O “Cantar de Mio Cid” – e qual é o mais antigo poema épico português?

Cavaleiro

O Cantar de Mio Cid é o mais antigo poema épico espanhol (e ibérico). Conta-nos parte da história de um famoso herói espanhol, Rodrigo Díaz de Vivar, que viveu no século XI e ficou conhecido para a história como “El Cid” e “Campeador“. A história começa com o exílio deste herói da corte de Afonso VI (de Castela, obviamente), e prossegue com várias aventuras até à morte do herói.

 

Claro que os combates abundam neste épico, mas o que é particularmente digno de nota é que este poema se inspira em múltiplos factos bem reais, salvo um ou outro elemento ficcional menor – por exemplo, nunca é mencionado que El Cid teve um filho, e a trama só lhe associa duas filhas, que são dadas em casamento a dois irmãos (ficcionais). Porém, e apesar desse grande carácter real, esta não é uma criação poética enfadonha, puramente histórica, mas uma que até dá algum prazer de leitura, mesmo na completa ausência daqueles elementos mágicos e fantasiosos que acabarão por caracterizar as aventuras de cavalaria mais recentes.

 

Após a leitura dos seus versos temos agora uma curiosidade para oferecer. Perto do final da trama deste Cantar de Mio Cid tem lugar um momento numa espécie de tribunal, em que é dado um papel de juiz a um membro da corte castelhana chamado “Henrique” – é provável que se trate de Henrique de Borgonha, pai do “nosso” Afonso Henriques, unindo de uma forma ténue este escrito de nuestros hermanos ao nosso país.

Mas, ao mesmo tempo, isto suscita-nos uma grande dúvida – se este é o mais antigo poema épico espanhol, qual foi o primeiro composto em Portugal? Já ouvimos vários especialistas teorizarem um possível épico sobre os grandes feitos de Afonso Henriques, que já não chegou aos nossos dias e que possivelmente até seria o primeiro da pátria portuguesa, mas então… qual é o mais antigo poema épico português que ainda podemos ler? Será que alguém sabe?

Quem foi Maria Cachucha?

Há alguns dias fizeram-nos uma pergunta curiosa – quem foi Maria Cachucha, aquela tal figura feminina que nos emprestou o seu nome à designação para um tempo muito antigo? Claro que é uma expressão evidentemente portuguesa, não vem da Antiguidade, da Idade Média, ou do Renascimento Europeu… mas então, quem foi que deu esse seu nome a esta famosa expressão?

Maria Cachucha

Uma primeira hipótese – em inícios do século XX parece ter vivido em Torres Vedras uma curiosa mulher que ficou conhecida por “Maria Cachucha“, mas que na verdade era chamada Maria Purificação da Silva. Por muito singular que essa figura tenha sido – e diga-se que na altura causava admiração, tinha uma destreza impressionante e até trabalhava no matadouro municipal, como a breve entrevista contida ali no link prova – não se compreende como ela poderá ter inspirado a expressão. De facto, se uma alcunha tão singular ainda não fosse conhecida, certamente que lhe teriam perguntado de onde ela nasceu; não tendo sido feita essa pergunta, podemos presumir que já existia uma outra figura que partilhava o seu nome, mais famosa e certamente anterior a ela, com quem – muito possivelmente – até partilhava o carácter que discutiremos abaixo.

 

Segunda hipótese – as mais variadas fontes referem incessantemente uma dança do século XIX como estando por detrás da expressão (ver este exemplo nacional). Como nos informa o dicionário da Priberam, a cachucha era uma “dança popular espanhola do século XIX, de compasso ternário, executada geralmente por uma pessoa munida de castanholas, ao som de guitarras e, por vezes, canto.” Um breve exemplo:

Esta é uma hipótese que parece ter satisfeito muitos curiosos, mas que deixa ainda duas questões por resolver – porquê o nome de Maria, e porque seria esta expressão ligada a algo que é antigo?

 

Terceira hipótese – A cachucha original, como se depreende da definição acima, nem sempre tinha letra. Houve então a necessidade de criar um conjunto de letras para ela. Vejamos um primeiro exemplo, aparentemente de meados do século XIX (focamo-nos somente na informação dada no Youtube, que até pode estar incorrecta):

E outro já do século XX:

Em ambas existe uma frase comum – “Maria Cachucha, com quem dormes tu?” Todas as outras versões que encontrámos parecem manter a mesma questão e respondem-lhe das mais variadas formas – “Durmo com um gato dentro de um baú”, “Com um menininho[ou marinheiro] chamado Angu”, “Durmo sozinha com o dedo no cu”, etc.

Independentemente da rima utilizada para “tu”, esta figura parece ser sempre uma mulher de má reputação, com um gato, que se envolvia com muitos homens… Será que por detrás desse nome (fictício) existia uma figura popular portuguesa, bem conhecida na altura? A revista Pim-Pam-Pum, no seu número 555 (de 1936, ou seja, mais de um século depois!), até nos conta a história de uma mulher com este mesmo nome, a quem foi feita a pergunta acima (e a que ela responde “Durmo sempre só, e de corpo nu!”), mas as fontes da autora dessa história infantil são desconhecidas… ainda assim, se quisermos acreditar que em inícios do século XIX já existiam histórias como essas, que inspiraram as várias letras, faria sentido que o seu tempo fosse localizado numa altura muito mais antiga, que já ninguém conseguia precisar, como aquele proverbial “tempo em que os animais falavam”. E isso até poderia justificar a expressão, tal como é usada nos nossos dias…

 

Quarta hipótese – parte de uma das canções ficou na sabedoria popular, e ainda encontrámos idosos que se lembram de quatro versos, mas que insistem na ideia de que “não é nenhuma música, é só a Maria Cachucha”. Nenhum sabia dizer de onde conhecia os versos ou quem lhe os tinha ensinado. Por essa dificuldade de precisão, de uns versos que lhes chegaram já nem se sabe bem de onde ou quando, poderá ter-se suposto que o tempo em que foram criados era já muito antigo.

 

Qual destas hipóteses está correcta? Quem foi a mulher que agora evocamos quando dizemos que algo ou alguma coisa antiga é do tempo da Maria Cachucha? As poucas provas que temos são puramente circunstanciais; a maior parte dos autores parece satisfazer-se com a segunda, mas a verdade é que ela deixa questões em aberto. Por isso… a resposta fica para quem for ler estas linhas, a quem deixamos igualmente um convite para que nos dêem a vossa opinião nos comentários. E, para quem quiser conhecer mais histórias como esta, aqui também poderá ler sobre outras expressões dos nossos dias.

O estranho segredo das bruxas, feiticeiros, magos, xamãs, e figuras mágicas afins…

Hoje em dia, quando pensamos na magia e no oculto, tendemos a considerar essas coisas como uma entidade horizontal com uma só face comum. Mas, na verdade, quem não tiver nada para fazer e for pensar bem no assunto irá notar que a ideia do misticismo não é só uma, horizontal e completamente igual, mas pode ser dividida em vários subgrupos, cada um com as suas características particulares, que nem sempre são fáceis de distinguir. Por exemplo, relativamente ao xamã, o dicionário da Priberam define-o como um “indivíduo que se considera ter poderes especiais, em geral mágicos, curativos ou divinatórios”, sem que nunca seja apontado uma das suas características essenciais, a ligação dessa figura com a natureza.

Dois tipos de magia

Pense-se em figuras como Circe e Medeia, dos mitos gregos. Relativamente à sua ligação com as artes mágicas, como podem ser definidas? Não é uma questão simples, mas as suas artes passavam, essencialmente, pelo uso e conhecimento das características das ervas com vista a um propósito mágico.

Pense-se também em figuras mais recentes, como Merlim ou Dumbledore – como definir a sua magia? Também não é fácil, mas o que é notório é que a sua versão da magia é significativamente diferente da anterior, na medida em que não tem lugar pela utilização das ervas, mas por outros meios.

Um terceiro exemplo – qual a distinção entre uma bruxa e uma feiticeira? O dicionário da Priberam define a primeira como uma “mulher que se crê capaz de fazer bruxarias, feitiços ou profecias”, enquanto que a segunda é definida como uma “mulher que faz feitiços”, levando-nos a perguntar, em tom de brincadeira, se uma bruxa tem efectivamente poderes ou se só lhe basta crer que sim.

 

Todo este problema não é fácil de descortinar. Mas há, no entanto, uma distinção curiosa que é simples de se fazer – por razões históricas, a magia no feminino é frequentemente feita com recurso a elementos externos (invocação de divindades, uso do poder das ervas, etc.), enquanto que a magia masculina depende essencialmente de elementos internos (recitação de fórmulas, uso do conhecimento de livros, etc.). Ou seja… as mulheres necessitam de ajuda exterior para fazer a sua magia, enquanto que os homens a conseguem fazer pelo seu próprio poder. Claro que é uma ideia um tanto ou quanto estranha, mas como referido acima esta distinção deve-se a razões históricas, ainda de um tempo em que o acesso ao conhecimento nem sempre era possível ao sexo feminino.

 

Em suma, é muito difícil distinguir entre bruxas, feiticeiros, magos, xamãs e outras entidades mágicas semelhantes, mas parece ter existido uma distinção real entre o conhecimento mágico masculino e o feminino. Raramente se pensa num homem a esvoaçar numa vassoura, ou a mexer o seu caldeirão…

Em busca da verdadeira origem do Carnaval português

Carnaval

A semana passada inquirimos aqui sobre a origem do Carnaval português. A autora desse espaço disse-nos o seguinte:

(…) O Carnaval é o período de liberdade desregrada que antecede a Quaresma, época de limitações alimentares e comportamentais no calendário da Igreja Católica. Penso que esta será a explicação mais simples para o Carnaval na Europa, depois “exportado” para os territórios colonizados nos outros continentes. Penso que teve origem em festas pagãs depois “adotadas” pela Igreja Católica, para melhor as controlar. (…)

 

Se, depois de longos debates, concordamos quase totalmente com o que ela nos disse, não deixa de haver um problema muito significativo – procure-se na internet mil vezes a origem do Carnaval português, e mil vezes se encontrará uma resposta muito semelhante, dizendo sempre que terá vindo de festas pagãs. Mas de quais festas pagãs, afinal de contas?

 

Mais que tudo, o grande problema começa por definir o “nosso” Carnaval. A sua data está intimamente ligada com a Quaresma cristã, mas é variável. A existir alguma festa cristã que a antecedesse, será que a sua data também era variável? Se sabemos bem como a data da “nossa” Páscoa foi calculada, somos automaticamente levados à ideia de que a data do Carnaval português foi definida posteriormente, sem que qualquer festa pagã tenha existido 40 dias antes da morte e ressurreição de Cristo.

 

Então, onde deverá começar o Carnaval português? Com o mês de Fevereiro? Acreditando que sim, parece ter existido nessa altura algo a que alguns autores medievais chamaram Spurcalia. O grande problema, no entanto, é que quem quiser poupar tempo e for ler um artigo como The Rise of the Spurcalia: Medieval Festival and Modern Myth poderá notar um elemento fulcral – se esse festival realmente existiu, absolutamente nada de concreto sabemos sobre ele. Ponto final?

 

Nem por isso. A “nossa” celebração de um Carnaval, com máscaras e outras coisas que tais, foi importada do estrangeiro e mais tarde exportada para o Brasil. A existência de rituais semelhantes noutros países, como o chamado festum stultorum, a “Festa dos Loucos”, atesta bem isso. O que desconhecemos, no entanto, é se esses rituais tiveram um qualquer fundamento pagão, ou nasceram já como eventos completamente cristãos. Não sabemos (!), sendo que a ideia de que o Carnaval português poderá ter nascido de festivais pagãos surgiu de outros exemplos em que isso aconteceu de forma comprovada, e.g. o Natal e a Saturnália. É uma mera possibilidade, somente isso, porque desconhecemos por completo os rituais de potenciais festivais pagãos do mês de Fevereiro. E quem quiser acreditar mais que isso, fá-lo sem qualquer suporte real para as suas ideias.

Encontrado o crânio de Plínio o Velho?

Existem notícias que nunca pensámos em vir a partilhar por cá, mas esta é tão única que achámos que teria de ser passada aos leitores.

 

Há quase 2000 anos, quando teve lugar a mais famosa das erupções do Vesúvio, as epístolas de Plínio o Jovem dizem-nos que o seu tio, hoje conhecido como Plínio o Velho, foi investigar a ocorrência e acabou por falecer, quase certamente pela inalação de fumos.

Agora, segundo notícias muito recentes como esta, acredita-se que foi encontrado o crânio do eminente enciclopedista. A ser verdade, tratar-se-ia da primeira vez que são encontrados os vestígios mortais de alguma figura famosa da Antiguidade – recorde-se que mesmo em casos tão proeminentes como o de Alexandre Magno já se desconhece a localização de um túmulo ou de quaisquer restos mortais.

 

Mas… será verdade? Fica o convite para lerem o artigo e considerarem as evidências.