Existem figuras da Antiguidade Clássica cuja identidade só nos chegou pelo mais completo acidente, e Hegéloco é um bom exemplo disso mesmo. Se uma poetisa como Praxila é hoje relembrada apenas por uma estranha referência ao que Adónis sentia falta no mundo dos mortos, já este actor ficou-nos conhecido apenas e somente por ter pronunciado mal uma palavra na tragédia Orestes de Eurípides. O texto original dizia γαλήν’ ὁρῶ, mas este intérprete trágico recitou-o como γαλῆν ὁρῶ. Pode parecer completamente igual, especialmente para quem não compreender a língua original, mas essa pequenina alteração mudou completamente o sentido da frase, fazendo com que Orestes dissesse não que via a “bonança” após uma tempestade, mas sim uma “doninha”. Conforme nos informa um escólio na passagem da peça euripideana, que aqui apresentamos em tradução para Português:
O verso em questão foi ridicularizado na comédia por causa de Hegéloco, o actor. Conta-se que, como não conseguiu pronunciar a divisão da elisão (galēn em vez de galēna), por lhe ter faltado o fôlego, pareceu aos espectadores que dizia galên (i.e. doninha), o animal, e não galēna (i.e. bonança).
Consequentemente, muitos poetas cómicos fizeram piadas sobre o assunto, como Aristófanes e Estrátis em Antroporestes:
“E não me importei com as outras canções,
mas ele destruiu um drama muito engenhoso de Eurípides,
Orestes ao contratar Hegéloco, filho de Cíntaro,
para dizer os versos do primeiro actor.E noutros versos, diz a brincar:
“A: Vejo galēn.
B: Onde, pelos deuses, onde, onde vês uma galēn?
A: Galēna.
B: E eu a pensar que dizias “vejo uma doninha”.E Sanirión em Dánae:
Em que me transformarei então para entrar pela fresta?
Tenho de pensar numa resposta. Vejamos, e se me transformasse numa doninha?
Mas Hegéloco logo me denunciaria,
o actor trágico, e gritaria bem alto ao avistar-me:
“Pois após a tempestade, vejo de novo uma doninha.”
Estas peças estão maioritariamente perdidas, mas pelo contexto desta última citação de uma peça sobre o mito de Dánae é fácil constatar que Sanirión apresentava Zeus a contemplar a transformação que deveria adoptar para consumar o seu desejo pela jovem. O deus nunca tomou a forma de uma doninha, pelo menos nas fontes que nos chegaram, evidenciando que as suas palavras eram meramente satíricas, e que este Hegéloco ficou, de facto, conhecido exclusivamente por ter pronunciado uma palavra mal. Isto não pode deixar de nos lembrar a estranheza da fama na Antiguidade, com o outrora-importante Margites a nos estar quase inacessível, enquanto figuras que se pensariam pouco importantes a serem relembradas só por um pequeno deslize das suas línguas.
!["O cavaleiro que fazia falar as vaginas [e os rabos]", de Garin "O cavaleiro que fazia falar as vaginas [e os rabos]", de Garin](https://mitologia.pt/wp-content/uploads/2026/06/O-Cavaleiro-que-Fazia-Falar-as-Vaginas-e-os-Rabos.jpg)




