O que acontecia se um romano viesse aos nossos dias? O filme “Thermae Romae”

Há dias passámos por um evento em que tivemos a oportunidade de ver o filme Thermae Romae, de 2012, baseado numa manga japonesa do mesmo nome.

Capa da obra

O filme, no original  テルマエ・ロマエ, conta a história de uma personagem ficcional, um tal Lúcio Modesto, construtor de termas do século II d.C., que após muito ter estudado se encontrou sem ideias para inovações na sua área de trabalho. Através de miraculosos acidentes numa terma é repetidamente transportado entre o tempo do Imperador Adriano e o Japão dos nossos dias, que acaba por lhe servir de inspiração para novas criações.

É um filme interessante, que dá para rir um pouco com o choque de culturas, mas que também tem alguns pequenos fundos de verdade histórica. Se tiverem cerca de 100 minutos livres e o conseguirem encontrar em exibição, podemos admitir que é uma experiência inesperadamente agradável. Também tem uma sequela, mas ainda não a conseguimos ver.

Outros dois filmes de Georges Méliès que remetem para a Antiguidade

Porque é fim de semana, e por isso se presume que potenciais leitores terão mais algum tempo livre para estas coisas, ficam também aqui mais dois filmes de Georges Méliès que nos recordam da Antiguidade – a Viagem pelo Impossível e a Viagem à Lua, ambos com música que não é a original.

Hoje já com mais de uma centena de anos, estes dois filmes baseiam-se em obras de Júlio Verne. Porém, o que talvez já poucos saibam é que histórias como essas – de viagens à lua, ao sol, aos outros astros celestes, etc. – nasceram ainda em tempos da Antiguidade, com a História Verdadeira de Luciano da Samósata a nos preservar, ainda hoje, um dos seus exemplos mais notáveis.

“O Reino das Fadas”, de Georges Méliès

Hoje decidimos cá trazer um filme feito em 1903 – há já quase 117 anos! – pelo famoso Georges Méliès.

A música não é a original, mas tenha-se em atenção que o filme é tão antigo que, nessa altura, esta arte não só ainda era muda, como ainda nem apresenta os pequenos diálogos que virão a caracterizar os filmes mudos mais tardios. Assim, o visualizador é quase que convidado a criar a sua própria história dos reino das fadas, enquanto deixa os seus olhos aproveitarem o festim artístico da caracterização e dos belíssimos cenários.

Esperamos que gostem!

Em busca da Princesa Magalona

Já ouviram falar da Princesa Magalona? Já foi uma figura muito famosa, mas hoje em dia está bastante esquecida. Nesse contexto, podemos até dar um exemplo de aquela que foi a sua popularidade – num famoso filme português, Aldeia da Roupa Branca, de 1939, surge uma breve sequência em que um grupo de crianças ensaia uma pequena peça de teatro. Nela estão representadas uma princesa, um pastor, uma bruxa e alguns anjos. Pouco depois, quem está a ensaiar a peça diz que a cena pertence à “nova história da Princesa Magalona, que eu comprei em Lisboa”.

A Princesa Magalona

Aos mais curiosos poderia surgir uma questão – afinal de contas, quem é essa tal “Princesa Magalona”?

 

Em busca de uma resposta acabámos por descobrir que existe mesmo uma história com esse nome. Tratava-se, originalmente, de uma história medieval, que parece ter sido popular por toda a Europa e que até teve diversas edições em Portugal. Mas, nas edições a que tivemos acesso, já dos séculos XVIII e XIX, intituladas História verdadeira da princesa Magalona, filha d’El-Rei de Nápoles, e do nobre, e valoroso cavalheiro Pierres, Pedro de Provença, e dos muitos trabalhos, e adversidades, que passaram, sendo sempre constantes na fé, e virtudes, e como depois reinaram, e acabaram a sua vida virtuosamente no serviço de Deus, não existe qualquer referência ao momento mostrado no filme. De facto, a história do livro não tem quaisquer elementos mágicos, apresentando uma trama que muito se assemelha a tantos outros romances de cavalaria. E, na verdade, parte do seu conteúdo até é muito brevemente aludido no Dom Quixote de Cervantes, através de uma menção ao “rapto” de Magalona por Pedro.

 

Mas seria, então, a história presente no filme pura fantasia cinematográfica? Parecia-nos que sim, até que nos apercebemos da existência de diversas histórias tradicionais associadas ao nome de uma outra “Princesa Magalona”, que não era a figura medieval e cuja herança ainda hoje pode ser encontrada no substantivo magalona, que o dicionário da Priberam diz tratar-se de uma “mulher vistosa, ataviada”.

Nesse contexto, o breve momento do filme parece derivar de uma ligação entre duas tradições reais mas distintas – a personagem ter comprado um possível folhetim em Lisboa; e ele conter uma possível “nova” história de uma princesa cujo nome era bem conhecido nas histórias orais da época.

Esta possibilidade faz até sentido se tivermos em conta o carácter muito tradicional, quase estereotipado, das personagens da peça – a bela princesa, o pastor que não gosta da cidade, a feiticeira cujos poderes nada podem contra a religião cristã, etc. E se, nesse seguimento, a história aí parcialmente representada não parece existir de forma mais completa… até faria algum sentido que sim!

“As Leis do Sol” e a necessidade de se compreender (verdadeiramente) aquilo em que se acredita

A publicação de hoje, sobre estas Leis do Sol, merece algum contexto. Há algumas semanas atrás, quando escrevemos sobre o confronto de Buda com Mara, demos por nós a interrogar-nos se existiram séries orientais que mostrassem esse momento. Com alguma pesquisa, encontrámos um filme japonês (ver um pouco mais abaixo), mas à medida que o fomos vendo acabámos por notar que… tinha algo de estranho.

O que é? Caso não se tenham apercebido (ou simplesmente não queiram perder tempo a vê-lo), este filme pertence a uma religião/seita japonesa. Proclama um deus, El Cantare, de que nunca ninguém ouviu falar, e depois faz um esforço interessante para incluir numa mesma narrativa locais como o continente (perdido) de Mu e a Atlântida; figuras como Thoth, Zeus, Hermes e Buda; uma mensagem que supostamente foi sendo transmitida ao longo dos séculos; e até seres reptilianos – como ficção até tem uma certa piada, mas devemos é lembrar-nos que é suposto tratar-se de um filme sério, e nesse sentido lembra-nos um conjunto de estratégias manhosas que se costumam utilizar para promover um certo tipo de ideologias. Não acreditam? Vejamos outro exemplo, este claramente satírico:

Claro que as pessoas podem acreditar no que bem entenderem, mas é perigoso que o façam de forma incompleta ou descontextualizada, porque isso as abre a uma manipulação muito perigosa. Se viram o primeiro vídeo acima, poderão notar um momento curioso, em que Buda diz que voltará “passado 2500 anos”, pretendendo-se que esse retorno seja, convenientemente, identificado com o fundador da mesma religião/seita. Que, também convenientemente, já publicou 2500 livros, zero deles disponíveis gratuitamente.

A grande verdade, essa, é que não existe uma mensagem filosófica ou religiosa que tenha sido partilhada por todas as culturas ao longo dos séculos (existem, isso sim, é um conjunto de ideias – como a chamada “regra de ouro” – que parecem ser tão importantes que todas as culturas as pregam). E também não é por se atirarem, aqui e ali, algumas referências a figuras que as pessoas poderão ter ouvido falar (mas poucas vezes conhecem bem, como é o caso de Platão…) que essa pseudo-mensagem é legitimizada. Por isso, tenham cuidado com estas coisas, e não se deixem levar por historietas fantasiosas!