“Vitória de Pirro”, origem e significado da expressão

Vitória de Pirro, também dito vitória pírrica, é uma de muitas expressões que ainda usamos nos nossos dias de hoje e que provêm dos tempos da Antiguidade. Portanto, e visto que a expressão é usada quase sempre em versão portuguesa (não fazendo, portanto, muito sentido falar de uma “tradução” do original, ao contrário do que acontece com expressões como Alea Jacta Est ou Carpe Diem), contamos aqui a sua origem e explicamos o seu significado.

Vitória de Pirro, origem e significado da expressão

Por volta do ano 279 a.C. teve lugar, em terras de Itália, a chamada “Batalha de Ásculo”, entre os exércitos de Pirro* de Epiro (note-se que “Epiro” era uma cidade no oeste da Grécia) e da República Romana. Poderia ter sido uma batalha como tantas outras na Antiguidade, mas o que a tornou digna de nota foi o facto do exército de Pirro ter sido vitorioso… o que, à partida, até poderia parecer uma coisa muito boa, não fosse o facto de ter sofrido tantas perdas no seu seio que se tornou difícil continuar a campanha militar a que se tinha proposto, ainda para mais face a um opositor que lutava no seu próprio terreno e, como tal, tinha um maior número de recursos disponível.

 

Na sequência desta pequena história da sua origem, o que é, então, uma “vitória de Pirro”, também conhecida em Portugal como “vitória pírrica”? É, como no relato acima, um confronto em que o vencedor sofre tantos perdas que, muito provavelmente, quase até lhe seria preferível uma derrota. Por exemplo, na imagem ali em cima podem ser vistos os irmãos Etéocles e Polinices em combate – hoje famosos pela sua ligação a Antígona, acabaram por se matar um ao outro, numa espécie de vitória/derrota mútua que parece corresponder ao tema aqui falado hoje.

Mas, para dar um exemplo mais dos nossos dias, imagine-se que o Brasil vai jogar com a Argentina numa semi-final do Campeonato do Mundo de Futebol. Ganha esse jogo por 1-0, mas seis dos seus jogadores ficam lesionados. Venceu, sim, mas a que preço? Com esses seis jogadores, possivelmente até muito importantes, agora indisponíveis para jogar na final, será que o preço a pagar não terá sido demasiado elevado? Qualquer bom apoiante da selecção brasileira se mostraria preocupado face às condições como essa vitória foi obtida, tal como Pirro se sentiu aquando do final da Batalha de Ásculo, levando-o a dizer – como nos preserva Plutarco – que “se vencermos outra batalha contra os Romanos, seremos então completamente destruídos”…

 

 

P.S.- Este Pirro não deverá ser confundido com o filho de Aquiles, mais conhecido pelo nome de Neoptólemo, que recebeu o primeiro desses dois nomes em virtude do seu cabelo avermelhado – πῦρ (“pyr”) significava “fogo”, como a cor do cabelo do herói mitológico.

“Missa do Galo” – qual a origem do nome?

Nesta altura do ano também se ouve falar muito de uma Missa do Galo. Mas qual é a origem desse estranho nome?

A origem do nome da Missa do Galo

Sobre a origem do nome da Missa do Galo, existem um grande número de teorias – nos mais diversos sites e artigos é dito que se poderá ter devido ao facto de um galo ter cantando aquando nascimento de Jesus Cristo (desconhecemos tal lenda em tempos da Antiguidade…); que já existiu uma tradição de sacrificar um galo neste dia (mas porquê?); ou que esta missa tomou o nome do facto de terminar tão tarde que até já estes animais cantavam quando as pessoas regressavam a suas casas; entre outras hipóteses pouco ou nada atestadas historicamente, ou sequer comprovadas de alguma forma mais significativa. Mas então, de onde vem mesmo este nome?

 

A ideia de uma “Missa do Galo” poderá ter uma origem muito mais interessante, mas muito pouco referida em outros locais, que até explica o porquê dessa missa natalícia ter tomado esse nome comum em Portugal e Espanha, mas raramente em outros países. Explique-se. Já cá falámos, anteriormente, da grande importância de Prudêncio, autor do século IV, na cultura ibérica – pense-se, por exemplo, na sua influência nas lendas de Santa EuláliaSão Cassiano de Ímola e São Vicente – mas além de nos ter deixado muitas outras histórias de santos maioritariamente ibéricos, também nos legou vários hinos que ainda são cantados nas igrejas e mosteiros dos nossos dias. Entre eles conta-se um Hino ao Canto do Galo, que tradicionalmente parece ter sido cantado nesta altura do ano – i.e. do solstício de inverno, em que os dias eram mais pequenos – e que nos revela a verdadeira identidade do agora-famoso “galo”.

E quem é ele? Nada mais, nada menos, que o próprio Jesus Cristo, que nasceu e veio ao mundo para trazer luz à escuridão que os Cristãos associavam ao Paganismo. E, de facto, o mesmo hino até apresenta diversos paralelismos entre o próprio animal cantor e a grande figura cristã, levantando a possibilidade significativa de que essa missa tenha ocupado o mesmo lugar que em outros tempos tinham os vários cultos associados ao solstício e posterior crescimento dos dias.

 

Assim, face a tudo isso, é bastante provável que a origem do nome da “missa do galo” venha do facto de ela representar o nascimento de Jesus Cristo como o de um galo que veio trazer uma nova luz ao nosso mundo, num contexto que até tem diversos vectores metafóricos, constantes ou subentendidos num dos hinos de Prudêncio que ainda é conhecido de uma forma significativa, bem como cantado, nos nossos dias.

Os poderes do Bruxo de Fafe são verdadeiros?

Desde há uns anos para cá que se ouve falar nas notícias desportivas de uma tal figura chamada Bruxo de Fafe. De nome Fernando Nogueira, ele é provavelmente um dos mais famosos ocultistas de Portugal – talvez a par do Professor Bambo e de um tal Mestre Alves – mas nunca é muito bem explicado o que ele faz ou deixa de fazer. Normalmente a questão seria fácil de resolver, se ele tivesse um site na internet ou uma página nas redes sociais com os contactos – o que não parece ser o caso – mas na ausência dessa informação foi-nos colocada uma questão inesperada – afinal, em que acredita esta figura? Ou, se assim preferirem, se o famoso Professor Bambo se diz um “prestigiado médium vidente”, em que consistem os alegados poderes desta outra figura do ocultismo nacional?

Quem é o Bruxo de Fafe?

Quem procurar algumas imagens do senhor depressa se aperceberá que ele não é padre católico, nem estudou Teologia, mas rodeia-se sempre de uma iconografia essencialmente cristã, o que é comum em diversas religiões da América do Sul. Esta ideia parece até ser confirmada por uma entrevista muito recente em que, ameaçando Joana Marques, disse as seguintes palavras:

Ela está-se a meter com o bruxo de Fafe… Ou pára ou tem o Inferno atrás para toda a vida. Nunca mais se vai ver livre do Diabo. (…) Com o meu trabalho, invocarei todos os exus do mar e dos cemitérios e ela vai ter a maldição dos mortos-vivos.

A palavra mais importante nestas ameaças e estranhas crenças é provavelmente “exus“. Usada assim, no seu plural, não se refere a um orixá, mas a um conceito da Umbanda – uma religião afro-brasileira, constituída por uma espécie de fusão de crenças africanas com o Cristianismo – que pode ser resumido na nossa cultura portuguesa como um espírito intermediário entre os vivos e os mortos. Esse tema, em si, é até muito interessante, mas terá de ficar para outro dia, face a uma questão mais relevante – será que este Fernando Nogueira viveu no Brasil, num qualquer país africano, ou estudou com alguém que perceba dessas religiões?

Infelizmente, não parecem existir entrevistas em que ele revele o seu passado de forma fidedigna, mas conseguimos encontrar uma intervenção televisiva de 2013 que revela alguns elementos muito interessantes… mas cuidado, este vídeo pode ser impróprio para os mais sensíveis, até porque tem alguns momentos que fazem relembrar exorcismos como o de Anneliese Michel:

Neste vídeo Fernando Nogueira não diz ter aprendido o que sabe no estrangeiro, nem nos informa que o seu conhecimento lhe foi transmitido por uma outra pessoa, o que é muito curioso… E ainda mais porque no vídeo refere conceitos como “porta aberta”, “chakras” e “incensos”, faz alusão ao acto de “incorporar”, a “poderes espirituais”, “conhecimentos bíblicos”, e a muitas outras coisas que… para quem perceber pouco ou nada destes temas, são ideias e conceitos que pertencem a religiões e crenças místicas completamente diferentes. É, por exemplo, importante frisar que mesmo na Umbanda a cura é normalmente feita por intermédio dos exus, mais do que pela intervenção humana, o que não acontece nos exemplos deste vídeo, em que o dito bruxo até diz transportar os espíritos malévolos para o seu corpo. Assim, aquilo em que o Bruxo de Fafe acredita, a origem e fonte dos seus poderes, é supostamente uma miscelânea de crenças completamente díspares, em que, para citar uma expressão bem portuguesa, “não bate a bota com a perdigota”*, tomando-se proveito do grande desconhecimento, ou mesmo receio, que o público nacional tem desses temas.

 

Portanto, como nos podia perguntar algum leitor, serão os poderes do Bruxo de Fafe dignos de algum crédito? Será que as pessoas no vídeo foram verdadeiramente curadas por ele? Será que ele consegue exorcizar demónios e afastar feitiços malévolos, enquanto também os ameaça fazer aos seus próprios inimigos, como se diz que uma dia até fez ao Benfica? Será ele um novo Luís de La Penha? Nestas coisas de crenças a resposta fica sempre para os leitores, mas deixamos também uma questão que nos parece fulcral – onde aprendeu ele todo aquele conjunto de terminologias que utiliza, que provêm de crenças religiosas totalmente distintas? Mesmo que se pretenda acreditar que os seus conhecimentos lhe foram dados por uma qualquer entidade divina (desconhecida, já que nunca a nomeia), como se compreende essa constante discrepância de crenças, que num momento fala de “exus“, no seguinte recorre a incensos de múltiplas variedades, num terceiro já denota crenças espíritas, e depois até fala de ideias relacionadas com vodu ou com a Bíblia? Não vos parece estranho?!

Se as coisas são para ser assim, tentemos até algo de completamente novo – em virtude dos nossos notórios conhecimentos de Misticismo, os próximos dez leitores que nos contactarem ali em baixo nos comentários, expondo problemas e questões místicas, poderão vir a ter o seu problema resolvido de uma forma completamente gratuita… é mesmo grátis, uma oportunidade única a aproveitar (!), mas não se deixem é enganar por quem vos promete mundos e fundos!

 

 

*- Para quem tiver alguma curiosidade sobre a origem da expressão “não bate a bota com a perdigota”, fazemos aqui um pequeno aparte – uma “perdigota” é uma perdiz muito jovem, e a frase parece referir-se à ideia de que esse animal, escolhido apenas por motivo de rima, não faz par com uma bota (até por serem duas coisas completamente diferentes).

Lendas de Diógenes o Cínico

Como apresentar Diógenes o Cínico, famoso filósofo de Sinope, a quem ainda não o conheça? Não é tarefa fácil… talvez explicando que foi ele a origem da corrente filosófica do Cinismo, e que esta obteve o seu nome pelo facto de este seu fundador desprezar todas as conveniências sociais, vivendo em plena rua, dentro de um barril, juntamente com os cães abandonados do seu tempo – ou, segundo outra versão, por ser amigo dos que lhe dão coisas, ladrar a quem não o fazia, e morder os mal comportados. E se isto nos pode parecer um tanto ou quanto estranho, são muitas as fontes literárias que atestam que ele existiu, mas que também lhe associam um conjunto de histórias breves que, de um modo muito geral, poderíamos designar por lendas.

Lendas de Diógenes o Cínico

Na imagem acima, por exemplo, podemos ver Diógenes o Cínico acompanhado por um cão, pelas razões já explicadas, mas também com uma lanterna na mão. Isto porque se diz que um dia andou pelo mercado de uma cidade assim mesmo, em pleno dia; quando lhe perguntaram porque o fazia, respondeu apenas que andava em busca de uma pessoa honesta – devendo inferir-se que num mercado, uma não poderia ser encontrada nem com todas as ajudas do mundo.

Outro relato diz-nos que quando Alexandre Magno, visitando a cidade de Sinope, quis conhecê-lo, Diógenes o Cínico se encontrava em pleno descanso, a aproveitar o calor do sol. Face a tal, Alexandre apresentou-se-lhe e disse que lhe daria tudo o que ele quisesse; em retorno, o filósofo apenas lhe respondeu que se afastasse, pois estava a tapar o sol. Estupefacto, o conquistador revelou depois a um amigo algo de inesperado – “Se eu não fosse Alexandre, queria ser Diógenes.”

Uma terceira história reporta que numa dada altura da sua vida esta figura possuía uma pequena taça de barro, que utilizava para beber água de uma fonte, até que um dia viu uma criança a beber desse local, fazendo “conchinha” com as suas mãos. Reconhecendo a inesperada sabedoria do menino, descartou a sua taça, para não mais tornar a utilizá-la.

 

Existem muitas mais lendas associadas a Diógenes o Cínico, mas talvez uma das menos conhecidas seja uma que provém das obras de Galeno. Aí, o médico grego conta-nos que este filósofo foi um dia visitar um homem riquíssimo, que tinha em sua casa tudo do bom e do melhor. Porém, este era também um homem profundamente inculto. Assim, quando o herói das linhas de hoje sentiu necessidade de cuspir, vendo toda aquela casa tão gloriosa, decidiu cuspir para o local que lhe pareceu ter menos valor – a própria cabeça do homem que visitava, que era tão rico em dinheiro mas muitíssimo pobre em sabedoria.

 

Podíamos aqui contar até muitas outras lendas sobre este Diógenes de Sinope – elas estão espalhadas pelas mais diversas obras gregas e latinas da Antiguidade, além de aparecerem na famosa obra histórica de Diógenes Laércio, e de lhe terem sido associadas diversas aventuras apócrifas em obras tardias – mas, por agora, estas terão de chegar, até porque são as mais conhecidas e que melhor representam o espírito da figura da Antiguidade Clássica.

Porque se diz de alguém traído que “é cornudo” ou “levou um par de chifres”?

Hoje em dia, quando um homem é traído por uma mulher, costuma dizer-se que esta lhe pôs um par de cornos (ou chifres), fê-lo cornudo, e outras metáforas de conteúdo semelhante. Contudo, se já muitos se parecem ter interrogado sobre a origem de esta expressão, normalmente quem decidir procurá-la pela internet encontra um conjunto de informações muito horizontais mas também muito pouco conclusivas – de facto, citando parte da conclusão do site das Ciberdúvidas em relação a uma questão semelhante, “não há certezas sobre a origem da expressão idiomática, que parece basear-se numa metáfora que remonta à Antiguidade e cuja motivação não nos parece hoje evidente.” Mas não concordamos com essa conclusão. Por isso, vamos então responder a esse pedido de informações de uma vez por todas…

Sobre a origem da expressão "pôr/levar um par de chifres" e cornudo

Na imagem acima pode ser vista a representação de um touro, com o seu evidente par de chifres. Ela tem quase 4000 anos, mas qualquer pessoa saberá reconhecê-la como esse animal, e nesta representação deve igualmente notar-se a presença de um orgão sexual de tamanho notável. Assim, na altura em que esta representação foi feita o touro era um símbolo das divindades e do seu enorme poder, destreza, fecundidade e coragem – por exemplo, referências extremamente antigas a “El”, que pode ser visto como o predecessor do nosso Deus, até o equiparavam a um touro, e num píthos do século VIII a.C., de que já cá falámos quando abordámos o tema da esposa de Deus, os entes divinos também podem ser vistos acompanhados por estes animais.

Os cornos do poder, símbolo de divindade e de força

Agora, se desde quase a Idade do Bronze que os touros – e os respectivos cornos – eram um símbolo de poder, força e de virilidade, pôr/levar um par de chifres podia e devia, originalmente, ser visto como um insulto na medida em que se pretendia dizer que essa pessoa, que ainda não os tinha, não possuía um conjunto de características (positivas) que se associavam ao bovino. O insulto original, em si mesmo, não passava tanto pela colocação dos próprios cornos num homem, mas por se aludir à ideia de que ele ainda não tinha essa famosa virilidade e, como tal, não conseguia satisfazer devidamente a sua companheira. Simplificando-se, na altura “ter cornos” era positivo, mas “levar cornos” implicava a ausência actual desse elemento positivo e, como tal, era algo negativo.

 

Mas então, como é que “ser cornudo” passou a ser um insulto? Não deveria, face ao dito acima, ser um elogio, pelos cornos se tratarem de um símbolo de diversos tipos de poder? Claro que sim, não fosse o facto de essa simbologia original, muito antiga, ter sido esquecida ao longo dos séculos. Quando, na Grécia Antiga, Artemídoro de Daldis refere o caso de um homem que tinha medo que uma futura esposa lhe “pusesse os cornos”, tornando-se prostituta, mas não é sequer completamente claro o que ele temia – se a traição, em si mesma; ou o facto de ela se tornar prostituta por não gostar do que tinha em casa. Contudo, o que sabemos é que os touros já não tinham, nessa cultura em específico, a mesma importância e significado de outros tempos anteriores (como pode ser visto no mito do rapto de Europa, em que o touro é uma mera transformação de Zeus, que o deus depois acaba por abandonar para consumar o seu desejo), pelo que é muito provável que já nem os Gregos da Antiguidade compreendessem bem o significado original da expressão que ainda utilizavam no seu dia-a-dia!

 

Resumindo e concluindo, originalmente “pôr um par de chifres” a alguém queria dizer que essa pessoa não tinha ainda a virilidade e pujança própria de um touro, elementos associados a tantas divindades antiquíssimas, mas ao longo dos tempos essa ideia inicial foi sendo esquecida e o próprio efeito – tornar-se “cornudo” – passou a confundir-se com a sua causa, perdendo-se a simbologia original e fazendo com que esse acto de levar um par de chifres se tornasse um símbolo de traição feminina, mais do que do poder sexual de quem os possuía. Entendido, de uma vez por todas?