Numa obra, cuja referência infelizmente perdi, encontrei um elemento que me pareceu interessante o suficiente para merecer uma menção por cá:
Quando Constantino I visitou um templo chamado Sosthenion, onde habitava uma divindade alada, considerou-a como sendo um anjo cristão. Durante uma noite passada nesse templo, foi-lhe então revelado, em sonhos, que esse anjo era São Miguel, e o imperador viria então a transformar esse templo numa igreja cristã, consagrada a esse anjo.
Essa igreja, que infelizmente não sobreviveu até aos dias de hoje, bem como a história que levou à sua criação, prova então uma inegável ligação entre os deuses gregos e a religião cristã, até porque os milagres associados à antiga divindade passaram depois a sê-lo a S. Miguel . É provável que algo de semelhante se tenha passado até com muitos santos, já que figuras como São Jorge apresentam elementos semelhantes aos de mitos como o de Perseu, mas tanto quanto me foi dito por quem percebe dessas coisas, não há uma relação totalmente atestada entre os deuses gregos do Politeísmo e os santos do Monoteísmo cristão.
!["O cavaleiro que fazia falar as vaginas [e os rabos]", de Garin O-Cavaleiro-que-Fazia-Falar-as-Vaginas-e-os-Rabos](https://mitologia.pt/wp-content/uploads/2026/06/O-Cavaleiro-que-Fazia-Falar-as-Vaginas-e-os-Rabos-300x199.jpg)





A noção de _sacrum furtum_ – roubo sagrado – cunhada por Gregório Magno é um ponto essencial para perceber a complexa transição do politeísmo para o monoteísmo judaico-cristão. Por um lado o cristianismo definiu-se na sua génese precisamente enquanto ateísmo (dos deuses pagãos), e nesse sentido não podia ser mais do que a sua negação. Por outro deparamo-nos com a situação completamente inversa, de figuras, conceitos, hierarquias pagãs a serem transpostas para o cristianismo com uma facilidade surpreendente. Isto parece-me ter duas fontes: a primeira e a mais básica, assim como a mais desinteressante, é a de Gregório Magno citada acima: façamos uso dos elementos pagãos aceitáveis para podermos desse modo melhor converter os pagãos. É o mesmo argumento que será usado na China pelos Jesuítas. Uma outra maneira de olhar para a questão, bastante mais curiosa, é pelo prisma da antropologia humana. Que certos elementos existam não por alguma razão ulterior, mas porque são componentes difícil ou mesmo incapazes de ser abalados da psyche humana: Épheso, cidade do culto de Diana, a Grande Mãe dos Deuses, se tenha tornado a cidade (aquando do concílio epónimo) que gerou o dogma mariano da Theotokos – da Mãe de Deus, pode ser visto ou com cinismo ou com a aceitação de que o elemento feminino na religião estava em falta no culto judeu e cristão, e que dessa maneira a transição dum sistema para o outro implica a transição também destas “cintilhas de Deus” que fazem com que possamos dizer que, como um pai e um filho que, apesar de serem completamente diferentes, não conseguimos deixar de reconhecer traços em comum no global da figura. Lendas heróicas passam muitas vezes, com S. Jorge e Cristo a ocuparem lugares de Hércules, Perseu, etc. Os próprios rituais de beber o sangue e comer o corpo do Deus encontram ecos nos cultos dionysíacos e no mithraismo. Muitos dos deuses assumem simplesmente nomes pagãos (o controlo sobre o clima atribuído a Júpiter, protector de Roma, passa para S. Pedro, padroeiro de Roma). Isto para dizer que o nexo é inegável e está lá: embora a “matemática” não dê sempre contas certas (figuras antigas coalescem ou dividem-se em várias novas), assim como também seja sempre de notar que o cristianismo trouxe muito de novo. Mas a história da mitologia de ambas as religiões é inegavelmente decalcada uma da outra em incontáveis passagens.
Sobre a relação dos cultos pagãos com o Cristianismo já muito foi escrito, tanto aqui como pelo mundo fora, mas o principal problema dessas teorias passa sempre pelo mesmo ponto, a incapacidade de provar, sem margem para dúvidas, que a figura pagã X e o santo cristão Y são uma mesma figura.
Isto gera múltiplas situações caricatas, como os casos de Barlaam e Josafat, ou de S. Cristóvão Cinocéfalo, mas leva também a casos em que figuras pagãs têm “algo” em comum com as figuras cristãs. Às vezes é intencional, como no caso que referiu do culto de Éfeso (que não conheço, confesso), mas muitas vezes pode ser uma mera coincidência. Não temos forma de o concluir, pelo menos fidedignamente…