A (falsa) história de São Inácio Castellaneta, e as torturas dos Romanos aos Cristãos

Num episódio recente dos Simpsons, a trama introduziu um (ficcional) Santo Inácio Castellaneta. Supostamente vivendo em 250 d.C., recusou-se a abandonar a fé cristã e, como tal, os romanos cortaram-lhe a cabeça, os braços, as pernas e os dedos. Depois, atiraram-lhe flechas feitas de cobras congeladas e retiraram-lhe os olhos, cobrindo-lhe as respectivas cavidades com pistachios cobertos de chocolate – mas o santo continuou a recusar-se a abandonar a fé cristã. Então, finalmente, pareceram cozer os seus ossos em vinho de cereja. Depois, esse martírio levou a uma dada tradição na cidade de Springfield.

Um falso santo

A breve sequência pode ser vista carregando na imagem acima, mas o que ela tem de particularmente especial é o facto de representar um falso martírio com contornos que até poderiam ser verdadeiros. Tem lugar no século III d.C., apresenta uma figura cristã disposta a defender a sua fé pessoal contra todas as torturas, e mesmo após a sua morte a memória dos eventos pelos quais passou ainda perdura. Na verdade, se tivessemos lido este relato num livro, dificilmente duvidaríamos da sua veracidade. O que levanta uma questão – será que coisas como estas realmente aconteceram aos mártires cristãos?

 

Entre os muitos mártires dos primeiros séculos da nossa era contam-se algumas histórias absolutamente incríveis. Desde santas cujos seios foram cortados e cozinhados, até figuras religiosas cuja cabeça decepada quase nos faz sorrir face à constelação de tantas outras torturas por que passaram, não podemos deixar de pensar se não existiria um carácter muito sádico nos Romanos. Só isso permitira justificar as tamanhas torturas a que, supostamente, sujeitaram os Cristãos. Mas, repita-se, será que esses relatos são mesmo verdade? A história é frequentemente escrita pelos vencedores, e… por isso, não sabemos, nem temos forma de saber, até que ponto os Romanos infligiam mesmo nos Cristãos aquelas torturas de que muito ouvimos falar, até porque nada nos códigos legais de então previa tais abusos para com os criminosos. É, então, uma questão que tem mesmo de permanecer em aberto…

A Crónica de Paros e a contagem do tempo na Antiguidade

O Mármore Pário

Na imagem acima pode ser vista uma reprodução do texto da Crónica de Paros, um mármore que foi reencontrado no século XVII e que apresenta uma cronologia dos tempos gregos, aproximadamente desde o ano 1581 a.C., em que Cécrops se tornou o primeiro rei de Atenas, até ao ano 299 a.C., em que Euctemón foi arconte em Atenas. É uma crónica curiosíssima, na medida que funde eventos míticos (o dilúvio de Deucalião, o reinado de Teseu, a vida de Héracles, etc.), com aqueles que tendemos a considerar como históricos, como as conquistas de Alexandre Magno. Essa necessidade de contar o tempo, a altura em que tiveram lugar alguns dos eventos do passado, levanta uma questão – afinal, como era a contagem do tempo feita na Antiguidade?

 

Partindo do exemplo da Crónica de Paros, as entradas mais antigas mencionam quem foi rei em Atenas na altura em que um dado acontecimento teve lugar. Depois, por volta da entrada relativa ao ano de 683 a.C., é dito que começou a ser praticado um arcontado, e então as datas seguintes vão sendo associadas à pessoa que num dado ano era arconte em Atenas. O que distingue os dois períodos? Os eventos anteriores a esse ano de 683 a.C. podem ser considerados míticos, enquanto que os mais recentes já têm um fundamento histórico.

 

Poderá parecer simples, mas esta não era a única opção. No tempo dos Gregos também era feita uma contagem do tempo associando eventos aos Jogos Olímpicos, algo como “no terceiro ano da vigésima-segunda olimpíada…” E, de facto, nas fontes que temos a contagem é feita recorrendo-se tanto aos arcontes como aos períodos dos Jogos Olímpicos.

 

Salte-se algum tempo e considere-se, agora, um segundo exemplo, o dos Romanos. Como é que eles contavam os seus períodos de tempo? Essencialmente, tendiam a recorrer a um contagem ad urbe condita, ou seja, algo como “passados X anos da fundação da cidade [de Roma]”, com esse evento crucial a tomar lugar por volta de 753 a.C. Mas, tal como no caso dos Gregos, esta não era a única opção – muitas vezes a datação também era feita recorrendo-se aos cônsules, de que a obra de Júlio Obsequente é um bom exemplo, ou até aos Imperadores.

 

Depois do tempo dos Romanos começou, essencialmente, a ser usada uma cronologia cristã, que apesar de ter sido alterada ao longo dos tempos já ultrapassa o nosso tema de hoje. Resta, no entanto, uma questão problemática – como é que os Gregos contavam o tempo antes dos reis de Atenas e dos Jogos Olímpicos? Ou, se preferirmos os Romanos, como é que eles o faziam antes da datação AUC? Não sabemos, mas se alguém tiver alguma ideia por favor deixe-a nos comentários.

Quem foi Esopo, e porque contou ele as suas fábulas?

Afinal de contas, quem foi Esopo, e porque contou ele as suas fábulas?

O Esopo das fábulas

Em completa verdade dizemos que de entre os muitos textos que nos chegaram dos tempos da Antiguidade, poucos serão tão populares como as fábulas de Esopo. De facto, até nos arriscaríamos a dizer, sem certezas de maior, que nos nossos dias as pequenas histórias que lhe estão atribuídas são ainda mais famosas que os próprios Poemas Homéricos. Mas, estranhamente, já poucos parecem perguntar-se quem foi este autor, e porque contou ele as famosas fábulas…

 

Se pretenderem uma resposta rápida, ela deverá ser “não sabemos”. Se ele realmente existiu, as suas fábulas dizem-nos muito pouco sobre ele, e são poucos os autores que nos preservam qualquer espécie de dados biográficos. Mas, visto que este é um mês dedicado aos mitos, lendas e histórias, estas linhas ainda não ficam por aqui.

 

Numa dada altura da Antiguidade alguém se apercebeu do mesmo problema. Provavelmente também essa pessoa se interrogava sobre a identidade deste prominente autor. E, por isso, decidiu escrever um texto sobre o tema, que nos chegou e a que hoje damos o nome de Vida de Esopo ou Romance de Esopo. Não temos qualquer forma de saber quais os elementos reais dessa obra, e quais as ficções que ela inclui, mas segundo as suas linhas ele poderá ter sido contemporâneo de Creso, no século VI a.C. E, então, quem foi? E, tanto ou mais importante, porque compôs as suas muitas fábulas?

 

Segundo a versão deste texto (ficcional?), Esopo era um escravo muito feio e mudo. Um dia ajudou uma sacerdotisa de Isis; como agradecimento, esta pediu à deusa que desse novas faculdades ao herói. Agora capaz de falar (mas ainda muito feio – o contraste da sua fealdade com a sua enorme sabedoria é um elemento muito importante da trama), depressa foi vendido a um novo dono, de nome Xanto. Grande parte do texto apresenta este herói em confronto com esse novo dono e nos mais diversos desafios de conhecimento, mas esses episódios ultrapassam o nosso objectivo de hoje.

Num dado momento surge então a primeira fábula – o famoso Rei Creso estava prestes a atacar a cidade de Samos, a quem exigia um tributo anual. Foi pedida a opinião do escravo sobre o que se deveria fazer, a que este respondeu algo como “Não posso dá-la, porque seria marcado como inimigo do rei. Porém, irei contar-vos uma fábula”. Prosseguiu, contando-lhes uma primeira fábula, em que Prometeu instruiu os Homens nos caminhos da liberdade e da servidão. Os ouvintes compreenderam o que ele estava a querer dizer e agiram em consonância.

 

São várias outras as fábulas contadas neste texto (curiosamente, a da lebre e da tartaruga, tão bem conhecida entre nós, não é uma delas), mas parecem ter todas elas um mesmo objectivo, o de transmitir uma lição ou moral de uma forma muitíssimo simples. E, de facto, quase todas as fábulas de Esopo são intemporais, perpetuando lições que ainda se mostram muitíssimo relevantes nos nossos dias.

 

Que me perdoem os leitores e o meu colega, mas escrevendo de um modo mais pessoal por um breve momento, posso dizer que há uns anos até dei uma cópia das Fábulas a uma criança, apelidando essa obra de “o melhor livro que se pode dar aos mais novos”. E talvez seja até esse o grande segredo da fábula – pouco ou nada sabemos sobre o seu autor (a história acima é, quase certamente, nada mais que uma ficção), mas a lição que frequentemente transmite é, por si só, mais significativa que a identidade do seu autor.

 

Assim, fica uma questão de duas faces – quem pensam vocês ter sido Esopo? E porque acham que contou as suas fábulas?

Os alfabetos do nosso passado

Nunca pensaram de onde vêm as letras do nosso alfabeto? Há bem mais de 3000 anos que o ser humano sente a necessidade de colocar alguma informação por escrito, mas desconhecemos quem terá sido o primeiro a fazê-lo. Claro que existem mitos sobre isso – entre os egípcios, por exemplo, o deus Thoth foi o seu criador – mas a identidade do primeiro dos homens a escrever uma letra será, provavelmente para todo o sempre, um dos grandes mistérios da humanidade.

 

O que sabemos é que, qualquer que tenha sido a sua origem, os alfabetos foram evoluindo ao longo dos séculos. Ainda há menos de 30 anos que as letras K, W e Y não eram consideradas como parte integrante da língua portuguesa, e poucos anos passaram para que todos nós as conheçamos. Nesse sentido, o diagrama abaixo, da autoria de Matt Baker, apresenta-nos numa só imagem um conjunto de informações interessantes.

Vários alfabetos

Como podemos constatar, os alfabetos ocidentais parecem ter evoluído com vista a uma simplificação dos seus símbolos gráficos, mas também para que as suas sonoridades sejam mais fáceis de perceber.

Mas, ao mesmo tempo, isto também acaba por levantar um número enorme de questões. Por exemplo, como é que o lamba grego (Λ ou λ) deu o nosso L? Porque foram alguns símbolos caindo pelo caminho e outros tornados quase irreconhecíveis? A que se devem rotações que em nada simplificam os originais? Não sabemos; até poderemos vir a ter as nossas opiniões, aqui e ali, mas as certezas são muito poucas, porque também foram poucos os que sentiram a necessidade de preservar essa informação até aos nossos dias…

“Os melhores” dos mitos nórdicos

Na Edda Poética, de que aqui falámos há alguns dias, surgem os seguintes versos:

 

A árvore Yggdrasil

É a melhor das árvores.

Skithblathnir é o melhor navio,

Odin o melhor deus,

Sleipnir o melhor cavalo,

Bifrost a melhor ponte,

Bragi o melhor poeta,

Habrok o melhor falcão,

Garm o melhor cão.

 

A existência de uma lista desta natureza, de valor canónico, levanta questões. Se faz todo o sentido que a gigantesca árvore seja a melhor do seu reino, que um navio pertencente aos deuses seja fantástico, que um cavalo de oito patas tenha especial valor, ou que o deus da poesia seja o melhor na sua arte, como escolher o melhor deus, a melhor ponte, ou o melhor de dois outros animais? Que critérios terão existido? Serão eles objectivos ou, como no caso de Habrok (em relação ao qual quase nada sabemos), dever-se-ão somente a tradições já há muito esquecidas? Fica a questão – como definir “os melhores” em alguma coisa?