O livro das Viagens de Marco Polo é daquelas obras que, apesar da sua enorme importância cultural, esquecemos ao longo dos anos. Acontece (!), nem sempre é possível reler e apresentar por aqui todas as grandes obras que foram mudando o nosso mundo, apesar de esta já aqui ter sido mencionada antes, por exemplo, em relação ao destino final dos três Reis Magos ou ao segredo do Unicórnio. Esta é, sem qualquer dúvida, uma obra que já foi muitíssimo famosa, mas será que ainda tem alguma importância para os dias de hoje? Foi precisamente para tentar responder a isso que nos dedicámos à sua releitura.

Esta obra das Viagens de Marco Polo pode, na sua essência e para estas nossas linhas, ser dividida em cinco partes, que não são as originais. A primeira delas apresenta, de uma forma breve, a figura do viajante – não foi apenas ele o autor da obra, mas foi ele que a ditou a um Rustichello da Pisa, quando ambos estavam presos – e a forma como ele teve acesso a tudo o que conta no decorrer do texto. É, verdadeiramente, um prefácio essencial para que se possa compreender o contexto de toda a obra.
A segunda parte explica como é que este Marco Polo se dirigiu para a corte de Kublai Khan, em meados do século XIII, e vai contando o que este homem foi vendo pelo caminho. A essa se segue uma terceira parte, na qual nos são contadas as desventuras deste homem em terras da China, tanto ao nível de viagens físicas como da cultura local, preservando esta obra, por exemplo, aquela que parece ser uma das mais antigas referências ocidentais ao “dinheiro em papel” chinês. Essas “notas”, como lhes chamamos hoje, só viriam a ser implementadas na Europa centenas de anos mais tarde!
A quarta parte conta-nos um pouco das suas viagens nas ilhas de um contexto asiático, nomeadamente o que viu em terras de Zipango / Cipango, o actual Japão. E, para terminar, uma quinta e última parte refere, de uma forma mais breve, alguns dos confrontos em que o país de Kublai Khan se encontrou envolvido.
No decurso de todos esses capítulos, Marco Polo e o autor que se lhe encontra bem associado vão contando ao leitor todo um conjunto de coisas que o primeiro diz ter visto, e que vão desde tradições locais, até a descrições geográficas, passando por coisas que, na época, poderiam parecer completa fantasia. Seriam verdade? Ou, perguntando melhor, terão sido elas verdade? Se muitos dos capítulos da obra, quando colocados em contexto, poderiam soar a falso, hoje já podemos afirmar que a maior parte da obra tem um conteúdo bem real, falando-nos de coisas que Polo só poderia ter sabido ao viajar, de facto, pelos locais que diz que visitou. E, de facto, até existe uma espécie de lenda italiana que diz que os familiares deste viajante lhe pediram, quando estava prestes a falecer, que lhes contasse a verdade, que dissesse que as famosas viagens eram mentira… ao que ele respondeu que não só contou a verdade, como nem chegou a contar metade do que viu!
Por toda esta informação poderíamos supor que as Viagens de Marco Polo foram uma obra maçuda, com dezenas e dezenas de páginas de descrições que já pouco ou nada nos importam, mas o que elas têm de interessante passa pelo facto de ele nos dar, em alguns casos, informação que pode ser verificada como real. Ele fala de uma guerreira de nome Khtulun, uma espécie de Atalanta medieval, que defrontava os homens que queriam casar com ela, mas que ela insistia em vencer – e, contrariamente à heroína dos Gregos, nunca parece ter sido vencida nesse combate. Ou fala de um suposto túmulo de São Tomé na Índia – é hoje a Basílica de São Tomé, em Chenai. Ao mesmo tempo, aqui e ali relata algumas coisas que não parecem ser reais, como a existência de duas ilhas, uma populada só por mulheres e outra só por homens, que lá tinham as suas interacções ocasionais.
O que dizer, então, destas Viagens de Marco Polo? Será que é uma obra que ainda merece ser lida, mais de setecentos anos após a sua escrita? Como no caso da famosa obra de Galileu, tudo depende do leitor, e do seu potencial interesse em conhecer textos que mudaram o mundo. Este não é, admita-se, um livro que mude a vida do seu leitor, nem um Consolo da Filosofia, mas é interessante na medida que permite ter acesso a um mundo que, para nós e na Idade Média, estava completamente oculto nas trevas. Se lido numa edição com bons comentários, o leitor até pode comparar a “ficção” com a realidade, tornando-lhe possível conhecer um pouco melhor este nosso mundo. Não é essa uma cultura geral, e uma diversidade de ideias, que hoje muito se prega?