A lenda do Negrinho do Pastoreio

A lenda do Negrinho do Pastoreio é uma que parece ser muito famosa em terras do Brasil mas que em Portugal poucos conhecem. Como tal, achámos que poderíamos cá contar esta história de uma forma muito resumida.

A lenda do Negrinho do Pastoreio

Diz-se então que em outros tempos viveu no Brasil um homem que tinha muitos escravos e os tratava a todos muito mal. Batia-lhes com um chicote quase diariamente, à mais pequena provocação, sem qualquer dó nem piedade. Depois, um dia, mandou um dos seus escravos – que ainda tinha pouca idade, e que nos ficou conhecido apenas como “Negrinho do Pastoreio” – cuidar de alguns cavalos, entre eles um pelo qual o dono até tinha enorme estima. O menino tentou fazer essa tarefa o melhor que pôde, mas seja por fruto da sua tenra idade, ou porque adormeceu, acabou por perder um dos equídeos que guardava, e que alguns até dizem ter sido o favorito do patrão… e então, zangadíssimo, o seu “dono” – uma expressão que, hoje, nos parecerá abominável, mas que na altura era bem real – deu tantas, mas tantas, chicotadas ao menino que o deixou às portas da morte, antes de se afastar.

Esta lenda do Negrinho do Pastoreio não teria muito interesse se ficasse por aqui, não é?! No dia seguinte, quando este patrão se aproximou do local em que viu este menino pela última vez, encontrou-o sem uma única ferida, tão jovem como sempre, e até com um sorriso nos lábios. E, ainda menos expectável, viu junto a ele a Virgem Maria e o cavalo preferido, aquele que se tinha perdido. Milagre, milagre (!), um grande milagre que até levou a que este homem se arrependesse dos muitos males que tinha feito no passado!

 

Mas ainda não é tudo por hoje… em virtude de toda esta lenda, e em particular do facto de ter encontrado o cavalo perdido por milagre, o Negrinho do Pastoreio parece ter-se tornado, para alguns, uma espécie de santo popular, ligado à função de encontrar objectos perdidos, como na nossa oração portuguesa de Santo António. Existem até várias orações ligadas a ele e a essa função – que não reproduzimos aqui por se encontrarem em infindáveis versões diferentes, sendo difícil compreender qual é a original e quais são meras invenções dos nossos dias – mas um dos aspectos mais curiosos é mesmo o facto de, segundo algumas fontes que consultámos, esta figura só ajudar quem tem pele escura – será este um estranhíssimo racismo místico, ou será que o menino nunca aprendeu a perdoar, julgando todos os Brancos pelas acções do cruel patrão que um dia teve…?

As lendas do Corpo-Seco

As lendas do Corpo-Seco provêm de terras do Brasil, onde aparecem atestadas em diversos estados. Em todos eles o cerne da história parece ser sempre o mesmo ou, no mínimo, muito semelhante – dizia-se que esta hedionda criatura nascia do corpo de um ser humano falecido, quando este tinha cometido na sua vida algum pecado tão horrendo que nem os Céus ou o Inferno queriam aceitá-lo dentro das suas portas. Então, estava condenada a vaguear pelo mundo dos vivos até ao fim dos tempos (talvez na companhia do Judeu Errante). Naturalmente que, face a esta informação basilar, uma questão se impõe imediatamente – que pecado assim tão abominável terá essa pessoa cometido, para ser sujeita a um castigo tão invulgar?

A lenda do Corpo-Seco

Numa primeira versão da lenda do Corpo-Seco, o primeiro homem a sofrer este destino foi um agricultor que, inicialmente, era muito pobre. No mais completo dos desesperos fez uma promessa a Nossa Senhora, dizendo-lhe que caminharia até um determinado santuário se esta o fizesse rico. O pedido à santa acabou por se realizar, mas depois este homem, cujo tempo o nome há muito apagou, acabou por ir ao santuário mas não da forma que tinha prometido – fez a viagem a cavalo, num carro de bois, …, com uma versão recente de toda a história a referir até um avião – o que o levou a ser castigado após a morte.

Uma segunda versão diz que este monstro nasceu do cadáver de um homem que era muitíssimo maldoso, que até batia muitas vezes na sua própria mãe, levando depois a que a mãe-terra recusasse recebê-lo no seu seio.

Já uma terceira história revela que o Corpo-Seco tinha sido, originalmente, um homem bastante rico mas muito sovina, que nem nunca dava qualquer esmola ao auxílio seja aos mais pobres, seja a membros da igreja católica. Então, quando um dia ele rejeitou auxiliar dois monges, insultando-os e quase até batendo neles, estes amaldiçoaram-no com um destino que parece ser mais terrível que a própria morte.

Um possível Corpo-Seco em versão feminina

Mas, curiosamente, estas lendas não se referem somente a figuras do sexo masculino. Uma quarta versão refere que, numa dada altura, uma mulher estava para ser sepultada em terras do Brasil. Contudo, cada vez que tapavam o túmulo, horas depois o seu corpo era expelido pela própria terra, que parecia recusar tê-la no seu cerne (como numa das versões acima – será que estão relacionadas? Será que esta mulher também batia na sua mãe?). Tentaram-se várias alternativas, sempre sem qualquer sucesso, até que ela acabou por ter o seu descanso eterno apenas quando foi sepultada num local muito específico, que depois tomou o seu (novo) nome em virtude desta famosa falecida – uns dizem que isso se passou na Serra do Corpo-Seco, em Ituiutaba (no estado de Minas Gerais), enquanto que outros dizem que o local foi mesmo uma misteriosa “Caverna ou Gruta do Corpo Seco”, de localização agora mais incerta.

 

Resumidas estas quatro versões, qual a origem de todas estas lendas do Corpo-Seco, nas suas diversas versões? Encontrámos algumas alusões demasiado vagas a uma proveniência portuguesa, mas não conhecemos qualquer lenda nacional semelhante a estas. Assim, é provável que estas narrativas tenham surgido da ideia de que alguns corpos se decompõem mais depressa que outros – o que, segundo a sabedoria popular, dependia do seu nível de pecados* – ou para incentivar certos comportamentos (bondosos) face a outros que eram vistos como muito negativos, como também acontecia com a famosa lenda da Mula Sem Cabeça, e como se pode depreender pelos actos (malvados) que foram motivo de punição nestas lendas.

 

 

*- Nesse contexto, há que esclarecer que se acreditava que os corpos dos santos permaneciam incorruptos após a morte, dada a sua pureza e como ainda hoje pode ser visto em diversas igrejas (e.g. o exemplo de São Torcato), enquanto que os dos pecadores voltavam muito rapidamente ao pó da terra.

O mito de José Sócrates

Não foi só na Grécia Antiga que existiram grandes histórias. O mito de José Sócrates, que quase que partilhou o seu nome com uma outra grande figura dos tempos da Antiguidade, também ela igualmente perseguida pelos seus muitos abomináveis opositores, tem muito que se lhe diga. Esse mais casto, puro, justo, heróico e santo de todos os homens nada fica a dever a figuras heróicas da Antiguidade – possuindo a força de Hércules, a paixão pela justiça de Antígona e a honestidade de Sísifo, só tememos não ser capazes de contar todas as suas muitas aventuras numa só publicação, não só por se tratarem cada uma delas de tarefas mais difíceis do que as do filho de Alcmena, mas até pela extensão e falta de espaço actuais. Assim, hoje contamos apenas aqui duas delas.

O mito de José Sócrates

Conta-se que, durante séculos, a família em que nasceu José Sócrates possuiu um cofre mágico, originalmente dado pelo deus Hefesto ao Rei Midas, quando este último foi vilificado por ter ousado admitir, com toda a justiça do universo, que Pã tocava flauta melhor que o deus Apolo. Todos os juízes do concurso estavam notavelmente subornados pelos poderes instituídos, mas só Midas ousou dizer a verdade, sendo assim recompensado pela sua mais pura honestidade. Em seguida, esse cofre foi passado de mão em mão – entre os seus anteriores possuidores contam-se figuras tão ilustres e digníssimas do maior crédito na história da humanidade como Heródoto, João de Mandeville, o Barão Munchausen, o filho de um tal “Gepeto”, ou mesmo Richard Nixon – até chegar aos nossos dias. Conta-se que este modelo ideal do homem perfeito, as quatro virtudes cardeais tornadas homem, ainda hoje guarda esse cofre mágico em sua casa.

Poderão, então e por óbvia curiosidade, perguntar o que de mágico tem esse acessório, o mais famoso que chegou ao nosso país dos tempos da Antiguidade. É simples – tudo o que for colocado no seu interior é instantaneamente transformado nas coisas mais preciosas do mundo. Se, por exemplo, lá colocassem antigas notas de escudos, saíriam elas depois magicamente convertidas em euros, à taxa cambial de 1 escudo = 777 euros, que José Sócrates sempre declarou ao Fisco, mesmo que – por se tratarem, naturalmente, de oferendas místicas provindas exclusivamente dos mais divinos deuses – não tivesse de o fazer, de todo. Fê-lo, e sempre, com toda a mais recta honestidade do universo, estando mais acima de qualquer suspeita que Vishnu, Sidarta Gautama ou Jesus Cristo.

O mito de José Sócrates

Conta-se igualmente este mito de José Sócrates que ele tinha um amigo fidelíssimo, um Pirítoo para o seu Teseu, que tudo faria por ele e com ele, sem nunca jamais lhe pedir fosse o que fosse em troca. E então, as forças das trevas conspiraram contra os dois eternos amigos, procurando separá-los, urdindo conspirações e tentando conspurcar esta genuína e tão terna amizade com um véu de maldade. Amicorum communia omnia, diziam os Antigos, e só alguém muito mal intencionado poderia sequer pretender imaginar algo de errado numa amizade tão claramente unida pela carne e pelo usufruto plenamente fraternal de um só património – não há um término do que é de um e do que pertence ao outro, como qualquer amizade verdadeira deve sentir.

 

Quantas outras histórias poderíamos aqui contar, deste homem mais santo que o mais santíssimo de todos os seres humanos que já existiram? Como é possível que, em mais de 4300 anos de história, tenhamos a excelsa oportunidade de viver num país e num mesmo tempo que um homem como estes, que nada fica a dever ao divino Cícero? Devemos considerar-nos os mais sortudos dos homens e das mulheres por vivermos em Portugal neste tempo de agora, porque uma figura tão perfeita só parecia existir nos mitos do passado…

 

[Editado posteriormente: Para quem não tiver notado, esta foi uma brincadeira do Primeiro de Abril, reeditada e republicada após os eventos da segunda semana deste mês.]

 

P.S.- Obtivemos, posteriormente e por empréstimo de uma biblioteca nacional, uma cópia de um novo livro de José Sócrates, de título Só Agora Começou. É uma obra quase hilariante, uma espécie de Apologia de Sócrates ao contrário, em que se tenta convencer o leitor de que a personagem principal é mesmo o mais santíssimo de todos os homens que já viveram neste mundo, e que até apresenta frases tão ironicamente hilariantes como “Nunca gostei de códigos ou de regulamentos (…)” Não comprem a obra, mas se a virem numa qualquer plataforma de ficheiros ilegais, aproveitem… e riam-se muito!

As lendas de Cacareco e Boston Curtis

Face à dificuldade de encontrar um tema para o dia de hoje decidimos então escrever sobre as lendas de Cacareco e Boston Curtis. Na verdade, talvez até nem seja correcto chamar-lhes “lendas”, já que são ambas histórias completamente reais, que aconteceram mesmo e sem qualquer margem para dúvidas, mas que se fossem relidas daqui a alguns séculos certamente suscitariam as maiores suspeitas sobre a sua veracidade.

Cacareco (já iremos a Boston Curtis)

Começando então por Cacareco, esta rinoceronte fêmea foi, no já-distante ano de 1959, eleita com votos de protesto para as eleições municipais de São Paulo, no Brasil – e ganhou, tendo recebido mais de 100 mil votos dos eleitores locais! Infelizmente nunca tomou posse, por razões que nos parecem mais que óbvias, mas algumas décadas mais tarde, em 1988, os Brasileiros votaram em protesto no Macaco Tião para Prefeito do Rio de Janeiro – aí, o animal aparentemente recebeu mais de 300 mil votos, mas já não foi o suficiente para conseguir ganhar…!

Caso estejam curiosos sobre como tudo isto foi possível, convém explicar que nessa altura os votos eram realizados escrevendo o nome pretendido para a vitória numa folha de papel, pelo que, na prática, se poderia votar em qualquer pessoa, animal, ou objecto inanimado. Depois da (absolutamente desapontante) derrota do Macaco Tião, a situação lá foi rectificada – desconhecemos se os dois eventos estão relacionados – para que as pessoas não pudessem tornar a votar em candidatos “extra”.

 

Mas uma situação muito semelhante teve lugar nos Estados Unidos da América alguns anos antes, em 1938, quando Boston Curtis ganhou umas eleições locais por 51 votos. Isto nada teria de especial, não fosse o facto do candidato vencedor se tratar de uma mula, inscrita nas eleições para provar que as pessoas votam mesmo quando nem sabem muito bem em quem estão a votar. Reza a história que ela até assinou diversos documentos legais com um dos cascos, mas não conseguimos obter confirmação de que alguma vez tenha tomado posse.

 

Será que alguma situação como estas alguma vez tomou lugar em Portugal? Não conseguimos encontrar uma resposta positiva a isso, mas talvez ali a autora de O sal da história saiba a resposta – o que sabemos, sem qualquer dúvida, é que devem existir animais no nosso país que fariam melhor figura do que determinados políticos que vemos na televisão todos os dias. Para quando, um Cacareco ou Boston Curtis nacional?

A Lenda do Minhocão

A lenda do Minhocão

A lenda do Minhocão é tradicionalmente brasileira, sendo muito provável que não tenha nascido em Portugal ou sido levada do nosso país por emigrantes (e.g. contraste-se com os casos da Cuca ou da Bruxa Évora, entre outras), mas surgido já e plenamente em território do Brasil, entre os seus nativos, ao longo de vários séculos. Assim se explica que ela apareça associada às mais diversas localidades – Pari, Rio de São Francisco, Cáceres, Pantanal, Cuiabá, entre outros locais quase sempre próximos de algum curso de água – e sempre com características muito semelhantes, em termos de todo o seu contexto.

 

Qual é, então, esta suposta lenda do Minhocão? Ela diz, essencialmente, que em terras do Brasil existe uma criatura, ou uma espécie de criaturas muito invulgares, de uma estatura gigantesca. Se ele é realmente uma minhoca, uma espécie de serpente, ou até mesmo um peixe, é algo que não se sabe muito bem… até porque quase nenhumas pessoas a viram pessoalmente! Ainda assim, ela vai fazendo buracos no chão por onde passa (e deixando enormes sulcos nos mais diversos terrenos), virando barcos nos rios, roubando a pesca aos pescadores, e outras coisas que tais. Infere-se, portanto, que ele exista mesmo, dados os vestígios físicos que se acredita que vai deixando, mas ao mesmo tempo também é difícil poder acreditar-se que uma criatura supostamente tão grande, e por isso que também deveria ser bastante lenta, jamais fosse vista, fotografada ou gravada em vídeo por alguém, tendo-nos chegado apenas por relatos orais e pouco mais…

 

Por isso, será que o Minhocão da lenda existe mesmo? Muito dificilmente esta será uma lenda baseada em facto reais, mas podemos acrescentar que é provável que o “Minhocão” de São Paulo, hoje chamado oficialmente o “Elevado Presidente João Goulart”, tenha obtido o seu nome popular através desta famosa lenda brasileira, potencialmente pela forma como o seu piso superior – pense-se em uma espécie de Segunda Circular lisboeta, com um piso para automóveis que circula acima das típicas ruas da cidade – faz um metafórico sulco nas vias de circulação da cidade.