Os 47 Ronin e o teatro kabuki

47 Ronin com Keanu Reeves, poster japonês

É provável que a lenda dos 47 Ronin seja muito mais famosa que as anteriores, até porque já teve diversas adaptações ocidentais (aparentemente até um filme com Keanu Reeves, datado de 2013). Por isso, mais do que a contarmos novamente, bastará resumi-la de uma forma muito rápida, dizendo que é a história (com alguns contornos verídicos) de 47 samurais que juraram vingar a morte do seu amado mestre.

 

Agora, se existem várias adaptações cinematográficas desta lenda, tanto ocidentais como provindas de terras do oriente, o tema também é muito popular no teatro kabuki, marcadamente japonês e reconhecido em 2008 pela UNESCO como património imaterial da humanidade. Infelizmente, não é muito fácil assistir a peças deste tipo de teatro em Portugal, razão pela qual temos de recorrer a recursos online. Por isso, quem quiser ver parte de uma peça de teatro baseada nesta lenda poderá fazê-lo neste link, com uma segunda sequência aqui (mas não é possível ver toda a peça, infelizmente…). São pouco mais de três horas de visualização, mas pelo menos depois poderão dizer que conheceram algo completamente novo, que tem um grande significado noutra cultura bem diferente da nossa. E conhecer coisas novas – sejam mitos de um qualquer país no outro lado do mundo, ou estilos teatrais de que poucos terão ouvido falar em terras de Portugal – é sempre bom, não é? Por isso, fica essa sugestão invulgar para este fim de semana…

A lenda de Jesus no Japão (e os Documentos Takenouchi)

Há já alguns anos que nos contaram uma estranha lenda de Jesus no Japão (já lá iremos). Na altura não pudemos deixar de estranhar a referência, pelo que quando inquirimos mais sobre a fonte dessa informação, falaram-nos de uns Documentos Takenouchi japoneses, supostamente muito antigos, que preservavam toda essa história. E, na verdade, quem procurar pela internet esta mesma lenda – que iremos contar mais abaixo – poderá encontrar, repetidamente, essa mesma informação, atribuída sempre à mesma fonte literária, pelo que convém introduzi-la.

Um Jesus Japonês ou um Jesus no Japão?!

 

O que são os Documentos Takenouchi?

Os Documentos Takenouchi são um conjunto de textos que, alegadamente, preservavam toda a pré-história e história secreta da humanidade, desde a criação do universo até há poucos séculos atrás. Foram escritos em “caracteres divinos”, há cerca de 1500 anos foram supostamente traduzidos para Japonês (como isso foi feito não é totalmente claro), passaram de mão em mão até meados do século XX, e depois os seus originais foram destruídos durante a Segunda Guerra Mundial, juntamente com um conjunto enorme de ítens lendários e mágicos. Isto é o que se alega, mas sem provas de maior, e há que ter isso em conta quando forem lidas as linhas seguintes.

 

De que falam os Documentos Takenouchi?

Entre as histórias que os Documentos Takenouchi continham estava relatado, por exemplo, que os nomes de Adão e Eva tinham provindo de um antigo rei chamado Adão-Eva; que Moisés tinha sido sepultado no Monte Hodatsu (onde escreveu outros Dez Mandamentos); que o Japão era o centro do mundo e o Japonês a língua primordial; que dados reis antigos tinham viajado por todo o mundo em máquinas voadoras; e outras coisas da mesma natureza. E é nesse mesmo contexto que surge, depois, uma lenda que diz que Jesus Cristo está sepultado no Japão, mais precisamente no local visto abaixo, próximo da cidade de Shingo:

 

O que diz a lenda de Jesus no Japão?

Mas afinal o que diz essa lenda de um Jesus Japonês, a que os nativos do país do sol nascente chamam イエス・キリスト? Podemos resumi-la, seguindo as linhas dos Documentos Takenouchi – por volta dos seus 20 anos, Jesus Cristo viajou por todo o mundo em busca de conhecimento, passando no Japão, onde estudou num mesmo santuário em que figuras tão ilustres como Buda e Maomé também estudaram. Depois, voltando ao Médio Oriente por volta dos 33 anos, não foi crucificado (um irmão dele, Isukiri, ofereceu-se para tomar o seu lugar nessa punição capital), e fugiu novamente para o País do Sol Nascente, onde viria a morrer aos 108 anos.

 

Dois vídeos sobre os Documentos Takenouchi

Histórias (apócrifas) como estas, de um Jesus no Japão, abundam na mesma fonte literária para outras figuras do Antigo e Novo Testamento, mas naturalmente que parecem muito menos credíveis quando são mostradas assim, no seu contexto original. Agora, se os textos originais não estão disponíveis – foram destruídos, como já foi dito acima – quem for ler… bem, hoje nem é preciso irem ler nada, vejam antes estes dois vídeos oficiais e tirem as vossas próprias conclusões:

 

Pense-se, para terminar, em toda esta estranha situação. Os Documentos Takenouchi não estão disponíveis para análise ou leitura directa (relembrando aquela intrigante Carta de Mar Saba); a informação que temos sobre eles chegou-nos numa obra literária de Wado Kosaka (que, pela mais mera coincidência, até se auto-proclama “Cosmo-arqueólogo”); e eles são a única fonte literária desta lenda de um túmulo de Jesus no Japão, que o turismo local de Shingo certamente agradece. Mas… parece-vos verdade, tudo isto? Mais que uma lenda, talvez fosse muito mais correcto é chamar puro mito à presença de Jesus, ou de um seu túmulo, nessas terras do oriente…

A lenda do Lobisomem (e o Tardo)

A lenda do Lobisomem (a que depois juntámos a figura portuguesa do Tardo), conta-se entre as três maiores lendas brasileiras, juntamente com as das figuras do Saci e da Mula Sem Cabeça. Agora, se já aqui falámos das outras duas figuras anteriormente, é natural que também fossemos falar desta, antes de discutirmos se esta criatura verdadeiramente existe.

A lenda do Lobisomem (e o Tardo)

A ideia de toda esta criatura, de uma figura humana que em determinadas condições adopta a forma de um lobo ou de outro animal, poderá até vir da pré-história. No entanto, a sua primeira referência mais significativa que temos a ela surge no mito grego de Licáon, em que um rei é transformado em lobo como punição divina. Agora, isto pouco assustaria fosse quem fosse – se tais acontecimentos apenas acontecessem por punição divina, poucos ou nenhuns lobisomens existiriam no mundo – mas Marcelo de Side, um autor da Antiguidade que escreveu uma obra chamada Da Licantropia (que apenas nos chegou num fragmento), considera esta uma doença bem real, dizendo sobre ela o seguinte:

Os que sofrem da doença chamada Cinantropia ou Licantropia saem durante toda a noite no mês de Fevereiro, imitando lobos e cães, passeando em redor dos cemitérios durante a noite. Podem reconhecer quem está afectado por ela pelos seguintes sinais: são pálidos, parecem fracos, têm olhos secos e não choram. (…) Também têm muita sede e feridas incuráveis nas pernas, por causa das quedas contínuas e das mordidelas dos cães. (…) [No fragmento segue-se informação, aqui irrelevante, sobre como essa doença pode ser curada.]

 

Isto não revela muito sobre a criatura que também pode ser conhecida como Licantropo, excepto pelo facto de nos fazer compreender que no primeiro século da nossa era, altura em que viveu este Marcelo de Side, esta era uma doença quase puramente psicológica, não configurando uma transformação verdadeira de ser humano em lobo (ou cão). Por isso, pense-se no tema por um breve momento – nos filmes e livros dos nossos dias como é que nascem estas criaturas? É frequentemente mencionada a lua cheia, a mordidela de um lobo, o simples nascimento de um pai (ou mãe) que também partilha deste poder místico, algum outro método mais mágico… mas nem sempre assim o foi, e nesse sentido a lenda do Lobisomem no Brasil é derivada de uma antiga lenda portuguesa e europeia. Segundo ela, quando uma mulher tem sete filhos consecutivos de um mesmo género sexual (sete filhas geram uma bruxa ou uma Peeira, para quem tiver essa curiosidade), esse sétimo rebento irá sofrer de Licantropia, uma ideia que não vem da Antiguidade!

 

A mesma lenda acrescenta, depois, que em determinadas noites essa pessoa iria ficar como louca, devendo ser trancada em casa na mais completa solidão. Não é dito que isso acontecia em noites de lua cheia, como é comum nas histórias literárias e cinematográficas, mas algumas versões que ouvimos de idosos dos nossos dias em Portugal referem que isso acontecia nas noites de sexta-feira para sábado, com pelo menos uma idosa a nos dizer que o marido de uma amiga já falecida, que era lobisomem, um dia não foi trancado nem o deixaram sair de casa, e então entrou numa espécie de coma profundo, de que só saiu já na noite seguinte. Um elemento curioso – em nenhum momento nos foi dito que a transformação em lobo era literal, mas simplesmente que quem sofria dessa espécie de “doença” ficava com o carácter metafórico de um lobo – vicioso, feroz, a uivar, etc.

 

Nesse contexto, a lenda brasileira, com mais ou menos detalhes, parece derivar parcialmente de uma lenda portuguesa que também existiu por toda a Europa. Contudo, hoje em dia, fruto de uma cultura cada vez mais global, este monstro no Brasil, como o de Portugal e o de tantos outros países, está a perder as suas origens e a tornar-se uma criatura com feições horizontais por todo o globo…

 

Mas, para terminar, será que a criatura de todo este mito ou lenda existe mesmo? Como é fácil ver pelas palavras escritas acima, a forma como hoje vemos esta criatura, hoje, resulta de um sincretismo de diversas crenças diferentes ao longo de muitos séculos. É uma ideia que se foi alterando ao longo dos tempos, sendo por isso impossível que alguma vez tenha tido uma existência real – se assim o fosse, como explicar as formas tão diversas e inconsistentes como foi sendo representada na literatura? Isso não faria qualquer sentido, excepto se se tratar de uma criatura que só nasceu da imaginação humana, e à qual cada nova geração foi adicionando um pouco mais à história, como é comum em relatos puramente ficcionais, que não assentam numa realidade física.

 

[Adicionado posteriormente:] Porque acrescentámos ao artigo acima esta sequência sobre uma figura puramente portuguesa, o Tardo? Porque, mais tarde, viemos a encontrar um curioso documentário nacional que não só mostra as muitas semelhanças entre as duas figuras, como também fala extensamente sobre as crenças relativas à figura a que se refere este artigo de hoje! Podem vê-lo abaixo, em três sequências relativamente curtas, que permitem ao leitor saber mais sobre o Tardo – e outras figuras dos mitos populares de Portugal – do que nós poderíamos dizer em algumas breves linhas:

Na verdade, se nem concordamos com tudo o que é dito nestes três vídeos, há que admitir explicitamente que eles apresentam o Tardo, entre outras figuras da Mitologia Popular Portuguesa, de uma forma rápida, interessante, e até com algumas histórias na primeira pessoa, o que é sempre de elogiar no nosso panorama ibérico!

Para rir um pouco…

Este domingo deixamos por cá um vídeo que satiriza as leituras demasiado académicas que por vezes são feitas de coisas muito simples. Mais que tudo, talvez devessemos perguntar – será que era isso que o autor original pretendia? Frequentemente, a resposta é negativa…

A lenda do Incêndio de Meireiki

A dois de Março de 1657 tomou lugar na cidade japonesa de Edo (hoje Tóquio), um incêndio tão grande que ficou conhecido pelo nome da era em que tomou lugar – o Grande Incêndio de Meireiki. É um facto histórico indisputável que esse flagelo aconteceu mesmo, mas a razão pela qual falamos dele aqui hoje é o facto de uma pequena lenda também se esconder por detrás de toda essa ocorrência real. Não sabemos se esta história também é tão real como o fogo que ardeu na altura, mas diz que tudo começou quando um sacerdote decidiu tentar queimar um kimono que estava amaldiçoado e que acabava por matar todos aqueles que o viessem a possuir. Mas as palavras desta lenda do Incêndio de Meireiki, hoje, deixamo-las para Niall de Burca, que um dia tivemos a oportunidade de conhecer pessoalmente, e a cujas histórias já cá fizemos alusão anteriormente.