A lenda de Nossa Senhora dos Covões

Nossa Senhora dos Covões é (hoje) a designação dada a uma capela na zona de Alvaiázere, no distrito de Leiria, em Portugal. Iremos então contar a lenda que lhe costuma estar associada, antes de avançarmos para um pequeno segredo que alguns locais parecem desconhecer.

A Nossa Senhora dos Covões

Sobre a lenda que veio a originar esta capela, diz-se então que numa data desconhecida andava por estes montes e vales uma pastora com o seu rebanho. Já aí tinha passado muitas vezes antes, voltaria a fazê-lo tantas outras no futuro, mas nesse dia apercebeu-se da existência de um covão, i.e. uma espécie de gruta pequena, no local. Quando espreitou para o interior, encontrou aí uma imagem de Nossa Senhora, que tentou levar para sua casa. Porém, por muitas vezes que o tentasse, a imagem regressava sempre a este seu nicho natural. Ás tantas a pastora lá desistiu e falou com um padre local, que levou a que fosse erigida uma pequena capela no local.

 

Não sabemos até que ponto toda esta história será verdade – a capela parece datar-se do século XVIII – mas podemos apontar que ela já teve outro nome, o de Nossa Senhora da Apresentação dos Covões, talvez por ter sido pela sua influência que foi possível encontrar todo o local. Depois, ao longo do tempo, por simplificação, é que o seu nome se tornou somente o de Nossa Senhora dos Covões, em virtude do local em que a sua padroeira foi encontrada.

 

Até aqui tudo bem, este tipo de lenda é extremamente frequente em Portugal – relembrem-se, por exemplo, os casos da Peninha, de Matacães ou de Nossa Senhora da Piedade da Merceana, entre infindáveis outros que existem até pelo mundo fora – mas parecem ser relativamente poucos os casos em que o próprio local onde se diz que a imagem foi encontrada continua a ser motivo de culto. Agora, se os habitantes locais dizem que tendem a encontrar sempre esta capela encerrada – e, infelizmente, também nós não conseguimos visitar o seu interior em tempo útil – pelo menos existe uma fotografia que mostra uma imagem da santa no seu contexto, e que foi tirada por Dias dos Reis no ano de 2008:

Imagem da Nossa Senhora dos Covões

Desconhecemos se esta será a imagem original, aquela que se diz que a pastora encontrou nos agora famosos covões, até porque tem aqui o nome de “Nossa Senhora da Memória”, possivelmente – e passamos a expressão – em memória dos eventos que a lenda diz que tomaram lugar no local. A fotografia permite-nos ver como é que o espaço original, que ainda existe, foi readaptado para conciliar uma espécie de caverna com um recanto religioso, permitindo-nos pelo menos imaginar como poderia ter sido antes, nos tempos da suposta descoberta desta imagem da mãe de Cristo. Por isso, se neste caso a lenda nem tem muito de único, o facto de este pequeno recanto continuar a existir é certamente digno de nota.

A lenda de Almofala

No município de Figueira de Castelo Rodrigo existe uma freguesia que tem o nome de Almofala. Hoje, e como informa uma espécie de site oficial, sabe-se que é provável que o seu nome tenha vindo do árabe almohala, i.e. “acampamento”, mas em outros tempos as populações locais contavam uma lenda para tentar explicar o nome da sua povoação. E é dela que aqui falamos hoje!

A lenda de Almofala

Numa data que o tempo já há muito fez esquecer parece ter ocorrido um homicídio nesta povoação, então com um nome agora desconhecido. Procurou-se o culpado, voltou-se a procurar, mas acabou por ser julgado – e condenado – pelo crime um homem que se dizia inocente. Muito protestou a sua inocência, mas o juíz local declarou-o culpado e condendou-o à morte na forca. Uns dias depois, quando estava a ser levado para cumprir a pena capital, começou a ouvir-se uma estranha voz a afirmar a inocência do homem. Procurou-se o responsável, apenas para todos os presentes se aperceberem que a voz vinha de uma árvore próxima do local – um álamo, choupo ou olmo. Totalmente incrédulo, o carrasco gritou “o Álamo fala!”, assim dando nome à povoação e salvando miraculosamente o homem que tinha sido condenado por erro do juíz.

 

Não conseguimos descobrir o que aconteceu à árvore falante desta lenda de Almofala (terá sido destruída pelos Espanhóis em 1642, como pode fazer subentender o site oficial?), nem se o verdadeiro culpado do tal homicídio alguma vez foi apanhado, mas esta história – que até nos poderá recordar, em parte, uma muito mais famosa, a do Galo de Barcelos – foi muito naturalmente criada para tentar explicar o nome da povoação numa altura em que os habitantes locais já tinham esquecido o seu sentido original. É difícil que tenha algum fundo de verdade, até porque mesmo em relatos miraculosos do nosso país as árvores muito poucas vezes falam aos seres humanos, mas não deixa de ser um relato delicioso de uma história associável a uma pequena povoação nacional.

Francisco de la Vega Casar, o homem-peixe de Liérganes

Como que inspirados pelo tema de ontem, referente a Matsya dos Hindus, hoje decidimos então aqui falar sobre o homem-peixe de Liérganes, no norte de Espanha, que tinha por nome original Francisco de la Vega Casar. É uma história famosa no local, e supostamente até real, que se diz ter tomado lugar em finais do século XVII.

Uma imagem meramente ilustrativa

Conta-se então que este jovem, Francisco de la Vega Casar, nasceu e cresceu em Liérganes, uma povoação no norte de Espanha. Um dia, quando foi tomar banho nas águas próximas, pareceu ter sido arrastado por elas e os seus companheiros acharam que ele se tinha afogado. E, como em muitos outros casos reais semelhantes, toda a história poderia ter ficado por aí, mas… não ficou!

Nos anos que se seguiram foram muitos aqueles que disseram ter visto em cursos de água uma criatura aquática que parecia humana mas que estava coberta de escamas. Com alguma dificuldade ela lá acabou por ser capturada, mas não dizia nenhuma outra palavra excepto “Liérganes”. Ao longo do tempo lá alguém se apercebeu que existia uma povoação com esse nome, levaram a estranha criatura para lá… e mal se encontrou no local, foi para casa da sua mãe, que depressa o reconheceu como o seu perdido filho. E então ele ainda viveu mais uns anos no local, antes de se atirar ao rio e desaparecer para sempre, nunca mais tendo sido visto novamente…

 

Este caso de Francisco de la Vega Casar, o homem-peixe de Liérganes, apesar de nos poder parecer estranho, não é único na cultura da época. Um episódio semelhante já aparecia na outrora-famosa novela Lazarillo de Tormes, de meados do século XVI, podemos relembrar o nosso Tritão da zona de Sintra, e figuras como estas também aparecem regularmente em manuscritos europeus (como o da imagem acima), mas o que torna esta ocorrência especialmente digna de nota é o facto de ela aparecer atestada na obra Teatro Crítico Universal do Padre Benito Jerónimo Feijoo. É provável que o nome da obra e do seu autor já diga pouco aos leitores hoje em dia, pelo que importa frisar que ele era muito céptico face a ocorrências como estas, mas no seu livro não só parecer acreditar nesta história, como dá a entender que tomou conhecimento dela por fonte primárias, por pessoas que diziam ter testemunhado tudo isto com os seus próprios olhos e que lhe pareceram fidedignas.

 

E, assim sendo, se não podemos ter a certeza absoluta do que se passou no local, pelo menos temos de admitir que “algo” se terá passado por lá, levando os cidadãos locais desta época a acreditarem que tudo isto era verdade. Terá sido um extraterrestre? Terá sido uma ocorrência completamente estranha e inesperada? Terá sido uma brincadeira parva de um adolescente? Não sabemos, nem podemos saber, tornando esta história famosa até aos nossos dias de hoje – por isso, se um dia estiverem por Liérganes, procurem o Centro de Interpretación del Hombre Pez, onde poderão conhecer um pouco mais da história do misterioso homem que nasceu com o nome de Francisco de la Vega Casar (e não, não fomos pagos para escrever estas linhas).

Viagem a Vale de Cavalinhos, terra de feitiçaria

O nome de Vale de Cavalinhos está hoje quase esquecido, mas em outros tempos acreditava-se que era o local em que bruxas, feiticeiras e outras entidades semelhantes se encontravam durante a noite, venerando o Diabo, baptizando novas crentes e preparando as nefastas magias com que depois iam afectando as populações de Portugal, entre outras coisas. E se, na verdade, o nome do local se foi mantendo ao longo dos séculos – Gil Vicente até o menciona no seu Auto das Fadas – como um espaço mágico por excelência, a título de curiosidade podemos perguntar onde ficava este local tão misterioso.

Será este o Vale de Cavalinhos?!

Uma rápida pesquisa pela internet revela que ainda hoje existem vários locais conhecidos pelo nome de Vale de Cavalinhos, como o mostrado na imagem acima, mas nenhum deles parece estar, nos dias de hoje, particularmente associado a práticas mágicas ou de feitiçaria. Assim, entre as muitas possibilidades que poderíamos levantar nesta nossa inquirição, depressa se cria a ideia de que o que devemos procurar não é um espaço que ainda exista hoje com esse nome, mas um que ou já não tem esse nome, ou por alguma razão deixou de estar associado a todo um conjunto de práticas mágicas que em outros tempos o fizeram famoso. E, de facto, até existe um local que partilha dessas duas características. Mas já lá iremos!

 

Quando, nesses outros tempos, se falava de Vale de Cavalinhos, um dos únicos pontos de referência que são dados em relação ao local é que provavelmente se situava próximo da cidade de Lisboa (e dizemos “provavelmente” porque se as bruxas voavam para lá por pura magia, torna-se difícil compreender o quão longe podiam viajar durante a noite). Agora, existiu um local nessa cidade que em outros tempos tinha o nome que procuramos, e que era então caracterizado pelos seus extensos olivais. Após o Terramoto de 1755 adoptou uma nova designação, a de “Vale de Santo António”, altura em que o local começou a ser ocupado por novas casas e até lá foi construída uma ermida, que ainda hoje pode ser vista na lisboeta “Rua do Vale de Santo António”. Essa alteração do nome do local, bem como a sua posterior ocupação por um espaço religioso cristão (em detrimento dos tais olivais de outros tempos), pode fazer crer que este tinha sido, em tempos mais antigos, aquele famoso espaço tão repetidamente associado à magia.

 

Temos alguma certeza real disto? Não, claro que não… É possível que as referências a um Vale de Cavalinhos na literatura mágica até se referissem a um espaço completamente diferente, como aquele da imagem ali em cima, até porque o seu acesso nocturno por meios mágicos não facilita uma limitação geográfica, mas o seu desaparecimento completo de referências literárias após um determinado período de tempo, bem como a necessidade de sacralizar o anterior espaço para o Cristianismo (criando-se a pura lenda de que Santo António aí descansou antes de abandonar o país), podem contribuir para se afirmar, com algumas certezas, de que este bem poderá ter sido o local em que, até ao século XVIII, se acreditava que as bruxas se reuniam durante a noite.

A origem do nome do Estádio da Luz

Se já cá anteriormente falámos sobre a origem do nome de Benfica, a freguesia lisboeta que depois também veio a dar parte do seu nome ao clube de futebol e de outras modalidades desportivas, hoje achámos que poderíamos falar sobre a origem do nome do Estádio da Luz. Agora, a parte inicial dessa exploração parece-nos bastante óbvia – o estádio tem esse nome porque foi construído numa paróquia de Lisboa que tinha o simples nome de “Luz” – mas pode e deve levar-nos a uma questão adicional, que é a de perguntarmos, então, de onde vinha esse simples mas incomum nome da paróquia. Ele vem, para quem estiver com essa curiosidade, da Igreja e Convento de Nossa Senhora da Luz, pelo que para se compreender toda esta sequência de informações é fulcral contar a lenda por detrás desse nome aí dado à Virgem Maria.

A origem do nome do Estádio da Luz

Conta-nos a lenda, hoje até imortalizada na pedra no local (ver acima), que por volta do ano de 1463 um tal Pero Martins, natural desta mesma paróquia, foi aprisionado em terras de África e escapou dessa prisão apenas por meio de um milagre da Virgem. As versões que consultámos nunca tornam explícito que milagre terá sido esse – o melhor que encontrámos foi uma breve alusão ao facto de a mãe de Cristo o ter confortado na sua tristeza – mas a história prossegue dizendo que foi apenas por essa intervenção miraculosa que ele conseguiu voltar a Portugal. Depois, um dia, quando voltou à sua terra de origem, estava próximo da chamada “Fonte da Machada” – que ainda hoje pode ser vista no interior da igreja que mencionámos acima – quando viu no local uma imagem da mesma santa que outrora o tinha auxiliado, mas agora também coberta por uma luz que brilhava tanto como o próprio Sol. Estupefacto, Pero Martins recolheu essa imagem e construiu no mesmo local do milagre uma ermida, que ao longo dos tempos foi depois transformada num convento e, pela sua fama crescente, foi dando todo o nome ao local em que se inseria.

 

Portanto, o nome derradeiro da paróquia da Luz, em que hoje está o estádio do Sport Lisboa e Benfica, obteve esse nome pelo facto de aí ter aparecido uma imagem que ficou conhecida nessa altura, e ainda entre nós, como “Nossa Senhora da Luz”. Assim se explica a origem do nome do Estádio da Luz, com mais uma imagem religiosa que se diz que apareceu miraculosamente em territórios de Portugal!