Bandeira de Portugal – significado, origem e um segredo!

Na imagem abaixo podem ser vistos alguns dos passos da evolução da bandeira de Portugal (e não só!) até aos nossos dias. A actual está no canto inferior direito, como será óbvio para qualquer pessoa que tenha o mínimo dos mínimos de cultura geral, mas o que é interessante em tudo isto é o facto de, se forem colocadas assim, quase lado-a-lado, se poderem apurar alguns vectores comuns entre todas elas.

O significado da bandeira de Portugal

Por exemplo, a primeira de todas as bandeiras, a que está no canto superior esquerdo, é, nada mais, nada menos, que o escudo do Condado Portucalense. Depois, na seguinte, já do tempo de Afonso Henriques e da Batalha de Ourique, surgem uns círculos brancos, mas as razões por detrás dos mesmos não são totalmente claras, até porque o seu número foi variando ao longo do tempo, até se fixar em cinco no tempo de Dom João II, em finais do século XV.

A bandeira actual de Portugal

Depois, saltando alguns séculos no tempo, chegamos à bandeira actual, em que o verde parece significar a esperança do povo português e o vermelho o sangue derramado por todos aqueles que morreram em prol da nação. Esses são, de um modo geral, os elementos novos, a que se adicionou também a esfera armilar, de que já cá falámos antes. E depois, um pouco afastado do centro nesta bandeira de Portugal, surge então o escudo nacional, bastante semelhante ao dos séculos anteriores – recorde-se que até já aparecia no Arco da Rua Augusta. Mas qual é o significado dos seus elementos? Quando escolhemos a imagem acima para adornar este artigo, fizemo-lo por uma boa razão, para permitir ao leitor comparar as várias bandeiras e poder entender, com uma imagem que vale mil palavras, que alguns elementos foram mesmo sendo alterados ao longo dos séculos. Tendo, portanto, isso em mente, podemos assim estabelecer os seguintes significados:

 

  • Os sete castelos, que nem sempre foram esse número, parecem representar sete que foram conquistados pelo rei Dom Afonso III no Algarve, completando a reconquista cristã, mas não é certo de quais se tratam. Isto porque, se o seu número foi variando, também a identidade deles o terá sido.
  • Os cinco escudos, que se foram mantendo, é-nos dito que representam as cinco chagas de Jesus Cristo, por este ter aparecido a Afonso Henriques na Batalha de Ourique. Se a lenda é muito famosa no nosso país, há que notar que a bandeira do tempo desse rei ainda não tinha este elemento, só surgindo ele com Dom Sancho I, por razões entretanto esquecidas. Outros dizem que eles representam os cinco reis mouros derrotados pelo monarca na mesma batalha, o que leva ao mesmo problema.
  • E o que significam as cinco bolas brancas, ou “besantes”, em cada escudo? Na versão mais frequente, eles são as chagas de Cristo (e, portanto, os escudos só poderiam ser os cinco reis mouros, nessa interpretação). Contudo, a totalidade do seu número é de 25, dizendo-se que representam os 30 dinheiros pelos quais Judas vendeu Jesus Cristo, com os do meio a serem contados duas vezes…

 

Tudo isto poderá soar muito bem, relativamente ao significado e origem da Bandeira de Portugal, até que se pense um pouco em toda esta simbologia, que esconde um segredo. Notavelmente, porquê contar os besantes do meio duas vezes? Existem teorias, claro está, mas na explicação mais interessante que encontrámos é dito que… eles não devem ser contados duas vezes, de todo, mas que o número de 30 é atingido pelo facto de deverem ser incluídos nessa conta também os cinco escudos, num total de 5×5 + 5 = 30, os tais trinta dinheiros recebidos por Judas. Outra opinião, menos interessante mas igualmente válida, diz que os besantes do meio são contabilizados duas vezes porque ao fazermos o sinal da cruz também tocamos nessa parte central duas vezes. São explicações interessantes, claro, mas mais importante é mesmo o facto de permitirem que não se diga “os do meio contam-se duas vezes só porque sim”, o que destoa demasiado numa bandeira de Portugal tão repleta de simbologia.

 

Assim se explica a origem e significado da bandeira de Portugal, mas não sem uma última curiosidade, que suscitou algumas questões a quem mostrámos inicialmente estas linhas. Quem voltar à primeira imagem acima e prestar atenção poderá ver na segunda linha uma bandeira que apresenta o escudo de Portugal com uns ramos verdes por detrás. Para quem o quiser saber, era a Bandeira do Domínio Espanhol, após o falecimento de Dom Sebastião, que tem representados ramos de oliveira para simbolizar o que se supunha ser a grande paz ibérica após tantos anos de confrontos entre os dois países!

A vietnamita “História de Kieu”

Existem alguns textos que são quase completamente desconhecidos na Europa, e esta História de Kieu, da autoria do vietnamita Nguyen Du no século XVIII, é um deles. Para julgar se esse “esquecimento” é merecido ou não, basta então frisar que se parece tratar do mais famoso poema desse país oriental. E, mesmo que só por isso, merece uma breve referência por cá.

A História de Kieu

A História de Kieu não é, de todo, uma obra que indiquemos para crianças, ou mesmo para os mais sensíveis. Fala de uma mulher cujo triste destino é profetizado em tenra idade, e que depois o leitor vai vendo cumprir-se ao longo do poema. Na passagem dos versos, ela é forçada a afastar-se do homem que amava, vende-se para ajudar a sua própria família, é levada à prostituição, enganada para prestar serviços num bordel, abusada pela primeira esposa de um homem que a dizia amar, entre outros eventos um tanto ou quanto violentos. Depois de muitos sofrimentos lá se reúne novamente com o homem que amava, mas apesar de ficarem juntos ela diz que já não podem ter uma relação física, aparentemente por já não se considerar digna para tal. O que acaba por ser supreendente, pelo menos no nosso contexto ocidental, já sempre tão habituado a finais felizes.

 

Se, por um lado, a obra não é tão sexual como outras produzidas em terras do oriente mais ou menos na mesma época (recorde-se, por exemplo, o chinês Ruyijun Zhuan), esta História de Kieu é psicologicamente violenta. É difícil não sentir uma certa compaixão pela heroína, que num dado instante até parece preferir a morte ao destino de ter relações sexuais com um homem que não amava. E, depois e repetidamente, quando as coisas parecem ir melhorando, o leitor é surpreendido com novos momentos de crueldade. É aquela ideia de destino, de atenuação dos actos cometidos numa vida anterior, tão comum em obras de inspiração budista, mas quem ler este poema num contexto ocidental não poderá, a nosso ver, deixar mesmo de sentir uma dor no peito pelo destino da heroína.

 

Que as nossas palavras não sejam mal compreendidas. Estilisticamente, a História de Kieu é uma obra do Vietname bonita, e até tem alguns instantes poéticos cuja beleza é praticamente impossível de negar. Mas, ao mesmo tempo, o seu tema é doloroso, tão indolente que temos de a desaconselhar a quem tenha passado por eventos como aqueles que ela representa. Aos felizes restantes, fica pelo menos a sugestão de que a leiam com cautela.

Sobre o mil em algarismo romano

Se já cá falámos de alguns algarismos romanos, nomeadamente o debate entre IV e IIII, hoje contamos uma história bem menos vulgar, a do mil em algarismo romano. Sim, ele escreve-se “M”, como é provável que todos os leitores já saibam, mas se os números – sejam eles os dos Romanos ou Árabes – nasceram pela necessidade de se contabilizar algo, em que circunstâncias é que os seus criadores necessitavam de contar até um número tão elevado? Até convidamos possíveis leitores a pensarem nisso – quando foi a última vez que contaram até mil?!

O mil em algarismo romano

De facto, o mil, enquanto número, é raramente atingível nas nossas vidas diárias, excepto quando algum brincalhão, com óbvio gozo, nos insta a contarmos até esse número. Assim, o que aconteceu entre os Romanos é que eles raramente parecem ter sentido a necessidade de o utilizar, excepto para contabilizarem distâncias longas. Se hoje dizemos que este ou aquele local estão a X Km de distância, no tempo dos Romanos miliários como o acima também indicavam distâncias, mas faziam-no com base em “M. P.”, que não significa mais do que “mil passos” dos legionários que contaram essa distância. Okay, não era propriamente uma ciência muito exacta, haviam algumas distâncias de mil passos muito maiores que outras, mas a ideia funcionava e cumpria o seu objectivo.

 

Além disso, essa contagem das distâncias em “M. P.” teve uma consequência adicional, que foi o de se passar a chamar M, para mille, ao próprio número. Assim o usamos, assim obtemos o nosso mil em algarismo romano, mas nem sempre funcionou assim – antes desse tempo, o mesmo número também podia ser representado como o um (“I”) com um traço perpendicular por cima, como que a dizer “um multiplicado por mil”. Ou seja, se alguém quisesse representar um número como “2021”, poderia fazê-lo como MMXXI ou IIXXI, mas neste último caso os dois primeiros algarismos teriam de ter um traço contínuo horizontal sobre a sua posição, para indicar a sua multiplicação por mil; neste caso específico nem seria muito difícil distingui-los sem esse elemento, mas caso contrário os números 2 e 1001 poderiam ter uma representação semelhante como “II”, o que seria muito pouco claro para quem os fosse ler…

 

Portanto, o mil em algarismo romano é hoje representado como “M”, numa designação que surgiu dos “mil passos” que os legionários romanos contavam nas muitas distâncias que percorriam, mas nem sempre assim o foi…

A lenda de Santa Iria

A lenda de Santa Iria é uma digna representante de um conjunto de histórias nacionais de santidade que foram sendo alteradas ao longo dos séculos. Bastará, por exemplo, pegar em duas edições distintas de Flos sanctorum (ou “Flor dos Santos”, em tradução portuguesa) cuja publicação esteja significativamente afastada no tempo e depressa poderá ser visto que, aqui e ali, vão surgindo diferenças na história de determinadas figuras. De um modo muito geral, essas alterações foram feitas para remover momentos problemáticos da trama, como aparições demoníacas, milagres um tanto ou quanto mais estranhos e potenciais críticas à Igreja. Assim, se vamos falar da lenda desta santa, decidimos fazê-lo em dois momentos, para que aqui se possa perceber melhor como histórias como estas foram sendo alteradas ao longo dos séculos.

A lenda de Santa Iria

Irene ou Iria de Tomar, a mulher que mais tarde viria a ficar conhecida com o nome de Santa Iria, era uma jovem muito bonita que viveu no tempo dos Romanos. Quando um nobre local, um tal Britaldo, a viu, ficou extremamente apaixonado por ela e decidiu tomá-la para si. Mas ela dedicou a sua virgindade a Deus e, como tal, disse a este nobre que não o poderia amar. Com um coração compreensivo, muito incomum neste tipo de histórias, ele aceitou este “não” e apenas pediu à jovem que não viesse a amar outro homem. Ela, como é natural, aceitou esse pedido e dedicou a sua vida à religião cristã… até que, uns anos mais tarde, surgiu um rumor de que ela tinha traído a sua promessa, e então Britaldo mandou matá-la; um dos seus criados cumpriu este desejo do seu patrão, deitando depois o corpo dela a um rio próximo – o Nabão, Zêzere ou Tejo – até que ele foi recuperado e levado para um igreja.

 

A uma primeira vista, toda esta lenda de Santa Iria, que até pode ser lida em muitos outros sites, não tem nada de errado. Contudo, quem for ler versões mais antigas da história acaba por se deparar com um episódio adicional, relativo ao tal rumor da traição da jovem – ele diz que um tal Remígio, um monge e mestre religioso desta jovem, numa dada altura e por influência directa do Diabo se apaixonou por ela. Incapaz de consumar a sua paixão, ele deu então à sua encarregada uma erva mágica que causava sintomas semelhantes a uma gravidez*. Assim, por razões que não conseguia compreender, a jovem apareceu como que grávida, o que acabou por levar à sua morte.

 

A razão por detrás da remoção deste episódio da lenda de Santa Iria é então evidente – contém a intervenção (física) do Diabo, a presença de uma erva mágica, uma gravidez que não o era, e até uma personagem, o tal Remígio, que de monge e religioso só parecia ter o nome. Assim, removendo da história toda esta ocorrência, ocultando-a por detrás de um rumor muito vago, se conseguiu proteger a futura santa, enquanto que se transformou Britaldo numa figura muito mais malvada e invejosa do que originalmente o era. E assim se compreende como uma história, com a remoção de um só episódio significativo, se torna bastante diferente, como no caso da madrasta da Cinderela, que pela remoção de um prefácio da história se tornou muito malvada…

 

 

*- Sobre esta “erva mágica”, ela aparece em vários romances da Idade Média e até se acreditava, nessa altura, que as mulheres mais pobres a tomavam frequentemente, de forma a parecerem grávidas e, como tal, receberem mais esmolas.

Lenda das barbas de Dom João de Castro

Falar sobre as barbas de Dom João de Castro implica retroceder alguns séculos no tempo, para um contexto cultural que em dados aspectos nos poderá parecer significativamente estranho, mas que nem é assim tão diferente dos nossos dias de hoje. Recorde-se, portanto, de uma forma sucinta a respectiva lenda.

A lenda das Barbas de Dom João de Castro

Dom João de Castro viveu na primeira metade do século XVI. Foram várias as suas aventuras dentro e fora do campo de batalha, até que numa dada altura se encontrou em Goa, na Índia, a tentar defender a cidade contra invasores. Fê-lo com sucesso, mas quando quis reconstruir a fortaleza de Diu, também ela em terras da Índia, apercebeu-se de que não tinha dinheiro para tal. Assim sendo, a 23 de Novembro de 1546 decidiu escrever uma carta para as pessoas mais importantes da cidade de Goa, pedindo-lhes um empréstimo para conseguir reconstruir esta fortaleza, que então estava quase completamente destruída. A carta em questão merece ser citada aqui de uma forma alongada, até para que se possa compreender o seu verdadeiro sentido. A edição é de Elaine Sanceau:

(…) Já agora me pareceo necessário não dissimular mais tempo, e dar-vos conta dos trabalhos em que fico, e pedir-vos ajuda para poder supprir, e remediar tamanhas cousas, como tenho entre as mãos; porque eu tenho a Fortaleza de Dio derribada até o cimento, sem se poder aproveitar hum só palmo de parede.
(…)
Pelo que vos peço muito por mercê, que por quanto isto importa ao serviço del Rei Nosso Senhor, e por quanto cumpre a vossas honras, e lealdades, levardes avante vosso antigo costume, e grande virtude, que he acodirdes sempre ás estremas necessidades de Sua Alteza, como bons, e leaes vassallos seus, e pelo grande, e entranhavel amor, que a todos vos tenho, me queiraes emprestar vinte mil pardaos, os quaes vos prometto como Cavalleiro, e vos faço juramento dos Santos Evangelhos de vo-los mandar pagar antes de hum anno, posto que tenha, e me venhão de novo outras oppressões, e necessidades maiores, que das que ao presente estou cercado.
Eu mandei desenterrar D. Fernando meu filho, que os Mouros matarão nesta Fortaleza, peleijando por serviço de Deos, e dei Rei Nosso Senhor, para vos mandar empenhar os seus ossos, mas acharão-no de tal maneira, que não foi lícito ainda agora de o tirar da terra; pelo que me não ficou outro penhor, salvo as minhas próprias barbas, que vos aqui mando por Diogo Rodrigues de Azevedo; porque como já deveis ter sabido, eu não possuo ouro, nem prata, nem movel, nem cousa alguma de raiz, por onde vos possa segurar vossas fazendas, somente huma verdade secca, e breve, que me Nosso Senhor deo. Mas para que tenhais por mais certo vossos pagamentos, e não pareça a algumas pessoas, que por alguma maneira podem ficar sem elle como outras vezes aconteceo, vos mando aqui huma Provisão para o Thesoureiro de Goa, para que dos rendimentos dos Cavallos vos va pagando entregando toda a quantia que forem rendendo, até serdes pagos. E o modo que neste pagamento se deve ter o ordenareis lá com elle. (…)

 

Infelizmente, esta carta tende quase sempre a ser citada de uma forma muito abreviada, dando a entender algo que não é uma completa verdade. Para pagar a reconstrução da fortaleza, é certamente verdade que Dom João de Castro “penhorou” as suas agora-famosas barbas, como pode ser lido acima, mas fê-lo num sentido simbólico e oferecendo também, ao mesmo tempo, um pagamento parcial. Se for apresentada como aqui, a carta também nos permite compreender algo mais importante, o facto de tudo isto se tratar de uma questão de honra, i.e. ele estava disposto a arriscar a sua família, a sua vida e até a sua honra em defesa do património que via como Português. Assim, as suas barbas tornaram-se um símbolo disso mesmo, de alguém que está disposto a fazer tudo o necessário em prol do país – e como tal tornaram-se uma relíquia quase religiosa, já que ao longo das décadas foram passando de mão em mão, até terem desaparecido da história nacional para parte incerta.

 

Resta uma questão – será que, como alguns parecem pensar, a expressão “pôr as barbas de molho” veio mesmo dos actos deste Dom João de Castro? Apesar de se pensar frequentemente que sim, há que notar que a oferta simbólica das barbas pressupõe uma cultura em que isso faça sentido*. Como tal, é possível que toda a ideia o preceda – pôr as barbas de molho não é senão preparar-se para as cortar, i.e. ainda hoje é hábito humedecer a face antes de se fazer a barba… – mas que se tenha cristalizado na cultura popular em associação a ele. Se assim não o fosse, como explicar esta estranha oferta? Se, por exemplo, um amigo nos pedisse dinheiro emprestado, e em troca nos oferecesse as suas unhas dos pés, não nos pareceria isso extremamente estranho?! É óbvio que sim, excepto se vivêssemos numa cultura em que unhas dos pés significam coisas como saber, justiça ou fidelidade. Portanto, é bem mais correcto admitir que a expressão será anterior a esta figura histórica, mas que poderão ter sido as suas acções a popularizá-la ainda mais.

 

 

*- Veja-se, ainda nos nossos dias de hoje, culturas como a judaica e a islâmica, em que os homens raramente cortam as suas barbas, por razões religiosas.