A lenda de Yonorang e Seonyo

Falar-se da lenda de Yonorang e Seonyo, que vem da Coreia, é provavelmente falar-se de uma influência cultural local que até chegou aos nossos dias de hoje. De facto, quando tentámos procurar imagens relativas a toda esta história, encontrámos algumas de um pequeno filme animado de 2019, mas também a que reproduzimos abaixo, que tem representada, na parte traseira de um camião coreano, a busca mútua dos dois protagonistas de toda esta história. Dada até a invulgar beleza da ideia assim representada, sentimos que tínhamos necessariamente de aqui contar a eterna lenda que os une.

A lenda de Yonorang e Seonyo

Yonorang e Seonyo era um casal que muito se amava. Não tinham uma vida muito rica, mas viviam o seu amor numa vida simples, uma que lhes parecia mais que suficiente. Até que um dia, quando Yonorang estava a pescar próximo do mar, as rochas começaram a mexer-se e ele foi levado para longe. Não compreendia o que se estava a passar, mas não tinha outra solução senão manter-se nessas rochas e acabar por ver onde é que elas o estavam a conduzir. Assim, o tempo foi passando até que ele foi levado para uma ilha que nunca tinha visto antes, onde uma profecia local fez dele monarca…

Seonyo, essa, mantinha-se em casa. À medida que o tempo foi passando ela começou a sentir muitas saudades do marido. Tentou procurá-lo aqui, procurou por ele ali e acolá, mas foi incapaz de o encontrar. Então, um dia foi à praia e encontrou, bem próximo do mar, algumas das coisas que sabiam ser do seu marido. Não conseguia compreender o que se tinha passado, mas achou que o melhor que podia fazer era levar essas coisas de volta para casa. E então, quando se aproximou delas, as rochas começaram a mexer-se e levaram-na para longe. Também ela não tinha outra solução senão manter-se nessas rochas e acabar por ver onde é que elas a estavam a conduzir. Assim, o tempo foi passando até que ela foi levada para uma ilha que nunca tinha visto antes, onde se reuniu com um homem que já era bem seu conhecido. Era o seu marido tão amado, de quem sentia tantas saudades, e com quem agora estava novamente reunida…

 

Mas toda esta lenda ainda vai a meio. Os dois amados estavam agora reunidos, mas nas suas terras nativas da Coreia algo de muito estranho começou a acontecer. O sol deixou de nascer, a lua parou de aparecer nos céus. Estupefactas, as pessoas não sabiam mesmo o que fazer, até que o monarca local lá chamou os seus sábios e lhes perguntou o que se andava a passar. Eles disseram-lhe que dois dos seus conterrâneos, Yonorang e Seonyo, eram as reencarnações dos deuses do sol e da lua, e que sem a sua presença local estes dois astros não voltariam a agraciar os reinos da Coreia. E isto era um problema, muito naturalmente, pelo que o monarca enviou deputados para os quatro cantos do mundo, em busca do importante casal…

Acabaram por encontrá-los numa terra não muito distante; explicaram-lhes todo o problema, mas Yonorang e Seonyo não queriam voltar. Talvez fosse seu dever fazê-lo, honrar a terra que os viu nascer, mas eles eram agora plenamente felizes. Porquê abandonar essa felicidade, sabendo que nada de melhor os poderia esperar? Incapazes de refutar esse argumento do casal, os deputados do rei propuseram uma alternativa – visto que Seonyo fiava muita seda, ela podia fazer, com todo o seu bom espírito, algo que eles pudessem transportar consigo de volta a casa, para resolver todo o problema. A amada jovem achou que essa solução era perfeita e depressa a fez cumprir. A seda por ela fiada foi levada de volta para a Coreia, juntamente com a luz do sol e da lua, e foi guardada num local que recebeu o nome de Ilwolji. Como diz uma pequena placa que está hoje no local:

O regresso de Yonorang e Seonyo

Yonorang e Seonyo permaneceram naquela misteriosa terra para onde as respectivas rochas os levaram, que eram as terras do Japão (!), para nunca mais voltarem a sua casa. Poderiam ter voltado, sim, mas a felicidade falou mais alto. Não teríamos, também nós, escolhido esse mesmo caminho?

 

Se existe uma lenda nipónica que conte o outro lado desta mesma história, não a conseguimos encontrar até à presente data. Talvez nunca tenha existido. Talvez seja uma mera história de um Japão como uma espécie de terra lendária, em que a maior das felicidades podia vir a ser encontrada por aqueles que estavam a um mar de distância. É difícil saber. Mas, olhando novamente para aquela primeira imagem ali em cima, novos pormenores podem ser encontrados:

A lenda de Yonorang e Seonyo

Yonorang e Seonyo, o sol e a lua, afastados em duas terras bem diferentes, mas sem nunca esquecerem o seu grande amor mútuo… quão bela essa ideia, e quão mais bela terá sido a reunião de ambos, aquele breve instante em que se reconheceram novamente e em que se tornaram a amar. Inesquecivelmente belo, diríamos, nesta belíssima história que parece ser tão pouco conhecida nas nossas terras do ocidente…

A lenda do Barbadão

No norte de Portugal, mais precisamente na zona de Barcelos, pode ser encontrado o chamado Solar dos Pinheiros, em que está representada uma figura muito conhecida sob o nome de Barbadão. Que ela está, de alguma forma, relacionada com o fundador da casa (Pedro Esteves, em 1448), ou com o seu filho deste (Alvaro Pires Pinheiro Lobo, que ergueu as respectivas torres), parece-nos quase óbvio, mas que lenda se esconde neste local?

A lenda do Barbadão e o Palácio dos Pinheiros

Neste caso específico o problema não se prende tanto com encontrar uma lenda associada ao local, uma que possamos recontar aqui, mas com a existência de diversas histórias que lhe estão associadas, sendo difícil saber qual, se alguma, era a original, a “verdadeira”, por detrás da famosa representação. Como tal, contamos aqui duas breves lendas que aparecem associadas ao local, e que parecem contar-se entre as mais famosas.

 

A primeira diz que o homem aqui representado era o fundador desta casa, que queria construir enormes torres no local, nem que para isso tivesse de “empenhar as suas barbas“. Porém, o primeiro Duque de Bragança, Dom Afonso, não permitiu que isso fosse feito, por razões desconhecidas, e então as torres passaram a ter uma representação alusiva à expressão, como que a dizer “eu até teria empenhado as minhas barbas para as ter construído maiores”.

 

Uma segunda diz que o Rei Dom João I se apaixonou por uma Inês Pires [Esteves?], que era desta família, no que poderá ter sido uma de muitas infidelidades do monarca. A relação extraconjugal manchou bastante a honra do pai dela, levando-o a proclamar que, em detrimento de vingar toda a afronta matando o novo monarca, jamais tornaria a cortar as suas barbas, que eram então um símbolo de honra. Depois, o rei lá veio a admitir a relação extraconjugal, e a dar nome ao filho nascido dela, mas o avô da criança jamais tornou a cortar as suas barbas, fruto da promessa que um dia tinha feito, ficando com o nome de Barbadão e tornando-se uma espécie de símbolo que depois viria a ser representado neste local.

 

Não sabemos, repita-se, qual destas duas lendas terá sido a “verdadeira”, aquela que gerou a representação que hoje ainda pode ser vista no Solar dos Pinheiros. Poderá ter sido uma delas, ou o busto poderá ter ido parar ao local por uma qualquer outra razão que o tempo fez esquecer. Porém, o que sabemos é que esta representação de um homem com longas barbas, numa pose em que parece quase querer arrancá-las, ou terá inspirado diversas lendas, ou terá de alguma forma obtido a sua inspiração por elas. É uma de aquelas situações do ovo e da galinha, em que é muito difícil saber-se se a representação veio de alguma lenda do Barbadão ou vice-versa, só restando concluir que existe, sem quaisquer dúvidas, uma relação palpável entre ambas, mesmo que já não se consiga (agora) ter a certeza de qual é ela…

Quem foi Maria do Carmo de Mello?

Hoje falamos de Maria do Carmo de Mello, cujo nome já teria sido esquecido não fosse a existência de um pequeno cruzeiro no Pai do Vento, Cascais. E não seria caso único – como o Sal da História mostrou há já uns anos, casos parecidos existem por todo o país, em que toda a vida de um ser humano, normalmente jovem, acaba, por mero acaso das circunstâncias, resumida na berma de uma qualquer estrada do nosso país. Assim, quem passar pela cascalense “Avenida de Sintra” poderá ver, muito próxima de duas bombas de gasolina, um pequeno cruzeiro circundado por uma pequena vedação, hoje quase abandonado e esquecido pelo tempo:

O Cruzeiro de Maria do Carmo de Mello

Este cruzeiro, como é aqui fácil de ver, dá-nos muito pouca informação. Contém apenas um nome – Maria do Carmo de Mello – e uma data, escrita como 20-9-1902, talvez porque quem o mandou erguer tenha pensado que não eram sequer necessárias mais explicações. E talvez nem o fossem, não fosse aquele eterno acaso do progresso alterar toda a zona circundante – onde outrora apenas existiam árvores, montes e vales, agora está tudo repleto de casas, como que fazendo esquecer o desastre de outros tempos.

Quem já tiver visto esta zona do Pai do Vento, em Alcabideche, tal como a região era há mais de 100 anos atrás, vê-la-ia quase completamente vazia de ocupação humana. Havia, no entanto, uma pequena estrada de terra batida, onde ocasionalmente passavam carroças, dirigindo-se quase certamente para a zona de Cascais, tendo por isso de suportar os enormes ventos que deram nome ao local – e ele ainda hoje é ventoso, mas talvez agora menos pelas casas que circundam o local.

 

Nesse contexto, a 20-9-1902 passava esta Maria do Carmo de Melo pelo local, acompanhando o pai numa viagem de charrete, quando um enorme vento se levantou e causou um acidente. O pai, António Maria Vasco de Melo Silva César e Meneses, que até era o nono Conde de Sabugosa, sobreviveu, apenas macerado na carne, mas a sua filha faleceu no local – e o seu elemento paterno, com uma óbvia e notória tristeza, depois erigiu este pequeno monumento, hoje já quase esquecido, no local em que tinha visto a sua amada filha a perder a vida. Hoje, talvez seja relembrada por ele e por pouco mais.

 

Talvez esta espécie de tradição se tenha perdido ao longo dos anos, talvez as pessoas já não sintam o sofrimento como em outros tempos, mas quantos mais monumentos semelhantes existirão, ainda, pelo país fora? Quantos deles já terão sido esquecidos e feitos perder pela crueldade do tempo? Como nos casos da Cruz da Popa e da Arranca-Pregos, também geograficamente próximos da história e hoje, é provável que também esta pequena história acabe esquecida mais tarde ou mais cedo…

A lenda das Crianças Verdes de Woolpit

A lenda das Crianças Verdes de Woolpit vem de uma pequena aldeia inglesa, no condado de Suffolk, leste de Inglaterra. Diz-se que a sua história tomou lugar em finais do século XII, mas o curioso é que parecem existir provas de que ela poderá ter sido bem real. Mas, como já é costume, já lá iremos, por agora convém introduzir sucintamente toda a lenda.

As Crianças Verdes de Woolpit

Conta-se então que numa data agora desconhecida do século XII alguns habitantes da zona de Suffolk andavam a passear nas florestas locais quando aí encontraram duas crianças, as tais que ficariam conhecidas sob o nome de Crianças Verdes de Woolpit. Elas eram completamente iguais às humanas, excepto pelo facto de terem uma pele verde, de terem umas roupas que nunca ninguém tinha visto, e falarem uma língua completamente desconhecida. Mas, apesar de estas diferenças, ainda eram crianças e, por isso, os cidadãos locais decidiram recolhê-las e protegê-las. Se, inicialmente, elas nem comiam nada, às tantas lá se descobriu que gostavam de feijões verdes. Depois, foram crescendo (e perdendo a cor verde), até que uma delas – a do sexo masculino – faleceu por razões desconhecidas. A outra, que se supõe ter sido sua irmã, foi baptizada com o nome de “Agnes”, aprendeu a língua inglesa e acabou por revelar que vinha de uma misteriosa “Terra de São Martinho” (seria o santo de Tours? Não é claro…), nos subterrâneos da terra. E, muito inesperadamente, diz-se até que ela casou e teve pelo menos um descendente…

 

Se este último elemento poderia atestar a veracidade de pelo menos uma parte da história das Crianças Verdes de Woolpit, há também que notar que histórias portuguesas da mesma época contêm elementos semelhantes. Tanto Dona Marinha como as Damas de Pés de Cabra tiveram descendentes, mas é seguro pensar que ninguém as considera como personagens históricas de existência bem real. Será, por isso, que estas crianças vieram do mesmo sítio que essas suas companheiras nacionais, de aquela eterna terra da imaginação humana? Talvez sim, talvez não, mas duas crónicas da época asseguram-nos da sua existência, ao ponto de ainda hoje, quase 800 anos depois, a vila inglesa de Woolpit ainda ter esta história como um dos seus elementos mais emblemáticos…

As cidades romanas de Portugal

Se há alguns dias aqui falámos de viagens a outros tempos e espaços, hoje decidimos então falar muito brevemente das principais cidades romanas de Portugal. E fazêmo-lo através de provas do chamado Itinerário de Antonino, uma espécie de mapa literário dos primeiros séculos da nossa era, que indicava, por escrito, as distâncias entre as diversas cidades. Se, por exemplo, estivessem em Olisipo, actual Lisboa, através deste documento poderiam saber que Bracara Augusta, actual Braga, estava a 244 milhas romanas de distância, i.e. aproximadamente 361 quilómetros. Agora, visto que esse itinerário se focava nas principais cidades, é possível gerar um mapa como o abaixo (o original vem deste link, mas foi ligeiramente adaptado aqui), em que assinalámos as cidades que estão actualmente no nosso país:

As principais cidades romanas de Portugal

Obviamente que estas não são todas as cidades romanas de Portugal – por exemplo, faltam ali Portus Cale ou Sinus, actualmente Porto/Gaia e Sines – mas permitem-nos, num primeiro momento, identificar aquelas que eram as principais localidades do nosso país:

  • Bracara [Augusta], actual Braga;
  • Aquae Flaviae, Chaves;
  • Conimbriga, Condeixa-a-Velha;
  • Scallabis, que é Santarém;
  • Ammaia [já lá iremos…]
  • Olisipo, Lisboa, a famosa cidade associada a Ulisses;
  • Ebora, actual Évora;
  • Salacia, agora Alcácer do Sal;
  • Pax Julia, hoje Beja;
  • Lacobriga, actual Lagos;
  • Ossonoba, actualmente Faro.

Como é muito fácil notar, falta ali a identificação de Ammaia. Isto deve-se ao facto de essa cidade, no actual concelho de Marvão, já não existir como anteriormente, resumindo-se apenas a vestígios significativos da povoação antiga, tal como ela era no tempo dos Romanos.

 

Agora, é ainda possível dar um passo adicional – pegando nestas cidades romanas de Portugal, podemos comparar a sua lista com a das principais povoações islâmicas de Portugal e descobrir que algumas cidades, como Lisboa, Santarém, Alcácer do Sal, Lagos e/ou Faro foram tendo uma grande e contínua importância no nosso país. Contudo, e para citar um aforismo moderno, “ausência de evidência não é evidência de ausência” – isto não quer dizer que não existissem muitas mais (por exemplo, Braga foi sempre uma das cidades mas importantes em termos religiosos), mas sim que pelo menos aquelas foram consideradas significativas ao ponto de constarem em referências que distam cerca de mil anos entre si, o que permite afirmar, sem quaisquer dúvidas, que pelo menos aquelas foram sendo sempre importantes no panorama nacional!