“A Montanha Pariu um Rato”, origem e significado

A expressão de que aqui falamos hoje, A Montanha Pariu um Rato, é uma de aquelas que se mantém muito utilizada nos nossos dias de hoje, mas que parece ter tomado um significado muito críptico. Sim, as pessoas vão-na usando, aqui e ali, e ela até surge com alguma relativa frequência no discurso político, mas já muito pouco se parece pensar na origem e no verdadeiro significado de toda a expressão. Como tal, e quase por mera coincidência – já lá iremos – decidimos investigar de onde vinha a expressão.

A Montanha Pariu um Rato... e o Rato Mickey?!

Há alguns dias tivemos uma espécie de debate interno sobre um poema medieval espanhol, o Libro de Buen Amor. Em si mesma, essa obra terá de ficar para outro dia, mas entre as histórias alegóricas que contém conta-se, de uma forma muito breve, a de uma montanha que pariu um rato. Aí, é uma história atribuída a Ysopet, ou seja, ao nosso Esopo, mas é curioso constatar que não aparece em nenhuma compilação de fábulas esópicas da Antiguidade. Estaria por isso Juan Ruiz, o autor do tal livro espanhol, enganado? Na dúvida, partimos então em busca da origem de toda expressão.

 

Ela não aparece nas fábulas de Esopo, ou pelo menos não naquelas que chegaram aos nossos dias, mas a expressão já era usada na Arte Poética de Horácio e surge – aí já como uma pequena história – entre as fábulas de Fedro, no primeiro século da nossa era. Podemos até relembrar o que diz o autor, dado se tratar de uma história muito curta:

Uma montanha estava prestes a dar à luz e gemia de uma forma horrível. Esses barulhos geraram grande expectativa nas áreas em redor, mas no final ela acabou por dar apenas à luz um rato. [Moral:] Esta fábula foi escrita para todos aqueles que após proferirem muitas ameças, não fazem nada de especial.

 

É uma história muitíssimo simples, talvez até gerada por um qualquer antigo mito da deusa Gaia, a proverbial Terra, mas é particularmente importante notar que esta história que ainda hoje nos faz dizer que a montanha pariu um rato já vinha com uma moral associada, o que não acontecia nas fábulas originalmente atribuídas a Esopo. Era de outro autor, mas pela sua forma foi ficando, ao longo dos séculos, atribuída a quem mais popularizou esse mesmo género literário.

 

E então, para terminar, se já falámos da origem da expressão, qual é o verdadeiro significado por detrás de se dizer que a montanha pariu um rato? A resposta é muito simples, como até já pôde ser visto na moral acima – significa que muitas vezes as pessoas dão a entender que irão fazer algo de muito impressionante, prometem demasiado, mas depois os seus actos não são nada de especial!

Qual a diferença entre touro e boi?

Hoje decidimos explicar a diferença entre touro e boi. Começe-se então pelo seguinte, uma espécie de pequeno e fácil desafio – o que vêem na imagem que reproduzimos abaixo?

A diferença entre touro e boi

Este animal tem cornos proeminentes, sendo fácil de reconhecer como um bovino. Mas não tem tetas, aquelas de onde nos provém o leite, pelo que é naturalmente do sexo masculino. E até este momento tudo bem, é provável que até uma criança pequena consiga estabelecer estas inferências, mas qual é o nome correcto que devemos dar ao “marido” de uma vaca? Qual é essa grande diferença entre touro e boi, que nos possibilita saber qual é qual?

 

Já lá iremos. Por agora, um pequeno aparte – recentemente obtivemos uma cópia de um livro que tem as gravuras dos dois primeiros volumes da Historia Animalium de Conrad Gessner, que é uma espécie de enciclopédia de animais produzida em meados do século XVI, e em que a maior parte deles estão ilustrados com belíssimas gravuras. Entre elas encontra-se aquela que reproduzimos ali em cima, mas o que a obra que obtivemos tem de especial é o facto de incluir parte de um conteúdo que não foi produzido por Gessner, nomeadamente os nomes de cada animal em latim, italiano, francês e alemão. É interessante compará-los, para quem também gostar dessas curiosidades, mas no seu artigo sobre o nosso “boi” – o bos latino – o autor começa por frisar que este nome pode ser dado tanto a um touro como a uma vaca. Depois, prossegue explicando, de uma forma extremamente sucinta e em apenas sete palavras, que um touro é um boi que não foi castrado.

 

Sabemos, portanto, que era esta a grande diferença entre touro e boi em outros tempos, há cerca de 400 anos, mas será que toda a ideia ainda se mantém nos dias de hoje? Com curiosidade, fomos consultar o dicionário online da Priberam, que nos define um touro como um “boi que não é castrado e que se utiliza como reprodutor”, enquanto que um boi é definido como um “touro castrado”. Ou seja, comparando-as com as anteriores, as definições actuais para ambos os animais reteram-se ao longo dos séculos.

 

O que é ainda mais curioso é que toda esta ideia até já tem muitos mais séculos e nos aparece preservada em mitos e lendas de outros tempos. O animal que raptou a princesa Europa é considerado um touro, dada a sua pujança, enquanto que os cornos de um touro são considerados um grande símbolo de poder sexual. Podemos então declarar, de uma forma um tanto ou quanto brincalhona, que um boi é apenas um touro que já perdeu a sua pujança, numa ideia que até se prolonga para outras línguas, e.g. em inglês, o pujante bull VS o ox que pasta nos campos…

O que significa comer gato por lebre?

Seria muito interessante aqui contar uma qualquer lenda para a origem da expressão comer gato por lebre, mas hoje focamo-nos é no seu significado. Isto não porque não exista uma qualquer história por detrás de toda a ideia – ela já aparece, com contornos bastante satíricos, em obras da Idade Média, em que é criticada a qualidade da comida de determinadas tabernas – mas porque não parece existir uma qualquer história particularmente famosa que tenha contribuído para toda a popularização da famosa expressão na língua portuguesa. Por isso, o que significa esta expressão bem portuguesa, que ainda muito se utiliza nos nossos dias de hoje?

O que significa comer gato por lebre?

Na cultura portuguesa é comum que se coma coelho e lebre, até em virtude da grande facilidade que é caçar esses animais em meios rurais. Agora, o que menos pessoas saberão é que removido todo o seu pêlo, os dois animais ilustrados na imagem acima são bastante semelhantes, ao ponto de quase se confundirem, tanto em termos da cor da carne como até do próprio sabor da mesma. Agora, teoricamente, isto pode levar alguns donos de restaurantes como menos escrúpulos a matarem gatos e os servirem como lebres – isto porque os primeiros até são muitos mais fáceis de encontrar e de capturar que os segundos!

Nesse sentido, “comer gato por lebre” significa, pura e simplesmente, comprar algo que é mais barato ao preço de algo que tem um valor maior, como fazem muitos restaurantes quando nos servem a todos, por exemplo, pota em vez de polvo.  O cliente, quase sempre fruto da sua inexperiência em reconhecer determinadas espécies, é assim enganado sem muita dificuldade, ao ponto de – como já cá aludimos uma vez – já ter existido um restaurante na zona de Sintra que cozinhava, sem que ninguém parecesse saber, os dois animais que deram nome a esta expressão.

 

Mas… para quem se estiver a interrogar até um pouco mais sobre tudo isto, será que se comem gatos – “por gato”, ou seja, sem que seja ocultada a sua origem animal – em Portugal? Mesmo que o leitor comum tenha alguma dificuldade em acreditar em toda a ideia, já existiu uma aldeia do nosso país em que o prato típico foi outrora chouriço de gato. Inicialmente o prato era cozinhado sem qualquer malícia, fruto apenas da grande pobreza da região, mas à medida que o tempo foi passando começou a descartar-se toda a ideia como puro e simples rumor, até porque eram muitos aqueles que se dirigiam ao local só com a intenção de ver se era mesmo verdade (o que ainda irrita os habitantes locais, daí não mencionarmos aqui o nome da aldeia em questão)… mas a confecção do prato, essa, manteve-se até há menos de meia dúzia de anos, altura em que faleceu uma das últimas idosas que ainda se atrevia a seguir a receita tradicional. Agora, em 2022, tanto quanto foi possível apurar na primeira pessoa essa estranha tradição culinária já terminou no local. Como tal, quem quiser comer os tais bichanos, só mesmo se os cozinhar em sua própria casa, ou naqueles estranhos casos em que os restaurantes ainda nos fazem comer o literal gato por lebre. Não recomendamos a dificuldade da experiência, até porque o seu sabor é mesmo muito semelhante ao da lebre!

A diferença entre mosteiro e convento

Pensar-se na divergência entre mosteiro e convento é algo que poucos fazem hoje em dia. Isto porque, falando com diversas pessoas sobre o tema, descobrimos que se tende a pensar que a diferença entre as duas palavras, ou os respectivos conceitos, se prende exclusivamente com o género sexual dos seus ocupantes, sendo – supostamente – um para mulheres e outro para homens. E se isto até parece muito simples, devemos esclarecer que a ideia está errada. Na verdade, até existem mosteiros e conventos para homens, da mesma forma que os existem para mulheres. Por isso, qual é a diferença entre as duas designações?

A diferença entre Mosteiro e Convento

Responder a essa questão implica jogar, de certa forma, com outro conceito que lhe está associado, o da diferença entre monge e frade. A designação de um monge vem do latim monachus, que por sua vez vem do grego μοναχός (monakhós), que significa “solitário”, em virtude de esses religiosos praticarem a sua religião sozinhos, afastados da sociedade, como foi o caso de Santo Antão. Já a designação de frade (ou “frei”), vem do latim frater, “irmão”, pelo facto de esses outros religiosos praticarem a mesma religião de uma forma significativamente diferente, em que vivem todos no mesmo local e com um mesmo património em comum, como foi o caso de Santo António de Lisboa (ou Pádua). Para as mesmas funções religiosas no sexo feminino aplicam-se, em alternativa, os nomes de monja e freira.

 

Voltando então à questão original, um mosteiro é o local em que vivem monges ou monjas, enquanto que um convento é a designação dada a um sítio em que vivem os frades e freiras. E se isto pode levantar um problema ideológico – como podem os primeiros viver a sua solidão se, factualmente, não estão sós?! – outro aspecto significativo da diferença entre os dois conceitos é que enquanto os primeiros não podem, ou não devem, sair do local em que residem, já os segundos continuam a viver na nossa sociedade, aplicando a sua vida de religiosos nas mais diversas áreas.

 

Portanto, a diferença mais significativa entre mosteiro e convento não se prende com o sexo dos seus ocupantes, mas sim com o propósito das suas funções religiosas. Além disso, se os monges e monjas vivem no interior de um mosteiro, do qual (teoricamente) não devem sair, já os frades e freiras vivem na nossa sociedade, retirando-se para o interior do seu convento quase somente para tomar as suas refeições ou dormir, entre outras actividades aqui menos relevantes. Não é difícil de compreender, basta pensar na origem dos respectivos nomes!

“Golpe do baú”, origem e significado

A expressão golpe do baú é digna de nota em virtude da sua origem e significados, que foram sofrendo alterações ao longo do tempo. Assim, ela tem dois grandes polos de sentidos – um primeiro, mais antigo, em que a ligação entre a expressão e o acto era quase óbvia; e um segundo, mais recente, em que, por razões culturais, a ligação anterior se foi perdendo mas parte do significado se manteve até aos nossos dias de hoje. Nesse contexto, para explicar o significado que a frase tem nos nossos dias é imprescindível apurar a sua origem histórica, como faremos abaixo.

Qual a origem e significado de 'dar o golpe do baú'?

Em outros tempos, possivelmente até já na Antiguidade – como pode demonstrar a lenda de São Nicolau – era característico que antes de um casamento o noivo recebesse uma espécie de dote por parte da noiva e respectiva família. Essa espécie de oferta, directamente monetária ou já de bens, era destinada a ajudar a mudança da figura feminina para uma nova casa, onde podia, muitas vezes, ser vista mais como um incómodo e prejuízo monetário do que como uma verdadeira adição à família. Nesse seguimento, muitas vezes era comum que o tal dote fosse guardado numa arca ou baú, para estar bem seguro num tempo em que ainda não existiam instituições bancárias… e isto levou, progressivamente, à ideia de que algumas pessoas menos bem intencionadas pudessem vir a casar exclusivamente para tomarem para si parte das posses da família da noiva.

 

A ideia foi-se mantendo ao longo dos séculos – continua a aparecer em diversos romances medievais, e mantém-se em obras mais recentes – mas progressivamente lá acabou por se ir perdendo ou modificando, sobrevivendo nos nossos dias em um punhado de tradições, como a do pai da noiva, tradicionalmente, pagar a cerimónia do casamento. Mas, se o agora-proverbial golpe do baú deixou de ser tão literal, manteve-se a sua ideia subjacente, em particular quando existe uma grande diferença de estatuto entre os dois noivos, seja – como originalmente – em termos de dinheiro, de beleza ou de idades, dando uma espécie de sugestão de que duas pessoas apenas se ligaram por laços de matrimónio a bem do vil metal, o que levou à expressão anglófona de gold digger, i.e. alguém que apenas casou com o objectivo de “sacar” o ouro, as posses materiais, da suposta alma gémea.

 

Portanto, a expressão que se refere a “dar o golpe do baú” é, hoje, uma alusão a esta última parte da evolução da ideia original, dando mesmo a entender que duas pessoas apenas casaram em virtude do proveito desigual – seja masculino ou feminino, apesar do sentido original, que tornava quase impossível às mulheres realizarem este golpe – que essa união traz a uma delas, i.e. a menos rica, mais nova ou mais bonita. Existe, de facto, um certo sexismo na expressão, mas é uma boa forma das más línguas justificarem algumas simpatias entre duas pessoas que, à partida, pareçam ter muito pouco em comum…