Poço Zamzam: A Fonte Milagrosa da Fé Islâmica

Explicado de uma forma extremamente simples, o Poço Zamzam é uma fonte de água a que são atribuídos alguns poderes milagrosos, como acontece, por exemplo, em Lourdes. Por isso, tal como nas nossas culturas ocidentais algumas pessoas gostam de possuir uma pequena garrafa de água de Lourdes, Fátima, ou Compostela, na cultura islâmica existe uma ideia de que se deve possuir alguma água do Poço Zamzam, localizado na cidade de Meca. Portanto, o tema de hoje foca-se na sua história.

A história do Poço Zamzam

Segundo a história islâmica, este poço foi inicialmente descoberto, de uma forma miraculosa, por Agar e Ismael quando estes se encontravam num deserto próximo do que se viria a tornar, muito mais tarde, a cidade de Meca. Dependendo da versão, esse milagre teve lugar ora quando Ismael arrastou o seu pé pelo chão, ou por intervenção divina na figura do Arcanjo Gabriel, e depois Abraão mandou construir um pequeno local de culto nessa localização.

 

Mas, inesperadamente, esta é também uma história a dois tempos. Anos depois, numa altura agora incerta, o poço desapareceu. Diz-se que secou, potencialmente por punição divina… até que, vários séculos mais tarde, o local foi reencontrado pelo avô de Maomé, com algumas versões a atribuírem-lhe sonhos proféticos nos quais lhe era revelado este local, bem como outras coisas que, apesar de intrigantes, raramente têm grande relevo nos relatos.

 

 

O poço a que se refere esta história ainda hoje pode ser encontrado a uns escassos 20 ou 30 metros da Kaaba – ou Caaba – islâmica, e no local existe a tradição de se beber água do local, mas de um ponto de vista das histórias que levaram a esta publicação, o mais interessante é provavelmente o facto de toda esta história estar pejada das mais diversas versões. Com a excepção do facto do avô de Maomé estar, de alguma forma, relacionado com a descoberta – ou redescoberta, segundo outros autores – do local, parecem ter existido, e continuar a existir, todo um conjunto de relatos, mais ou menos divergentes, sobre como este local se tornou popular e importante nas crenças islâmicas. Não nos cabe a nós dizer qual é a versão correcta, se é que a existe, até pela distância temporal dos vários eventos, mas a trama que relatámos acima parece encontrar-se entre as mais estáveis, e daí a referência que lhe fazemos hoje.

 

 

Será que as águas do Poço Zamzam têm capacidades miraculosas, como alguns o dizem? Talvez possamos responder a essa questão de uma forma indirecta – será que as de Lourdes, ou de qualquer outro local religioso por esse mundo fora as tem? A resposta fica para quem for ler estas linhas do dia de hoje…

“A Ilha dos Animais”, um texto medieval

É provável que existam muitos textos com o simples nome de A Ilha dos Animais, mas o tema de hoje prende-se com uma fábula muito curiosa presente na chamada Enciclopédia dos Irmãos da Pureza. A obra, em si própria, trata-se de uma colectânea de textos filosóficos islâmicos compostos no Iraque por volta dos séculos X e XI da nossa era, alguns mais interessantes do que outros, e entre os quais se conta o texto de hoje, uma fábula deliciosa sobre a natureza dos animais e a sua posição societal na cultura islâmica. Visto que parece ser muito pouco conhecida nas culturas portuguesas, decidimos apresentá-la aqui nas suas linhas gerais.

 

Esta história de A Ilha dos Animais conta-nos, portanto, que em outros tempos um grupo de Homens mudou-se para uma ilha misteriosa povoada por animais e Génios*. Inicialmente todos eles coexistiram sem problemas de maior, mas depois os seres humanos lá decidiram começar a utilizar os animais como bem desejavam, tratando-os como se fossem meros escravos, ao ponto de lhes baterem, não lhes darem comida, e outras coisas tristes como essas. E então, incapazes de suportar essas ocorrências por muito mais tempo, os Animais decidiram revoltar-se e levar o seu caso ao rei dos Génios, com vista a provar que não mereciam ser escravos dos Homens.

O que depois se seguem são um conjunto de debates entre os representantes da raça humana e diversas figuras emblemáticas de sete diferentes classes de animais – um chacal, um rouxinol, o rei das abelhas, etc. – cada qual com as suas forças e fraquezas particulares. No seu geral, os Homens apresentam um argumento para a sua superioridade, e depois ele é respondido com sucesso pelos animais. Muito curiosamente, os seres humanos parecem perder cada um desses pequenos debates, demonstrando-se repetidamente uma ausência da sua (suposta) força face aos opositores. E esse padrão vai-se repetindo até à aparição de um argumento muito fulcral.

Perto do final da história de A Ilha dos Animais, um “homem de Meca e de Medina” (provavelmente uma referência a um Islâmico, já que existiam várias outras religiões na ilha) levanta o argumento de que o Homem é superior a todos os outros animais porque Alá lhe prometeu a vida eterna, como pode ser lido no Corão. Os animais levantam a oposição de que essa promessa também tem um lado oposto, que os seres humanos maus também poderiam ser condenados eternamente ao Inferno, enquanto que eles jamais eram punidos pela entidade divina… e então, chega-se, filosoficamente, à ideia de que se os Homens pareciam ser superiores aos outros animais, com essa sua força também vem associada a necessidade de tratarem bem os seus supostos inferiores, sob pena de irem mesmo parar ao reino dos Infernos. Pouco depois, a história conclui que os Animais não são escravos dos Homens, mas ambos existem para venerar o seu criador comum…

 

Filosoficamente, talvez até pudesse ser dito muito mais sobre esta composição d’ A Ilha dos Animais, mas de um ponto de vista da trama – que é o mais relevante para estas nossas linhas – o digno de nota é mesmo o facto dos seres humanos serem apresentados num repetido e complexo debate filosófico contra os animais, mas sem que os consigam vencer com a facilidade que seria de supor num contexto aristotélico. E isso torna a obra, e os argumentos que vai apresentando para ambos os lados, particularmente digna de ser lida. Infelizmente, não parece existir em Português, mas existe tanto em tradução como em adaptação inglesa, sendo particularmente digna de nota uma versão de Denys Johnson-Davies que, apesar de cortar alguns capítulos secundários e omitir a riqueza de muitos dos debates, ilustra ricamente os episódios que vão tomando lugar ao longo da história.

 

 

*- Estes Génios, ou Djinns, podem neste contexto ser considerados como uma espécie de entidades semidivinas criadas por Alá e que se encontram num patamar existencial entre os seres humanos e Deus – um capítulo deste texto até parece equipará-los aos Nefilins. Não estão necessariamente associados a uma lâmpada mágica, como na famosa história de Aladino (que apresenta aquele que é, sem dúvida, o Génio mais famoso da nossa cultura ocidental), mas sim alguns poderes mágicos e uma grande sabedoria, podendo ser bons ou maus conforme as suas naturezas individuais.

“Se a montanha não vai a Maomé, Maomé vai à Montanha” – origem e significado!

Se a montanha não vai a Maomé, Maomé vai à Montanha é um daqueles provérbios bastante utilizados na língua portuguesa mas em cuja origem pouco se pensa. Isto porque, se o seu significado até é relativamente fácil de discernir – por exemplo, é mais fácil fazer o possível do que esperar o impossível – as suas palavras também sugerem uma referência ao profeta Maomé, que não é, de todo, uma figura muito conhecida na cultura tradicional portuguesa. E, na verdade, se o nosso país tem dezenas e dezenas de lendas sobre Nossa Senhora, e outras tantas sobre outras figuras bíblicas do Antigo Testamento (como Túbal), de memória nem conseguimos recordar-nos de uma qualquer lenda famosa em Portugal que inclua esta outra figura religiosa… o que pode gerar uma grande questão relativamente à origem de todo o provérbio!

"Se a montanha não vai a Maomé, Maomé vai à Montanha" - origem e significado!

Primeiro, tentámos localizar alguma possível história religiosa que associasse Maomé a uma montanha, já que o próprio provérbio sugere, de forma muito tácita, um possível milagre, mas nada encontrámos. Depois, apurámos que em alguns países ocidentais, como a Turquia, o provérbio também existe mas sem a referência religiosa – e, tratando-se esse de um país mais ligado ao Islão, seria natural encontrar-se essa ligação por lá, se ela viesse de alguma lenda famosa entre os praticantes dessa religião. Por isso, qual a verdadeira origem da expressão Se a montanha não vai a Maomé, Maomé vai à Montanha?

 

Após muita procura, encontrámos aquela que parece ser a versão mais antiga deste provérbio preservada por escrito. Ela aparece nos Ensaios de Francis Bacon, publicados em finais do século XVI e inícios do XVII, com as palavras que aqui traduzimos para Português:

Verás muitas vezes um indivíduo destemido fazer o milagre de Maomé. Maomé fez o povo acreditar que iria chamar uma montanha até si e, do topo dela, oferecer as suas preces aos observadores da sua lei. O povo reuniu-se. Maomé chamou a montanha para vir até si, uma e outra vez, e quando a montanha permaneceu imóvel, ele não se mostrou abalado, mas disse “Se a montanha não vem até Maomé, Maomé irá até à montanha”. Assim, estes homens, quando prometeram grandes feitos e falharam vergonhosamente, ainda assim (se possuem a perfeição da audácia) simplesmente desvalorizam o assunto, dão uma volta e não fazem mais alarido.

O que é curioso em toda esta história é que o autor sentiu a necessidade de a contar por completo, em vez de apenas aludir a ela, como era bastante habitual fazer-se no seu tempo, em que os autores cultos escreviam para uma audiência culta, quase sempre igualmente informada dos autores prévios dos temas que iam ler. Como tal, essa necessidade de contar toda a história, seguida até pela explicação de um seu significado, dá a entender que a expressão não era (ainda) famosa nesse século em que primeiro nos aparece por escrito. Dado o contexto na obra, bem como o estabelecido por obras semelhantes produzidas nos séculos anteriores, fica-se com a ideia de que esta foi uma história composta por Francis Bacon para dar alguma cor à sua composição filosófica e ilustrar um ponto que queria apresentar aos leitores.

 

Mas porquê a utilização do nome de Maomé, e não de uma qualquer figura religiosa cristã? Certamente porque, como é fácil ver no texto acima, na breve história a personagem principal promete aos seus fiéis um milagre mas acaba por não o conseguir concretizar. Associar toda a ideia a um santo do Cristianismo seria um tanto ou quanto herético, mas fazê-lo a um inimigo da fé cristã nada tinha de errado, até pelo contrário, já que contribuiria para o ridicularizar como um falso profeta!

 

Como a agora-famosa expressão, ou esta história da presumível autoria de Francis Bacon, entraram na nossa cultura popular portuguesa é muito mais difícil de se saber. Visto que também existe em muitos outros países europeus, é provável que tenha sido popularizada através de um sentimento anti-islâmico que nasceu na Idade Média e se foi prolongando por vários séculos – pense-se que, considerando o próprio contexto da frase, numa cultura islâmica ela dificilmente poderia ser utilizada com alguma conotação positiva. Mas, pelo menos, assim se pode explicar a origem e significado da expressão Se a montanha não vai a Maomé, Maomé vai à Montanha

A Biblioteca de Alexandria e a sua derradeira lenda

Claro que existem diversas lendas associadas à Biblioteca de Alexandria, algumas mais conhecidas do que outras, mas hoje decidimos aqui trazer aquela que é provavelmente a mais famosa dos nossos dias. Segundo ela, quando os Muçulmanos conquistaram a cidade de Alexandria, em meados do século VII, encontraram-na repleta de livros, como é natural, mas não sabiam o que fazer com eles. Isso levou a uma ideia, hoje macabra, de que os deviam destruir a todos, porque se o seu conteúdo confirmava a mensagem do Corão não eram necessários, e se de alguma forma se opunha a este não merecia continuar a existir. E estes “factos” contam-se muito hoje em dia, mas a verdadeira questão para o tema de hoje é… será que esta história anti-muçulmana tem algum fundo de verdade, ou trata-se apenas e somente de uma pura lenda?

A derradeira lenda da Biblioteca de Alexandria

Partimos em busca da origem dessa história ligada à Biblioteca de Alexandria e encontrámos aquela que parece ser a mais antiga versão do episódio, na qual é dita que o comandante islâmico responsável por este eventos foi um tal Amr ibn al-As, que faleceu por volta do ano de 664. Quando um dado religioso cristão – talvez o teólogo João de Cesareia? – lhe pediu para ficar com todos os antigos livros encontrados na cidade, diz a tradição que ele recebeu a famosa resposta que já reproduzimos acima. O que, a uma primeira vista, poderia parecer confirmar que todo o relato até tem um fundo de verdade, mas… esta história só nos chegou por intermédio de Gregório Bar Hebraeus, um autor nascido no século XIII, ou seja, quase 600 anos depois da altura em que os eventos em questão supostamente tiveram lugar.

 

Para que se compreenda o estranho da situação, bastará pensar-se que há 600 anos atrás os Portugueses ainda não tinham chegado ao Brasil. Se nos chegasse uma história real que teve lugar nessa altura, mas que por uma qualquer razão não aparece atestada em qualquer fonte literária, seria difícil acreditarmos na sua veracidade… e o mesmo se aplica neste caso! Se, durante mais de meio milénio, ninguém atestou que aqueles eventos tomaram mesmo lugar, é no mínimo estranho que Gregório Bar Hebraeus ainda pudesse estar a apresentar algo que verdadeiramente tomou lugar na Biblioteca de Alexandria muitos séculos antes. E, como tal, podemos falar de toda esta famosa história como se tratando de uma verdadeira lenda, cujo potencial fundo de verdade já há muito se perdeu…

Os Versículos Satânicos e Salman Rushdie – qual a origem da controvérsia?

Está agora muito na moda falar-se de Salman Rushdie e dos seus Versículos Satânicos… e muitos dos que seguem as notícias recentes dizem que os Islâmicos são muito intolerantes, e outras coisas que tais, mas quando fomos perguntando às pessoas se sabiam a razão por detrás de toda a controvérsia, é demasiado curioso constatar que a resposta foi sempre negativa… ou seja, que como já parece ser demasiado comum nos dias de hoje, as pessoas gostam de mandar os seus bitaites, mas fazem-no até quando nada percebem do tema. Assim, achámos que poderíamos explicar aqui a verdadeira razão por detrás de toda a controvérsia. 

Os Versículos Satânicos e Salman Rushdie

Quem for ler os tais Versículos Satânicos de Salman Rushdie encontrará nessa obra de pura ficção uma ou outra razão para controvérsia menor… mas isso é apenas porque, como parte da cultura ocidental, os mesmos leitores raramente têm os fundamentos culturais e religiosos necessários para conhecer e entender o ponto que iremos apresentar a seguir.

 

Já cá falámos anteriormente no Corão, em particular sobre a presença de Jesus Cristo nessa obra, mas diz a tradição que todo esse texto religioso foi ditado a Maomé pelo Anjo Gabriel. Portanto, é considerado como um texto divino e infalível (tal como os Cristãos pensam em relação à sua Bíblia). Mas se Maomé faleceu na primeira metade do século VII, alguns anos mais tarde surgiu uma lenda oral um pouco insólita – que em dada altura, quando este profeta estava a ouvir as palavras do anjo, Satanás se foi intrometer e adicionou ao relato uma frase que não tinha origem divina. Então, a expressão original, ditada pelo anjo e hoje na sequência 53:19-20, diz o seguinte:

Ora haveis vós visto Lât e Uzzâ, e Manât, a terceira, que é outra deusa?

E conta-se que o opositor divino segredou uma pequena frase a seguir a essa, que já não aparece no texto actual que temos para o Corão, referindo que estas três deusas, anteriormente veneradas em Meca, eram mesmo verdadeiras e completamente dignas de pedidos de intercessão por parte de todos os crentes. Agora, se esta ideia até agradou muito a quem já as venerava, também levantou um conjunto enorme de problemas – se se admite a possibilidade de Maomé ser falível, de Satanás o ter mesmo influenciado na frase acima, será que isso também aconteceu em outros pontos do texto corânico? Ou, se aquelas deusas são verdadeiras e podem ajudar os crentes, como explicar que o profeta não o consiga fazer, segundo as crenças islâmicas? Etc…

 

Este episódio, esta lenda que ficou conhecida sob o nome dos tais “versículos satânicos” (o seu nome vem, naturalmente, de terem sido inspirados por Satanás), até foi inicialmente aceite pelos crentes do Islão, mas ao longo do tempo e face às implicações que trazia foi rebaixado para puro mito. Não é algo em que eles acreditem hoje em dia, mas sim uma história que conhecem e que parecem ver como um desrespeito à sua religião. Para estabelecer uma espécie de paralelismo com a religião de Jesus Cristo, é como se alguém andasse a escrever livros em que gozasse com a Virgem Maria e dissesse, com base em lendas de outros tempos, que ela foi abandonada por José porque engravidou de um legionário romano chamado Pantera/Pandera – e relembre-se que ainda há uns anos houve problemas, por parte de cristãos, face a um filme em que Jesus escapa da cruz, casa com Maria Madalena e até têm descendentes… o que mostra que muitos crentes querem respeito para a sua religião, mas nem sempre o têm para com a dos outros!

 

Portanto, o grande problema dos Versículos Satânicos de Salman Rushdie é não só o de relembrar esta lenda de outros tempos, mas também conter mais alguns elementos que desrespeitam a religião muçulmana. E quem quiser opinar sobre o tema, pelo menos que o faça com base num conhecimento das circunstâncias originais e do porquê dos crentes islâmicos se sentirem ofendidos com o conteúdo da obra…