“Poema Ultimum” e “Carmen ad senatorem”

Hoje, falamos aqui do Poema Ultimum e da Carmen ad senatorem ex Christiana religione ad idolorum servitutem conversum quase no seguimento de uma publicação anterior, sobre a Carmen Contra Paganos, já que todas essas três composições poéticas têm um mesmo espírito por detrás delas, procurando convencer os seus antigos leitores a abandonarem as religiões pagãs em favor do Cristianismo, após o período de ascensão da nova religião que principiou no tempo de Constantino o Grande.

"Poema Ultimum" e "Carmen ad senatorem"

Nesse contexto, o Poema Ultimum, outrora atribuído a São Paulino de Nola, menciona algumas das fraquezas das religiões ditas pagãs, referindo, por exemplo, as muitas transformações de Júpiter para seduzir o sexo feminino, o facto de este deus ter casado com uma irmã, ou reduzindo os deuses como Jano a meros reis de outros tempos, para mostrar as muitas fraquezas das antigas divindades e do seu culto. Depois, continua mostrando o quão fantástica e perfeita a nova religião é, como é comum em quase todos estes poemas de apologia cristã.

 

Já a Carmen ad senatorem ex Christiana religione ad idolorum servitutem conversum, que é como quem diz um poema-carta a um senador de nome desconhecido que abandonou o Cristianismo para voltar aos ritos pagãos, é até um pouco mais interessante do que se esperaria, porque em vez de se referir ao Paganismo de uma forma muito geral (como no caso acima), foca-se numa situação muito específica, que devemos presumir ter sido real. Assim, mais do que se focar nas repetições sempre tão comuns nas apologias cristãs, o autor refere-se mais concretamente ao culto de Ísis, que tenta denegrir, supõe-se que pelo facto do senador ter agora adoptado essa religião. O autor tenta então convencer o político a ver o seu grande erro, instando-o a regressar à “boa” religião mais cedo ou mais tarde.

 

De um modo geral, este Poema Ultimum e esta Carmen ad senatorem ex Christiana religione ad idolorum servitutem conversum são curiosos representantes de um século muito específico, em que a religião cristã já era permitida mas ainda coexistia, de uma forma significativa, com os antigos cultos aos deuses. Como tal, convinha aos autores cristãos tentar convencer, desse por onde desse, ao abandono das antigas religiões, como estes poemas dos últimos século da Antiguidade ainda hoje nos podem mostrar…

O que significam os números na torradeira?

Hoje falamos sobre os números na torradeira das nossas cozinhas, porque nem só de criaturas estranhas e histórias antigas vivemos nós. Existem verdadeiros mitos a viver todos os dias em nossas casas. Se, por exemplo, já cá falámos sobre o ar nos pacotes de batatas fritas, quantos mais mistérios se escondem em nossas casas? Quer dizer, quando nos preparamos para fazer uma torrada nas nossas cozinhas, hoje temos imperativamente de seleccionar uma espécie de número no próprio equipamento, mas que significado real tem essa opção? Será, como diz muita gente, o tempo – em minutos – que a torradeira irá funcionar para nos dar um pão mais ou menos queimado? Em busca de uma resposta real, pergunte-se então – O que significam os números na torradeira?

Uma torradeira - o que significam os seus números?

Em busca de respostas, antes de bebermos algum chá de menta decidimos conduzir um pequeno teste. Pegámos uma fatia de pão de forma, colocámo-la no centro da torradeira, e seleccionámos o número “1”, contando quanto tempo ela funcionou – cerca de 75 segundos. Depois, repetimos a mesma experiência com outra fatia, desta vez seleccionando o número mais elevado, o “7”, e contámos o seu tempo de funcionamento, que foi de cerca de 210 segundos, i.e. cerca de três minutos e meio. A primeira das duas estava um pouco quente, mas nem por isso tostada; já a segunda estava completamente queimada em ambos os lados, sendo imprópria para consumo.

 

O que significam, nesta sequência, os tais números na torradeira? Certamente que não era o tempo de funcionamento, mas como ainda não conseguíamos ter uma certeza absoluta, fomos também verificar o respectivo manual. Lá, é então revelado que esses números se referem ao “nível de tostagem”, o que corresponde razoavelmente bem ao que testemunhámos na primeira pessoa, mas… seria a torradeira em que conduzimos este teste uma excepção, ou será que todas elas funcionam desta mesma forma?

 

Em busca de respostas mais concretas a essa pergunta mais geral, consultámos então os manuais de diversas torradeiras de marcas diferentes, descobrindo que os números na torradeira podem, mediante o modelo em utilização, significar uma de três coisas – ou o nível de tostagem, como no nosso exemplo particular; ou o tempo de tostagem; ou a potência que vai sendo utilizada para fazer a nossa torrada. Em termos práticos isto até é quase o mesmo, pelo que a sugestão que deixamos é relativamente simples – escolham a opção com o número central e, quase sempre, o processo até funcionará bem!

Um Segredo da Ermida de São Saturnino

A Serra de Sintra esconde muitos segredos. Já cá falámos de alguns, como a Anta de Adrenunes ou o Rio da Mula, mas também a Ermida de São Saturnino, muito próxima do Santuário da Peninha, tem os seus. Hoje é quase só um espaço abandonado, como a fotografia interactiva abaixo nos permite constatar, mas a sua importância parece ter variado ao longo dos séculos.

Assim, quem procurar esta Ermida de São Saturnino na internet encontrará repetidamente dois grandes factos sobre ela – foi fundada por Dom Pedro Pais no tempo de Afonso Henriques, i.e. no século XII; e quando uma imagem misteriosa foi encontrada numa gruta próxima, foi levada para este local por um padre, mas depois voltou, miraculosamente, para a mesma gruta, até que foi construído um novo santuário acima da gruta, aquele que agora toma o nome de “Peninha”. Quem procurar mais, saberá depois que o local foi reconstruído algumas vezes, foi usado como estábulo, já teve um pequeno painel de azulejos no local, e outras coisas… Mas é de esse painel de azulejos que nasce o nosso tema de hoje!

Azulejos que um dia estiveram nesta Ermida de São Saturnino

Estes azulejos datam de 1636, como é fácil ler na imagem, mas mostram o que parece ser um livro, um báculo e um chapéu bispal. Porquê esta iconografia? Se o local está associado a São Saturnino, outrora conhecido entre o povo como “São Sandorninho” ou “Sadurninho”, e existem pelo menos seis santos com esse nome, por estes elementos podemos constar que em inícios do século XVII se acreditava que o santo associado à ermida tinha sido bispo, e só parece existir um que corresponda a essa descrição – Saturnino de Tolosa, o primeiro bispo da cidade (francesa) de Toulouse, mártir em meados do século III, e provavelmente até a mais famosa de todas as figuras que partilham este nome.

 

Nesse seguimento, se as muitas lendas até dizem que esse santo pregou na Península Ibérica, desconhecemos qualquer história que o una à zona de Sintra. O que levanta uma questão – porquê dar este nome ao local fundado no século XII, o de Ermida de São Saturnino, quando muitos outros locais da mesma altura – por exemplo, o Mosteiro de São Vicente de Fora ou Santa Maria de Carquere   – têm (quase) sempre uma lenda associada? Será apenas porque o nome deste santo foi, durante séculos e por razões agora difíceis de explicar, popular na Península Ibérica? Ou será que em tempos mais antigos até existiu neste mesmo local um culto romano a Saturno, cujo nome veio, posteriormente, a confundir-se com o do santo?

Sabe-se hoje que os Romanos tendiam a honrar frequentemente esse deus no topo de montanhas; por isso, se foi encontrado, em outros tempos, algum antigo vestígio com o nome do deus no local – e, deixe-se claro, não temos agora qualquer prova real disso – este poderá ter sido confundido com o nome do então-famoso santo, levando à falsa ideia de que possa ter sido ele, e não o deus dos Romanos com um nome muito semelhante, a figura outrora honrada no local.

 

É só uma teoria, admita-se, esta por detrás de uma possível origem do nome da Ermida de São Saturnino, mas pode explicar o porquê da existência de um local dedicado ao santo numa área que, historicamente, não lhe tem qualquer tradição ou milagre associado.

Lendas de Diógenes o Cínico

Como apresentar Diógenes o Cínico, famoso filósofo de Sinope, a quem ainda não o conheça? Não é tarefa fácil… talvez explicando que foi ele a origem da corrente filosófica do Cinismo, e que esta obteve o seu nome pelo facto de este seu fundador desprezar todas as conveniências sociais, vivendo em plena rua, dentro de um barril, juntamente com os cães abandonados do seu tempo – ou, segundo outra versão, por ser amigo dos que lhe dão coisas, ladrar a quem não o fazia, e morder os mal comportados. E se isto nos pode parecer um tanto ou quanto estranho, são muitas as fontes literárias que atestam que ele existiu, mas que também lhe associam um conjunto de histórias breves que, de um modo muito geral, poderíamos designar por lendas.

Lendas de Diógenes o Cínico

Na imagem acima, por exemplo, podemos ver Diógenes o Cínico acompanhado por um cão, pelas razões já explicadas, mas também com uma lanterna na mão. Isto porque se diz que um dia andou pelo mercado de uma cidade assim mesmo, em pleno dia; quando lhe perguntaram porque o fazia, respondeu apenas que andava em busca de uma pessoa honesta – devendo inferir-se que num mercado, uma não poderia ser encontrada nem com todas as ajudas do mundo.

Outro relato diz-nos que quando Alexandre Magno, visitando a cidade de Sinope, quis conhecê-lo, Diógenes o Cínico se encontrava em pleno descanso, a aproveitar o calor do sol. Face a tal, Alexandre apresentou-se-lhe e disse que lhe daria tudo o que ele quisesse; em retorno, o filósofo apenas lhe respondeu que se afastasse, pois estava a tapar o sol. Estupefacto, o conquistador revelou depois a um amigo algo de inesperado – “Se eu não fosse Alexandre, queria ser Diógenes.”

Uma terceira história reporta que numa dada altura da sua vida esta figura possuía uma pequena taça de barro, que utilizava para beber água de uma fonte, até que um dia viu uma criança a beber desse local, fazendo “conchinha” com as suas mãos. Reconhecendo a inesperada sabedoria do menino, descartou a sua taça, para não mais tornar a utilizá-la.

 

Existem muitas mais lendas associadas a Diógenes o Cínico, mas talvez uma das menos conhecidas seja uma que provém das obras de Galeno. Aí, o médico grego conta-nos que este filósofo foi um dia visitar um homem riquíssimo, que tinha em sua casa tudo do bom e do melhor. Porém, este era também um homem profundamente inculto. Assim, quando o herói das linhas de hoje sentiu necessidade de cuspir, vendo toda aquela casa tão gloriosa, decidiu cuspir para o local que lhe pareceu ter menos valor – a própria cabeça do homem que visitava, que era tão rico em dinheiro mas muitíssimo pobre em sabedoria.

 

Podíamos aqui contar até muitas outras lendas sobre este Diógenes de Sinope – elas estão espalhadas pelas mais diversas obras gregas e latinas da Antiguidade, além de aparecerem na famosa obra histórica de Diógenes Laércio, e de lhe terem sido associadas diversas aventuras apócrifas em obras tardias – mas, por agora, estas terão de chegar, até porque são as mais conhecidas e que melhor representam o espírito da figura da Antiguidade Clássica.

Huli Jing, a raposa mística chinesa (e a Gumiho)

Há pouco mais de uma semana que um leitor (ou leitora) nos colocou uma questão relativa à Kitsune japonesa, dizendo que queria saber mais sobre outras duas criaturas orientais, a Gumiho e a Huli Jing, que são outras espécies de raposas de terras do Oriente. Na verdade, as três criaturas são muito semelhantes, sendo quase certo que as versões japonesa e coreana – ou, ao menos, algumas das suas características – tenham sido importadas da China, como acontece com muitos outros mitos e lendas do país do sol nascente – até já cá falámos do caso de Yama, deus dos mortos, que também passou por essa difusão intercultural.

Huli Jing, a raposa chinesa

Então, o que é a Huli Jing? É, como já deixamos entender, um dos nomes dados às raposas na China, em que se considera que elas têm até nove caudas e vários poderes místicos, notavelmente o de transformação em seres humanos. Porém, segundo foi possível apurar através de diversas fontes primárias, parece igualmente existir uma nuance curiosa nestas criaturas, que é o facto de se apresentarem, salvo algumas excepções, muito mais viciosas que as suas congéneres nipónicas, talvez por serem representadas como espíritos místicos, mais do que como simples animais… não sendo sequer muito claro se estas criaturas eram mesmo raposas, ou se seriam melhor traduzidas para português como “espíritos místicos de raposas”.

 

Por exemplo, na Investidura dos Deuses (uma novela chinesa de título original Fengshen Yanyi), a principal antagonista é Daji, uma criatura como as que discutimos aqui hoje. Ela matou uma mulher, tomou o seu lugar, e ao longo de toda a obra vai usando os seus poderes místicos e de sedução para manipular o grande monarca da época, levando-o a realizar todo um conjunto de actos absolutamente bárbaros que, em limite, o fazem ordenar a morte de três grávidas somente para lhes abrir as barrigas e poder ver a posição das crianças no seu interior (se acham isto sórdido, convém deixar claro que a mesma novela apresenta actos ainda mais horrendos). É, de facto, ela a grande responsável pela eventual queda do monarca e de toda a sua linhagem, através de um conjunto de mais de 10 grandes crimes que fomentou.

Numa outra obra, O que o Mestre Não Discutiu* (no original, com um título alternativo de Zibuyu), existem todo um conjunto de histórias que incluem as Huli Jing, representando-as repetidamente como criaturas maldosas – uma das tramas mais inquietantes apresenta até uma delas a tomar uma forma feminina horrenda e a violar um homem! Felizmente, nem todas parecem ser assim tão más – outra história da mesma fonte alude ao facto de uma raposa se ter tornado uma estudiosa, chegando a fazer exames escolares (o autor até menciona, com alguma ironia, que o interveniente humano da história se esqueceu de perguntar qual tinha sido o tema do exame).

 

Tomando por base diversas fontes primárias significativas da cultura chinesa, em que se incluem as anteriores, foi possível apurar que existem muitas semelhanças entre a Huli Jing e a Kitsune  – são uma espécie de meias-irmãs nascidas em países diferentes – mas a segunda parece resultar de uma evolução da primeira, tornando-se, ao longo dos séculos, uma criatura mais enganadora do que má. Frise-se até, nesse contexto, que se encontrámos vários mitos e lendas chinesas em que esta criatura mística realiza acções profundamente horrendas (demos dois exemplos acima), não encontrámos um paralelismo para isso no Japão – aí, se ela engana muitas pessoas, nunca excede determinados limites e é quase sempre descoberta e derrotada pelos heróis das histórias, o que nem sempre acontece com a criatura chinesa, que chega inclusive a matar pessoas e a sair vitoriosa de muitos confrontos com seres humanos.

 

Então… e a Gumiho?

A Gumiho da Coreia

Para terminar este tema sobre uma quase-mesma criatura em três culturas diferentes achámos que seria importante fazer uma breve referência à Gumiho coreana. Ela é relativamente semelhante às suas duas outras companheiras japonesa e chinesa, mas parece também ter um elemento que lhe é exclusivo – na cultura da Coreia acredita-se que esta criatura tem uma pedra mágica debaixo da língua, que, quando deglutida pelo herói de uma qualquer lenda, lhe dá o poder de compreender todas as coisas do céu, da terra ou dos mares, mediante o local para onde ele olhe primeiro após ter consumido essa pequena pedra.

Numa determinada lenda desse país, o herói obtém esta pedra quando, tendo a Gumiho adoptado uma forma feminina muito bela, ele a tentou beijar com língua, propondo essa acção como um símbolo do amor que a mulher dizia ter por ele. Conseguiu fazê-lo, obteve esta magia, mas depois olhou para um rio próximo, por acidente, passando a compreender a linguangem dos peixes; segundo lemos, todos os heróis que obtiveram a pedra pretendiam descobrir os segredos dos céus, mas nenhum foi capaz de o fazer, olhando sempre, pelo mais puro acidente, para um curso de água ou para a terra…

 

 

*- Neste contexto “o Mestre” é Confúcio. O título da obra refere-se ao facto de esse famoso filósofo ter, de um modo geral, deixado os temas místicos de fora das suas obras.