Saida Galla, uma feiticeira(?) esquecida

Por muito interessantes que possam ser algumas das histórias que vão sendo partilhadas por cá, por vezes elas podem levar-nos a todos àquele enormíssimo mistério do conhecimento que já se foi perdendo. Especificamente, falamos de todo um conjunto de coisas que em outros tempos até poderiam parecer óbvias para quem as foi escrevendo e lendo, mas que com o passar dos anos foram quase completamente esquecidas. Este caso de Saida Galla, de que aqui falamos hoje, cai precisamente nessa categoria.

Saida Galla, um mistério?

Já cá falámos antes sobre P. T. Barnum, por exemplo na história do elefante Jumbo, que em anos recentes foi relembrado entre nós através do filme musical O Grande Showman (ou O Rei do Show, título no Brasil). Mas, ao longo do seu tempo de vida, esse homem ficou conhecido pelas mais diversas razões, entre as quais a exibição de freaks (seres humanos particularmente invulgares), e a forma então-invulgar como os foi promovendo, que se perpetuou mesmo após a sua morte. Entre os muitos materiais de marketing criados nesse contexto conta-se, por exemplo, uma espécie de catálogo de exposições, datado de 1898, em que eram sucintamente descritas as personagens humanas e os animais que os visitantes podiam ver no local. Algumas delas ainda são relativamente conhecidas hoje (como Jo-Jo ou Queen Mab), e outras nem tanto…

 

Um dos exemplos mais intrigantes é o de uma mulher a que um catálogo em questão chama Saida Galla. Hoje, mesmo que se faça uma pesquisa pelo seu nome na internet (e que era quase certamente um pseudónimo…), nada nos é revelado sobre ela, enquanto que as linhas do próprio catálogo apenas referem o seguinte:

  • Ela era definida como uma “Egyptian Enchantress“, uma espécie de Feiticeira do Egipto.
  • Praticava juggling, ou seja, malabarismos.
  • Habitualmente terminava cada truque com as palavras “very clever, Galla, Galla”, fazendo rir os espectadores.
  • Trabalhou no Shepherd’s Hotel no Cairo, Egipto.
  • Parece ter-se juntado às exposições no Outono (de 1897?), mas anteriormente já tinha sido exibida em outro local de Londres.
  • Os seus truques eram considerados semelhantes aos de um (agora também desconhecido?) Mr. Bertram.

 

Quem terá sido esta misteriosa mulher? Já o próprio catálogo admitia que na altura se sabia muito pouco sobre a sua história – talvez fosse uma clássica jogada de marketing, destinada a jogar com os mistérios típicos do Próximo Oriente? – mas ela parece estar hoje completamente esquecida. Nada mais conseguimos encontrar, associado a este nome de Saida Galla, e não fossem a fotografia reproduzida acima, além das quatro frases que a descrevem na mesma página, e já absolutamente nada se saberia sobre ela nestes inícios do século XXI…

O mito da deusa Salácia (a Anfitrite dos Gregos)

A deusa Salácia, assim conhecida entre os Romanos, não é senão a mesma figura que a Anfitrite dos Antigos Gregos. Ela é, talvez até mais do que tudo o resto, a esposa do deus dos Oceanos, Neptuno / Poseidon, e se até parece ser referida aqui e ali na literatura da Antiguidade, existe essencialmente um mito significativo relacionado com ela que podemos contar aqui.

Resumo do mito da deusa Salácia, ou Anfitrite

A deusa Salacia e Neptuno ou Anfitrite e Poseidon

Na imagem acima pode ser vista a deusa Salácia, ou Anfitrite, com o seu marido (fácil de reconhecer pelo tridente). Como já referido, na maior parte das referências mitológicas eles estão casados, mas há um pequeno mito que conta como isso aconteceu. Segundo essa história, ou esta deusa não queria casar com o monarca dos oceanos, ou simplesmente queria preservar a sua virgindade de forma perpétua. Então, para conseguir esse seu objectivo, fugiu do pretendente e não queria mais voltar… até que um golfinho a encontrou e a convenceu a aceitar os amores do rei dos mares! Depois, como forma de agradecimento por todo esse serviço, o par de amados – supõe-se que já casados, nessa altura – decidiu fazer do golfinho um dos seus animais simbólicos, mas também o colocou entre as estrelas, onde é hoje a constelação do Golfinho (ou Delfim, segundo um nome próprio dado ao animal personagem do mito).

 

Este pequeno mito explica o porquê da deusa Salácia, ou Anfitrite, bem como o seu marido – Neptuno / Poseidon – serem ocasionalmente representados num carro puxado por golfinhos, mas também explica como é que eles se conheceram e casaram. O mito ainda não aparecia nos poemas de Homero, parece ser tardio, mas pode ter nascido da necessidade de explicar o casamento do deus, tal como os seus dois irmãos, Zeus e Hades, também tinham histórias relativas aos seus.

 

A deusa Salácia e Alcácer do Sal

Alcácer do Sal, a antiga Salacia?

Porém, o tema de hoje ainda não fica por aqui, porque ainda há dias falávamos sobre Salácia no Sal da História. Existiu, na Península Ibérica, no tempo dos Romanos uma povoação de nome Salácia, de cognome “Cidade Imperial”, i.e. a Imperatoria Urbs. Pensa-se, segundo uma lenda local e aparentemente sem provas de maior (excepto a distância de outras povoações nacionais, mencionadas no chamado Itinerário de Antonino), que ela terá sido em Tróia ou na actual Alcácer do Sal. Diz-se ainda que aí existiam muitas salinas e um templo à deusa. Será esta a origem do nome? Ou seja, trocando por miúdos, se a deusa certamente veio primeiro, a cidade recebeu o nome desta divindade, de um possível templo dela, ou das salinas? Como no caso do Larouco, também aqui nos deparamos com uma espécie de situação do ovo e da galinha, em que é quase impossível responder a isto com base nas provas que ainda temos hoje em dia. Como tal, o mais correcto é dizer que a cidade e a deusa partilhavam um mesmo nome, mas que também pouco mais se sabe sobre essa relação entre ambas – por isso, quem preferir informação mais académica sobre o tema poderá até ler o que o Professor José d’Encarnação escreveu sobre ele.

Larouco, o deus e a serra

Falando de Larouco, hoje abordamos aqui aquele que será provavelmente um dos grandes mistérios pré-romanos de Portugal. Isto porque, se algumas pessoas poderão conhecer este nome apenas como o de um serra no norte do nosso país, quase em terras de Espanha, este possível deus celta também já foi o de uma divindade nativa das terras da Lusitânia.

Ara ao deus Larouco

Infelizmente não temos qualquer imagem 100% confirmada deste deus para apresentar aqui – acima, pode ser visto uma ara com uma versão do seu nome (ver a primeira linha e o início da segunda) – mas pelas provas epigráficas que foram sendo encontradas nestas mesmas terras pode inferir-se que, em tempos anteriores aos dos Romanos, foi venerada nestas terras uma figura divina cujo nome era Larouco (ou Larauco, como no caso acima). Já quase nada sabemos sobre ela – terá sido uma divindade da natureza, dos muitos penedos que compõem o local, ou de alguma outra coisa hoje esquecida? – mas a coincidência do nome, de uma mesma designação partilhada pela serra e pelo deus, é profundamente intrigante.

 

Qual dos dois terá vindo primeiro? O Larouco-deus ou o Larouco-serra? O primeiro tomou o seu nome do local em que vivia, ou a segunda obteve esse nome porque se cria que lá vivia esta figura divina, hoje já tão esquecida? Como no caso de muitas outras divindades pré-Romanas, de que EndovélicoAtégina são hoje os exemplos mais notáveis, as perguntas que poderíamos levantar são mais e maiores do que quaisquer respostas reais que tenhamos para oferecer. Nesse seguimento, a não ser que se venha a encontrar um livro completamente secreto da Antiguidade sobre as várias divindades ibéricas (nota importante – não temos qualquer prova de que tenha existido!), este é um mistério quase impossível de descerrar, ficando, portanto e aqui, pouco mais do que a breve nota da evidente – mas agora também muito obscura – relação entre este antigo deus lusitano e uma serra do norte de Portugal.

Beringel e Panóias, dois brasões portugueses

Segundo a informação que temos, serão quase 3100 as freguesias que existem em Portugal. Cada uma delas, se não mesmo todas, têm um brasão associado, e entre eles contam-se representações muito curiosas. Por isso, hoje falamos de dois estranhos brasões de Portugal, os de Beringel e de Panóias.

Os estranhos brasões de Beringel e de Panóias

O primeiro deles, de Beringel, localidade próxima de Beja, é definido da seguinte forma oficial – “Escudo de vermelho, com dextrochero de ouro, com um voo adossado do mesmo e empunhado de uma espada de prata, encabada de ouro. Coroa mural de prata de quatro torres. Listel branco, com a legenda a negro: BERINGEL.

O segundo, de Panóias, localidade próxima de Ourique, define-se oficialmente assim – “Dois braços de carnação vestidos um de ouro, outro de prata, passados em aspa, em ponto de honra. Escudo de azul, com dois braços de carnação vestidos um de ouro e outro de prata, passados em aspa; em ponto de honra, uma cabeça de homem de carnação, com barba e cabelos de negro sobre nimbo de ouro. Coroa mural de prata de quatro torres. Listel branco, com a legenda a negro: PANÓIAS – OURIQUE.

 

Agora, tendo-se em conta que os muitos brasões de Portugal têm sempre a representação de uma lenda local (relembrem-se os casos de Coimbra, de Lisboa e de Moura) ou de algo que caracteriza a região (como nos casos de Benfica, de Matacães, ou da Quinta do Anjo), o que dizer em relação a estes dois? Em ambos os casos parece ser notório que caem na primeira das duas categorias, mas não conseguimos encontrar, mesmo nas fontes literárias mais antigas, qualquer explicação para estas representações, com excepção de um pequeno elemento – originalmente, a cabeça apresentada no brasão de Panóias era a de Jesus Cristo (se os braços lhe pertencem, porquê as cores diferentes para cada um deles?). Sobre a representação presente no de Beringel, nada.

É, portanto, bastante provável que o seu verdadeiro significado nunca volte a ser conhecido, tendo a altura em que ambos os brasões foram desenhados ficado para sempre perdida nas areias do tempo…

Quem deitou fogo a Roma – Nero ou os Cristãos?

É provável que o grande incêndio de Roma, que teve lugar entre 18 e 23 de Julho do ano 64 d.C., tenha sido um dos mais famosos da história da humanidade. Mas, no seguimento de uma publicação anterior sobre fake news, quem é que deitou fogo a Roma – Nero ou os Cristãos?

Quem deitou fogo a Roma?

De um modo muito geral, a maior parte das fontes literárias que nos chegaram afirmam que o culpado de deitar fogo a Roma foi o Imperador Nero, mas há que considerar que essa informação se parece dever, maioritariamente, a um rumor que nasceu alguns anos mais tarde. Visto que este imperador queria construir um novo palácio para si, mas não havia local para tal na cidade de Roma, surgiu então a ideia de que o fogo tinha sido ordenado por ele para propiciar essa existência de um local vago. Infelizmente, não temos qualquer forma de saber até que ponto isto será verdade, i.e. se o incêndio foi uma feliz(?) coincidência, ou causado de forma deliberada e com um objectivo muito particular.

 

Uma outra opinião diz que foram os Cristãos que deitaram fogo à cidade, e que esse primeiro acto levou à sua perseguição pelos Romanos. Hoje, isto até poderá parecer-nos um tanto ou quanto estranho, até que se pense em toda a situação no contexto histórico – nessa altura quase nada se sabia sobre essa nova seita religiosa, excepto que se reuniam ilegalmente e a altas horas noite. Depois, nos dias de hoje sabemos até que algumas seitas cristãs da época acreditavam que o novo fim do mundo – por contraste com o anterior, o da cheia de Deucalião e/ou Noé – seria pelo fogo, ou seja, teria lugar quando todo o mundo fosse consumido por um enorme incêndio.

 

Se, por um lado, sabemos que Nero não deitou fogo a Roma por si mesmo e na primeira pessoa – as fontes tendem a dar-lhe uma autoria apenas moral – a segunda possibilidade levanta uma questão muito significativa – se os Cristãos se andavam a reunir durante a noite, e alguns deles até tinham essa ideia de um fim do mundo causado pelo fogo, será que algum deles, por simples acidente ou por alguma ideia mais amalucada, acabou por causar o famoso incêndio? Sabemos que a história é escrita pelos vencedores, e por isso ela tem de isentar os Cristãos de qualquer culpa, mas isso também implicava encontrar alguém a quem culpar – e quem melhor do que Nero, esse seu primeiro perseguidor, para ocupar o lugar, reduzindo-o a um opositor teatral?

Efectivamente, não sabemos quem deitou fogo a Roma, Nero ou os Cristãos, naquele fatídico ano 64 d.C. As fontes literárias que ainda temos nada nos permitem concluir sobre o tema, mas a termos mesmo de eleger um culpado, é mais provável que tenham sido os Cristãos do que este famoso imperador. Não podemos afirmar que o fizeram de uma forma deliberada (o que até é possível, dadas algumas teologias da época, como já foi apontado acima…), mas o que é muito difícil de negar é o facto de eles se andarem a reunir durante a noite; como tal, tinham de levar alguma espécie de fonte de luz consigo, o que poderá ter originado todo este famoso incêndio. Depois, juntando-se os rumores – ou fake news, se preferirem – a toda a equação, criou-se a famosa versão de que eles foram perseguidos não por uma ilegalidade que faziam (e que, de forma até estranha, ninguém parece negar), mas somente para mascarar o “verdadeiro” culpado.

Será que isto foi o que realmente aconteceu? Face à falta de informação mais fidedigna e imparcial da época em questão, essa é uma resposta que temos de deixar aos leitores…