“Turma da Mónica – Lendas Brasileiras” de Maurício de Sousa

A Turma da Mónica – Lendas Brasileiras, da autoria de Maurício de Sousa, é um daqueles livros que é bom para os pequenotes nas terras do Brasil. Essencialmente, ele conta, de uma forma muito simples e com imagens bonitas para os mais pequenos, algumas das principais lendas do Brasil.

Turma da Mónica - Lendas Brasileiras

Infelizmente, esta Turma da Mónica – Lendas Brasileiras também tem um problema, que é o facto de adaptar significativamente os conteúdos das lendas originais. Por exemplo, sobre o Lobisomem, o autor diz que “quando uma família tem o oitavo filho homem, depois de sete filhas mulheres, o menino se transforma em lobisomem após completar 13 anos”, que é ligeiramente diferente da versão original da história, em que esta maldição apenas afectava o sétimo filho de um conjunto de sete. Acrescenta, mais à frente, que “o lobisomem não morre nunca, não envelhece e nem fica doente”, e que esta criatura “precisava visitar sete cemitérios antes do amanhecer. Se não fizesse isso, não conseguiria voltar à forma humana e permaneceria transformado em lobo para sempre.”, que são elementos que não conseguimos encontrar em nenhuma fonte significativa de lendas brasileiras.

 

Sobre a Mula Sem Cabeça, o autor dá-nos uma informação curiosa – diz que esta criatura tem a cabeça “envolvida por uma tocha de fogo”, ou seja, na verdade ela até tem cabeça, mas como está sempre envolta numa chama constante, não é possível ao infeliz atacado vê-la. Continua, informando que quem esconder as unhas e dentes não é atacado por este monstro, e que ele pode ser derrotado – regressando à sua forma original – se lhe tiraram os freios que tem na boca. De onde vêm estas informações? Também não as conseguimos encontrar em nenhuma fonte significativa de lendas brasileiras, sendo possível que venham de versões orais.

 

Curiosamente, sobre o Saci, o autor desta Turma da Mónica – Lendas Brasileiras diz que “para prender um, é preciso jogar dentro do redemoinho um rosário de mato bento ou uma peneira”, que já é mais consistente com o que sabemos dessa figura. É provável que Maurício de Sousa tenha lido o famoso Resultado de um Inquérito de Monteiro Lobato.

 

Além destas lendas, a obra Turma da Mónica – Lendas Brasileiras, de Maurício de Sousa, conta também as do Boitatá, do Boto Rosa, do Curupira, da Iara, do Negrinho do Pastoreio, da Vitória-Régia, do Uirapuru, da Cabra Cabriola e da Cobra Honorato. Todas elas estão bem ilustradas, com um estilo muito semelhante ao da outrora-famosa Turma da Mónica, mas salvo o caso de algumas informações que não se sabe muito bem de onde vêm – como as que apontámos acima, em forma de exemplo – esta obra é, sem dúvida, interessante para os mais novos, especialmente em terras do Brasil.

Volume Individual destas Lendas Brasileiras

Porém, uma pequena nota final – estas histórias da Turma da Mónica – Lendas Brasileiras existem em formato individual (ver um exemplo acima), mas também num volume que as compila a todas. É esse que mostramos na primeira imagem, ali mais em cima, e é essa, naturalmente, a versão que consideramos mais interessante para os leitores, até por apresentar aquelas que parecem ser todas as histórias desta colecção!

As lendas do Corpo-Seco

As lendas do Corpo-Seco provêm de terras do Brasil, onde aparecem atestadas em diversos estados. Em todos eles o cerne da história parece ser sempre o mesmo ou, no mínimo, muito semelhante – dizia-se que esta hedionda criatura nascia do corpo de um ser humano falecido, quando este tinha cometido na sua vida algum pecado tão horrendo que nem os Céus ou o Inferno queriam aceitá-lo dentro das suas portas. Então, estava condenada a vaguear pelo mundo dos vivos até ao fim dos tempos (talvez na companhia do Judeu Errante). Naturalmente que, face a esta informação basilar, uma questão se impõe imediatamente – que pecado assim tão abominável terá essa pessoa cometido, para ser sujeita a um castigo tão invulgar?

A lenda do Corpo-Seco

Numa primeira versão da lenda do Corpo-Seco, o primeiro homem a sofrer este destino foi um agricultor que, inicialmente, era muito pobre. No mais completo dos desesperos fez uma promessa a Nossa Senhora, dizendo-lhe que caminharia até um determinado santuário se esta o fizesse rico. O pedido à santa acabou por se realizar, mas depois este homem, cujo tempo o nome há muito apagou, acabou por ir ao santuário mas não da forma que tinha prometido – fez a viagem a cavalo, num carro de bois, …, com uma versão recente de toda a história a referir até um avião – o que o levou a ser castigado após a morte.

Uma segunda versão diz que este monstro nasceu do cadáver de um homem que era muitíssimo maldoso, que até batia muitas vezes na sua própria mãe, levando depois a que a mãe-terra recusasse recebê-lo no seu seio.

Já uma terceira história revela que o Corpo-Seco tinha sido, originalmente, um homem bastante rico mas muito sovina, que nem nunca dava qualquer esmola ao auxílio seja aos mais pobres, seja a membros da igreja católica. Então, quando um dia ele rejeitou auxiliar dois monges, insultando-os e quase até batendo neles, estes amaldiçoaram-no com um destino que parece ser mais terrível que a própria morte.

Um possível Corpo-Seco em versão feminina

Mas, curiosamente, estas lendas não se referem somente a figuras do sexo masculino. Uma quarta versão refere que, numa dada altura, uma mulher estava para ser sepultada em terras do Brasil. Contudo, cada vez que tapavam o túmulo, horas depois o seu corpo era expelido pela própria terra, que parecia recusar tê-la no seu cerne (como numa das versões acima – será que estão relacionadas? Será que esta mulher também batia na sua mãe?). Tentaram-se várias alternativas, sempre sem qualquer sucesso, até que ela acabou por ter o seu descanso eterno apenas quando foi sepultada num local muito específico, que depois tomou o seu (novo) nome em virtude desta famosa falecida – uns dizem que isso se passou na Serra do Corpo-Seco, em Ituiutaba (no estado de Minas Gerais), enquanto que outros dizem que o local foi mesmo uma misteriosa “Caverna ou Gruta do Corpo Seco”, de localização agora mais incerta.

 

Resumidas estas quatro versões, qual a origem de todas estas lendas do Corpo-Seco, nas suas diversas versões? Encontrámos algumas alusões demasiado vagas a uma proveniência portuguesa, mas não conhecemos qualquer lenda nacional semelhante a estas. Assim, é provável que estas narrativas tenham surgido da ideia de que alguns corpos se decompõem mais depressa que outros – o que, segundo a sabedoria popular, dependia do seu nível de pecados* – ou para incentivar certos comportamentos (bondosos) face a outros que eram vistos como muito negativos, como também acontecia com a famosa lenda da Mula Sem Cabeça, e como se pode depreender pelos actos (malvados) que foram motivo de punição nestas lendas.

 

 

*- Nesse contexto, há que esclarecer que se acreditava que os corpos dos santos permaneciam incorruptos após a morte, dada a sua pureza e como ainda hoje pode ser visto em diversas igrejas (e.g. o exemplo de São Torcato), enquanto que os dos pecadores voltavam muito rapidamente ao pó da terra.

A lenda da Cruz de Caravaca

Quando se fala de cruzes lendárias, é provável que a antiga Cruz de Caravaca, localidade no sudeste de Espanha e próximo de Múrcia, seja uma das mais conhecidas, pelo menos na Península Ibérica. Quanto mais não seja, e mesmo para quem ainda não conheça a sua história, pelo facto de se tratar de uma cruz dupla, como pode ser vista nesta pequena imagem ilustrativa do relato que se segue.

A lenda da Cruz de Caravaca

Conta-se então que no tempo da Reconquista Cristã de Espanha, quando a povoação de Caravaca ainda se encontrava na posse dos Muçulmanos, um determinado emir sentiu uma enorme curiosidade em ver os rituais cristãos, em particular o da comunhão. Como tal, entre os prisioneiros que tinha capturado numa batalha recente tentou localizar alguém que soubesse realizar esse ritual, e até acabou por encontrar um sacerdote da região. Este aceitou realizar o ritual da comunhão e foi procurar tudo aquilo de que necessitava para o realizar, mas quando chegou o momento fulcral notou que se tinha esquecido de uma “pequena” coisa, uma cruz. Mas pouco depois, enquanto sentia um enorme desespero no seu coração, o emir, que estava a seu lado, disse-lhe para olhar para uma janela próxima, onde puderam ser vistos dois anjos a carregar uma cruz dupla. Face a um tamanho milagre, o emir depressa se converteu ao Cristianismo, e a chamada Cruz de Caravaca pôde ser vista na igreja local durante muitos anos….

 

Seria, como parecerá óbvio, importante vê-la para que se pudesse atestar a verdade de toda a história, como no caso do milagre mexicano da Virgem de Guadalupe, mas infelizmente essa cruz medieval foi roubada durante a noite no Carnaval de 1934, para não tornar a ser vista – hoje existe apenas uma reprodução da original no local. Presume-se que ainda se dêem alvíssaras a quem revelar o paradeiro da anterior, aquela cuja lenda diz que foi trazida dos céus por dois anjos, pelo que se souberem onde ela se encontra hoje poderão reportá-lo às autoridades competentes e ainda ter uma boa recompensa. Os cidadãos de Caravaca de la Cruz certamente que o agradeceriam.

 

Assim, resta apenas uma questão essencial – porque é que a Cruz de Caravaca tem quatro braços, em vez dos dois tão habituais? Ouvimos muitas teorias mas nenhumas certezas, com as respostas mais interessantes, e que nos pareceram as mais fidedignas, a dizerem que esse aspecto invulgar se deve ao facto de se ter tratado de um tipo de cruz ortodoxa, vinda de alguma parte incerta; ou por esta cruz celebrar especificamente aquela em que Jesus Cristo foi crucificado – até por, segundo se diz, ter tido um pequena parte da Cruz Verdadeira no seu interior – tendo por isso no seu topo um crucifixo, em vez de uma mera figura do Redentor (como é mais habitual e até pode ser visto em incontáveis outras igrejas), i.e. é uma cruz grande com um crucifixo pequeno na sua parte superior. Verdade ou não, são boas teorias para tentar explicar o seu aspecto curioso, tão raro nas igrejas do nosso país mesmo nos nossos dias de hoje… e se tudo isto é verdade ou não, não deixa de ser uma bela história do cristianismo medieval!

O que diz o hino da Champions League? (com tradução portuguesa)

Em dia de futebol europeu costuma surgir frequentemente uma questão – o que diz o hino da Champions League? E, nesse sentido, será que até é possível traduzi-lo para português? Face a essa questão dupla, comece-se, portanto, por recordar a música em questão:

Quem prestar atenção a esta música da UEFA Champions League, tal como a reproduzimos aqui, poderá notar, sem muita dificuldade, que ela tem mais versos do que aquela versão que tende a aparecer nas nossas televisões. Isso acontece porque, na verdade, o hino em questão, datado do ano de 1992, raramente é tocado na sua forma completa, mas quase sempre numa versão simplificada, de que apenas são incluidos alguns dos seus versos, em específico o refrão, que sublinhamos na reprodução abaixo. Assim, na sua forma completa, a canção tem a seguinte letra, a que aqui também juntamos uma breve tradução para língua portuguesa:

Hino da Champions League, com tradução

Ce sont les meilleures équipes [Estas são as melhores equipas]
Es sind die allerbesten Mannschaften [Estas são as melhores equipas]
The main event [O evento principal]

Die Meister [Os Mestres]
Die Besten [Os Melhores]
Les grandes équipes [As grandes equipas]
The champions [As campeãs]

Une grande réunion [Uma grande reunião]
Eine grosse sportliche Veranstaltung [Um grande evento desportivo]
The main event [O evento principal]

Die Meister [Os Mestres]
Die Besten [Os Melhores]
Les grandes équipes [As grandes equipas]
The champions [As campeãs]

Ils sont les meilleurs [Eles são os melhores]
Sie sind die Besten [Eles são os melhores]
These are the champions [Eles são os campeões]

Die Meister [Os Mestres]
Die Besten [Os Melhores]
Les grandes équipes [As grandes equipas]
The champions [As campeãs]

Não é propriamente uma canção muito complexa, ou particularmente bela, este hino da Champions League. Porém, parece que o grande problema em compreendê-la é o facto de ter versos em três línguas diferentes – Alemão, Francês e Inglês – o que pode confundir significativamente aqueles que a ouvem. Ainda assim, este é um daqueles exemplos em que a forma parece importar mais do que o próprio conteúdo. Como atesta um jogador de futebol, citado no site da UEFA, “It’s always emotional to hear the Champions League anthem”, e talvez seja mesmo esse o grande objectivo da canção, uma forma muito concreta, mais do que um conteúdo belo, que lhe dá um sentido quase religioso entre os jogadores, técnicos e fãs. Talvez seja até por isso que, mesmo que sejam poucos os que sabem a letra deste hino, muitos o conseguem entoar e reconhecer sem dificuldades de maior…

O (outro) Jardim Zoológico de Lisboa

Quando, hoje, se fala de Jardim Zoológico de Lisboa, as pessoas tendem quase sempre a pensar num recinto lisboeta que está localizado na chamada Quinta das Laranjeiras. E é, de facto, aí que ele está, desde 1905 até aos nossos dias de hoje, mas o que já poucos parecem saber é que a capital de Portugal já teve, em outros tempos, um zoo num local muito diferente. Entre os anos de 1884 e aproximadamente 1905 da sua história – ou seja, durante quase 21 anos – ele esteve num local que ora chamam “Parque de São Sebastião da Pedreira”, ora chamam “Parque da Palhavã”, ou mesmo “Parque de Santa Gertrudes”, mas que na verdade são quase um e o mesmo sítio… e que, ainda menos pessoas parecem saber, ainda existe nos nossos dias de hoje!

Entrada do antigo Jardim Zoológico de Lisboa

Na imagem acima pode ser vista uma rua de Lisboa por onde passam milhares e milhares de pessoas todos os dias. Esta entrada acastelada foi outrora a do Jardim Zoológico de Lisboa – ou, como era chamado na altura, o “Jardim Zoológico e D’Acclimação”. O nome gravado nesta entrada desapareceu com os anos, mas a entrada ainda lá está, impávida e serena, como no primeiro dia de todo o espaço. Na altura a entrada custava “100 reis” (não fazemos ideia de quanto será em escudos ou euros), “50 reis para crianças até aos 12 anos e militares sem graduação”, com preços que dobravam às quintas-feiras.

 

Agora, uma pessoa mais curiosa poderá perguntar o que aconteceu a todo o espaço… chegou aos nossos dias um pequeno guia literário deste primeiro zoo, datado de 1884, em que são explicadas as regras do local, onde são reveladas as 56 espécies que lá estavam, e em que é até apresentado um mapa de todo o espaço. Nesse mapa – já voltaremos a ele – é dito que o recinto tinha “14 hectares, oito de parque e seis de terreno arrendado”, e o que aconteceu foi que em poucos anos parte desse terreno – presume-se que o arrendado – deixou de estar disponível, o que levou os responsáveis a procurar um novo local para o seu Jardim Zoológico de Lisboa, acabando este por fixar-se, em 1905 e como já dito antes, na Quinta das Laranjeiras. Mas, então, onde está hoje esse espaço anterior?

Mapa do Jardim Zoológico de Lisboa, no espaço antigo

Na imagem acima pode ser vista uma comparação entre o espaço do antigo Jardim Zoológico de Lisboa e o mesmo local tal como ele está nos dias de hoje. A laranja e a vermelho assinalaram-se uma torre que existe no local e a entrada já mostrada acima. Postos assim, lado-a-lado, os dois espaços, é fácil notar a semelhança que ainda têm hoje, passado mais de um século, até na geometria das ruas que circundam o local, com a Fundação Calouste Gulbenkian a ocupar, agora, parte do jardim original. É difícil saber-se se, passado esta centena de anos, ainda algo resta do espaço zoológico de outros tempos, mas podemos tentar perceber isso…

 

No mapa acima, como já foi referido, encontravam-se oito hectares de parque próprio e seis de terreno arrendado. O primeiro desses dois talhões está na parte superior da imagem, enquanto que o espaço arrendado era onde se localizava a entrada, ou seja, na parte inferior. A existir ainda algo deste espaço antigo, teria de ser entre o que é agora o Museu Calouste Gulbenkian e a entrada do recinto zoológico (o remanescente, na parte superior da imagem, teve vários usos ao longo das décadas, incluíndo o de Feira Popular em 1943). Não abundam, imagens do espaço em questão, mas ele pode ser visto numa gravura de um jornal da época, aqui invertida para reter a perspectiva apresentada acima:

Interior do antigo Jardim Zoológico de Lisboa

Quase ao centro pode ser vista a entrada do recinto (o palácio ao fundo ainda existe, pertence hoje ao Exército), e do lado esquerdo está a torre a que já aludimos acima. Percebem-se aqui pelo menos duas estruturas interiores do jardim, uma ao lado esquerdo da entrada e outra quase na margem do lago… mas parecem ambas frágeis, temporárias, incapazes de sobreviver a um século do nosso tempo humano. Portanto, se algo ainda nos chegou do espaço deste antigo Jardim Zoológico de Lisboa, será apenas a própria entrada, a torre que flancava o recinto, e talvez algumas árvores do seu interior, todos eles num espaço privado a que não é fácil conseguir aceder nos nossos dias. Mas a referência a um espaço que em outros tempos até parece ter sido bonito, essa, poderá perdurar na memória de todos aqueles que se cruzem com a sua antiga entrada, hoje na Rua Marquês de Fronteira (antiga “Estrada da Circunvalação”), a menos de 200 metros do Corte Inglés…