“O cavaleiro que fazia falar as vaginas [e os rabos]”, de Garin

Para terminar as celebrações [em 2019, quando este artigo foi originalmente publicado], hoje trazemos cá uma obra pouco conhecida, de título O cavaleiro que fazia falar as vaginas e os rabos. Quando se pensa em literatura da Idade Média, pensa-se nas aventuras arturianas, num determinado conjunto de poesia amorosa e de criações cristãs e, para alguns, talvez até num derradeiro Dom Quixote de Cervantes. Mas, ao mesmo tempo, também existia um conjunto de criações medievais que já tentava, de certa forma, satirizar os outros conteúdos da época.

Se nada sabemos sobre “Garin”, suposto autor desta pequena obra (terá ele vivido no século XIII, como pensou um estudioso dos nossos dias?), O cavaleiro que fazia falar as vaginas e os rabos é, sem qualquer dúvida, uma dessas obras satíricas, cuja popularidade pode ser apreciada em sete manuscritos. Mas de que fala esta obra, afinal?

Apresenta-nos um cavaleiro que já tinha pouco dinheiro e passava fome. Quando o seu escudeiro viu três belas mulheres a tomarem banho, roubou as suas roupas, as quais pretendia vender num mercado próximo. Porém, o amo não o deixou fazer isso, optando por devolver as vestes às três desconhecidas. Depressa se revelaram fadas, e decidiram depois premiar aquele que as ajudou com três dons – a primeira, garantiu-lhe que ele viria a ser sempre bem recebido onde quer que fosse; a segunda deu-lhe o poder de fazer falar as vaginas; a terceira deu-lhe o poder adicional de que, quando uma vagina não lhe pudesse responder, um rabo o faria.

O cavaleiro, tal como um potencial leitor, não pôde deixar de achar que estas mulheres/fadas só poderiam estar a gozar com ele, mas no desenrolar da aventura é provada a completa veracidade das três promessas, levando o herói do seu infortúnio original até uma vida bem mais afortunada e feliz. Para quem quiser saber mais, neste texto, que goza com algumas das convenções literárias que esperaríamos encontrar em romances de cavalaria, aqui fica, pela primeira vez, uma tradução imperfeita deste conto poético medieval para Português dos nossos dias:

As histórias agora multiplicam-se.
Muito dinheiro embolsaram
aqueles que as contam e as carregam,
pois trazem grande consolo
aos enfadados e aos preguiçosos,
quando não há gente demasiado barulhenta,
e até àqueles que estão cheios de ira,
se ouvirem uma boa fábula,
isso lhes traz grande alegria
e os faz esquecer a dor e a tristeza,
assim como a maldade e as preocupações.
Assim diz Garin, que não mente,
ao contar-nos a história de um cavaleiro
uma aventura neste conto,
que teve uma sorte maravilhosa,
e eu digo-vos com toda a certeza
que ele fazia as vaginas falar
sempre que as chamava,
e o traseiro que estava na abertura
respondia bem ao seu chamamento.

Esta sorte lhe foi concedida
no ano em que foi armado cavaleiro,
e contar-vos-ei como aconteceu.
O cavaleiro tornou-se pobre
antes de atingir idade avançada,
embora fosse considerado sábio,
mas não possuía nem vinhas nem terras.
Em torneios e em guerra
punha toda a sua dedicação,
pois sabia bem golpear com a lança.
Era audaz e combatente,
e, na necessidade, socorria bem.
Então aconteceu, naquele tempo,
como encontrei ao ler na história,
que as guerras em toda parte cessavam:
ninguém mais se atacava,
e os torneios foram proibidos.
Assim, gastou tudo o que tinha,
o cavaleiro, nesse período:
não lhe restou manto de arminho,
nem gibão nem capa forrada,
nem qualquer outro bem
que não tivesse já empenhado.
Não o considero sábio por isso,
pois empenhou a sua armadura,
e gastou tudo em comida e bebida.

Hospedava-se num castelo
que era muito belo e próspero,
tal como era Provins,
e ali bebia frequentemente bons vinhos.
Aí permaneceu por muito tempo
até que um dia aconteceu
que se anunciou um torneio
por todo o país, publicamente,
para que todos lá estivessem sem desculpa,
diretamente em LaHaie-en-Touraine.
Devia ser grande e feroz,
O cavaleiro ficou muito alegre com isso.
Chamou Huet, o seu escudeiro,
e contou-lhe a novidade
sobre o torneio que aconteceria ali,
e Huet respondeu: “Que vos importa
falar de torneios
se todo o vosso equipamento
está empenhado para pagar as despesas?”
– Ah, Huet, por Deus, pensa nisso,
disse o cavaleiro, se quiseres!
Sempre me aconselhaste bem.
Melhor teria sido se te tivesse ouvido!
Agora pensa em como poderei conseguir
o meu equipamento sem demora,
e arranja algum dinheiro,
o melhor que puderes conseguir.
Sem ti, não sei como resolver isto!”
Huet viu que tinha de agir,
e tratou do assunto o melhor que pôde.
Vendeu o palafrém do seu senhor,
sem fazer outro acordo,
mas saiu-se muito bem.
Nada ficou por pagar;
todo o dinheiro do penhor estava na sua mão.
E quando chegou o dia seguinte,
ambos se puseram a caminho,
sem que ninguém os seguisse ou acompanhasse,
e cavalgaram por uma planície.
O cavaleiro perguntou a Huet
como tinha conseguido o dinheiro do penhor.
Huet respondeu-lhe, pois era muito sensato:
“Nobre senhor”, disse Huet, “pela minha fé,
vendi o vosso palafrém,
pois não podia ser de outra maneira.
Não tereis agora cavalo à direita,
nem podereis seguir adiante montado.”
– Quanto te resta, Huet?
perguntou o cavaleiro.
– Pela minha fé, senhor, doze dinheiros
é tudo o que nos resta para gastar.
– Então não temos porque esperar,
disse o cavaleiro, ao que me parece!”
Então, ambos seguiram juntos.

e quando já tinham percorrido um longo caminho,
entraram num vale.
O cavaleiro ia pensativo,
e Huet cavalgava à frente
sobre o seu rocim a grande velocidade,
até que viu, por acaso,
numa campina, uma fonte
que era bela, clara e pura,
de onde corria um grande regato,
e à volta havia arvoredos
verdes e frondosos de grande beleza,
tal como no mês de Verão.
As árvores eram muito belas.
Na fonte banhavam-se
três donzelas nobres e sábias.
De tão belas pareciam fadas.
Os seus vestidos e todas as suas camisas
tinham colocado debaixo de uma árvore,

Tradução
que eram bordadas a ouro.
Valiam mesmo um grande tesouro:
nunca se viram [roupas] mais ricas!
Quando Huet viu as mulheres nuas,
que tinham a pele tão branca,
os corpos bem formados, os braços, as ancas,
para aquele lado seguiu a galope,
mas não lhes disse nem sim nem não,
antes pegou nas suas roupas,
deixando-as todas estupefactas.
Quando veem que ele leva as suas roupas,
a que era a líder desespera-se,
pois ele se vai com grande velocidade
e não tem intenção de voltar.
As donzelas lamentam-se muito,
gritam, desesperam-se e choram.
Enquanto elas se desesperam,
eis que o cavaleiro se aproxima,
que segue atrás do escudeiro.
Uma das donzelas falou
e disse: “Vejo cavalgar ali
o senhor do maldoso escudeiro
que nos roubou as roupas
e nos deixou todas nuas.
Supliquemos-lhe sem mais demora
que nos devolva as nossas roupas!
Se for um homem honrado, fá-lo-á.”
Então uma delas falou
e contou-lhe o ultraje.
O cavaleiro ficou indignado
pelas donzelas e teve grande pena.
Então esporeou tanto o cavalo
que alcançou Huet e disse-lhe:
“Entrega isso já, se Deus te ajude!
Essas roupas não as levas!
Seria uma grande vileza
envergonhar estas donzelas!”
– “Ora, pensa noutra coisa,
disse Huet, e não estejas louco!
As roupas valem bem cem libras,
pois nunca vi outras mais ricas.
Nem em catorze anos e meio
ganharás tu tanto,
por mais que vás a torneios!”
– “Por minha fé”, disse o cavaleiro,
“eu lhes devolverei as roupas,
aconteça o que acontecer.
Não me interessa esse tipo de ganho.
Jamais venderia tal coisa!”
– “Com razão sois um miserável!”
disse Huet, com grande irritação.
O cavaleiro pegou nas roupas.
Assim que pôde, foi ter com as donzelas,
que eram muito belas e encantadoras,
e devolveu-lhes as roupas.
Elas vestiram-se logo,
pois para cada uma já era muito tarde.
Então o cavaleiro partiu.

Tradução
Com a sua licença, voltou para trás.
A primeira das donzelas
falou às outras e disse-lhes:
“Donzelas, por Deus!
Este cavaleiro é muito cortês.
Muitos outros teriam preferido
vender bem caro as nossas roupas
antes de as devolver.
Teria ganho bastante dinheiro.
E sabei que este cavaleiro
nos tratou com grande cortesia,
enquanto nós fomos ingratas,
pois nada lhe demos
pelo que nos devesse agradecer.
Chamemo-lo de volta e recompensemo-lo bem,
pois ele é tão pobre que nada tem.
Que nenhuma de nós seja avarenta para com ele,
antes façamo-lo rico como um homem de bem!”
As outras concordaram com ela.
Chamaram então o cavaleiro,
e ele voltou de imediato.
A mais velha falou primeiro,
pois tinha o consentimento das outras:
“Senhor cavaleiro, pela minha fé,
não queremos, pois é justo,
que vos vás embora assim.
Servistes-nos generosamente.
Devolvestes-nos as vidas,
e agistes como um verdadeiro homem de bem,
e eu vos darei uma rica dádiva,
e sabei que não a perdereis.
Nunca voltareis a este lugar
sem que todo o mundo se alegre convosco,
e todos terão alegria por vós,
e vos oferecerão
tudo o que tiverem.
Nunca mais conhecereis a pobreza.
“Dama, isto é uma rica recompensa”,
disse o cavaleiro. “Muito obrigado!”
“O meu dom não será pequeno”,
disse a segunda donzela em seguida.
“Nunca mais ireis, seja perto ou longe,
sem que, ao encontrar mulher ou animal,
desde que tenha dois olhos na cabeça,
se chamares a sua vagina,
ela terá de vos responder.
Tal será doravante a sua sorte.
Que ele esteja certo disso,
pois nem rei nem conde tiveram tal dom.”
Então o cavaleiro sentiu vergonha,
e tomou a donzela por louca.
E a terceira então falou,
e disse ao cavaleiro:
“Belo senhor, sabeis o que vos direi?
Pois bem é razão e justiça
que, se a vagina por acaso
ficasse impedida de falar,
e não pudesse responder de imediato,
que o cu respondesse por ela,
seja qual for a situação.
se vos o chamásseis sem demora.”
Então o cavaleiro envergonhou-se,
pois pensou que zombavam dele
e que o estavam enganando.
Sem mais demora, pôs-se a caminho.
Quando contou tudo a Huet,
narrou-lhe a rir o ocorrido:
exactamente como ouvistes no conto:
“Zombaram de mim, aquelas do prado!”
E Huet disse: “Acho isso muito engraçado,
pois é tolo, por São Germano,
quem deita ao chão o que tem na mão
e o desperdiça sem pensar!”
“Huet, creio que tens razão.”

“disse o cavaleiro, isso me parece!”
Então surgiu, parece-me,
um sacerdote sem mais gente
que cavalgava uma jumenta.
O sacerdote era poderoso e rico,
mas ele era ávaro e mesquinho.
Queria atravessar o caminho
e ir para outra vila
que estava bastante perto dali.
O sacerdote vê o cavaleiro.
Ele vira a sua jumenta em direção a ele,
então desceu rapidamente
e disse-lhe: “Senhor, bem-vindo!
Agora peço que fiquem comigo
por um tempo, para vos entreter.
Tenho grande desejo e vontade de vos servir
com honra e alegria.
Tudo o que tenho está à vossa disposição,
não duvideis disso!
O cavaleiro se maravilhou
com o sacerdote que não conhecia,
e pediu para ficar mais um pouco.
Huet o sabia, e disse-lhe:
“Senhor, disse ele, se Deus me ajudar,
as fadas vos disseram a verdade!
Agora podeis perceber!
Mas chama rapidamente
A vagina da grande jumenta.
Ireis ouvi-la falar, creio eu!”
Disse o cavaleiro: “Eu o farei.”
Agora começa a dizer-lhe:
“Senhora vagina, onde vai o vosso senhor?
Dizei-me, não mentais!
“Pela minha fé, ele vai ver sua amiga,
disse a vagina, senhor cavaleiro,
e leva-lhe boas moedas,
dez libras de boa moeda
que ele tem em um saco
para comprar um manto para terça-feira.”
E quando o sacerdote entendeu
que a vagina falava tão bem,
ficou surpreso, sem saber o que fazer.
Pensou que fosse encantamento e traição.
Com medo, ficou um pouco perdido,
e, para escapar rapidamente,
tirou a capa apressadamente,
e as moedas e o saco
jogou tudo no meio do caminho.
Sua jumenta parou e fugiu rapidamente.
Huet viu e correu rapidamente.
E o sacerdote, sem dizer uma palavra,
Abandonou o jogo rapidamente,
fugindo por um atalho.
Por cem marcos, ele não voltaria!
O cavaleiro pegou as moedas,
e Huet agarrou a jumenta
que estava muito bem alimentada,
depois encontrou a capa forrada.
Riram muito dessa aventura!
Então partiram com grande alegria.
Agora o cavaleiro está todo feliz.
E deu as moedas a Huet,
das quais ele tinha cerca de dez libras.
Disse a Huet: “Seria muito ingrato de minha parte,
se eu tivesse agora retido
as roupas e deixado as donzelas nuas,
as donzelas livres e desprotegidas.
Sei bem que elas eram fadas.
Um rico prémio me foi dado.
Antes que tivéssemos gasto
toda essa riqueza e esbanjado tudo,
teremos mais do que suficiente
pois tal pagará nosso tributo
quem não sabe de nada disso!
Huet, ele não ganha nada
quem conquista pela vilania,
antes perde honra diante de todos.
Nunca haverá boa fala ou boa história
que venha dele em corte ou retrato.
Melhor seria ter sido enganado
do que ter acreditado em ti antes.
Meu nome teria sido desacreditado
e desonrado, na minha opinião!”
Assim continuam os dois a conversar
até chegarem a um castelo
muito bem situado, forte e belo.
Não sei como continuaram a história.
No castelo havia um conde
e a condessa com sua esposa,
que era muito bela e uma dama corajosa,
e tinha mais de trinta cavaleiros
Imediatamente entrou no castelo
aquele que fazia as vaginas falarem.
Todos correram para saudá-lo
porque queriam muito acompanhá-lo,
com isso ele ficou muito feliz.
No meio da vila havia um espaço
onde toda a gente estava,
ali estavam o conde e a condessa,
que não eram loucos nem faladores,
soldados, damas e cavaleiros,
e donzelas e escudeiros.
Então o cavaleiro entrou,
e Huet, que ficou ao seu lado.
Eles não pararam para descansar,
e quando as pessoas os olharam,
cada um correu para seu lado.
O próprio conde foi atrasado
até que o abraçou e beijou.
Beijou-o na boca.
Assim também a condessa o abraçou.
Mais prontamente do que ouviu a missa
beijou-o vinte vezes, bem perto
se o conde não estivesse tão perto!
E ele desce em direção às pessoas.
Não há cavaleiro ou soldado
que não o tenha saudado de coração.
Com grande alegria, o conduziram
diretamente para o salão do conde,
depois não demoraram para continuar,
antes se sentaram para o jantar
todos os cavaleiros e os servos
que tinham grandes encargos com seu anfitrião,
depois conversaram sobre ir dormir
pois estava uma noite escura e densa.
A condessa se preocupou muito
com seu anfitrião, muito satisfeito.
Certamente fez muito para agradar!
Em um quarto de grande prazer
fez preparar um leito para todos.
Todos se deitaram e descansaram.
E a condessa, ao fim da noite,

chamou uma de suas donzelas,
a mais valente e a mais bela.
Em conselho lhe disse: “Bela amiga,
vá, e que não vos possa impedir,
com o cavaleiro deitar-se
toda alegremente e com calma,
para que amemos muito a chegada.
Deite-se com ele toda nua,
pois ele é muito belo, o cavaleiro.
Eu iria com prazer,
– mas não deixaria por vergonha –
se não fosse pelo meu senhor, o conde,
que ainda não está adormecido.”
E ela foi com grande vontade,
mas não ousava se esconder.
No quarto onde ele dormia
entrou trêmula como uma folha.
Quando ela pôde se despir,
deitou-se ao lado dele, e se estendeu.
E quando o cavaleiro a sentiu,
imediatamente acordou,
e ficou surpreso.
“Quem é esta, disse ele, ao meu lado?
Senhor, não fique irritado,
disse ela, que foi simples e tranquila,
pois a condessa me enviou aqui.
Sou uma de suas donzelas.
Não vos causarei mal nem aborrecimento,
ao invés disso, tocarei vossa cabeça.
“Por fé, isso não me incomoda!”
disse o cavaleiro, que a abraçou.
Beijou-lhe a boca e o rosto,
e apalpou-lhe os seios
que ela tinha muito brancos e belos,
e colocou a mão sobre o ventre.
E logo o cavaleiro disse:
“Senhora vagina, agora fale comigo!
Quero perguntar-vos por que
a vossa dama veio até aqui.
“Senhor, disse a vagina, obrigado!
Pois a condessa me enviou aqui
para vos trazer alívio e alegria.
Não quero mais esconder isso de vós.”
Quando ouviu a vagina falar,
ficou muito surpresa.
Saltou da cama completamente nua,
foi para a estrada, atrás,
e não levou nada além de sua camisa.
E a condessa a chamou de volta,
e perguntou-lhe a novidade.
“Por que deixaste o cavaleiro
que ontem se hospedou aqui?”
“Dama, disse ela, vou contar-vos
que não vos mentirei.
Fui deitar-me com ele,
despindo-me completamente.
Ele começou a interpelar a minha vagina,
fê-la falar com ele por bastante tempo.
Tudo o que ele pediu
ouvi eu, a minh vaginalhe contou!
Quando a condessa ouviu a maravilha,
que nunca antes ouvira algo igual,
disse que não acreditava,
e ela jurou-lhe e garantiu
que isso é verdade, o que ela lhe conta.
Então deixaram o conde
até o amanhecer, quando ele acordou,
e o cavaleiro se levantou.
A Huet, seu escudeiro, disse,
que já estava na hora de cavalgar.
Huet foi colocar as selas.
A condessa ouviu a novidade
sobre o cavaleiro que queria partir.
Mais cedo do que ela esperava,
veio até o cavaleiro e disse-lhe:
“Senhor, disse ela, se Deus me ajude,
não podeis ir ainda
antes do almoço!”
“Dama, disse ele, se Deus me vê,
não esperarei o almoço por nada,
se isso não vos desagradar muito,
pois tenho um longo dia pela frente.
“Tudo isso”, disse ela, “não vale nada.
Farás bem a vossa jornada!”
Ele vê que não pode ser diferente,
e ficou, pois precisava fazer o que deveria.
E quando ouviram a missa,
o conde e a condessa,
e todos os outros cavaleiros
logo se sentaram à mesa.
E quando o almoço chegou,
começaram a falar
os cavaleiros sobre vários assuntos,
mas aquela que não podia se calar,
a condessa, falou em voz alta:
“Senhores, disse ela, se Deus me proteja,
ouvi falar de cavaleiros,
soldados, burgueses e escudeiros,
e contando aventuras,
mas ninguém poderia se vangloriar
de uma aventura que ouvi ontem,
que houve um cavaleiro
que subiu toda a montanha,
pois ele tem tal poder
que faz a vagina falar para ele.
Tal homem merece muito louvor!
E saibam bem, por São Richier,
é o cavaleiro que chegou ontem!”

Quando os cavaleiros o ouviram,
ficaram surpresos com a maravilha.
Perguntaram ao cavaleiro
se a condessa disse a verdade.
“Sim”, disse ele, “sem dúvida alguma.”
O conde riu, assim como todos os outros,
e a condessa falou novamente,
que não era tola nem insensata:
“Doutos cavaleiros, como quer que aconteça,
eu quero fazer um acordo convosco,
colocarei 60 libras aí;
jamais a minha vagina seria parva ou bêbada
Para dizer uma única palavra!”
Assim que o cavaleiro ouviu,
“Dama, disse ele, se Deus me veja,
não tenho 60 libras,
mas colocarei de imediato
meu cavalo e todo meu equipamento
Aí o colocarei agora mesmo.
Metei o valor equivalente.
“Não peço mais”, disse ela,
mas não trarei dinheiro de ninguém
que não seja 60 libras,
se conquistarem o acordo.”

“Se eu ganhar, vocês irão
a pé e o equipamento deixarão.”
O cavaleiro concordou.
Depois discutiu a questão,
e nada fez além disso.
“Dama,” disse ele, “por três vezes
A vagina falará entre nós.”
“Sejam três, ou sete.”
Se quiserem mais, será mais.”
Mas antes de vocês chamarem,
irei ao meu quarto por um momento.”
Neste momento não houve contradição.
O acordo foi feito
e a condessa se levantou.
Foi diretamente para o seu quarto.
Ouçam o que ela planejou.
Pegou num punhado de algodão,
e com ele preencheu bem a sua vagina.
Ela tampou bem a abertura!
Com a mão direita fez pressão.
E colocou ali uma libra.
Agora a vagina não está aberta!
Quando a preencheu e arrumou,
e envolveu com o algodão,
Voltou à grande sala.
Disse logo ao cavaleiro
que fizesse o pior que pudesse,
que a sua vagina não responderia,
nem lhe contaria novidades.
O cavaleiro chamou a vagina:
“Senhora vagina”, disse ele, “pergunto-me
o que a vossa dama fez no seu quarto
Onde foi tão rapidamente.”
Mas a vagina não podia responder,
porque a boca estava entupida
com algodão bem tampado,
e ela não podia dizer nada.
E quando o cavaleiro viu isso,
que ela não respondeu à primeira,
chamou-a novamente,
mas a vagina não podia dizer nada.
Os cavaleiros não se contiveram de rir
quando ouviram que ela não falava.
Chamou o seu escudeiro,
e disse: “Agora perdi tudo”,
e Huet respondeu-lhe:
“Senhor, não tenha medo!
Não sabeis que a mais nova
das três donzelas que vos prometeu?
Ela vos disse,
que se a vagina não puder falar,
que o cu responderia por ela.
Ela não vos iria enganar!”
“Pela minha cabeça, Huet, tu dizes a verdade!”
disse o cavaleiro, rindo.
Chamou agora o cu,
e pediu-lhe com urgência
para que rapidamente lhe dissesse a verdade
sobre o porquê da vagina não falar.
O cu disse: “Porque ela não pode,
pois sua boca está totalmente cheia
não sei se é com algodão ou lã,
que minha dama colocou lá antes
quando entrou na sua câmara,
mas se o algodão estivesse fora,
saibam que ela então falaria!”
Quando o cavaleiro ouviu isso,
imediatamente disse ao conde:
“Senhor, juro por minha fé,
a dama me desprezou,
quando ela envolveu a sua vagina.
Agora sabeis que ela teria falado
se não fosse por ela ter colocado lá.”
O conde disse à condessa
que ela precisava de a liberta.
Ela não ousou recusar,
então foi libertar a sua vagina,
de todo o pano de algodão.
Com um gancho, o retirou de lá.
Arrependendo-se muito quando o retirou!
Então voltou para trás sem falhar.
Sabe bem que perdeu a partida
que tinha feito, e foi parva.
O cavaleiro falou com a vagina,
e perguntou o que devia
mas não respondeu imediatamente.
A vagina disse: “Eu não posso,
porque estou entupida
com o algodão que minha dama colocou.”
Quando o conde ouviu isso, riu muito
e todos os cavaleiros riram com ele.
Disseram muito bem à condessa
que ela perdeu. Ela não disse mais nada,
mas agora fez a paz com o cavaleiro,
e ele fez assim. Não demorou mais,
pagou-lhe 60 libras,
e ele as recebeu com grande alegria,
pois precisava de dinheiro
e teve tanta sorte
E todos o amaram
e fez tanto quanto viveu.
Felizes foram aqueles que nasceram assim
e a quem tais bens foram dados!
Assim termina o conto.

“A Ilha dos Animais”, um texto medieval

É provável que existam muitos textos com o simples nome de A Ilha dos Animais, mas o tema de hoje prende-se com uma fábula muito curiosa presente na chamada Enciclopédia dos Irmãos da Pureza. A obra, em si própria, trata-se de uma colectânea de textos filosóficos islâmicos compostos no Iraque por volta dos séculos X e XI da nossa era, alguns mais interessantes do que outros, e entre os quais se conta o texto de hoje, uma fábula deliciosa sobre a natureza dos animais e a sua posição societal na cultura islâmica. Visto que parece ser muito pouco conhecida nas culturas portuguesas, decidimos apresentá-la aqui nas suas linhas gerais.

 

Esta história de A Ilha dos Animais conta-nos, portanto, que em outros tempos um grupo de Homens mudou-se para uma ilha misteriosa povoada por animais e Génios*. Inicialmente todos eles coexistiram sem problemas de maior, mas depois os seres humanos lá decidiram começar a utilizar os animais como bem desejavam, tratando-os como se fossem meros escravos, ao ponto de lhes baterem, não lhes darem comida, e outras coisas tristes como essas. E então, incapazes de suportar essas ocorrências por muito mais tempo, os Animais decidiram revoltar-se e levar o seu caso ao rei dos Génios, com vista a provar que não mereciam ser escravos dos Homens.

O que depois se seguem são um conjunto de debates entre os representantes da raça humana e diversas figuras emblemáticas de sete diferentes classes de animais – um chacal, um rouxinol, o rei das abelhas, etc. – cada qual com as suas forças e fraquezas particulares. No seu geral, os Homens apresentam um argumento para a sua superioridade, e depois ele é respondido com sucesso pelos animais. Muito curiosamente, os seres humanos parecem perder cada um desses pequenos debates, demonstrando-se repetidamente uma ausência da sua (suposta) força face aos opositores. E esse padrão vai-se repetindo até à aparição de um argumento muito fulcral.

Perto do final da história de A Ilha dos Animais, um “homem de Meca e de Medina” (provavelmente uma referência a um Islâmico, já que existiam várias outras religiões na ilha) levanta o argumento de que o Homem é superior a todos os outros animais porque Alá lhe prometeu a vida eterna, como pode ser lido no Corão. Os animais levantam a oposição de que essa promessa também tem um lado oposto, que os seres humanos maus também poderiam ser condenados eternamente ao Inferno, enquanto que eles jamais eram punidos pela entidade divina… e então, chega-se, filosoficamente, à ideia de que se os Homens pareciam ser superiores aos outros animais, com essa sua força também vem associada a necessidade de tratarem bem os seus supostos inferiores, sob pena de irem mesmo parar ao reino dos Infernos. Pouco depois, a história conclui que os Animais não são escravos dos Homens, mas ambos existem para venerar o seu criador comum…

 

Filosoficamente, talvez até pudesse ser dito muito mais sobre esta composição d’ A Ilha dos Animais, mas de um ponto de vista da trama – que é o mais relevante para estas nossas linhas – o digno de nota é mesmo o facto dos seres humanos serem apresentados num repetido e complexo debate filosófico contra os animais, mas sem que os consigam vencer com a facilidade que seria de supor num contexto aristotélico. E isso torna a obra, e os argumentos que vai apresentando para ambos os lados, particularmente digna de ser lida. Infelizmente, não parece existir em Português, mas existe tanto em tradução como em adaptação inglesa, sendo particularmente digna de nota uma versão de Denys Johnson-Davies que, apesar de cortar alguns capítulos secundários e omitir a riqueza de muitos dos debates, ilustra ricamente os episódios que vão tomando lugar ao longo da história.

 

 

*- Estes Génios, ou Djinns, podem neste contexto ser considerados como uma espécie de entidades semidivinas criadas por Alá e que se encontram num patamar existencial entre os seres humanos e Deus – um capítulo deste texto até parece equipará-los aos Nefilins. Não estão necessariamente associados a uma lâmpada mágica, como na famosa história de Aladino (que apresenta aquele que é, sem dúvida, o Génio mais famoso da nossa cultura ocidental), mas sim alguns poderes mágicos e uma grande sabedoria, podendo ser bons ou maus conforme as suas naturezas individuais.

Porque usamos os números árabes? O “Liber Abaci”!

Perguntar porque usamos os números árabes em Portugal, e nas civilizações ocidentais, é algo em que as pessoas pouco pensam hoje em dia. Sim, até (ainda) aprendemos os números romanos na escola, e eles ainda nos levantam algumas questões – o 4 deve ser escrito IV ou IIII, como devemos o escrever mil, etc. – mas a pura existência de dois sistemas numéricos levanta a ideia de que terá existido um período em que uns deixaram de ser utilizados e outros passaram a sê-lo. É evidente que isto não aconteceu de um dia para o outro, nunca houve um momento específico em que alguém dissesse “hoje escrevemos III mas amanhã vamos passar a escrever 3”, mas então… porque passámos a utilizar esses novos algarismos em oposição aos que o Império Romano utilizou durante séculos?

 

A resposta passa por um homem chamado Leonardo de Pisa, mas que ficou mais conhecido historicamente pelo nome de Fibonacci. O seu pai era um mercador, tinha de viajar bastante por motivos profissionais, e então em dada altura da sua vida o jovem deu por si na antiga cidade de Bugia, na Algéria, onde aprendeu os números árabes. Ele parece ter notado que esses outros números tinham diversos benefícios face aos números dos romanos, e então por volta dos seus 30 anos de idade, no ano de 1202, escreveu um livro sobre eles que nos ficou conhecido como o Liber Abaci, ou seja, o “Livro dos Cálculos”.

Porque usamos os números árabes? O "Liber Abaci"!

Acima podem ser vistos dois momentos deste Liber Abaci. No primeiro, acima da linha cinzenta, pode ser vista a primeira utilização significativa daquilo a que chamou as “figuras dos árabes” numa obra da Europa Medieval, na sequência “9 8 7 6 5 4 3 2 1”, a que depois o autor acrescenta o zero, “[0] a que árabes chamam zephir.”

Um pouco mais abaixo, depois da linha cinzenta, pode ser vista uma tabela comparativa de alguns números romanos com os árabes, com intenção de mostrar, por exemplo, que era mais fácil escrever 4321 do que MMMCCCXXI, ou 3020 do que MMMXX. E sim, claro que isto é muito interessante, mas ambas as sequências vêm do primeiro capítulo da obra, em que Fibonacci pretendeu demonstrar o interesse destes caracteres… e, portanto, na verdade de que mais fala este seu Liber Abaci?

 

É um daqueles livros que mudaram mesmo o mundo, mas que já quase ninguém lê nos nossos dias, à semelhança do Diálogo sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo (de Galileu), ou da obra Da Revolução das Esferas Celestes (de Copérnico). Visto que é de difícil acesso – não é propriamente possível ir a uma livraria dos nossos dias e comprar uma cópia desta curiosa obra – podemos então esclarecer o seu conteúdo. O Liber Abaci começa por esta apresentação dos números árabes, antes de se focar em explicar como realizar as quatro operações – multiplicação, soma, subtracção e divisão – com eles. Prossegue demonstrando os benefícios que tudo isto tinha para as transacções comerciais (relembre-se que Fibonacci estudou estes temas precisamente por razões comerciais), antes de se focar em alguns problemas matemáticos, terminando ao demonstrar como tudo isto podia ser utilizado na Geometria. Para nós, hoje, algumas destas sequências são mais interessantes do que outras, mas a puro título de curiosidade merece ser parafraseado aqui um exemplo de problema matemático constante na obra:

Suponha-se que um casal de coelhos dá à luz um outro a cada novo mês, e começa a fazê-lo apenas um mês após o seu nascimento – quantos coelhos terá o seu dono após o período de um ano? No início existe apenas um casal, no final do primeiro mês existem dois, do segundo três, do terceiro cinco, do quarto oito… até que, ao final do período de doze meses, ou um ano, existem 377 casais de coelhos!

 

Interessante, não é? Claro que estas mesmas contas também já antes poderiam ser realizadas com  recurso aos números romanos, mas ao mostrar (muitos) exemplos como estes, o que Fibonacci pretendia fazer no seu Liber Abaci era demonstrar que elas eram muito mais fáceis de realizar com os números árabes. Como é natural, 19 – 1 = 18 ocupava menos espaço, e era muito menos complexo, do que estar a pensar em coisas como XIX – I = XVIII, até porque implicava alterar somente um dígito!

 

Então, e em suma, porque usamos os números árabes? Devemo-lo essencialmente a Fibonacci, em inícios do século XIII, por ter demonstrado no seu Liber Abaci que a utilização deste outro sistema, por oposição ao dos números romanos, era muito mais simples e resolvia diversos problemas do sistema anterior, tendo até múltiplos benefícios para os negócios, para os governos, para os cidadãos privados nos seus problemas diários, etc. E, se assim o era, porquê continuar a utilizar os sistemas mais antigos? Não havia qualquer boa razão para tal, e por essa razão os números árabes foram progressivamente substituindo os seus antecessores na cultura ocidental…

O primeiro mito do Zoroastrianismo (e a origem do bem e do mal)

Falar deste primeiro mito do Zoroastrianismo é, talvez mais que tudo, falar de um tempo já tão recuado que ninguém parece saber muito bem quando foi. Diz-se, hoje, que o fundador dessa religião, um tal Zoroastro ou Zaratustra, viveu há cerca de 3000 anos atrás, mas nem disso se tem qualquer certeza. O que se sabe bem, no entanto, é que foi ele o criador de um conjunto de ideias filosóficas e religiosas que tiveram um impacto tão profundo na humanidade que já ninguém sequer pensa de onde vieram, tão naturais que acabaram por se tornar.

Pense-se, por exemplo, na oposição composta pelo “bem” e pelo “mal”. Um desses elementos implica necessariamente a existência do outro. Ou “luz” e “trevas” – mais uma vez, cada um dos dois pode ser definido como a ausência do outro. E poderíamos aqui dar N outros exemplos, mas pretendemos é chegar à ideia de que a existência de dualidades, divinas ou mais terrenas, parece ter nascido com o Zoroastrianismo, ou pelo menos sido muito popularizada por este. Antes desta religião os deuses e heróis parecem ter sido figuras essencialmente amorais (e.g. o mito de Lugalbanda), quase humanos como nós (e.g. vejam-se, por exemplo, as paixões de Zeus, em que ao deus grego nunca é apontada qualquer necessidade de fidelidade!), mas aparenta ter sido com esta religião que um aspecto fulcral da sua existência se alterou e modificou o pensamento da humanidade no Ocidente para sempre.

O primeiro mito do Zoroastrianismo

Segundo a revelação de Zoroastro, numa dada altura muito remota nada existia excepto duas divindades – “Ahura Mazda” (ou “Ormasde”) e Arimã (ou “Angra Mainiu”). Elas eram completamente opostas em tudo, pelo que quando a primeira gerava “algo”, a outra tinha igualmente o poder de gerar o seu contrário, como se de uma espécie de sombra constante se tratasse, num processo que se repetiria até ao fim dos tempos. Por exemplo, em dada altura a primeira cria um determinado animal, como um cão, e a outra gera uma espécie de contrário, como um lobo, para que ambos se pudessem defrontar num combate eterno. A ideia repete-se opondo um mangusto a uma cobra, etc. E então, justificava-se pelo conflito contínuo entre estas duas figuras todos os problemas do nosso mundo… e assim se gerou a grande ideia de um “bem” e um “mal”, opostos em tudo!

 

Toda a ideia é muitíssimo bem captada no Bundahishn, um texto zoroastriano possivelmente do século VIII da nossa era (mas baseado em fontes literárias anteriores, já perdidas), no qual aparece a seguinte sequência:

Arimã contra Ormasde;
[Outras divindades aqui]
(…)
Mentira e falsidade contra a verdade;
Excesso e deficiência contra moderação;
Maus pensamentos, palavras e actos contra bons pensamentos, palavras e actos;
O mau caminho contra o bom caminho;
(…)
Indolência contra diligência;
Vingança contra a paz;
Dor contra o prazer;
Mau cheiro contra a fragrância;
Escuridão contra a luz;
Veneno contra o antídoto;
(…)
O Inverno contra o Verão;
O frio contra o calor;
A secura contra a frescura;
(…)

Esse constante estabelecimento de oposições entre as duas grandes figuras do Zoroastrianismo é um elemento muitíssimo repetido na teologia dessa religião, mas nas suas muitas histórias vão aparecendo, aqui e ali, outros elementos curiosos. Por exemplo, as mulheres começaram a ter a sua menstruação por influência do deus “maldoso”; pela acção do séquito do tal vilão dois gémeos fizeram amor após 50 anos de espera para que toda a humanidade pudesse ser gerada; e o deus “bondoso” criou as mulheres com uma característica muitíssimo curiosa, que até pode ofender algumas das pessoas que nos lêem mas é digna de ser recordada aqui, numa outra citação do Bundahishn:

[As mulheres terão] uma boca perto do ânus para que a relação sexual pareça aos seres humanos o mais doce dos sabores da comida na boca.

 

Tudo histórias interessantes, não haja qualquer dúvida, que um outro dia talvez venhamos a recordar por aqui, mas o que nos interessa hoje é somente o primeiro mito do Zoroastrianismo, o da criação de tudo o que existe por duas figuras completamente opostas mas curiosamente complementares. Essa ideia, por simples que hoje nos pareça, teve um impacto significativo em figuras ocidentais como Platão e em religiões como o Maniqueísmo, e foi tão famosa que ainda chegou ao nossos dias, por muito que tenhamos esquecido de onde ela vem – aponte-se que a religião de Zoroastro ainda existe, mas os seus crentes são cada vez menos frequentes, e não encontrámos sequer um único em Portugal.

 

Mas, ainda sobre todo este tema, uma última curiosidade. Quando gerámos a imagem ali em cima, que deveria representar a oposição destes dois deuses essenciais, um sistema informatizado colocou uma terceira figura, branca, entre eles. Não é possível descobrir porque o fez, mas corresponde, de facto, a uma evolução curiosa desta religião – se os textos, hoje quase perdidos, diziam que apenas zurvan existia antes das criações feitas por estes dois deuses, alguns crentes humanizaram essa figura – que originalmente significava apenas “o tempo” – e criaram o Zurvanismo, que mais do que venerar os dois “irmãos”, tinha por grande e único deus aquela estranha entidade que os parecia ter criado. Mas isso já são outras histórias, demasiado afastadas do tema de hoje…

A (verdadeira) lenda do Cavaleiro Verde

Em 2021 apareceu nos cinemas um filme que em português tinha o título de A Lenda do Cavaleiro Verde. O actor por detrás da personagem principal era Dev Patel, que fazia de Gawain, e quem tenha visto o filme (e, aparentemente, foram poucos os que o fizeram) poderá ter-se apercebido que este era baseado num mito arturiano, outrora um tanto ou quanto conhecido. O filme, em si, tem o seu quê de encanto (um trailer pode ser visto carregando na imagem abaixo), mas um dos elementos mais intrigantes da sua trama é, sem dúvida, o facto de ele reutilizar diversos elementos da lenda original mas sem nunca revelar os seus verdadeiros significados. Assim, o filme só pode ser percebido de uma forma completa se for visualizado em comparação e contraste com a lenda original. Fazer isso de uma forma completa ultrapassaria o objectivo das linhas de hoje, mas podemos aqui contar o cerne da própria lenda, tal como ela era conhecida na versão mais famosa da história.

A verdadeira Lenda do Cavaleiro Verde

Conte-se, portanto, esta lenda do Cavaleiro Verde. Um dia, enquanto o Rei Artur e os seus cavaleiros se banqueteavam na altura do Natal, surgiu-lhes em plena corte uma misteriosa figura de cor verde, que os convidou a uma espécie de jogo natalício muito incomum. Ela convidou um dos membros da corte a desferirem-lhe um golpe com o enorme machado que portava, e no ano seguinte essa pessoa deveria procurá-lo e receberia de volta um golpe semelhante, após o qual poderia ficar com o poderoso machado para si. Se Artur quis, inicialmente, aceitar esse desafio, depois foi Gawain que o aceitou, talvez em busca da sua fama, cortando o pescoço do estranho gigante com um só golpe… apenas para depois, de uma forma muito surpreendente, o ver a pegar na cabeça decepada, avisar o herói para este não esquecer o seu lado do “jogo”, e ir-se embora.

Durante o ano que se seguiu Gawain não soube muito bem o que fazer, mas lá decidiu que deveria cumprir a sua promessa – quanto mais não fosse, as regras da cavalaria assim o exigiam – e partiu em busca do Cavaleiro Verde, que então o esperava numa capela verde. Teve algumas aventuras pelo caminho, nomeadamente uma visita a um palácio em que foi muito bem tratado e seduzido pela esposa do senhor local. Finalmente, lá chegou à capela do opositor, onde o estranho inimigo, após algumas hesitações por parte do herói, lá cumpriu a sua parte do “jogo”… mas Gawain não morreu, porque, na verdade, este estranho homem verde era uma transformação do tal senhor em cujo palácio ele tinha vivido por algum tempo, e que por este meio pretendia vir a punir alguma infidelidade da parte do jovem – algo que, no entanto, não teve de fazer, porque Gawain sempre se “portou bem” nos seus domínios.

 

Alguns elementos desta história contrastam um pouco com os apresentados no filme A Lenda do Cavaleiro Verde, em que a verdadeira identidade do chamado “Homem Verde” não é revelada, mas outros elementos da história também divergem nessa representação cinematográfica, chegando Gawain a envolver-se, de forma discutivelmente sexual, com a bela senhora do palácio. Face a isso, pode surgir uma inesperada interpretação para o final do filme – será que nesta versão o herói morreu mesmo, decepado pelo tal Cavaleiro Verde? Isso não é nem confirmado, nem contradito na trama, mas é provável que o possível desfecho se destinasse a captar um elemento muito particular da literatura de ficção da Idade Média, em que por vezes existiam diversas versões de uma história, com vários elementos comuns mas também múltiplas diferenças.

Outro elemento digno de nota no filme é um momento insólito em que as personagens se perguntam a razão da cor do Cavaleiro Verde. É aquele tipo de coisas muito debatível nos nossos dias, mas a lenda original não só diz que a pele desta personagem era completamente verde, mas também partilhava essa característica com o próprio cavalo que a transportava, sendo que as razões para tal nunca são reveladas. Assim, muitas poderão ser as razões por detrás dessa sua cor – basta, por exemplo, pensar-se na lenda das crianças verdes de Woolpit, que partilhavam desta característica – mas, para nós e depois de vários debates, pensamos tratar-se de uma alusão à morte e renascimento da natureza, até pelo facto deste estranho cavaleiro – uma possível representação do mundo natural – ter sobrevivido a um golpe que seria claramente mortal para qualquer ser humano… mas, repita-se, é muito discutível!

 

Portanto, o filme A Lenda do Cavaleiro Verde merece, verdadeiramente, ser visto e comparado com a obra literária de autoria anónima, quanto mais não seja para que se suscite algum debate prolífico entre os visualizadores e leitores, com vista a que se perceba toda a história de forma muito mais completa…