Os algarismos romanos – 4 deve escrever-se IIII ou IV?

Hoje decidimos falar daquela que parece ser uma das grandes questões da humanidade – como se escreve 4 em algarismo romano? É fácil lembrar o 1 (árabe) como I, o 2 como II, o 3 como III, mas… afinal de contas, que número romano se segue? Como se escrevia 4 em algarismo romano? Deverá ele ser escrito como IV ou IIII? E, se a resposta correcta for apenas a primeira (como frequentemente nos é dito na escola), porque razão é que tantos relógios apresentam um “IIII” no seu mostrador, como na imagem abaixo?

4 em algarismo romano

Em tempos de escola aprendemos que o 4 romano deveria ser escrito “IV”, que o 19 deveria ser escrito “XIX”, e outras coisas que tais. Porém, há alguns dias, enquanto uma colega de Coimbra relia uma passagem da Guerra Gálica de Júlio César, deparou-se com um estranho problema, numa passagem que dizia Atuatucos XVIIII milia. Talvez fosse um simples erro de cópia ou transmissão medieval, mas o problema repetiu-se noutras sequências – passuum CCCC e XXXX Bibracte (entre outras). Em busca de resposta, consultámos um outro livro, o de Plínio o Velho, em que acabámos por encontrar números como “CCLXXXXVII”, “CCCCL” ou “MMMM”. Mas, ao mesmo tempo, também fomos encontrando muitas referências a números como IV, IX, ou XC.

 

Isto gera um problema – estariam figuras tão eminentes como Júlio César ou Plínio o Velho erradas? Ou, pelo contrário, quem estava errado eram os outros autores que nos chegaram dos tempos da Antiguidade? Não nos é possível responder a essa questão de uma forma directa, mas é curioso que um erro – seja de que lado for – tenha sido muito pouco criticado. Por isso, talvez não seja correcto ver este problema como uma questão de “certo” ou “errado”, mas de mera opinião, em que os números podiam ser escritos de ambas as formas, porque mesmo assim não deixavam de ser compreendidos, sendo apenas ligeiramente mais difícil escrever e ler VIIII do que IX. Quem quiser dizer que VIIII está errado irá opor-se a figuras como César e Plínio; quem disser que IX está errado irá opor-se a um possível peso colectivo de muitos outros autores – qual dos dois casos o pior, venha o proverbial Diabo e decida-o por si mesmo.

 

Agora, se o IV, ou o que supomos ser o 4 em algarismo romano, se parece ter popularizado ao longo dos séculos, resta uma questão – porque é que alguns relógios têm IIII em vez de IV, mas também usam IX em vez de VIIII? Perguntámos a vários relojoeiros, que nos disseram que se tratava de uma convenção pictórica de algumas marcas, mas que eles já não sabiam de onde vinha originalmente. E isso, por agora, basta-nos.

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6 comentários em “Os algarismos romanos – 4 deve escrever-se IIII ou IV?”

  1. Seria interessante perceber se os diferentes registos de escrita eram contemporâneas ou se ocorreram em períodos distintos. Se apurarem, não esqueçam de connosco partilhar.

    Quero dizer, já é muito interessante saber que, dois milénios antes dos acordos ortográficos, a língua que viria a originar a nossa possuía termos com duas formas de escrita e que tal facto não impede o seu estudo e o reconhecimento da sua enorme dimensão mesmo depois de morta. [poderiam alertar a comissão do AO90]

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    • Isso pode ser visto da seguinte forma – se os textos literários, em si mesmos, podem ter sido alterados ou adaptados na Idade Média (mudando de IV para IIII, ou vice-versa), dificilmente poderiam ser alterados sem dificuldade os registos epigráficos. Agora, por motivos de tempo, se pegarmos na “Introdução ao Estudo da Epigrafia Latina” do Professor José D’Encarnação podemos ver alguns exemplos:

      Um miliário do tempo de Trajano, encontrado em Vila Real e identificado como “CIL II 4797”, diz que ele foi quatro (IIII) vezes imperador.
      A base de uma estátua de Augusto, encontrada em Espanha e identificada como “CIL II 2017”, diz que essa homenagem data do seu décimo-oitavo (XIIX) poder tribunício.
      Uma placa provinda do Fundão, cuja identificação não encontrámos mas que foi publicada em 1986, diz que uma mulher morreu aos 40 (XXXX) anos e a sua filha aos 18 (XIIX).

      Infelizmente, nessa obra não havia nenhum IV (ou IIII), pelo que decidimos recorrer à “Hispania Epigraphica” para mais exemplos. Vimos 300 registos (dos 32643 disponíveis) e encontrámos o seguinte:

      Uma menina morreu com um ano e quatro (IIII) meses (record 41). Outra, com 24 (XXIIII) anos (record 54). Uma mulher faleceu aos cinquenta e nove anos (LIX, record 167). Témis, aos dezoito (XVIII, record 181). Um menino, aos nove (IX, record 207). Outro, num dia quatro (IIII, record 239). Um homem, aos quarenta (XL, record 270). Uma menina, aos catorze (XIIII, record 233), como Augusto foi imperador o mesmo número de vezes – XIIII (record 84) – em menos de um século. Existe um nove (IX, record 254) num cipo funerário.
      Em 300 registos, o único número “IV” que podemos ter encontrado é no registo 241, mas esse epitáfio está tão deteriorado que não se entende bem que número lá estaria – se VIIII ou LIV, que um tradutor diz ser “cinquenta e quatro”.

      E as datas… sempre que encontrámos alguma especialmente importante, são consideradas “desconhecidas” ou “imprecisas”, mas entre os séculos I e IV da nossa era. Mas, julgando por apenas 1% da base de dados disponível, o IIII era mais frequente que o IV. Seria giro ver a base de dados toda e confirmar quantas vezes ocorre o IV e quantas o IIII, e em que possíveis datas, mas gabamos a paciência de quem o for fazer.

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      • Obrigada por tal partilha. Infere-se então que os cardinais teriam mais do que uma forma, não apenas o 4 mas vários outros. E não ocorreu apenas com os cardinais, mas estes mais interessantes porque deles se espera objectividade.

        Sim, acho que a malta que continua a insistir no AO90 deveria ler isto!

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        • De nada, é para isso que aqui estamos, mas usando somente o 4 como exemplo, o grande problema é mesmo descobrir que taxa de IIII e de IV existem naquela única base de dados. Ainda pensámos fazer batotice e procurar por “iv” nas inscrições, mas o sistema não funciona bem para esse caso e retorna inscrições que não o contêm – já o texto “iiii” parece ocorrer 1019 vezes, ou seja, em aproximadamente 3% dos registos. E lá para o meio até existe um seis, IIIIII…

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  2. Outras teorias para o algarismo 4 ser grafado IIII e não IV:

    Júpiter
    Quando a forma IV passou a ser utilizada pelos romanos, por coincidência o número possuía uma grafia similar ao nome do deus Júpiter, escrito pelos antigos como IVPITER.
    Especialistas afirmam que os romanos, então, preferiram usar o símbolo IIII no relógio de forma que não desrespeitassem o deus Júpiter.

    Catolicismo
    De acordo com esta outra teoria, a forma IV deixou de ser utilizado em relógios romanos cristãos para que as iniciais de um deus pagão não estivessem presentes em relógios de igrejas cristãs.

    Segundo amigos particulares da França, o IIII permaneceu para tecnicamente evitar confusão com o V que vem logo depois do IV.

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    • Bom dia!

      É certamente possível que isso tenha acontecido, regionalmente! Em Portugal, por exemplo, os nomes dos dias da semana foram alterados para remover as menções pagãs dos originais, por influência de São Martinho de Dume. Nesse contexto, fará quase o mesmíssimo sentido que “alguém” se possa ter sentido ofendido por IV[PITER] e, como tal, tenha decidido usar uma alternativa.
      Será que foi o que aconteceu? Infelizmente muitos dos textos da época foram perdidos, e nunca vimos uma menção completamente directa a isto, MAS há uns tempos escrevemos sobre as práticas do Paganismo que continuaram na Idade Média ( https://www.mitologia.pt/que-praticas-do-paganismo-continuaram-280342 ), e uma delas era “os feriados que são feitos a Júpiter e Mercúrio”. Aqui não é totalmente claro o significado de “feriados”, mas poderá ter sido um dos dias da semana e, em caso positivo, faria sentido que as pessoas tentassem censurar o nome desse dia para que as pessoas fossem esquecendo Júpiter.

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