A lenda da Anta Gorda (em Rio Grande do Sul)

Anta parece ser uma daquelas palavras que tem significado diferente em Português de Portugal e do Brasil. Para nós, deste lado do Oceano Atlântico, uma “anta” é um monumento megalítico, como o de Adrenunes, em Sintra. No entanto, no Brasil ela é essencialmente um animal, aquele a que aqui nós vulgarmente damos o nome de tapir, e que pode ser visto na imagem abaixo.

A lenda da Anta Gorda (em Rio Grande do Sul)

Dada esta breve introdução, somos então levados à povoção de Anta Gorda, no estado brasileiro de Rio Grande do Sul. Existe nessa localidade uma estátua de uma grande anta – referindo-se aqui, como é natural, ao animal – que deu o nome à povoação, e que até nos pode relembrar a nossa Porca de Murça. Segundo a lenda local, o município tem esse nome porque no tempo dos seus primeiros colonos aí existia uma Anta Gorda, talvez com os 200 ou 300 Kg que a espécie pode alcançar. Ela acabou por ser morta em inícios do século XX, talvez por causar muitos problemas, e em sua memória o sítio onde foi encontrada passou a chamar-se Local ou Passo da Anta Gorda, que posteriormente veio a ter o seu nome simplificado para o actual, como também aconteceu com muitas outras terras aqui em Portugal.

A lenda da Anta Gorda é, assim, um curioso exemplo de como o imaginário popular dá vida e permanência ao que a natureza oferece. O animal, transformado em símbolo (mas que, curiosamente, não aparece no brasão local), acabou por marcar a identidade de uma comunidade inteira, atravessando gerações e fronteiras de significado. Tal como as nossas antas de pedra guardam segredos de tempos remotos, também esta anta de carne e osso se tornou guardiã de uma memória – a de um Brasil ainda selvagem, onde a lenda e a realidade se confundem na mesma paisagem.

Dom Sebastião e a Pedra Bonita de Pernambuco

Quando em Portugal falamos de Dom Sebastião e do Sebastianismo, fazemo-lo hoje quase apenas como uma brincadeira de outros tempos. É uma coisa completamente inofensiva, aquela subtil ideia de que o antigo rei está na sua Ilha Encoberta ou Afortunada à espera da data do seu retorno. E se também já vimos exemplos semelhantes em terras do Brasil, presumíamos que também aí toda esta famosa lenda de Portugal era inofensiva, algo em que algumas pessoas acreditavam mas não chateavam ninguém com isso. Foi, portanto, com grande surpresa que encontrámos a história de que iremos falar hoje, de terras do Pernambuco, no Brasil, e que teve lugar entre os anos de 1836 e 1838.

O Sebastianismo e a Pedra Bonita do Pernambuco

Segundo relatos da época, conta-se então que um tal João Antônio, brasileiro, com recurso a um panfleto de origem e conteúdos desconhecidos, formulou a ideia de que nestas duas pedras pernambucanas estava escondida uma entrada para o reino secreto de Dom Sebastião. O padre local, de nome Francisco Correia, lá o convenceu a desistir da estranha crença, mas este primeiro crente foi-se embora e deixou o seu “reino” a um cunhado, um tal João Ferreira, que depois levantou uma sugestão perigosa – que o encantamento que impedia o rei de voltar só podia ser quebrado com o sacrifício de sangue humano. E então, os crentes de toda esta estranha e nova religião sacrificaram cerca de 80 pessoas durante alguns dias… e isto chegou ao absurdo de até sacrificarem o próprio João Ferreira porque um seu outro cunhado, Pedro Antônio (irmão do criador da seita), veio a dizer que o rei lhe apareceu em sonhos e revelou que o feitiço seria finalmente quebrado com o sangue dessa figura!

Talvez tudo isto tivesse continuado por muito mais tempo, até que a 18 de Maio de 1838 um major local, com as suas tropas, interveio e acabou com toda esta loucura… e dois meses depois, o padre Francisco Correia lá voltou a este local, onde enterrou os sacrificados e desenhou a bela gravura vista acima, onde não só pode ser vista a Pedra Bonita (ou Pedra do Reino, como ficou conhecida na sequência destes eventos), mas também alguns dos episódios mais significativos de toda a história. Veja-se, por exemplo, do lado direito das pedras centrais, uma pessoa prestes a atirar-se de uma rocha…

 

Toda esta história chegou-nos pelas mãos de um Antonio Attico de Souza Leite, que a conta na obra Fanatismo religioso : memoria sobre o reino encantado na comarca de Villa Bella. Nem ele, nem o seu pai foram crentes desta estranha religião, mas na escrita da obra foram tomados em conta os testemunhos de algumas pessoas que tinham conhecido estas crenças em primeira mão. Infelizmente, ninguém parece ter sabido de onde nasceu a ideia, com os diversos relatos que encontrámos a dizerem apenas que João Antônio formulou estas suas crenças com recurso a um panfleto que tinha em sua posse, mas cujo conteúdo ninguém se parece ter interessado em apurar. O que poderia ter sido interessante, dadas algumas semelhanças com o caso nacional do Cisma da Granja do Tedo, também ele aparentemente derivado de alguns livros misteriosos que a matriarca tinha recebido de Lisboa por volta da mesma altura…

 

Hoje, esta Pedra do Reino, ou Pedra Bonita, continua no local em que sempre esteve, na Serra do Catolé, em São José do Belmonte, Pernambuco, Brasil. Apurámos que existem lá algumas estátuas com motivos religiosos, mas (aparentemente) já nada que a ligue às crenças desta estranha, e infelizmente violenta, forma do Sebastianismo. Se existiram casos semelhantes em terras de Portugal, à presente data ainda não os encontrámos.

A origem da expressão “conto do vigário”

Questionar-nos sobre a origem da expressão “conto do vigário” é uma ideia que nasceu de uma visita recente de um colega a uma esquadra da PSP. Um cartaz presente na mesma, que reproduzimos abaixo, informava que “Muitos idosos são vítimas de burlas” e instava-os a que “Não caia[m] no conto do vigário”. O cartaz continua o seu tema referindo algumas características habituais dos burlões que enganam idosos, como funcionam os seus esquemas, bem como alguns cuidados a ter, mas… curiosamente, nunca explicam precisamente em que consiste essa tal história, o que nos levou a investigar o tema.

Origem da expressão conto do vigário

Existem, de facto, algumas lendas que tentam explicar de onde vem esta expressão do conto do vigário (já lá iremos!), tanto em Portugal como no Brasil, mas é curioso constatar que todas elas parecem ter dois elementos comuns, nomeadamente a presença de uma qualquer espécie de esquema e pelo menos um vigário, seja ele um verdadeiro padre ou apenas alguém que tem esse apelido. Mas, dado todo o contexto, nestas coisas a explicação mais simples tende frequentemente a ser a mais correcta – em outros tempos era bastante frequente os vigários, i.e. os padres adjuntos a um prior, aproximarem-se bastante das viúvas, quase sempre idosas, para as convencerem a deixar todas as suas heranças para a Igreja, como ainda pode ser testemunhado em textos como a Monita Secreta atribuída aos Jesuítas!

 

Se essa ideia já não é tão comum nos nossos dias, como é natural, o conto do vigário continua ainda a designar esquemas maléficos direccionados aos mais idosos com a intenção de obter as suas posses, o que bem explica o seu nome. Porém, já as lendas existentes não o fazem de uma forma tão conexa, como estas duas que a título de exemplo copiamos de um site brasileiro:

Uma das versões mais consolidadas do conto do vigário fala de uma história que aconteceu no século XVIII na cidade de Ouro Preto [no Brasil] entre duas paróquias: a de Pilar e a da Conceição que queriam a mesma imagem de Nossa Senhora. Um dos vigários propôs que amarrassem a santa no burro ali presente e o colocasse entre as duas igrejas. A igreja que o burro tomasse direção ficaria com a santa. Acontece que, o burro era do vigário da igreja de Pilar e o burro se direcionou para lá deixando o vigário vigarista com a imagem.

Outro fato interessante aconteceu no século XIX em Portugal quando alguns malandros chegavam à cidades remotas e se apresentavam como emissários do vigário. Diziam que tinham uma grande quantia de dinheiro numa mala que estava bem pesada e que precisaria guardá-la para continuar viajando. Diziam que como garantia era necessário que lhes dessem alguma quantia em dinheiro para viajarem tranquilos e assim conseguiam tirar dinheiro dos portugueses facilmente.

O que estas lendas têm de particularmente curioso é que nunca explicam que “conto” específico deu o nome à expressão – isto, porque não era uma trapaça completamente fixa e com personagens pré-determinadas, como poderíamos ser levados a pensar com base na informação da citação acima, mas sim um conjunto de palavras e ideias que, sem qualquer violência física, levava a que os idosos prescindissem de bom grado das suas posses, como já explicámos acima e como até era frequente acontecer com as viúvas abastadas pelo menos até ao século XVIII. O facto dessa “tradição” se ter perdido posteriormente, talvez pela expulsão das ordens religiosas, poderá até ser uma das razões que levou à invenção de lendas mais ou menos recentes como as que reproduzimos acima…

Sobre a Inscrição Fenícia da Paraíba

A chamada Inscrição Fenícia da Paraíba, a que dedicamos as linhas de hoje, tem um lugar breve mas curioso na história e cultura do Brasil. Se ela fosse completamente verdade – e já lá iremos… – provaria, sem margem para grandes dúvidas, que foram os Fenícios os primeiros Ocidentais a chegarem às terras da América do Sul. O que seria muito interessante, como é natural, mas a verdadeira questão é… seria verdade, ou tratava-se tudo de uma falsa e completa invenção? Recorde-se a sua história, antes de tudo o mais.

 

Em 1872, um tal Joaquim Alves da Costa – se era verdadeiramente esse o seu nome… – comunicou por carta a uma academia científica local o facto de ter encontrado na sua quinta, na zona de Paraíba, uma inscrição estranha entalhada numa rocha. Supostamente, depois pediu a um filho, que até tinha jeito para este tipo de coisas, para copiar os caracteres que lá estavam, o que gerou uma folha de papel com um conteúdo como este, enviado à tal academia:

Inscriação Fenícia da Paraíba

Posteriormente, um tal Ladislau Netto viria a descobrir e proclamar que isto era Fenício, gerando a sugestão de terem sido eles os primeiros a chegar ao Brasil, e até traduziu o conteúdo desta chamada inscrição fenícia do Paraíba com as seguintes palavras:

“Foi erguida esta pedra pelos Cananeus Sidónios, que da cidade real a comércio saíram”
“sem mim pela (?) remota terra montanhosa e árida, escolhida dos deuses”
“[e?] deusas no ano nono e décimo (décimo nono?) de Hiran nosso rei poderoso”
“e sairam de Aziongaber no Mar Vermelho e embarcaram gente em navios dez”
“e estiveram no mar, juntos, anos dois ao redor da terra da África, e foram separados”
“do comandante e se desligaram de seus companheiros e chegaram aqui duas vezes (doze?)”
“homens e três mulheres, nesta costa ignota que eu servo de Astarte poderosa (Mutuastarte infeliz?)”
“tomei em penhor. Os deuses e deusas tenham de mim compaixão”.

Wow. Impressionante, não é?! Parece que os tais Fenícios foram os primeiros a chegarem a terras do Brasil (!) – e esta Inscrição Fenícia da Paraíba supostamente prova-o!

Mas… depois, os outros estudiosos foram-se apercebendo de alguns problemas mais ou menos importantes em tudo isto. Falar de todos eles escapa ao tema (introdutório) de hoje, mas ninguém conseguiu encontrar aquele tal Joaquim Alves da Costa, até porque ele não tinha incluído qualquer morada na carta que enviou. E pior – não só ele nunca foi encontrado, como aquela pedra onde era suposto estar esta inscrição também nunca foi vista por mais ninguém, algo mais que suficiente para tudo isto cheirar a esturro a qualquer pessoa que seja mais ou menos independente de possíveis interesses locais na questão. E torna-se ainda pior – ao longo do tempo as pessoas também se foram apercebendo que algo de estranho se passava com Ladislau Netto, como se tivesse sido ele, muito convenientemente, a escrever aquela primeira carta, apenas para depois se auto-representar como o decifrador das respectivas letras e ganhar a sua fama.

 

Terá sido verdade? Será que foi Ladislau Netto que falsificou a Inscrição Fenícia da Paraíba, reproduzida ali em cima, para seu próprio benefício? Ouvimos e lemos respostas afirmativas e negativas. É discutível. O que não o é, no entanto, é que desde aquele ano de 1872 até à presente data ninguém mais viu esta suposta pedra na primeira pessoa, que muito poderia provar sobre uma possível antiga presença fenícia no Brasil, nem o seu suposto dono, fazendo crer que ambos nunca existiram. Pelo menos no caso da nossa Estátua da Ilha do Corvo, que também poderia comprovar algo de semelhante nas ilhas atlânticas, são várias as provas de que ela poderá ter existido, existem pessoas reais que a viram, mas a pedra aqui em questão parece nunca ter existido fora daquela carta misteriosa escrita por um suposto Joaquim Alves da Costa…

A dupla lenda das Amazonas

Falar-se aqui da lenda das Amazonas dá-nos uma oportunidade invulgar de abordarmos duas histórias bastante distintas numa só publicação. Claro que elas andam de mãos dadas, de uma forma que já poucos parecem conhecer hoje em dia, mas a segunda delas só pode ser compreendida no seguimento da primeira, o que nos levou à evidente necessidade de as contar em associação. Para tal, comece-se então pelo início de toda esta história.

A lenda das Amazonas

Nos mitos e lendas da Antiguidade Clássica existia uma estranha civilização que era conhecida pelo nome de Amazonas. Era composta exclusivamente por mulheres guerreiras, todas elas tão prolíferas nas artes da guerra como os seus congéneres masculinos. Depois, uma vez por ano, cruzavam o rio local (algures na Ásia Menor), aproximavam-se de um aldeia em que só existiam homens, e ora os violavam a todos, ora decidiam deixar nesse local todos os rebentos do sexo masculino que tinham sido dados à luz nos passados 12 meses.

Esta poderia uma história como tantas outras da mesma altura, de espécies estranhas que viviam em locais longínquos e raramente eram vistas pelos seres humanos (como os Blémias, os Centauros ou os Ciclopes), mas o notável é que estas Amazonas tinham, ocasionalmente, um papel em alguns dos mitos da Grécia Antiga – Teseu casou com uma, Hércules defrontou outra, Aquiles matou uma terceira na Guerra de Tróia, etc. Como tal, gerou-se uma ideia segundo a qual esse povo era verdadeiro, existia mesmo, potencialmente em terras da Ásia, mas ninguém sabia muito bem onde era esse local. Portanto, toda esta história foi ficando na mente de alguns, presa durante séculos entre ficção e realidade…

 

E assim poderia ter permanecido até aos nossos dias, não fosse algo que aconteceu com Frei Gaspar de Carvajal por volta do dia 24 de Junho de 1541. Nessa altura ele, juntamente com um pequeno grupo de soldados, explorava um rio que encontraram em terras do Brasil. Enquanto o faziam, foram atacados pelas flechas de um grupo de nativos locais. Entre vários homens, estes viajantes conseguiram ver algo que lhes pareceu muitíssimo digno de nota – aí se encontravam também ferozes mulheres guerreiras, que pareciam controlar os habitantes do sexo oposto como seus soldados… e então, estes viajantes concluíram tratarem-se certamente das Amazonas, aquelas figuras guerreiras de que apenas tinham ouvido falar nos mitos e lendas da Antiguidade… e por essa coincidência de carácteres pensaram também que aquele rio por onde viajavam era o presente nessas conhecidas histórias, levando, aparentemente, ao nome que ele ainda hoje tem – o Rio Amazonas (!), por pensarem que aí vivam, nesses meados do século XVI, as mesmas mulheres guerreiras que em outros tempos tinham defrontado figuras como Teseu e Aquiles!

 

O que eles encontraram não eram, como é óbvio, as Amazonas de que falavam os autores gregos e romanos da Antiguidade. Estes exploradores apenas viram o que queriam ver, nessa pura coincidência da fortaleza de espíritos, mas talvez tenha sido esse carácter forte das mulheres locais da época (por contraste com as ocidentais, então mais submissas), que terá levado àquela conotação negativa de rapariga no Brasil, como contámos anteriormente. É debatível. Já o nome do rio, esse, parece sê-lo menos, fruto de um mito pagão da Antiguidade que não deixou de ir sendo relembrado ao longo dos séculos…