Algumas considerações sobre as várias versões de mitos

A questão que me levou a explorar este tema surgiu-me há já alguns anos atrás, quando encontrei um dada imagem relativa ao mito de Jasão e os Argonautas, que poderão ver de seguida:

Jasão a ser comido por um dragão

Como é fácil constatar, esta imagem mostra Atena no lado direito, o Velo de Ouro na parte superior e… do lado esquerdo, um ser humano (provavelmente o próprio Jasão?) a ser devorado por um enorme dragão. Pela localização é fácil identificá-lo como o Dragão da Cólquida, mas nunca encontrei qualquer versão deste mito em que o dragão tenha importância suficiente para efectivamente devorar alguém. Então, o que representa esta imagem? É, tanto quanto pude averiguar, uma ilustração alusiva a uma versão do mito dos Argonautas, mas uma que, infelizmente, parece estar hoje totalmente perdida. O que quero eu dizer com isto?

 

Bem, quando há uns anos escrevi sobre os jogos God of War, notei que muitas das pessoas que me contactavam faziam-no para me confrontarem com diferentes versões dos mitos. Eu podia, por exemplo, ter mencionado que uma dada figura era filha de X, e quem me contactava dizia que, afinal de contas, seria era filha de Y, conforme mencionava este ou aquele autor. Isto sucede porque, contrariamente ao que sucede noutras culturas e religiões, os mitos gregos e romanos não têm uma versão definitiva; em vez disso, um dado autor, um dado poeta, pode por uma ou outra razão construir genealogias, inventar divindades, ou até alterar histórias, sem qualquer problema de maior. É, creio eu, demasiado arriscado mandar palpites sobre o porquê de cada uma dessas alterações, mas a inegável verdade é que existem e são até bastante frequentes. Sobre isso, aqui ficam algumas considerações:

 

– O cerne do mito nunca é alterado. Podem ser adicionados diversos eventos adicionais, elementos extra, mas Zeus e Hércules jamais são feitos filhos de Nero, Aquiles nunca é posto a lutar pelo lado dos Troianos, e estes nunca ganham a Guerra de Tróia. Também Édipo jamais deixará de matar o pai ou casar com a mãe. Nesse sentido, veja-se um pequeno episódio relativo à juventude de Hércules, retirado da Biblioteca de Pseudo-Apolodoro:

 

When the child was eight months old, Hera desired the destruction of the babe and sent two huge serpents to the bed. Alcmena called Amphitryon to her help, but Hercules arose and killed the serpents by strangling them with both his hands. However, Pherecydes says that it was Amphitryon who put the serpents in the bed, because he would know which of the two children was his, and that when Iphicles fled, and Hercules stood his ground, he knew that Iphicles was begotten of his body.

 

Aqui, a uma versão muito conhecida do mito, referida nos momentos iniciais, é depois adicionada uma outra, da autoria de Ferecides, que apesar de não adicionar nada de muito importante à história, lhe dá alguns detalhes adicionais, que provavelmente serviriam para atingir algum outro objectivo desse autor, cujo trabalho está hoje perdido.

 

– Existem incontáveis alterações ao nível das genealogias, tanto dos deuses como de figuras humanas. Pense-se, por exemplo, na figura de Helena de Tróia, que diversas fontes consideram filha de Zeus e Leda, e compare-se com as palavras da Biblioteca de Pseudo-Apolodoro:

 

Some say that Helen was a daughter of Nemesis and Zeus; for that she, flying from the arms of Zeus, changed herself into a goose, but Zeus in his turn took the likeness of a swan and so enjoyed her; and as the fruit of their loves she laid an egg, and a certain shepherd found it in the groves and brought and gave it to Leda; and she put it in a chest and kept it; and when Helen was hatched in due time, Leda brought her up as her own daughter.

 

Há então aqui uma tentativa de conciliar duas versões do mito; Helena nasceu de Némesis e Zeus, mas ainda assim considera Leda como sua mãe, já que foi esta última que a criou. Assim, seria possível a alguns dizer que ela era filha de Némesis, e outros poderiam dizer que a sua mãe era Leda, sem problemas de maior. Veja-se um outro exemplo, este retirado das fábulas de Higino:

 

Liber, son of Jove and Proserpine, was dismembered by the Titans, and Jove gave his heart, torn to bits, to Semele in a drink. When she was made pregnant by this, Juno, changing herself to look like Semele’s nurse, Beroe, said to her: “Daughter, ask Jove to come to you as he comes to Juno, so you may know what pleasure it is to sleep with a god.” At her suggestion Semele made this request of Jove, and was smitten by a thunderbolt. He took Liber from her womb, and gave him to Nysus to be cared for. For this reason he is called Dionysus, and also “the one with two mothers.”

 

Assim se justificaria os dois nomes de um dado deus, mas também a existência de duas mães diferentes, Proserpina e Semele, sendo o pai sempre Júpiter.

– Muitas vezes existem conflitos entre duas versões do mito que se mostram impossíveis de resolver. Um dos casos que sempre achei mais interessantes passa pelo sétimo trabalho de Héracles, em que o herói teve de capturar um touro selvagem na ilha de Creta. Segundo vagas alusões de alguns autores, esse touro seria o mesmo que transportou Europa para a ilha. Porém, o mesmo animal é quase sempre referido como sendo uma transformação de Zeus, o que torna ambos os mitos incompatíveis, ou pelo menos extremamente difíceis de explicar e aceitar lado a lado.

 

– Quando existiam conflitos derivados desse ponto anterior, eram algumas vezes resolvidos com recurso à teoria de que existiram várias figuras com um mesmo nome comum, possibilidade esta que é bastante comum no caso da figura de Héracles e de alguns deuses. Sobre o herói dos vários trabalhos, é então dito por Cícero, na sua obra sobre a natureza dos deuses, o seguinte:

 

The most ancient is the son of Jupiter, and, moreover, of the most ancient Jupiter (for in the early writings of the Greeks we find also more than one Jupiter); from that Jupiter, then, and Lysithoë comes the Hercules of whom we hear that he struggled with Apollo for the tripod. The second is reported to have been an Egyptian, the son of Nilus, and he, it is said, drew up the Phrygian books. The third is one of the Digiti of Ida, and receives funeral honours from the Coans. The fourth is the son of Jupiter and Asteria, the sister of Latona, and is worshipped principally at Tyre, the mother city, according to tradition, of Carthage. The fifth belongs to India, and is called Belus. The sixth is the one we know, born from Alcmena and begotten by Jupiter, that is, by the third Jupiter, for, as I shall proceed to show, we are told of more than one.

 

Existiriam, segundo este autor, pelo menos cinco Hércules, cada um com segmentos das aventuras totais de um só, e contínuo, “Hércules”. Mas vejamos mais um caso – também Pitágoras, numa obra cuja referência já me escapou, dizia que Apolo teria morrido em Delfos (se bem me recordo, na luta contra a Píton), e estaria agora sepultado debaixo do tripé, o que nos leva a perguntar – pode, então, um deus grego morrer? Aparentemente sim, apesar de serem quase incontáveis os textos que dão o dom da imortalidade a esses mesmos deuses, e portanto a resolução do problema passaria por dizer que não tinha sido Apolo, o deus, a morrer, mas sim uma figura de nome igual e com algumas características semelhantes.

 

– Apesar de, no caso dos filósofos, existirem alterações muito complexas aos mitos, essas alterações raramente são consideradas como mitos, ou reaproveitadas por outros autores. Veja-se um caso de Séneca o Jovem, que escreveu em Dos Benefícios o seguinte:

 

What is nature but God and divine reason, which pervades the universe and all its parts? You may address the author of our world by as many different titles as you please; you may rightly call him Jupiter, Best and Greatest, and the Thunderer, or the Stayer, so called, not because, as the historians tell us, he stayed the flight of the Roman army in answer to the prayer of Romulus, but because all things continue in their stay through his goodness. If you were to call this same personage Fate, you would not lie; for since fate is nothing more than a connected chain of causes, he is the first cause of all upon which all the rest depend. You will also be right in applying to him any names that you please which express supernatural strength and power: he may have as many titles as he has attributes. Our school regards him as Father Liber, and Hercules, and Mercurius: he is Father Liber because he is the parent of all, who first discovered the power of seed, and our being led by pleasure to plant it; he is Hercules, because his might is unconquered, and when it is wearied after completing its labours, will retire into fire; he is Mercurius, because in him is reasoning, and numbers, and system, and knowledge. Whither-soever you turn yourself you will see him meeting you: nothing is void of him, he himself fills his own work. Therefore, most ungrateful of mortals, it is in vain that you declare yourself indebted, not to God, but to nature, because there can be no God without nature, nor any nature without God; they are both the same thing, differing only in their functions.

 

Será este um certo monoteísmo, esta religião ou mito que o autor aqui professa? Talvez não, já que ideias como estas eram comuns em algumas – e somente algumas, não todas – correntes da Filosofia. Outros autores também diziam que, ao existirem, os deuses gregos seriam subalternos de um deus primordial e principal, de um deus único, semelhante ao Demiurgo de Platão, mas visões como essas são extremamente incomuns nos mitos que nos chegaram.

 

Voltando então à imagem inicial, parece-me muito provável que não será o próprio Jasão a ser devorada pelo dragão, até porque existem momentos extremamente importantes nesse mito que tomam lugar após a obtenção do Velo de Ouro, mas sim um qualquer outro herói, mais secundário, o mostrado na imagem. Porém, a presença de Atena, a mesma deusa que tanto auxilia heróis, também poderia indicar o contrário, razão pela qual continuo a achar que a imagem nos mostra o mito de Jasão e os Argonautas numa forma que se perdeu, ao longo dos tempos… poderia ser, por exemplo, um sonho enviado ao herói por Atena, na noite antes de ser auxiliado por Medeia? Talvez, mas não tenho informação para o concluir com total e absoluta certeza.

Dos deuses gregos aos anjos e santos

Numa obra, cuja referência infelizmente perdi, encontrei um elemento que me pareceu interessante o suficiente para merecer uma menção por cá:

 

Quando Constantino I visitou um templo chamado Sosthenion, onde habitava uma divindade alada, considerou-a como sendo um anjo cristão. Durante uma noite passada nesse templo, foi-lhe então revelado, em sonhos, que esse anjo era São Miguel, e o imperador viria então a transformar esse templo numa igreja cristã, consagrada a esse anjo.

 

Essa igreja, que infelizmente não sobreviveu até aos dias de hoje, bem como a história que levou à sua criação, prova então uma inegável ligação entre os deuses gregos e a religião cristã, até porque os milagres associados à antiga divindade passaram depois a sê-lo a S. Miguel . É provável que algo de semelhante se tenha passado até com muitos santos, já que figuras como São Jorge apresentam elementos semelhantes aos de mitos como o de Perseu, mas tanto quanto me foi dito por quem percebe dessas coisas, não há uma relação totalmente atestada entre os deuses gregos do Politeísmo e os santos do Monoteísmo cristão.

Sobre a fundação de Roma antes da vinda de Eneias

Sobre a fundação de Roma antes da vinda de Eneias, são de certeza muitos os que conhecem as histórias – falsas, como o próprio autor dá a entender – de Vergílio, mas a obra Origem das Gentes Romanas (de autoria desconhecida) menciona algumas curiosidades que, do ponto de vista mítico, me parecem interessantes deixar por cá:

 

– Ion (o mesmo da peça de Eurípides) teria aí fundado a cidade de Ianiculus, perto da qual se viria a estabelecer Saturno. Porém, não é fácil compreender em que altura da história romana se situa este evento em particular;

 

– Os aborígenes desse país provinham do tempo das grandes cheias (referem-se, creio eu, às cheias das histórias de Noé, Deucalião, Gilgamesh, etc.), mas a etimologia do nome era, já na altura do compilador da obra, discutível. Teriam então sido bem recebidos por Pico, que reinou antes de Fauno (também identificado com Silvano, entre outras divindades);

 

– No reinado de Fauno teria chegado a Itália Evandro (filho de Mercúrio e Carmenta), que se estabeleceria no monte Palatino, e que foi o primeiro a ensinar os italianos a ler e escrever, entre outras artes. Mais tarde, viria então a ter lugar o famoso reinado de Latino, e a fundação de uma cidade pelo troiano Antenor (“Patavium”, a moderna Pádua), antes até da chegada de Eneias, que veio a fundar Lavinium, em honra da filha do rei.

 

Parece-me, assim, que Eneias foi tão fundador de Roma como o foram Jano, Pico, Fauno, Latino, ou até os gémeos Rómulo e Remo, mas cada um da sua maneira e a seu tempo…

Dares Frígio, Díctis de Creta e as outras Guerras de Tróia

Creio que qualquer pessoa que venha a ler estas linhas já terá pelo menos ouvido falar da Guerra de Tróia, normalmente nos relatos de Homero ou de Virgílio. Existem também outros relatos parciais, como os de Ovídio, mas aqui eu gostaria era de falar de dois relatos menos conhecidos, o de Dares Frígio e o de Díctis de Creta.

 

A versão de Dares Frígio, alegadamente mais antiga que a de Homero mas composta por um único livro, começa por cobrir eventos muito anteriores à própria guerra, e relaciona eventos que nos podem parecer desconexos (como a expedição dos Argonautas) com esta. Apresenta simples descrições de quase todas as personagens (por exemplo, em relação a Cassandra é dito que tinha estatura moderada, boca redonda, cabelo castanho-avermelhado, olhos que piscavam, e que sabia o futuro), mas um dos aspectos que me pareceu mais interessante é o facto do autor descartar por completo as divindades, e tentar mascarar alguns dos elementos lendários, como o tão conhecido Cavalo de Tróia. Por exemplo, o “Julgamento de Páris” toma lugar num sonho do herói, que é posteriormente interpretado, e o cavalo é somente um símbolo associado à porta por onde a cidade é invadida.

 

Na versão de Díctis de Creta, que diz ter assistido a todos os eventos narrados (ao longo da história entende-se que isso não pode ser verdade), existem também alguns elementos interessantes. Nem todos os episódios coincidem com os de Homero – por exemplo, Palamedes aparece neste texto (está totalmente ausente no de Homero), os heróis gregos disputam o Paládio (na Ilíada, lutam pela armadura de Aquiles), Filoctetes tem um papel mais activo, etc. – mas uma das características mais interessantes advém do livro VI, o último, em que é contado o regresso dos heróis gregos. Mais do que repetir a Odisseia ou a Eneida, o autor faz um verdadeiro epilógo da guerra, contando o destino final de Ulisses, a morte que lhe vem do mar (que, como muitos leitores provavelmente notam, nunca ocorre na versão de Homero), as desventuras de Agamémnon e de Orestes, entre vários outros episódios.

 

 

Agora, uma questão que se põe, evidentemente, é… será alguma destas versões superior à de Homero? Em termos estilísticos parece-me claro que não, mas serão elas mais fieis a uma possível e histórica guerra de Tróia? Não sabemos, jamais poderemos vir a sabê-lo, mas pelo menos permitem-nos comparar tradições concorrentes de um mesmo mito, muitas das quais fariam parte do Ciclo Épico e que estão, para nós, perdidas, como é o caso dos eventos que ocorrem nos anos da guerra que Homero não narrou.

Algo a (não) fazer no ensino das Clássicas

Normalmente eu não abordaria um tema desta índole por cá, até porque sempre acreditei que este deve ser um blog sobre Literatura e Mitologia Clássica, sobre o interesse e a beleza de muitos mitos e obras da época, em detrimento de um repetitivo espaço de discussão de 5000 palavras sobre a forma como a tradução de uma dada palavra foi feita, mas desta vez a situação é demasiado caricata para eu a poder ignorar.

 

Chegou-me, há uns dias atrás, uma questão feita numa prova de avaliação de uma universidade portuguesa: Quem são os filhos de Príamo referidos na Ilíada?

 

Inicialmente até pensei que isto se trataria de uma brincadeira, mas, pelo menos aparentemente, não o era. Ora bem, se por um lado eu compreendo a importância dos alunos saberem que Páris, Heitor ou Cassandra eram filhos do rei de Tróia, não entendo porque razão deverão estudantes ter de saber que o mesmo se passa com Iso, ou que Esaco também o era, apesar deste segundo não ser mencionado por Homero. Note-se que esta pergunta parece até assumir duas subquestões – quem era os filhos de Príamo, e quais deles são mencionados por Homero – nenhuma das quais tem particular interesse ou valor formativo. Agora, se, em certos ambientes, eu entendo que uma recitação dos nomes dos filhos de Príamo possa ter alguma importância, até porque alguns deles têm outros mitos associados, o que não compreendo é o porquê de se pedir a seja quem for que responda a uma questão desta natureza.

 

A meu ver, e é essa a razão da escrita desta mensagem, este tipo de questão é um perfeito exemplo de muito que, hoje em dia, está mal no ensino das Clássicas. Uma coisa seria perguntar a alguém os nomes dos principais heróis troianos, ou de algum filho de Príamo que tivesse feito algo de especialmente relevante para a trama, mas uma outra, bem diferente, é perguntar a alguém quantos cálices de vinho foram bebidos no decorrer da obra, ou quantas frases foram ditas por Odisseu, ou até em que dia do mês foi Helena de Tróia raptada. Se os primeiros dois elementos são importantes, têm relevância para a obra, já os outros três são meras curiosidades.

 

Se existem, como sempre existiram, obras da Literatura Clássica com uma soberba beleza, porquê torturar os alunos com perguntas que, mais do que testarem conhecimentos, os levam a odiar as mesmas obras que estudam? Se, por exemplo, um aluno tiver de ler “Sobre a Velhice” (de Cícero), eu creio que faria total sentido que a avaliação de conhecimentos incidisse no conteúdo relevante da obra, e não sobre o número de vezes que um dado autor é citado, ou sobre a idade de todas as personagens envolvidas.

 

A existir, e é óbvio que acredito no seu valor real, o estudo das Clássicas, e em especial da Literatura Clássica, deveria reger-se pela importância das muitas obras que sobreviveram ao peso dos anos, com as quais ainda hoje podemos aprender bastante, e não tanto com curiosidades que serão esquecidas cinco minutos depois de um exame. Se, pessoalmente, eu até tenho algum fascínio com alguns elementos secundários, também sei o quão irrelevantes estes por vezes são, e sei discernir entre o que é importante e o que é secundário. Ao perguntar-se a aluno o nome dos filhos de Príamo (cuja descendência, segundo alguns autores, chegava a uma centena), está-se não tanto a fomentar o interesse na literatura mas sim a promover uma visão horrenda desta literatura, em que o aluno não se irá lembrar das palavras de Homero, ou dos conselhos de Ovídio, mas pura e simplesmente da dificuldade que teve em conseguir uma nota de aprovação na avaliação final.

 

Atenção, nada tenho contra avaliações, até porque são sempre necessárias, mas há que saber o que realmente se pretende avaliar. Se é para um docente somente mostrar a sua virtual superioridade face a um conjunto de alunos, perguntas como a mencionada acima têm todo o sentido, e serão até aceitáveis, nesse mundo onde ele é rei e senhor. Porém, isso nada de bom fará aos alunos, bem pelo contrário, estará a perpetuar uma visão cada vez mais comum, em que as Clássicas são vistas como ultrapassadas e reservadas a uma selecta elite. Assim, estarão condenadas a uma morte lenta, porque em detrimento de atraírem quem as ama, estarão a atrair quem procura as novas facilidades dos cursos de Letras, em que cada vez há melhores notas e piores licenciados.

 

Em detrimento de questões como a mencionada no segundo parágrafo, fazia muito mais sentido que os estudantes fossem confrontados com questões que permitissem uma maior interacção entre os conteúdos lidos e a experiência pessoal. Por exemplo, relativamente a Édipo, será que ele merecia ser castigado por ter morto o pai e casado com a mãe? Não existe resposta certa nem errada, mas um conjunto de argumentos que, baseados no próprio estudo do mito, seriam interessantes de considerar. No contexto da Ilíada, para dar um exemplo adicional, pode-se sempre confrontar um aluno com as acções de dadas personagens (Diomedes, Aquiles ou Zeus, apenas para mencionar três das mais óbvias), e pedir-lhe que as insira no contexto da obra. Isso sim, seriam questões que não só testam o conhecimento do aluno como também o poderiam fazer interessar-se pelas obras que lê, levando-o a procurar novas leituras nessa área, o que tem uma crescente importância nos dias de hoje, já que ainda existem muitas lições a serem retiradas dessas mesmas obras.

 

Para terminar, convém mencionar que a questão original tem uma resposta real, mas é também demasiado trabalhosa e secundária. Se, enquanto aluno, eu fosse confrontado com ela, provavelmente preferiria perder alguns pontos a investigá-la… porém, e em pior caso, bastaria ler toda a obra de Homero com o único propósito de anotar os nomes dos filhos (e filhas, aproveite-se para tal) de Príamo. Seria um trabalho absurdo, uma total perda de tempo, mas a questão pode ser respondida… só não entendo é o porquê de alguém o querer fazer, já que seria uma pesquisa ridícula, e até sem qualquer valor formativo real. Se alguém o fez gabo-lhe a paciência (e a possível insanidade?), mas convém mencionar que a questão valia menos de 0.5 valores; será esse o meio ponto que aparta a figura do professor da de Deus, na tão famosa ladainha “19 é para o professor, 20 é para Deus”?