Quem foram os 12 discípulos de Jesus?

A uma primeira vista, responder a quem foram os 12 discípulos de Jesus, também conhecidos como os seus apóstolos, poderá parecer simples. Bastaria, como pensa a maior parte das pessoas, pegar nos textos do Novo Testamento e recolher todos os nomes que lhes são dados nessa fonte literária, e.g. no capítulo terceiro do Evangelho Segundo São Marcos. E parece simples, claro, até que se percebam que os nomes dos discípulos de Jesus Cristo não são constantes, nem se repetem em todas as fontes sem nenhuma variação. São tipicamente doze, numa alusão velada às 12 tribos de Israel, com Judas Iscariotes a ser posteriormente substituído por uma outra figura para originar um número total de 13, mas fora aqueles casos muito óbvios, como o de Pedro, na verdade quem foram esses discípulos de Jesus Cristo?!

Os 12 discípulos ou apóstolos de Jesus Cristo

Na imagem acima pode ser visto aquele que é provavelmente o mural mais famoso da história do Cristianismo. Nele estão presentes 13 figuras, i.e. as de Cristo e o seu séquito, mais quais são os seus nomes? Pegando nas diversas fontes literárias encontramos os seguintes nomes:

 

  1. Pedro, possivelmente o mais famoso dos discípulos, até pelo facto de Cristo ter feito uma pequena piada entre este nome e o grego πέτρος, i.e. “pedra”.
  2. Judas Iscariotes, o traidor.
  3. João, que muitos dizem ter sido o apóstolo amado, um dos evangelistas.
  4. André, irmão de Pedro, que também era pescador.
  5. Tiago, irmão de João.
  6. Tomé, famoso entre nós pelo facto de ter duvidado da ressurreição física do seu senhor.
  7. Simão, o Zelote.
  8. (Outro) Tiago.
  9. Um terceiro Tiago, que se pensava ser irmão, ou meio-irmão (o que evitava ter de explicar uma possível vida sexual da Virgem Maria), de Jesus.
  10. Filipe.
  11. Mateus, cobrador de impostos, possivelmente um dos evangelistas.
  12. Bartolomeu.
  13. [Judas] Tadeu.
  14. Matias, que veio a substituir Judas Iscariotes.
  15. Barnabé.

 

Se, por um lado, encontrámos 15 nomes de discípulos de Jesus, por outro quem perceber menos destas coisas poderá querer perguntar onde estão, por exemplo, Marcos e Lucas, duas das tais figuras que escreveram os Evangelhos. Na verdade, com excepção do primero e do quarto, que a tradição cristã atribui a Mateus e a João, os outros dois evangelistas nunca foram apóstolos, não conheceram Jesus Cristo na primeira pessoa – Marcos era um seguidor de Pedro, uma espécie de pseudo-apóstolo de segunda geração, que se diz que escreveu as suas linhas com informação que lhe foi dada pelo seu mestre; enquanto que Lucas foi um amigo de São Paulo (i.e. Saul de Tarso), não tendo qualquer ligação mais directa aos doze apóstolos.

 

Portanto, se vos perguntarem quem foram os 12 discípulos de Jesus, ou os nomes dos apóstolos que o acompanharam, convém começar por deixar claro que o seu número era completamente fixo mas as suas identidades nem sempre o eram. Com excepção das figuras que foram tornadas mais famosas em virtude das suas acções no texto bíblico – especificamente Pedro, Judas Iscariotes, João, André, Tiago e Tomé – as identidades dos restantes acompanhantes de Cristo são variáveis nas diversas fontes que nos chegaram, não concordando sequer nos Quatro Evangelhos, quanto mais nas outras fontes literárias!

“Liaozhai Zhiyi” e uma história mística chinesa

A história que aqui relatamos hoje provém de uma obra chinesa de nome Liaozhai Zhiyi, título que tende a ser traduzido muito cruamente como Histórias de um Estúdio Chinês. A obra, em si, data de meados do século XVIII, mas é composta por centenas de histórias compiladas por um tal Pu Songling. São histórias possivelmente baseadas em tradições orais – e.g. muitas delas até mencionam a criatura conhecida na China como Huli Jing – mas, de um modo muito geral, tratam-se de pequenos contos com alguns elementos místicos e misteriosos. Raramente são histórias muito assustadoras, ou pelo menos não o são no nosso sentido ocidental da palavra, mas face a esta altura do ano achámos que poderíamos aqui resumir, de uma forma muito breve, uma história provinda deste texto.

Capa da obra Liaozhai Zhiyi

Esta história, provinda de Liaozhai Zhiyi, conta-nos que um homem, de nome Liu, que era famoso na província em que vivia, faleceu e foi parar ao reino de Yama. Aí, dada a sua posição (elevada) no reino dos vivos, o Rei dos Mortos convidou-o a tomar um chá. Porém, Liu notou que os dois chás tinham cores diferentes, o que o levou a supor que lhe estava a ser dado a beber uma substância que o faria esquecer a vida passada. Assim, evitou bebê-la, e pouco depois, face aos seus pecados em vida, foi condenado a ser um cavalo na existência seguinte.

Viveu vários anos como cavalo, mas lembrando-se da sua (boa) vida anterior, acabou por decidir deixar de comer e morreu passados alguns dias. Voltando ao reino de Yama, o Rei dos Mortos e os seus laquaios notaram o que Liu tinha tentado fazer e, dessa vez, condenaram-no a reencarnar sob a forma de um cão. Como antes, este antigo homem viveu sob essa nova forma alguns anos, até que se fartou dela e mordeu o dono, arrancando-lhe até parte de uma perna. Foi punido muito rapidamente com a morte, regressando depois ao reino de Yama; novamente, tendo-se o monarca apercebido do que aconteceu, condenou Liu a uma nova reencarnação, desta vez como uma cobra.

Então, reconhecendo já que seria punido se fosse morto demasiado rápido, tentou seguir uma vida calma, adoptando diversos preceitos budistas, sem nunca procurar um falecimento prematuro. Até que um dia, enquanto rastejava pelo chão de uma floresta, foi atropelado por um carro de bois e feito em fanicos. Tornando então mais uma vez ao reino de Yama, o monarca dos mortos, estupefacto com a ocorrência, decidiu verificar o que se tinha passado e acabou por notar que esta última morte foi completamente acidental e no seguimento de uma vida bondosa. Portanto, lá permitiu a Liu que voltasse a adoptar uma forma humana na sua vida seguinte.

 

A história termina referindo que o autor da obra, Pu Songling, até conheceu este homem – ele conseguia falar desde o preciso instante em que nasceu, lembrava-se de muitas obras literárias que nunca tinha lido na vida presente, e face ao que se recordava de ter passado tratava sempre muito bem todos os animais. Palavras (quase) inspiradoras para as nossas vidas, comuns em literaturas como a chinesa ou indiana, mas não é totalmente claro se o autor se estava mesmo a referir a uma história completamente real, ou se, ao dizer que tinha conhecido este homem, nos escrevia já a sua ficção. Inclinamo-nos para a segunda opção, já que muitas outras histórias deste Liaozhai Zhiyi referem outros casos de pessoas que se lembravam de vidas anteriores, sendo até condenadas a viver sob a forma de animais como cães, cavalos, ovelhas, etc. Seria uma coincidência demasiado grande isso acontecer tantas vezes e a tanta gente num curto espaço de tempo…

 

Enfim, em jeito de conclusão, o que mais podemos dizer sobre este Liaozhai Zhiyi? Em si própria, a obra – que não parece existir traduzida em Português – é muito interessante para quem gosta de pequenos contos, porque cada história é quase completamente única e irrepetível, mas, salvo raríssimas excepções, não ocupa mais do que duas ou três páginas. Merece ser lida por quem goste das ideias apresentadas acima, mas convém deixar claro que o número de histórias contidas na obra parecem variar mediante a edição moderna; visto que o autor/compilador faleceu antes do texto ser publicado, parecem ter existido alguns manuscritos mais completos do que outros, o que justifica o “problema”. A edição a que tivemos acesso continha cerca de 150 histórias, mas existem outras, com até quase meio milhar de relatos, e nestas coisas… quantas mais melhor, claro! Por isso, se gostam destes temas e de pequenos contos, fica o convite para esta leitura pouco conhecida no nosso país…

A lenda de Martim de Freitas

Se, hoje em dia, a cidade de Coimbra já quase não tem castelo, existiu um tempo em que a cidade era protegida por uma fortificação imponente, e a lenda de Martim de Freitas transporta-nos precisamente para esse tempo, no século XIII da nossa era, altura em que reinava em Portugal Dom Sancho II. Certamente que o castelo dessa altura ainda não era como o de Coimbra em finais do século XVI, de que já cá falámos antes, mas quem assim o quiser pode imaginá-lo mais ou menos como na imagem abaixo:

A lenda de Martim de Freitas, alcaide do Castelo de Coimbra

Estando então extremamente bem protegido no “monte” da cidade, este castelo era quase inconquistável, e o monarca da altura depositou toda a sua confiança em Martim de Freitas para a sua protecção. Depois, apesar das muitas dificuldades, e dos mais diversos ataques que se tentaram, o local continuou inconquistável uma e outra vez.

Até que… um dia, este alcaide ouviu dizer que o seu senhor tinha falecido. Com dificuldade em acreditar nisso, obteve um salvo-conduto e dirigiu-se até Toledo, em Espanha, para ver o corpo do falecido rei com os próprios olhos. Só então, quando viu finalmente Sancho II no seu túmulo, é que tomou a chave da cidade de Coimbra que levava consigo, a depositou nas mãos hirtas do falecido, a retirou novamente e, para terminar, deu-a então a Dom Afonso III, como (agora) legítimo senhor da cidade e de todo o Portugal.

 

Esta é, portanto, uma lenda relativamente simples, mas que mostra bem a fidelidade que Martim de Freitas tinha para com o seu monarca. Este incubiu-o de uma tarefa, e o alcaide dispos-se a cumpri-la até ao limite, até ao instante que reconheceu que tinha um novo senhor e, como tal, também o deveria honrar como fez ao anterior. Quão melhor seria o nosso país se este mesmo espírito ainda vivesse em todos os seus habitantes, não é?!

 

 

P.S.- Com esta publicação sobre Martim de Freitas terminámos, finalmente, de escrever sobre todas aquelas grandes lendas de Portugal que Teófilo Braga considerava serem as mais famosas do nosso país. Demorámos alguns meses mas, conforme antes prometido, esta difícil tarefa está agora terminada! Por isso, nada como um bom jantar (virtual) para comemorar este feito…

Sobre o Livro de Linhagens do Conde D. Pedro

Se, somente pelo seu nome, o Livro de Linhagens do Conde D. Pedro nos remete para uma ideia muito enfadonha, de uma mera obra de natureza genealógica, ao abrirem-se as suas páginas é igualmente revelado um pequeno mundo de mitos e lendas que é tão digno de nota que achámos que o tínhamos de referir aqui.

O título do Livro de Linhagens do Conde D. Pedro

Como o título já indica, o Livro de Linhagens do Conde D. Pedro, composto no século XIV por Pedro Afonso (um dos filhos do rei Dom Dinis), reporta as mais importantes linhas genealógicas que existiam em Portugal aquando da sua composição. Segue, quase sempre, uma estrutura formulaica – é mencionado um homem, depois a sua esposa, e é finalmente dito que ele “fez nela” uma determinada prole*. Muito importante e interessante para quem estuda História Medieval, enfadonho para a grande maioria dos outros leitores, até que se começam a notar, aqui e ali, alguns eventos um tanto ou quanto mais estranhos. Por exemplo, esta família nasceu da Dama dos Pés de Cabra e aquela veio de Dona Marinha, entre várias outras histórias. Algumas são relativamente realistas (o texto original é aqui citado com leves adaptações, para ser mais fácil de ler nos nossos dias):

Sueiro Bezerra teve filhos tão maus como ele, de tão maus feitos e que foram traidores, tanto o pai como os filhos, que pegaram em parte dos castelos na Beira, que tinham de el’rei Dom Sancho, e deram-nos ao conde Dom Afonso de Bolonha.

 

Outras destas histórias do Livro de Linhagens do Conde D. Pedro até nos podem fazer rir um pouco:

Dom Rodrigo Gonçalves foi casado com Dona Inês Sanchez. Ela, estando no castelo de Lanhoso, fez maldade com um frade de Boiro, e Dom Rodrigo Gonçalves foi informado disto. E ele chegou e fechou as portas do castelo, e queimou a esposa e o frade, e a homens e mulheres e bestas e cães e gatos e galinhas e todas as coisas vivas, e queimou o quarto e panos de vestir e camas, e não deixou coisa móvel por queimar.

 

Enquanto que algumas delas se presume que sejam puramente lendárias, ficcionais:

Uma noite, antes de Nuno Gonçalvez d’Avalos morrer, veio um anjo onde ele jazia a orar, diante de sua cama (…). Ele perguntou-lhe quem era, e o desconhecido disse que era anjo que vinha por mandado de Deus, e que ele devia pedir um dom que tivesse por bem e que Deus lho outorgaria. (…) E ele pediu que o seu solar nunca fosse destruído. E o anjo lhe disse que pedia bem, e que Deus lho havia outorgado. E por isto pensam os homens que o solar de Lara nunca há de ser destruído.

 

Momentos como estes surgem, aqui e ali, neste Livro de Linhagens do Conde D. Pedro. Não abundam – são, como parecerá natural, uma excepção em páginas e páginas de informação genealógica – mas contam-nos, pelo que parece ser um completo acidente, um conjunto de mitos e lendas medievais do nosso país. Muitas delas continuam conhecidas nos nossos dias de hoje – até demos dois exemplos ali em cima – enquanto que outras nem tanto, como as três que aqui citámos. Porém, este caso serve para mostrar o tesouro precioso de lendas que ainda se esconde em muitas obras medievais portuguesas, e que raramente está disponível a um público não especializado no tema, o que dá a (falsa) ideia de que uma mitologia puramente portuguesa é mais recente do que efectivamente o é… até quando?

 

 

*- A expressão é muito digna de nota, até porque aparece repetidamente por todo o Livro de Linhagens do Conde D. Pedro. “Fez nela”, como se uma mulher fosse uma espécie de acessório que serve ao homem para fazer filhos, como se faz pão num forno ou sopa numa panela. Sinais de tempos passados…

“Filosofia Botânica”, de Lineu

A Filosofia Botânica de Lineu é uma obra que dificilmente interessará à grande generalidade dos leitores, porque se trata essencialmente de uma sobre a classificação das plantas. Não é propriamente algo que se possa (ou queira) ler na praia, mas um texto meramente indicado para quem tiver um interesse gigantesco na Botânica e quiser compreender melhor como a área foi evoluindo ao longo dos séculos. Porém, a obra tem um instante que nos pareceu digno de nota. Quando vai expondo os vários nomes que podiam ser dados às plantas, numa dada altura o autor refere os seguintes, que associa a algumas figuras mitológicas da Antiguidade:

Filosofia Botânica, de Lineu

Asclepias – deus dos médicos
Mercurialis – mensageiro dos deuses
Hymenaea – deus do casamento
Serapias – deus do Egipto
Satryrium – demónios do desejo
Satureja – um sátiro
Sterculea – deus do esterco
Tagetes – neto de Júpiter
Musa – deusa(s) das ciências
Numphaea – deusa(s) das águas
Najas – deusa(s) das fontes
Nyssa – uma ninfa
Melissa – deusa do mel
Dryas – deusa(s) dos carvalhos
Atropa – a última das Fúrias
Napaea – deusa(s) dos bosques
Herminium – [Hermes?]
Telephium – Télefo da Mísia
Teucrium – Teucro de Tróia
Helenia – esposa de Menelau

Não é claro, ou mesmo explicado, o porquê de terem sido escolhidos estes nomes específicos para determinadas plantas, mas eles não deixam de relembrar a importância que a literatura da Antiguidade, tal como as suas muitas figuras, foram tendo nos mais diversos domínios científicos ao longo dos séculos. Portanto, se dificilmente recomendaríamos esta Filosofia Botânica à generalidade dos leitores, há que reafirmá-la como um produto do seu século, com tudo o que isso tem de bom e de mau…