O mito do mártir Gaudêncio, arquitecto do Coliseu de Roma(?)

A história de hoje, este mito do mártir Gaudêncio, está intimamente ligada a um dos mais famosos locais da cidade de Roma. Se já cá falámos sobre a origem do nome do Coliseu, sobre esse mesmo tema há um ponto que parece ter sido muito esquecido ao longo dos séculos, e há quase dois milénios – quem foi o arquitecto por detrás de todo este famoso monumento romano? Não há quaisquer certezas, nem autores tão eminentes como Vitrúvio o nomeiam, e talvez por isso lá surgiu uma espécie de mito que explica o que aconteceu à figura por detrás de uma tão grande e imponente construção.

O mito do Mártir Gaudêncio

Este mito – porque o é, não temos qualquer prova de que esta história tenha sido verdade – conta então que o arquitecto do Anfiteatro Flaviano foi um tal Gaudêncio. Segundo o breve texto no seu túmulo (já lá iremos!), apesar deste enorme feito ele supostamente terá sido morto na arena, algures no tempo do Imperador Vespasiano. Pela presença dessa sua derradeira morada num cemitério cristão infere-se, muito naturalmente, que o seu “crime” tenha sido o de ter sido Cristão… mas, se hoje existem vários santos e mártires que partilham este mesmo nome, não encontrámos nenhum que tenha vivido no primeiro século da nossa era, corresponda a esta descrição geral e continue a ser venerado nos nossos dias de hoje. Como tal, toda a história parece vir, apenas e exclusivamente, de um texto latino que foi encontrado num túmulo romano na mesma cidade, e que reproduzimos abaixo:

SIC  PREMIA  SERVAS  VESPASIANE  DIRE
PREMIATVS  ES  MORTE  GAVDENTI   LETARE
CIVITAS  VBT  GLORIE  TVE  AVTORI
PROMISIT  ISTE  DAT  KRISTVS  OMNIA  TIBI
QVI  ALIVM  PARAVIT  THEATRV  IN  CELO 

O que quer isto dizer, perguntam os leitores que pouco ou nada saibam de Latim… mas neste caso o problema não passa tanto por uma tradução, mas por uma questão de interpretação do que o texto diz. Ele pode ser traduzido mais ou menos assim (infelizmente, hoje não podemos oferecer uma tradução melhor que esta):

Assim serás recompensado, Vespasiano, como mereces.
És recompensado pela morte de Gaudêncio; alegra-te.
A cidade prospera, autor da tua glória.
Ele prometeu isto, Cristo dá-te tudo.
Aquele que preparou outro teatro no céu.

Como é muito fácil notar, isto não fala do Coliseu, nem referencia o tal (suposto) mártir Gaudêncio de uma forma clara… mas a referência a Vespasiano, de que um Gaudêncio poderá ter sido “autor da glória”, poderá igualmente sugerir, com imensa imaginação à mistura, uma espécie de lenda como a que já relatámos ali em cima.

Sabemos que existiu pelo menos um Gaudêncio a viver em Roma na sua longa história, mas é difícil saber se este túmulo lhe pertenceu. Mesmo que tenha pertencido, a sua relação com Vespasiano não é clara. Nem é claro que tenha sido ele o arquitecto do Coliseu. Muito menos se sabe se este homem morreu na arena. Mas, através do mito e da lenda, é fácil ligar todos esses elementos e imaginar o que o texto não diz, gerando um relato muito geral, como aquele que foi apresentado ali em cima…

 

Para concluir… que foi, na verdade, o arquitecto por detrás do Coliseu de Roma? A enorme verdade é que não sabemos. Só e apenas isso. É uma informação que não parece ter chegado aos nossos dias, por muito que pessoas com mais imaginação queiram insistir em dizer o contrário.

A Criptozoologia e a lenda do Mokele-mbembe

Para aqui falarmos de uma possível lenda do Mokele-mbembe temos obrigatoriamente de falar de Criptozoologia. A palavra não é muito conhecida ou utilizada no nosso país, mas refere-se a um ramo científico que supostamente estuda, ou procura tentar estudar, os animais que ainda não são conhecidos entre nós. Alguns, como o (peixe) Celacanto, acabaram por provar-se completamente reais; outros, como o Bigfoot ou o Kelpie, ainda hoje se procuram; e num terceiro grupo poderiam colocar-se aqueles supostos animais que a Ciência já parece ter provado não existirem, criaturas como a Mantícora ou o Hipogrifo.

A Criptozoologia e a lenda do Mokele-mbembe

Muito poderíamos aqui escrever sobre cada um desses grupos, as suas origens e outras coisas que tais, mas para o tema de hoje é particularmente relevante falar-se do Mokele-mbembe, uma suposta criatura que se pensa viver nas terras do Congo e que é normalmente representada como um dinossauro de pescoço comprido, como o visto ali na fotografia acima. O que ele tem de especial, de particularmente digno de nota, é ser frequentemente utilizado em debates na Criptozoologia para se argumentar que criaturas dinossáuricas podem ter chegado aos dias de hoje. Há alguma prova? Absolutamente nenhuma, nem alguma vez esta criatura foi vista na primeira pessoa por algum ocidental, mas existem é muitas tradições e lendas locais que referem a existência, seja actual ou passada, de uma criatura com estas características.

 

Qual é, então, essa lenda do Mokele-mbembe? Claro que valeria muito a pena contá-la aqui, mas o grande problema é que não existe uma versão “oficial” de toda a sua história. Pelo contrário, existem é diversos relatos que referem a criatura, lhe dão características físicas muito semelhantes (aquele enorme pescoço é sempre constante), mas divergem na sua origem e acções – recordamos, a título de exemplo, que numa dada versão ele é um espírito que pune aqueles que pescavam no rio local sem antes terem realizados um conjunto de rituais de carácter religioso.

 

Por isso, será que o Mokele-mbembe existe mesmo? A melhor forma de responder a essa questão passa por dizer que ele provavelmente existe tanto como o Monstro de Loch Ness. Existem poucas ligações entre ambos, com a exclusão da forma dinossáurica, mas se um deles verdadeiramente existir, torna-se repentinamente muito mais fácil acreditar na existência do outro; ao mesmo tempo, se de alguma forma se conseguir provar a inexistência do primeiro ou do segundo (o que é difícil…), isso em absolutamente nada afecta a crença no outro.

 

Para terminar, talvez valha a pena descrever a Criptozoologia como uma ciência do possível mas incerto. Isto porque é certamente possível que criaturas como aquela a que dedicamos as linhas de hoje existam, mas ainda não foram encontradas excepto nos resquícios de fósseis de outros tempos. Essa incapacidade de os encontrar não vale a favor da sua inexistência, mas levanta é a possibilidade de que um dia possam efectivamente ser encontrados, como aconteceu ao Celacanto, que muitos designam hoje como um fóssil vivo…

O misterioso elmo do Mosteiro dos Jerónimos

Se já cá falámos anteriormente sobre o Mosteiro dos Jerónimos, este também é um local que ainda esconde muitos outros segredos. O de hoje, de aquele que poderia ser apenas e somente um mero elmo decorativo, parece ser muito pouco conhecido nos dias de hoje, ao ponto dos visitantes nunca serem informados de toda esta história mesmo aquando das visitas guiadas. Será intencional? Já lá iremos…

O Mosteiro dos Jerónimos e o mistério do elmo

Como bem se sabe, a estrutura original do Mosteiro dos Jerónimos começou a ser construída ainda nos primeiros anos do século XVI. É difícil saber como ela foi sendo alterada ao longo dos séculos – relembre-se aqui, por exemplo, o seu pobre estado em finais de 1878 – mas existem, como dificilmente poderia deixar de ser, elementos que se foram mantendo. Um dos mais curiosos é a pequena imagem de um elmo que pode ser visto acima de uma porta. Ele é difícil de encontrar, o que até adensa um pouco o seu mistério, mas quem for capaz de o fazer poderá notar que ele está parcialmente danificado, quebrado. O que é estranho, já que o monumento foi sendo extensamente renovado ao longo do tempo, mas o elmo lá se encontra, assim mesmo, hoje como antes.

 

A ausência de renovação parece, no entanto, intencional. Isto porque o incomum elmo tem uma pequena lenda com ele relacionada – diz-se que ele quebrou a 4 de Agosto de 1578, no dia da fatídica Batalha de Alcácer-Quibir, mais ou menos na altura do desaparecimento do rei Dom Sebastião… e que somente voltará ao seu estado original na data do retorno desse verdadeiro monarca de Portugal, seja ela qual for. Portanto, visto que este elmo do Mosteiro dos Jerónimos permanece quebrado, de um ponto de vista lendário somos levados a acreditar que o rei ainda não voltou, mas reparar-se esta decoração – e é difícil acreditar que isso não tenha sido feito por meras razões de desatenção – quebraria o verdadeiro encanto de toda a lenda.

 

Se existem muitas outras lendas que associam este mesmo Dom Sebastião ao Mosteiro dos Jerónimos – já aqui falámos de algo muito mais notável quando abordámos o tema da origem do Sebastianismo, através de um túmulo do monarca no mesmo local – o que esta tem de muito especial é o facto de se tratar de uma história com vestígios físicos, que até podem ser vistos na primeira pessoa pelos visitantes. Contudo, já poucos os procuram… e a lenda ali permanece, dia após dia, à espera de quem a quiser redescobrir. Daí não apresentarmos uma imagem desse misterioso elmo neste artigo, apenas para deixarmos o convite, a quem assim o desejar, de um destes dias ir procurá-lo no famoso monumento nacional…

O mito etrusco de Charun (?)

Hoje falamos de um mito etrusco, o de Charun, para demonstrar um aspecto curioso da Mitologia Grega e Romana que muito poucos parecem conhecer. A uma primeira vista, ambas parecem referir as mesmas histórias apenas com alguns nomes diferentes – relembrem-se, por exemplo, os casos de Caco ou de Héracles/Hércules – quase como se os Romanos tivessem decidido roubar todo o património mitológico dos seus antecessores, o que é mais ou menos verdade. Contudo, um passo intermédio desse processo pode ser visto na cultura etrusca. Infelizmente, os mitos que os Etruscos contavam não nos chegaram directamente, mas podemos encontrar alguns deles representados na arte da dua época. E, entre eles, conta-se uma estranha figura que tem o nome de Charun.

O mito etrusco de Charun

Pelo contexto em que ele é representado podemos depreender que se tratava de um deus, ou de uma espécie de demónio do submundo (muitas vezes até é representado com asas), e depressa somos levados a Caronte, o barqueiro dos Gregos, mas o que esta outra figura tem frequentemente na mão não parece ser um remo, como seria de esperar, mas sim um martelo, com o qual ele podia ser visto ocasionalmente a atingir alguém, e que tende a transportar como o faríamos para aquilo que agora chamamos uma marreta. Acreditando que isto não é somente uma coincidência, como se explica que o remo original se tenha tornado um martelo, ou que este Charun nunca seja visto no interior de uma barca? Se, por outro lado, preferirmos atribuir a semelhança de nomes a um puro acaso, porque é que as duas figuras nunca são representadas em conjunto, quando ambas se tratavam claramente de divindades do submundo?

 

É difícil responder a este tipo de questões porque quase nada sabemos sobre a Mitologia Etrusca. Sim, claro que ela tem evidentes semelhanças com a dos Gregos e dos Romanos, nessa sua espécie de passo intermédio de inspiração, mas visto que não nos chegou de uma forma escrita, é hoje quase impossível compreender as alterações que ela foi sofrendo com o tempo. É muito fácil e simples acreditar que na sua forma original Caronte e Charun eram uma só figura, mas como é que o seu remo – e era, originalmente, mesmo um remo, que o deus utilizava para conduzir a barca dos infernos – depois se tornou um martelo parece ser um mistério que já não se consegue desvendar. Teorias, poderiam apresentar-se aqui mais que muitas, mas as certezas, essas, provavelmente já nem existiam nos primeiros séculos da nossa era…

O que era a Serração da Velha?

Hoje, naquela que é a data aproximada em que seria celebrada, falamos da Serração da Velha. Era uma festa que parece ter sido muito popular em outros tempos, sendo ela celebrada em Portugal, no Brasil e até em outros países, mas depois foi sendo progressivamente esquecida, ao ponto de ter desaparecido quase completamente por volta de meados do século XX. Não foi caso único – relembrem-se, por exemplo, as Festas do Imperador, com igual destino – mas dada a estranha ideia e iconografia por ela suscitada (ver um exemplo abaixo, da primeira metade do século XIX) decidimos que tínhamos de partir em busca desta tradição hoje já quase deixada para trás!

A festa da Serração da Velha

Infelizmente, depressa nos fomos apercebendo que há muito pouca informação sobre esta celebração da Serração da Velha. Por exemplo, nada de concreto se parece saber sobre a sua verdadeira origem, nem parece ter tido uma forma completamente estável, já que diferentes locais pareciam celebrar a data de formas diferentes. Assim, o apresentado em seguida é uma espécie de tentativa de reconstrução muito rude, baseada nos elementos comuns de dezenas de fontes literárias.

 

Esta celebração da Serração da Velha tomava lugar precisamente a meio do período da Quaresma, 20 dias depois do nosso Carnaval. Aparentemente, as pessoas reuniam-se ao cair da noite, correndo rapidamente para um local que não era estável, mas apenas anunciado à última da hora. Nesse local apresentava-se uma serra e um cortiço, este último com uma velha – humana ou puramente simbólica – no seu interior. Eram ditas algumas palavras, em algum momento esta figura idosa apresentava um pseudo-testamento, talvez jocoso, enquanto os populares no local instigavam todo o processo com versos mais ou menos complexos como “Serra a velha, serra a velha!” É possível, mas não muito certo, que tudo terminasse com a queima do próprio cortiço, juntamente com outros objectos de madeira – por alguma razão desconhecida, escadas e tripeças eram usadas frequentemente, como mostra ali a imagem… mas fosse toda a celebração assim ou de alguma outra forma similar, uma grande questão com duas faces é digna de nota:

 

Quem era esta velha e porque era ela serrada?

O Serrar da Velha

Em relação ao primeiro ponto, os documentos que fomos consultando parecem deixar claro que a “velha” era uma representação simbólica da Quaresma e das imposições alimentares que outrora existiram nessa altura do ano. “Serrá-la” representava, portanto, abrir uma excepção muito temporária (e provavelmente de apenas um só dia), às restrições perpetuadas nos 40 dias antes da Páscoa. Esta ideia é até confirmada por uma versão da celebração, que encontrámos atestada no Brasil de meados do século XVIII, em que o cortiço, ou um seu subtituto, era mesmo cortado ao meio com o objectivo de expor o que estava no seu interior, que eram algumas das comidas proibidas para a época… e que certamente eram comidas em seguida, sem que por isso se temesse a reprovação do pároco local.

Feliz ou infelizmente, toda esta ideia também poderá explicar o porquê da verdadeira celebração da Serração da Velha ter terminado. Com o decréscimo progressivo de imposições associadas à Quaresma – hoje, quem é que deixa de comer X ou Y por estar nessa altura do ano? Já quase ninguém o faz… – começou a deixar de fazer sentido dar-se esse “dia de descanso” às privações, e com isso o serrar da velha cessou de fazer sentido.

 

Mas, admitidamente, não sabemos como é que esta celebração nasceu. Desconhecemos o seu objectivo original. Olvidamos sequer se, em períodos muitíssimo antigos, terá sido utilizada uma verdadeira idosa em todo este processo, queimando-o ou serrando-a mortalmente. E, por isso, tudo o que podemos oferecer são, como já foi deixado claro acima, um conjunto de teorias sobre esta ideia da Serração da Velha. Se ela ainda pode ser encontrada em alguns locais, tanto em Portugal como no estrangeiro, há que clarificar que este era um dia festivo cujo processo não era totalmente horizontal, ou seja, que por ele ter o elemento X em dado local não implica que também o tivesse em todos os outros, o que torna difícil seguir os exemplos actuais como dignos dos antigos. Portanto, a sua origem, e talvez o seu verdadeiro significado, ficarão para ser revelados num dia tão inesperado como o da possível revelação da origem do fado, entre muitos outros mistérios da cultura nacional…