Existiam dinossauros na Antiguidade?

A resposta à questão Existiam dinossauros na Antiguidade? poderia parecer muitíssimo óbvia, mas, não obstante, parecem existir autores que parecem querer fazer coexistir humanos e dinossauros. Como evidência, usam imagens como a seguinte:

Parte do Mosaico do Nilo

Provinda do chamado “Mosaico do Nilo”, de Palestrina (em Itália), alguns parecem argumentar que a criatura aqui representada nas margens do Nilo é um dinossauro, enquanto que outros escritores dizem tratar-se de uma lontra. Quem terá razão?

 

Mais do que responder a essa difícil questão sobre a possibilidade de dinossauros na Antiguidade, parece-me é importante constatar um aspecto muito importante da iconografia dessa altura; visto já não termos um acesso total ao ambiente cultural em que este mosaico foi produzido, um observador dos nossos tempos pode aí ver tudo o que queira ver, mesmo face a enormes evidências em contrário. Veja-se outro exemplo:

Um dinossauro na Antiguidade?

Hércules pode ser aqui visto a combater o Monstro de Tróia e a salvar Hesíone. A criatura mitológica está do lado esquerdo, mas quem olhar com atenção poderá ver que a sua face se assemelha muitíssimo a um fossíl de dinossauro carnívoro. Seria deliberado, ou será outro desses exemplos em que até podemos estar a ver na imagem algo que, originalmente, não era suposto? Não sabemos, mas é certamente possível que o facto de se encontrarem esqueletos de dinossauros na Antiguidade possa ter inspirado a ideia de que monstros gigantes já tinham existido em outros tempos…

Onde ficava Tróia?

Hoje fui confrontado com uma questão que achei que não podia ignorar, quando alguém se perguntou “Onde ficava Tróia?”, referindo-se, sem dúvida, à Tróia dos poemas de Homero.

 

De uma forma muito simples, eu poderia, simplesmente, dizer que não sabemos onde ficava a Tróia de que nos fala Homero. Mesmo na Antiguidade, muitos já eram os autores que debatiam esse tema, e se muitos foram aqueles que davam as suas opiniões, parece-me também que não existia nenhuma opinião totalmente convicente, a que todos eles aderissem de uma forma una.

 

Agora, se num século muito mais recente Heinrich Schliemann “descobriu” (as aspas são intencionais) Tróia, essa é uma possível “descoberta” cujo caminho não é simples, e que pode ser explorado na sua obra Troja und seine Ruinen (em Português, algo como “Tróia e as suas ruínas”). Caberá ao leitor, com base no conteúdo da mesma, avaliar se os argumentos de Schliemann são convincentes, ou se apenas serviram para esse autor ver o que queria ver. Se nos poderá parecer, à primeira vista, que essa segunda opção é a mais lógica, ao mesmo tempo também não podemos descurar o facto de, nessa sua obra, o autor tirar várias elações que fazem muito sentido, muito mais sentido do que poderíamos pensar antes de a ler.

 

Serão, então, a Tróia de Schliemann, localizada na turca Hisarlik, e a de Homero, uma só? Essa é uma questão à qual eu dificilmente saberia responder, mas convido todos os interessados no tema a lerem a obra de Schliemann e, com base no que ela lhes disser, formarem as suas próprias conclusões.

Jesus Cristo era casado?

Há cerca de um mês pediram-me que escrevesse sobre a possibilidade de Jesus Cristo ser casado, já que o assunto veio à baila através de notícias como esta. Por isso pergunte-se, Jesus Cristo era casado?

Jesus Cristo era casado?

Deixemos, para começar, de lado a hipótese desse fragmento poder ser uma falsificação. Não é relevante. Para mim, e tendo em conta o contexto literário da época, pouco interessa que esse fragmento, ainda para mais provindo de uma obra desconhecida, apresente Jesus como podendo ter uma esposa, já que o contexto dessa afirmação seria muito mais importante que a própria afirmação. Porquê? Por uma razão muito simples, e que não escapa a qualquer pessoa que conheça minimamente os textos gnósticos – por volta dessa altura ainda existiam todo um conjunto de textos derivados das mais variadas heresias (uso aqui esta palavra sem qualquer carácter pejorativo), que construíam, adaptavam, alteravam, ou omitiam elementos nas histórias bíblicas de forma a enfatizar ou diminuir a preponderância de alguns pontos.

 

Por exemplo, alguns defendiam que Jesus, enquanto filho de Deus, não poderia ter sido crucificado, e então teria sido Simão de Cireno (o homem que levou a cruz, durante algum tempo, nos evangelhos sinópticos) a ser crucificado em seu lugar, enquanto Jesus se ri (o riso de Jesus, nos textos gnósticos, é um tema muito interessante, mas para não me alongar irei apenas dizer que esse riso não se devia à cena a ter lugar, como alguns leitores poderiam supor).

Outros, que consideravam o deus do Antigo Testamento como um impostor, apresentavam a ideia de que a cobra do jardim do Éden tinha sido uma salvadora da Humanidade, já que lhes teria trazido um conhecimento da verdade, de que esse deus não era o criador de tudo o que existia. O famoso Evangelho de Judas apresenta um Jesus conivente com Judas, e esta segunda figura é vista como o mais importante dos apóstolos, por ir sacrificar o corpo de Jesus. Um texto, sem dúvida, de uma heresia em que o corpo terreno era visto como negativo.

Vários evangelhos da infância apresentam Jesus a usar os seus poderes miraculosos em situações do dia-a-dia, como dar vida a animais de barro, ressuscitar amigos que mata (mais ou menos) sem querer, ou acertar o tamanho das pernas de uma peça de mobiliário feita por José. Provavelmente destinavam-se a remediar a curiosidade despertada pelos textos sinópticos, que pouco falavam da infância de Jesus, mas também poderiam ter tido vários outras funções.

Textos muito mais tardios, como o Toledot Yeshu, de origem judaica e destinados a gozar a religião cristã, apresentam Jesus como obtendo os seus poderes mágicos através de um conhecimento do verdadeiro nome de Deus, e até o põem a combater, nos ares e a um estilo de Dragon Ball, contra um heróico Judas. 

 

Em todo este contexto era muitíssimo provável que algum heresia que considerasse o casamento como positivo tivesse, em seu poder e para apoiar as suas crenças, algum texto que dissesse que Jesus era casado. Isso não quer, evidentemente, dizer que Jesus tivesse mesmo casado, mas sim que, por alguma razão, uma seita gnóstica, vários séculos após o tempo de Jesus e dos seus apóstolos, considerou útil dizer que Jesus era casado, já que essa seria uma união que servia os seus propósitos individuais. As fontes mais antigas, como os evangelhos sinópticos, o Evangelho dos Hebreus, ou os textos (agora perdidos) de Pápias, nada referiam em relação à possibilidade de Jesus ter casado. Nenhum autor, seja ele pagão ou cristão, confirma ou desmente essa possibilidade, o que demonstra que essa era uma não-questão para a época, e esse é um silêncio muito esclarecedor. Assim, a mais pura verdade é que não temos, nem nunca poderemos ter, informação certa relativa a esse possível casamento, ou ausência dele. Não é por um dado texto, muito mais tardio, dizer que Jesus tinha esposa que isso se torna um facto totalmente real. Essa frase, ainda para mais num fragmento que “provavelmente remonta a uma data entre os séculos VI e IX, mas poderia ter sido escrito até mesmo no século II”, pouco ou nada nos diz.

O problema das citações fora de contexto

Algo que sempre me incomodou, no estudo de uma qualquer área, é o uso de citações fora de contexto. É demasiado simples ver alguém mencionar uma dada frase, copiá-la juntamente com a referência, e usá-la sem sequer se conhecer a obra de onde proveio. Acontece demasiado, e é algo que eu considero abominável.

Qual é o problema? Vejamos um pequeno exemplo, provindo de uma tradução inglesa da Moralia de Plutarco:

Does it not thence follow, that the earth is spherical, though we nevertheless see it to have so many lofty hills, so many deep valleys, and so great a number of inequalities? Does it not follow that there are antipodes dwelling opposite to another, sticking on every side to the earth, with their heads downwards and their heels upwards, as if they were woodworms or lizards? That we ourselves go not on the earth straight upright, but obliquely and bending aside like drunken men? That if bars and weights of a thousand talents apiece should be let fall into the hollow of the earth, they would, when they were come to the centre, stop and rest there, though nothing came against them or sustained them; and that, if peradventure they should by force pass the middle, they would of themselves return and rebound back thither again? That if one should saw off the two trunks or ends of a beam on either side of the earth, they would not be always carried downwards, but falling both from without into the earth, they would equally meet, and hide themselves together in the middle? That if a violent stream of water should run downwards into the ground, it would, when it came to the centre of the earth, which they hold to be an incorporeal point, there gather together, and turn round like a whirlpool, with a perpetual and endless suspension?

Fabulosa, esta citação! Os Gregos acreditam numa terra redonda, na gravidade, e em outras coisas que tais! Que se use cinco, 10, 20 vezes esta citação para o provar, sem qualquer margem para dúvidas, mas… infelizmente, a frase seguinte a essas também era:

Some of which positions are so absurd, that none can so much as force his imagination, though falsely, to conceive them possible.

É, portanto, este o problema de se citar seja o que for sem se conhecer, ou sem se ter lido, a obra de onde ela provém. Mesmo que o eventual citador até tivesse lido a proximidade da citação, sem ler toda a obra ele nunca saberá o contexto da mesma. Seria como citar, por exemplo, o discurso de Aristófanes no Simpósio de Platão e atribuí-lo a Sócrates, só porque alguém mais também já o fazia, e porque nenhum dos dois envolvidos tinha lido a obra.

Agora, se por um lado eu compreendo a importância de se estudar também as fontes secundárias, e outras que tais, acho é que isso também nunca pode, nem deve, ser usado para colmatar um desconhecimento das várias fontes primárias, na primeira pessoa, como, infelizmente, tanta gente insiste em pensar…

Sobre o filicídio de Medeia

Sobre o filicídio de Medeia, o que pode ser dito?

Para quem perceber o mínimo que seja de Direito saberá que um ponto crucial de qualquer tipo de crime é a presença, ou ausência, de premeditação, ou seja, se o acto foi realizado no calor do momento, ou se a pessoa já o teria planeado fazer, antecipadamente. Com base nesta distinção, as penas são até bastante diferentes porque se, por exemplo, uma pessoa matar outra quando está numa acesa discussão, isso é menos penalizado do que se o fizer a meio da noite, no silêncio e na escuridão, com uma faca. Agora, penso que isto tem especial interesse e relevância no mito de Medeia, particularmente naquele que é considerado o seu maior crime, o de matar os próprios filhos. Nas versões mais conhecidas do mito é inegável que Medeia o faz, mas, ao mesmo tempo, não me parece que exista qualquer tipo de premeditação nas suas acções. É que se, por um lado, são várias as mortes causadas por Medeia, todas elas parecem ter algo em comum, que é o facto de estarem intimamente ligadas à forma como ela é pintada, com dons de feiticeira. Isto faz todo o sentido, do ponto de vista antropológico, já que se sabe que as mulheres, quando querem fazer mal a alguém, tendem a optar por métodos indirectos (fogo, venenos, e outras que tais). Porém, enquanto que Medeia ataca os outros com esses métodos mágicos, todos eles obviamente premeditados, já no próprio assassinato dos seus filhos recorre a um método mais físico (creio que Eurípides até menciona uma faca), muito mais próprio, no caso de uma mulher, de um acesso de fúria, de algo que é apenas executado no calor do momento. Claro que isto não absolve Medeia do seu famoso crime, mas pelo menos dá-nos alguma margem de manobra para a defender. Medeia, de que creio que já ter falado anteriormente, é alguém que deixa o seu mundo por amor, alguém que abdica de tudo para seguir Jasão, para o ajudar repetidamente, e após um dado momento da história este torna-se alguém que não só não dá valor a tudo o que ela fez por ele, mas até a despreza, como se ela nada fosse, como se ela nada tivesse significado. E, nesse contexto, como qualquer mulher que passe pelas mesmas coisas saberá afirmar, os actos de Medeia são actos de fúria, actos de vingança, actos de tentar tirar a Jasão tudo aquilo que pode, mas sem sequer pensar que estará, igualmente, a perder os frutos do seu ventre. Isso denota, creio eu, que os actos dela face aos próprios filhos não foram planeados, mas sim algo que ela simplesmente fez, num preciso momento, por ser a única forma que tinha de se vingar de Jasão, de lhe causar tanta dor quanto possível, uma intenção que é sempre bastante comum nessas situações…