A lenda de Dona Branca

Falar de uma lenda de Dona Branca, como se existisse uma só figura nacional com esse nome, não é possível. Isto porque ao terem existido várias personagens que partilharam o nome em Portugal ao longo dos séculos, não é totalmente claro a qual delas uma breve expressão como a que dá título a esta publicação – e que era referida como uma das grandes lendas de Portugal por Teófilo Braga – se poderá referir. Portanto, a título de exemplo, falamos aqui apenas de três delas e de uma forma relativamente breve.

 

Dona Branca, a Banqueira do Povo

Uma lenda de Dona Branca

Talvez a mais famosa Dona Branca, para os nossos dias de hoje, seja a chamada “Banqueira do Povo”, que viveu no século XX e que é conhecida por todo um esquema em pirâmide que usava para emprestar dinheiro, e/ou pagar juros, a quem a contactava. Contar muito mais sobre a sua vida e as suas acções escapa ao objectivo de hoje, bastando aqui dizer que ás tantas ela lá foi presa e condenada pelos seus vários crimes. Faleceu e foi sepultada no Cemitério do Alto de São João, na Penha de França (a tal do famoso lagarto), no ano de 1992.

 

A Dona Branca de Silves

Uma segunda Dona Branca está associada a uma lenda da tomada de Silves aos Mouros. Parece ser bastante conhecida, pelo que não vale a pena recordá-la aqui – quem não a conhecer ainda poderá lê-la neste site externo – mas o que ela tem de especial é o facto de nos permitir compreender que se trata de uma história relativamente recente, até pela referência conturbada a figuras como anjos, fadas e vampiros. Relembra-nos, de certa forma, a lenda da Boca do Inferno; em ambos os casos, as partes que as constituem permitem-nos compreender que são histórias recentes escondidas sob a face de lendas antigas. Talvez até exista um fundo mais antigo por detrás de ambas, mas não é fácil distinguir essas várias camadas da trama – curiosamente, Almeida Garrett dedicou um texto poético a esta segunda lenda, a que deu o subtítulo A Conquista do Algarve, em que também faz uso de muitos outros elementos mitológicos puramente nacionais…

 

A Torre de Dona Branca

Será esta a Torre de Dona Branca?

Já a terceira remete-nos para uma “Torre de Dona Branca” que em outros tempos existiu em Currelos – hoje o local faz parte da freguesia de Carregal do Sal, mas o pequeno castelo, originalmente da freguesia em questão, aparentemente ainda pode ser visto no novo brasão (juntamente com os símbolos de Sobral e Papízios). Esta é provavelmente a lenda a que se referia Teófilo Braga, pelo que vamos recordá-la aqui.

Reza então a história de que neste local, agora desaparecido, viveu uma nobre chamada Branca de Vilhena. Dado dia, durante um período de ausência do seu marido, ela deu à luz um par de gémeos. Agora, nas crenças da época, isto poderia querer dizer que ela tinha tido relações sexuais com dois homens diferentes – bastará recordar-se o mito grego de Hércules e Íficles – o que muito incomodou a senhora. Face à possível acusação (infundada), ela decidiu então pedir a um criado que levasse uma das crianças para a floresta*, a matasse, e lhe trouxesse a sua língua. E assim teria sido feito, não fosse o criado ter encontrado o seu patrão pelo caminho, e por compaixão lhe ter contado o que se passou; este pediu-lhe então que entregasse à sua esposa a língua de um cão, enquanto a criança seria criada por um aldeão.

Os anos foram passando, até que um dia esta Branca de Vilhena e o respectivo marido foram assistir a uma romaria e encontraram entre o povo um jovem muito semelhante ao seu filho. Tocada por remorsos, a esposa decidiu então levar essa criança para junto da que tinha criado todos aqueles anos. Mas depois, sem conseguir ter a coragem de admitir ao marido o que tinha feito todos aqueles anos atrás, atirou-se da torre a que viria a dar o nome e faleceu.

 

Três lendas de figuras que tomam o nome de Dona Branca, se é correcto chamar-lhes isso assim, de uma forma horizontal. Uma que até é uma história bem real, uma que até poderá ter tido um fundo histórico, e uma que contribuiu para explicar o nome dado a uma torre hoje desaparecida. Sobre as três, talvez possamos até dizer que atestam bem a popularidade do nome em outros tempos, potencialmente pela associação nacional e ocidental entre a cor, a pureza e a beleza. Mais comentários que esses, temos hoje de os deixar aos possíveis leitores, porque estas linhas já vão longas…

 

 

*- Nas versões da lenda a que tivemos acesso nunca é explicado como esta estranha escolha foi feita, para quem até estiver com essa estranha curiosidade.

Quem são o Casal Mistério? Hoje revelamos a verdade!

Hoje apresentamos um tema mais ligado aos nossos dias – Quem são o Casal Mistério? É altura de se divulgar a verdade, até porque as pessoas têm todo o direito do mundo em saber o que se esconde por detrás do que consomem, ainda para mais quando há uma tentativa muito continuada de lhes enfiar determinados conteúdos promocionais pela goela abaixo. Caso contrário, seria o mesmo que dizermos muito bem de determinados livros só porque fomos pagos para tal, algo que nunca aconteceu aqui e nem deixaríamos que acontecesse. Contudo, convém alertar que esta será uma publicação longa, pela necessidade de explicar todos os passos que conduziram às informações em questão – quem preferir algo mais rápido, basta saltar para o parágrafo final, que começa com “Em suma”…

Quem são o Casal Mistério?

Assim sendo, para falarmos de quem são o Casal Mistério, volte-se um pouco atrás no tempo. Quando escrevemos sobre a censura no Sapo Blogs, uma das coisas mais fascinantes que encontrámos foi uma referência a uns certos “critérios editoriais” de natureza muito vaga. Sendo então incapazes de os obter directamente, estabelecemos uma parceria com uma pessoa que percebe de programação informática e ele criou uma pequena aplicação que vai registando as publicações publicitadas pela plataforma do Sapo Blogs. Isso deu-nos um conjunto de dados muitíssimo interessantes, já que nos permitem inferir aqueles tais “critérios editoriais” – que vão desde o facto de uma determinada página ter tido oito publicações distintas promovidas num só mês; passando pelo facto de publicações sobre o Sporting serem mais promovidas que as dos restantes clubes de futebol; ou que publicações que insultam uma minoria dos leitores são vistas como dignas de serem promovidas; e até a existência de uma estranha promoção ocasional de conteúdos de natureza puramente comercial (ver abaixo); entre muitas outras curiosidades…

Promoção de promoção de marca de roupa no Sapo Blogs

Onde entra então o Casal Mistério em tudo isto? No último mês essa página foi promovida diversas vezes, sempre com receitas culinárias, e respectivas fotografias, que os autores admitiram terem retirado de espaços estrangeiros. Se, do ponto de vista ético, isso nada tem de ilícito (porque eles dizem de onde retiraram esses conteúdos), também contrasta significativamente com os tais “critérios editoriais” dos blogs do Sapo.

E isto intrigou-nos demasiado. Ou as tais regras andam mesmo de férias – mas só para alguns… – ou havia aqui o proverbial “sapo escondido com a língua de fora”. Se o espaço em questão tem um ficheiro Ads.txt com dados semelhantes aos do portal Sapo, é porque os dois estão de alguma forma ligados. Mas, ao mesmíssimo tempo, quem verificar a página de parcerias da marca Sapo, disponível aqui, vê que muitos outros parceiros aparecem lá… mas este não. Ou seja, o blog em questão tem algumas características impossíveis sem uma parceria com o Sapo, mas os dois não parecem ser parceiros. “Que estranho”!

Quem escreve afinal esse espaço?

Continue-se. O espaço deste Casal Mistério, apesar de estar indisputavelmente associado ao Sapo Blogs, tem também uma loja online própria. Infelizmente, a mesma não tem um ficheiro Ads.txt associado (o que nos teria poupado imenso tempo), mas por motivos legais tem de ter um NIF, morada, contactos, etc. E então fomos obtê-los, porque eles estão disponíveis ao público de uma forma legal.

 

Depois, procurando saber quem são o Casal Mistério, fomos então seguindo essas informações e chegámos a dois nomes (curiosamente casados com separação de bens), bem como a um apartado e uma empresa, todos eles sediados no distrito de Lisboa (a falta de informação mais precisa é aqui intencional, para evitarmos meter-nos em chatices). A empresa foi constituída em Março de 2015 e dedica-se à “criação, edição, produção e gestão de sites de crítica de culinária, restaurantes, hotéis, bares e bebidas. (…) Produção de conteúdos para todo o tipo de publicações digitais e não digitais. (…)”, entre outras coisas. O que não teria nada de especial, qualquer pessoa nos poderia responder “ah, foi o tal casal que abriu essa empresa, como é óbvio”, não fosse o facto muitíssimo interessante de termos encontrado uma pessoa que trabalhou lá, mais especificamente no blog em questão, tendo até feito “content management” para esse espaço:

Colaboradora do Casal Mistério

Explique-se, para quem não perceber muito destas coisas – supostamente, uma pessoa externa a estes cônjuges fez “gestão de redes sociais” e “produção de conteúdos” – é mesmo assim que ela lhe chama, no seu CV – para uma empresa directamente associada a esta marca, enquanto que o respectivo blog apregoa muito abertamente que “O Casal Mistério não revela a sua identidade a ninguém (…) [e] é o autor de todos os textos publicados no blog. (…) Os textos não são mostrados previamente a ninguém e não sofrem alterações de ninguém. (…)” – e isto quando, na verdade, uma pessoa externa até já fez um estágio a escrever esses mesmos textos!

 

Para quem ainda não veja nada de errado nisto, a mesma página do blog, de título “esclarecimento: as fraudes à volta do casal mistério”, diz também que o espaço “não faz publicidade a restaurantes ou hotéis. Acreditamos que só a total independência em relação às marcas de restaurantes e hotéis nos permite fazer uma crítica absolutamente isenta, honesta e genuína (…) “… mas, apesar dessa “promessa”, o espaço também publica, ao mesmíssimo tempo, temas como o reproduzido abaixo, publicitando espaços hoteleiros aos quais até admite explicitamente que ainda não foi, o que é, sem qualquer dúvida, “muito isento”:

Casal Mistério a publicitar um hotel no Guicho

Mas também não vêem nada de errado nisto? Tente-se então outra opção – quem perceber de Letras a um nível académico mais elevado saberá que existem formas internas de verificar se dois textos foram escritos por uma mesma pessoa. Isto acontece porque cada pessoa escreve da sua forma particular, com certas densidades de palavras, com alguns “vícios” e hábitos, etc. No espaço do Casal Mistério existem indicações internas que parecem comprovar uma autoria do espaço por um número de intervenientes que é superior a dois – e em algumas publicações até notavelmente superior a três!

 

Se isto continua sem vos cheirar a esturro, pergunte-se – será que o “Pedro”, o tal senhor do Sapo Blogs de que falámos anteriormente, sabe de toda esta prática um tanto ou quanto enganadora dos leitores? De acordo com a informação do próprio Sapo Blogs sobre potenciais parcerias, “as receitas geradas por essa publicidade [derivada de uma parceria] são depois repartidas com o autor do blog”. Se existiu essa tal repartição de fundos, ou ela foi feita ilicitamente, ou teve de existir uma declaração às Finanças, com dados legais e um determinado NIF. Espera-se, nesse sentido, que ninguém queira insultar a inteligência dos leitores e dizer que ninguém sabia que nada de estranho se passava…

 

Mas, caso alguém até queira mesmo achar que toda a gente está sempre muito distraída e com a cabeça na lua, quando o espaço começou, em finais de 2013, fê-lo sem uma introdução real – uma prática comum nos espaços pessoais – e com um esquema de conteúdos já totalmente formado, como é comum em espaços que foram muito pensados, planeados e desenvolvidos antecipadamente.

Nesse momento, o primeiro comentador da primeira publicação do Casal Mistério – e, na altura, o único durante uma semana de publicações contínuas – até foi o tal “Pedro” (relembre-se que ele “só” é o tal colaborador do Sapo Blogs que agora escolhe os espaços que são promovidos), que então se referiu ao primeiro tema publicado como… vejam por vocês mesmos:

Comentário de Pedro Neves

Ou seja, tendo nessa altura ainda menos de cinco publicações, o espaço já estava destinado ao sucesso e com o apoio – “completamente imparcial”, claro está – de quem define o que vai sendo promovido.

 

Depois, em 2019, aquando de uma alteração gráfica significativa do espaço, os autores admitiram explicitamente que “a implementação [do novo ‘look’] é da responsabilidade do incansável Pedro Neves, do Sapo Blogs, que coordenou todo o processo e, mais uma vez, teve uma paciência de santo para nos aturar“, dando a perceber que já colaboraram juntos e que até se conhecem bastante bem.

Por isso, relembrando então uma expressão famosa da Antiguidade, “nos amigos tudo em comum” (amicorum communia omnia), naquela prepotência tão comum em terras de Portugal. Nesse seguimento, torna-se evidente e muito natural que esse espaço seja promovido de forma repetida e acima de qualquer regra estabelecida, e, num sentido muito jocoso, temos até alguma dificuldade em duvidar que umas garrafas de um azeite recém-promovido nesse espaço não passem ocasionalmente de mão em mão… numa daquelas amizades tão desinteressadas e puras como a de Carlos Santos Silva por José Sócrates, claro está!

Azeite do Casal Mistério

Em suma, quem são o Casal Mistério? Não podemos dizer aqui os seus nomes, mas podemos colocar a nossa melhor resposta da seguinte forma – se quiserem acreditar que os autores deste espaço e de um ou outro livro são, e sempre foram, um certo casal misterioso (e quem não adora um bom mistério?!), como explicam que eles tenham sido apoiados pelos responsáveis do Sapo Blogs desde a primeira publicação; que façam parte do portal do Sapo mas não apareçam na página de parcerias; que tenham associada uma empresa em que já trabalhou pelo menos uma pessoa a fazer produção de conteúdos para o blog; que promovam espaços e eventos aos quais nunca foram; que provas internas das suas publicações denotem uma autoria múltipla mas superior a dois intervenientes; e que uma mera cópia de receitas de locais estrangeiros seja considerada digna de ser repetidamente promovida pelo portal português? Para bom entendedor meia palavra basta, e agora só é mesmo enganado quem quer sê-lo…

 

 

P.S.- E depois existem coisas como estas, em que o Sapo é literalmente pago para publicitar marcas externas por intermédio do tal Casal Mistério. Surpreendentemente “isento e acima de qualquer mais pequena suspeita”, claro está!

Casal Mistério, um produto Sapo!

“Ramcharitmanas”, de Tulsidas

O épico Ramcharitmanas, ou Ramacaritamanasa, escrito por Tulsidas no século XVI da nossa era, merece ser apresentado por cá devido ao contexto em que foi produzido. Se, aquando do tempo de vida deste autor o Ramayana se mantinha como uma obra muito popular, potenciais leitores deparavam-se frequentemente com uma grande dificuldade, o facto de esse poema épico estar em Sânscrito, uma língua que cada vez menos conseguiam ler. Por analogia, se é difícil ler um pequeno poema no “Português” antigo (um exemplo de João Soares de Paiva pode ser visto aqui, para quem o quiser tentar), imaginem-se a tentar ler centenas e centenas de páginas numa língua como essa – seria uma tarefa tudo menos fácil, não é? Assim sendo, face ao problema Tulsidas decidiu fazer uma espécie de tradução do original para Hindi.

As personagens de "Ramcharitmanas", de Tulsidas

Nesse seguimento, se as histórias do Ramayana e de Ramcharitmanas são muito parecidas (e quem ainda não conhecer bastará reler esta publicação anterior), não são bem iguais. Daí a expressão que usámos acima, esta trata-se apenas de uma “espécie de tradução”, na medida em que os eventos principais da obra original são mantidos, mas Tulsidas também os adaptou com as novas gerações em vista. Sabe-se que na altura alguns (novos) leitores gostaram do resultado, os mais tradicionalistas não tanto, mas o importante e inegável é que esta obra possibilitou o acesso a um texto de grande importância cultural a que, de outra forma, uma parte dos leitores não teria acesso.

 

Mas então, Ramcharitmanas merece ser lido nos nossos dias de hoje? Segundo sabemos é, ainda hoje, um dos textos mais populares da Índia, e certamente que o é de uma forma justa, por respeitar o espírito do original, enquanto o tornou também mais acessível ao público. Mas são, frise-se bem isso, duas obras significativamente diferentes, iguais e diferentes mediante quem os lê. Por isso, se houvesse tempo para tal – não são obras propriamente pequenas… – o melhor seria mesmo ler primeiro a obra de Valmiki e somente depois esta, como fizemos, para que se possam compreender as suas diferenças e a forma como a mais recente interage com a sua predecessora, em muitos casos até adaptando parte da teologia oriental nela subjacente. Mas, a ter de se escolher somente uma destas duas*, caso o leitor consiga aceder a ambas a opção pela antiga faz mais sentido, dado o seu valor cultural, literário e religioso.

 

 

*- Tradicionalmente, diz-se que o deus Hanuman escreveu também uma versão de toda esta história de Rama numa rocha, mas depois destruiu-a para ela não colocar na sombra a de Valmiki. A acreditar-se nessa pequena lenda, sem qualquer dúvida que o tratamento que o deus deu a esta história seria preferível face a qualquer outra…

O mito de Castor e Pólux, os Dióscuros

O mito de Castor e Pólux, gémeos também conhecidos colectivamente como os Dióscuros (em Grego Antigo Διόσκουροι, i.e. “filhos de Dios [i.e. Zeus]”), é um cuja popularidade parece ter variado ao longo dos séculos. Se, por um lado, já nos tempos cristãos os dois irmãos continuavam a ser venerados como protectores dos navegantes (e já lá iremos…), raras são as fontes gregas ou latinas que contam as suas aventuras de uma forma completa, talvez por se supor que toda a gente já as conhecesse. Assim, contamos aqui um breve resumo das suas aventuras.

O mito de Castor e Pólux, os Dióscuros, em duas imagens

Começando por aquele que é provavelmente o momento mais famoso de toda esta história, conta-se então que numa dada altura Zeus se apaixonou pela bela Leda. Porém, visto que ela não correspondia ao seu amor, o deus tomou a forma de um cisne e deixou que esta o acarinhasse. Passados nove meses, nasceram então do ventre de esta mulher dois ovos, cada qual com um descendente do rei do Olimpo e um outro de Tíndaro, legítimo esposo de Lenda. Assim, nasceram Helena [i.e. a de Tróia] e Pólux, ambos imortais, juntamente com Clitemnestra e Castor, estes dois puramente mortais*.

Os anos foram passando e Castor e Pólux envolveram-se em muitas aventuras – eles recuperaram Helena depois de esta ter sido raptada por Teseu, ajudaram na luta contra o Javali da Calidónia e até se juntaram aos Argonautas, apenas para mencionar brevemente aqueles que foram os seus feitos mais famosos.

Mais tarde, Pólux e Castor envolveram-se num confronto com outros dois gémeos, Idas e Linceu. O que se passou entre os quatro varia mediante as versões de todo o mito, mas elas terminam imperativamente com a morte de três das personagens – Castor, Idas e Linceu. Restando apenas Pólux, a que os Gregos costumavam chamar Polideuces, este depressa descobriu que era filho de Zeus e pediu um grande favor ao seu pai – não queria viver sem o seu irmão! Compadecido com o pedido, o deus decidiu então que os dois gémeos passariam, juntos, metade do ano no Olimpo, e a outra metade no reino de Hades, além de serem colocados entre os signos do Zodíaco.

 

Castor e Pólux tornaram-se, portanto, uma espécie de deuses menores, associados aos cavalos (uma especialidade de Castor) e, raras vezes, ao boxe (a especialidade de Pólux). Mas eram, talvez mais que tudo, os salvadores daqueles que se deparavam em tempestades no mar… o que poderá parecer estranho, dado o seu mito, até que se recorde que na viagem dos Argonautas estes dois gémeos passaram por um presságio que os associou ao amainar de uma tempestade. Assim, eles apareciam – e salvavam – aqueles que temiam o seu destino nas tempestades marítimas, mas curiosamente também surgiram em muitos campos de batalha dos Gregos e Romanos, sempre acompanhados pelos seus cavalos, inspirando os combatentes a feitos grandiosos.

 

Se, hoje, já quase ninguém pensa em Castor e Pólux, eles ainda eram venerados no tempo do Papa Gelásio I, em finais do século V. Sabemos disso porque o papa em questão se queixou, numa das suas epístolas, dessa prática supersticiosa ainda continuar… uma que, hoje, foi substituída por muitas outras de função semelhante, de que a oração de Santa Bárbara que afasta as trovoadas – entre outras mais vocacionadas para as lides marítimas – será provavelmente a mais famosa no nosso país. Passaram-se os séculos, mas talvez as coisas não tenham mudado assim tanto como por vezes nos fazem crer, com esta santa a ocupar o lugar de antigos protectores daqueles que passavam por tempestades…

 

 

*- Toda esta ideia pode parecer estranha, mas recorde-se que nos tempos da Antiguidade, e até na Idade Média, se acreditava que uma mulher podia gerar ao mesmo tempo filhos de homens diferentes, i.e. se tivesse cinco filhos, pensava-se que até poderia ter tido relações com esse mesmo número de homens. O exemplo mais famoso dessa crença pode ser encontrado no mito grego de Héracles e Íficles, nascidos respectivamente de uma relação sexual de Alcmena com Zeus e Anfitrião.

Quem foi Artur do Algarve?

Há alguns dias, enquanto passávamos os nossos olhos por uma qualquer obra literária, encontrámos algo de desconhecido. Ao lado dos heróis de cavalaria do costume – os Amadis, os Palmeirins e os Quixotes, entre tantos outros – figurava o misterioso nome de um tal Artur do Algarve. Pelo contexto inferiu-se que se tratasse de um outro herói de romances de cavalaria, mas… na verdade, quem foi ele? A questão teve de nos fascinar, não só porque o seu nome conjura a ideia de um famoso rei das histórias medievais, da cidade de Avalon e de tantas outras histórias, mas porque não existem muitos heróis de cavalaria associados directamente ao nosso país.

Um possível Artur do Algarve?

Partimos então em busca dele e acabámos por encontrá-lo numa obra do século XVIII chamada La Historia de los muy nobles y valientes cavalleros Oliveros de Castilla y Artus de Algarve, da autoria de Pedro de la Floresta. É uma obra que não se destaca em nada do que constitui o seu género literário. Como episódios minimamente notáveis, podemos apenas destacar o facto de Oliveros, antes de receber a mão da princesa que ganhou num torneiro, ter pedido ao rei para cortar a carne para a sua amada durante um ano (e numa dada altura, ao trinchar uma ave até se corta num dedo…); e que a mesma personagem mata os seus dois filhos para dar o sangue dos mesmos a beber ao seu irmão, curando-o de uma enorme maleita (não se preocupem, eles são trazidos de volta à vida por milagre de Deus). Tudo o resto é aborrecimento, quando os episódios até se seguem uns aos outros sem que exista o mais mínimo interesse – a obra chega até ao absurdo de apenas dar nome a meia dúzia de personagens (resumindo todas as outras em simples “reis”, “cavaleiros”, “princesas” e “rainhas”), e de resumir todos os locais visitados pelo seu país…

 

E onde entra o tal Artur do Algarve? Ele é filho da segunda mulher do rei de Castela, uma tal “Rainha do Algarve”, por um pai desconhecido. É a grande personagem secundária da obra, que parte em busca de Oliveros quando este desaparece e uma vasilha de água que deixou para trás se tinge de sangue, naquele que é o maior exemplo de magia presente em toda a obra. É, igualmente, uma personagem muito pouco notável, cuja grande característica definidora é somente o facto de, por razões nada claras, ser fisicamente quase igual ao herói. No caminho das suas aventuras até derrota um leão perdido por terras de Portugal, seguindo-se depois uma luta com o que parece ter sido uma espécie de hipogrifo, mas fora isso ele não faz nada de muito notável, acabando por casar com a filha de Oliveros (recorde-se que não eram mesmo irmãos de sangue, mas não deixa de soar estranho).

 

Assim, este Artur do Algarve é, pura e simplesmente, uma personagem secundária de um romance de cavalaria medíocre, mil vezes inferior ao herói e monarca que lhe deu nome. O autor da obra, esse tal Pedro de la Floresta, não parece ter publicado mais nada com o seu nome, e até se compreende bem o porquê, dada a qualidade desta composição. Por isso, se por mero acaso encontrarem uma qualquer cópia desta obra, dêem-na a um inimigo de quem não gostem mesmo nada.