Lendas de Centum Cellas e São Cornélio

Começamos este mês de Dezembro com um local e uma história bem portuguesas – Centum Cellas, em Belmonte, no distrito de Castelo Branco. É provavelmente um dos locais mais misteriosos de Portugal e da Península Ibérica, não só pela sua incomum forma acastelada, mas pelo facto de quase nada se saber sobre todo este local, gerando algumas lendas.

Centum Cellas e a lenda de São Cornélio

A primeira, e mais evidente, de todas essas histórias prende-se com o próprio nome do local – Centum Cellas, ou Centocelas (como dizem outros). Traduzido do Latim, o nome significa algo como “cem celas”. Refere-se, como parece ser evidente, a uma centena de alguma coisa, mas será que a palavra “cela” é aqui utilizada no sentido de prisão, de armazém, de alguma espécie de quarto, de um apelido de um antigo proprietário, ou até de algo completamente diferente, já esquecido pelo tempo? Não sabemos, até porque a mais antiga referência encontrada refere-se, no século XII, a uma aldeia (perdida?) de nome “Centuncelli“, mas absolutamente nada nos esclarece sobre este local ou alguma sua função original.

 

 

Seria, como dizem alguns, mesmo uma antiga prisão? Terá sido, segundo dizem outros, parte de uma antiga vila ou campo militar dos Romanos? Ou será que foi construída por extraterrestres, como um dado programa de televisão americano insistiu? Face à falta de respostas, lá teve de recorrer o povo à sua criação de uma lenda – dizem, então, que este local foi uma antiga prisão romana, com uma centena de celas (a criminalidade local devia ser imensa, nessa altura?!), na qual esteve outrora aprisionado um tal “São Cornélio”…

 

Será verdade ou mentira? Visto que nada de concreto se sabe sobre essa figura, resta-nos ser levados a supor, como habitual nos primeiros séculos da nossa era, que ela possa ter sido algum mártir pela fé cristã. Se o foi realmente, ou se tratou de um santo inventado (de que Santa Ninfa é provavelmente um dos exemplos mais evidentes), apenas para dar esse seu nome a alguma estrutura religiosa, é algo que já não sabemos, nem as fontes actuais parecem ajudar a concluir.

 

 

No fim, Centum Cellas continua a ser um enigma que atravessa os séculos: não sabemos ao certo quem lá viveu, qual era a sua função original, nem se São Cornélio existiu de facto, ou apenas surgiu na memória popular para dar sentido a este lugar. Mas talvez seja exatamente isso que torna a torre tão fascinante. Entre a história e a lenda, o real e o imaginário, ela convida-nos a olhar para o passado com curiosidade e a deixar que a imaginação complete o que o tempo apagou. Milagre, prisão, villa romana ou apenas a memória de quem passou por ali – o que importa é que este monumento continua a desafiar a nossa percepção do que é real e do que é mito, lembrando-nos de que, por vezes, o mistério é a herança mais valiosa de um lugar.

O segredo do Bairro Estrela d’Ouro, em Lisboa

No coração da Lisboa antiga, onde o casario sobe pelas colinas e as ruas ainda guardam segredos de pedra, existe um bairro que carrega no nome e na memória um brilho especial: o Bairro Estrela d’Ouro. É um lugar que parece condensar, num pequeno quarteirão, histórias de cinema, de arquitetura operária e até de símbolos escondidos na calçada. Um lugar onde a lenda se mistura com a história documentada, convidando quem passa a olhar para cima… e para baixo.

 

 

Entre as suas memórias mais faladas, está o Royal Cine, alegadamente o cinema lisboeta onde foi exibido o primeiro filme sonoro em Portugal. A estreia desse tipo de projeção, na época, foi um acontecimento — o som no ecrã transformou para sempre a forma como o público vivia o cinema. Hoje, quem se dirigir ao número 106 da Rua da Graça já não encontrará filas para sessões noturnas, mas sim um supermercado Pingo Doce. As cortinas fecharam-se há décadas, mas ficaram histórias e rumores. Há quem diga que, durante muito tempo e até quase aos nossos dias, ainda se podiam aceder no edifício ás casas de banho originais, com quase 90 anos. Verdade ou lenda urbana? Ninguém nos conseguiu confirmar, mas o mistério só acrescenta encanto.

O segredo do Bairro Estrela d'Ouro

Seja como for, há um detalhe que resiste ao tempo: no topo do edifício ainda se ergue uma grande estrela, símbolo pessoal de Agapito da Serra Fernandes. No início do século XX, este industrial visionário construiu aqui um bairro para os seus operários, oferecendo-lhes habitação digna, num tempo em que isso não era prática comum. A Estrela d’Ouro tornou-se, assim, não só um emblema arquitetónico, mas também um testemunho de um certo espírito comunitário que marcava a Lisboa de outros tempos.

 

 

Para quem gosta de explorar, o bairro esconde ainda um percurso curioso. Na Rua Josefa Maria, incrustadas na calçada, podem encontrar-se pequenas estrelas de pedra negra. Algumas já quase se perderam com os anos, mas outras mantêm-se intactas. Segui-las é como seguir um mapa secreto: no fim do caminho, elas conduzem até à antiga residência de Agapito. A casa é imponente e, até certo ponto, contrasta com a simplicidade das belas moradias que ele construiu para os operários — um contraste que também conta uma história. Infelizmente, não é possível entrar; o porteiro, apesar de simpático para connosco, quando fomos ao local, deixou claro que a visita não é autorizada.

 

Mesmo sem entrar, passear pelo Bairro Estrela d’Ouro é como caminhar por uma pequena aldeia escondida no meio da metrópole. As casas, muitas delas preservadas, conservam uma tipologia peculiar: fachadas simples mas elegantes, pátios interiores, e aquela sensação de vizinhança que, noutras zonas, já se perdeu. É um pedaço de Lisboa que sobreviveu ao avanço do turismo em massa, mantendo um caráter genuíno e uma história para contar.

 

 

Talvez seja isso que torna este bairro tão especial: a forma como junta factos e mitos, memórias e pedras, brilho e simplicidade. No fim, fica a pergunta: será que a estrela ainda brilha para quem sabe procurá-la? Só há uma maneira de descobrir — seguir o seu rasto pelas ruas de Lisboa.

Os mito de Mu e Lemúria, os continentes perdidos

Quando, na tradição ocidental, se pensa num possível continente perdido, normalmente é a Atlântida, aquela terra desaparecida de que nos falou Platão e autores posteriores vieram a reutilizar nas suas obras. Mas, curiosamente, esse exemplo não é um caso único. Existem outros continentes supostamente perdidos, de que Lemúria (o suposto local de onde vieram os animais chamados “lémures”) e Mu são hoje provavelmente os mais conhecidos. Assim dedicamos-lhes as linhas de hoje.

 

 

Qual a origem de Mu?

O mito de Mu, o continente desaparecido

A história do continente Mu parece ter começado com um tal Charles Étienne Brasseur de Bourbourg, que por volta do ano de 1864, ao tentar traduzir um códice que ainda existe em Madrid com o nome de “Códice Tro-Cortesiano”, ficou com a ideia de que a palavra “mu” se referia a um continente desaparecido por uma catástrofe. Esse continente foi, em seguida, pensado por um Augustus Le Plongeon tratar-se da própria Atlântida, e toda esta história poderia ter ficado por aqui, mas ainda nem sequer vai a meio.

 

 

Quase um século mais tarde, em 1931, um britânico de nome James Churchward publicou um livro de título The Lost Continent Mu. Segundo ele próprio relata, nas suas viagens pela Índia encontrou, num local completamente desconhecido, um monge desconhecido que, após alguma relutância inicial, lá o levou a um local também desconhecido e lhe mostrou uns documentos muito antigos, que supostamente só três pessoas conseguiam ler, e que contava a história do continente aqui em questão. A repetida ênfase no “desconhecido”, nas linhas anteriores, é propositada – tenha-se em atenção que, mesmo que se queira acreditar em toda esta história, o seu autor parece seguir um conjunto de padrões ficcionais que já existiam na Idade Média, relativos à descoberta misteriosa de um documento que potencialmente mudaria toda a história como a conhecemos – o exemplo de Ânio de Viterbo é provavelmente o mais famoso na Europa.

 

 

Agora, muito inesperadamente, esta obra, cujo título pode ser traduzido como O Continente Perdido Mu, não conta o que James Churchward nos diz ter lido. Isso talvez fosse interessante, mas o que o autor faz, em alternativa, é dizer que coisas como… Mu foi a origem de todas as civilizações, era o Paraíso bíblico, existiu há mais de 35000 anos, foi lá que primeiro surgiu o sinal da cruz, e viviam lá 64.000.000 de pessoas que falavam “Naga-Maya”. Nunca explica como conseguiu ele saber todas estas coisas, ficando apenas a vaguíssima ideia de que o poderá ter lido nos tais documentos misteriosos a que teve acesso.

 

Essa sequência de informações misteriosas prolonga-se nesta primeira obra de James Churchward – ele depois escreveu outras – por páginas e páginas. Num dado instante conta até saber como é que nasceu o antropofagia – se Mu era uma civilização muito avançada, quando o continente em questão desapareceu nas águas, os poucos sobreviventes começaram a ter de se comer uns aos outros para a sua própria subsistência, algo que o autor afirma, com todas as certezas do universo, que nunca ninguém tinha feito até essa altura.

 

 

Mas a estranheza de tudo isto ainda não fica para aqui. Numa altura especialmente curiosa da obra, o autor confessa que não tinha ainda compreendido a origem de uma “trindade” que ainda existe em várias religiões dos nossos dias. Então, conta que o seu “velho amigo hindu” (que nunca tem um nome identificável…) lhe dirigiu as seguintes palavras:

 

Há uma lenda sobre isso. Pode ser verdade ou pode ser um mito. Não consigo dizê-lo. A lenda diz que a Pátria-mãe [i.e. Mu] consistia em três terras, que cada terra foi levantada por um deus diferente, pelo que três deuses foram necessários para levantar todo o continente. Mas os três deuses eram, na verdade, apenas um, todos juntos como os lados de um triângulo.”

 

Este trecho da obra é digno de nota porque, na sua essência, nos caracteriza as histórias de Mu como, na verdade, o são – um mito pleno de incertezas, que parece ir sendo construído ao longo da obra a belo-prazer de James Churchward. Quem a for ler com atenção, nota, sem grande dificuldade, repetidas fantasias e inconsistências. O momento em que ele explica como descobriu que este continente existia há 35000 anos quase faz rir – ele parece calcular essa idade não com base em quaisquer provas, mas por comparação com outros calendários que ele supõe relacionados com o seu tema. E como é que descobriu que em Mu viviam 64.000.000 pessoas? Mais uma vez, fica a supor-se que ele terá lido isso nos tais documentos misteriosos que nunca mais ninguém – que fosse identificável – alguma vez nos disse que viu ou leu.

 

 

Caso ainda não seja completamente claro, a ideia de Mu, enquanto um continente perdido, é apenas e somente um mito e mais pura ficção. Nada tem de credível, de um ponto de vista científico, e o facto do próprio autor nunca dizer claramente o que supostamente leu – a obra, pelo menos no primeiro livro, nunca relata o que foi lido – até sugere que, na altura, Churchward ainda não tinha decidido a totalidade dos contornos que viria a dar à sua história, nas obras seguintes – The Children of Mu (1931), The Sacred Symbols of Mu (1933), Cosmic Forces of Mu (1934) e Second Book of Cosmic Forces of Mu (1935) – que não fomos ainda ler, mas cujos títulos sugerem uma ligação crescente ao Misticismo. Mesmo que Mu tenha existido, a sua verdadeira história certamente não pode ser encontrada nestas obras de James Churchward, nem nas muitas fantasias que se lhes seguiram, e que continuam a inspirar novas histórias até aos nossos dias de hoje.

 

 

E qual a origem de Lemúria?

 

A origem de Lemúria é um pouco menos fantasiosa. Essencialmente, em meados do século XIX um zoólogo britânico, de nome Philip Sclater, apercebeu-se de algo curioso – existiam fósseis de criaturas semelhantes a lémures em Madagáscar e no sul da Índia, mas não em África (e daí o nome que deu ao continente). Isso fê-lo supor que, em tempos muito mais antigos, teria existido nessa zona um local desaparecido, que ligava esses dois territórios, mais ou menos assim:

A origem de Lemúria

Toda esta história também ficaria por aqui, não fosse o facto de, anos mais tarde, personagens como Helena Blavatsky terem reaproveitado este e outros conceitos para os seus propósitos pessoais, sugerindo, neste caso em específico, que Lemúria tinha mesmo existido e era a terra primordial de todas as raças humanas. Não existe, como é evidente, qualquer prova real disso mesmo, nem de que este continente alguma vez tenha existido, nascendo a ideia de uma mera hipótese científica que foi colocada por um inglês há cerca de 150 anos.

O mistério da Praia do Anjo (em Cascais) RESOLVIDO?

Hoje falamos do mistério da Praia do Anjo, um tema que já nos fascina há vários anos. Não é muito complexo, bem pelo contrário, pelo que estas linhas serão, mais que tudo o resto, uma tentativa de que, um dia, talvez alguém as encontre e seja capaz de nos esclarecer aquilo que até agora não conseguimos descobrir.

O mistério da Praia do Anjo

A zona de Cascais, em Portugal, é conhecida pelas suas praias. Poderíamos aqui nomear algumas delas, como as do Tamariz ou do Guincho, entre muitas outras que são relativamente fáceis de conhecer no local, mas… o mistério de hoje prende-se com a ausência completa de uma “Praia do Anjo” na região cascalense. Parece ser até uma praia mais misteriosa que o próprio castelo da vila, e por muito que se tente inquirir sobre ela no local, os habitantes dizem-nos, uma e outra vez, que não conhecem nenhumas areias com este nome.

 

 

Mas ainda não estamos loucos, de todo. Ela existiu, e tanto existiu aparece nomeada em obras que antecedem o século XIX. O seu próprio nome até nos sugere a existência de uma presumível lenda com a (antiga) aparição de um anjo no local. Mas depois, nada. Não conseguimos encontrar uma única linha que atestasse este antigo nome para uma praia na zona. Algumas delas, como a Praia da Rainha, pela ligação a uma figura histórica recente – neste caso, a última rainha consorte de Portugal – poderão fazer-nos supor que o local já teve outro nome, anterior a esse, mas ninguém se recorda dele. Seria esta Praia do Anjo? Ou, em alternativa, seria essa a designação para um areal que já há muito desapareceu desta costa lisboeta? Nada se sabe, e mesmo pesquisa em motores de busca, ou com recurso a Inteligência Artificial, não levam a qualquer espécie de resposta. Esta praia, que sabemos ter existido em outros tempos, está hoje completamente esquecida pelo povo.

 

 

E é mesmo por isso que sentimos a necessidade de escrever estas linhas de hoje, sobre essa antiga Praia do Anjo. Será que alguém, algum leitor ou leitora, tem mais informação fidedigna sobre este tema? Se sim, por favor deixem-nos um comentário, e digam-nos o que ainda sabem sobre ele. Ou como o sabem, que até é tanto ou mais importante neste caso específico. Agradecemos bastante, para que o conhecimento de temas como este não se perca, e para que também as gerações futuras venham a saber onde se localizou, outrora, esta praia da zona de Cascais. Talvez a Praia do Anjo ainda esteja lá, escondida aos nossos olhos, à espera de ser redescoberta — se é que alguma vez deixou realmente de existir…

 

 

[Adicionado posteriormente:] O livro “Museu da Misericórdia de Cascais: História, Património, Identidade” revela, numa das suas páginas, que anteriormente a Praia da Rainha tinha o nome de “Praia dos Anjinhos”. Uma pesquisa por esse nome alternativo revelou que nessa tal praia foi outrora encontrada uma imagem de madeira de Nossa Senhora dos Anjos, o que poderá explicar a origem do nome.

A estranha lenda de Julia Legare

A lenda de hoje, relativa à figura de uma Julia Legare, começa com um convite que já não fazemos há alguns anos. Abaixo, pode ser vista uma pequena igreja no estado da Carolina do Sul, nos EUA. À primeira vista, este local tem o seu quê de charme, talvez um potencial viajante até parasse por aqui para descansar um pouco durante uma longa viagem. Porém, o que a imagem não permite ver, mesmo que se mova a perspectiva para a esquerda ou a direita, é que por detrás desta igreja branca existe um túmulo associado a uma tal família Legare. Não se sabe muito sobre eles, mas a lenda que aqui será recontada hoje prende-se precisamente com esse local.

Reza então a lenda que em meados do século XIX, uns poucos anos depois da construção da igreja, vivia aqui uma menina de nome Julia Legare. Ela apanhou difteria, caiu numa espécie de coma, um médico foi chamado ao local, e este atestou o óbito. A família mandou enterrar a falecida no que se viria a tornar o jazigo da família… e tudo ficaria por aqui, sem motivos de maior interesse, não fosse o facto de alguns anos mais tarde este local ter sido aberto e terem visto, no seu interior, que a pobre Julia ainda estava viva quando aí foi sepultada, acabando depois por morrer de fome. Quem viu isto só poderá ter ficado chocado, mas… quando decidiram voltar a fechar este túmulo, por muito que o tentassem ele reabria-se sempre durante a noite, levando os locais a pensar que o espaço estava amaldiçoado por influência da pobre menina, numa ideia que se foi mantendo até aos dias de hoje.

 

É, na sua essência, isto que diz a lenda local, e fontes locais permitem saber que Julia Legare faleceu a 16 de Abril de 1852. Porém, a verdade é menos triste do que poderá parecer – ela já era casada nessa altura, com um tal “John Berwick Legare” (nome que ainda pode ser encontrado no túmulo), e faleceu aos 23 anos de idade, não sendo tão menina e moça como a história normalmente indica, ao ponto de nos fazer pensar numa pobre criança enterrada viva. Não encontrámos referências totalmente confirmadas à causa de morte, mas pode ser apontado que um filho faleceu em 1854, e o marido em 1856, algo que até poderá sugerir uma verdadeira maldição familiar.

 

A semelhança com a lenda do Túmulo da Família Chase é notável, mas dada a distância física e cronológica entre as duas mortes, é certamente uma mera coincidência e nada mais, até porque existem muitos outros túmulos por todos os estados dos EUA com histórias semelhantes a estas, e que muitas vezes até são motivo de uma espécie de peregrinação na altura do Dia das Bruxas. Também existem histórias semelhantes no nosso país, mas talvez nenhuma tão famosa como a deste local, que dizem ser um dos locais mais assombrados do estado da Carolina do Sul. Se alguém quiser partilhar histórias semelhantes mas em Portugal, podem deixar-nos um comentário, como sempre…