem ser encontrados vectores de ligação com o Antigo Testamento, e.g. uma das lendas ainda reconhecíveis até menciona as aventuras de um filho do profeta Daniel (ou Danel, neste original), um tal Aqhat; e todo este episódio pode até lembrar-nos, em linhas gerais, o da (futura) embriaguez de Noé. O caso da Esposa de Deus é flagrante nessa ligação, porque ainda pode ser encontrado na Bíblia dos nossos dias por aqueles que a forem ler com atenção e numa edição séria (mas, infelizmente, a maior parte dos leitores passa-lhe simplesmente por cima). Por isso, sim, esta lenda do dia em que Deus bebeu demais pertencia, anteriormente, à figura a que hoje chamamos “Deus”, mas foi sendo esquecida ao longo dos séculos, até porque tinha uma ligação clara ao panteão politeísta dos Ugaritas, não fazendo qualquer sentido sem a presença de essas outras figuras divinas, que os autores do Antigo Testamento tentaram fazer esquecer o melhor que puderam…