Quando, na tradição ocidental, se pensa num possível continente perdido, normalmente é a Atlântida, aquela terra desaparecida de que nos falou Platão e autores posteriores vieram a reutilizar nas suas obras. Mas, curiosamente, esse exemplo não é um caso único. Existem outros continentes supostamente perdidos, de que Lemúria (o suposto local de onde vieram os animais chamados “lémures”) e Mu são hoje provavelmente os mais conhecidos. Assim dedicamos-lhes as linhas de hoje.
Qual a origem de Mu?

A história do continente Mu parece ter começado com um tal Charles Étienne Brasseur de Bourbourg, que por volta do ano de 1864, ao tentar traduzir um códice que ainda existe em Madrid com o nome de “Códice Tro-Cortesiano”, ficou com a ideia de que a palavra “mu” se referia a um continente desaparecido por uma catástrofe. Esse continente foi, em seguida, pensado por um Augustus Le Plongeon tratar-se da própria Atlântida, e toda esta história poderia ter ficado por aqui, mas ainda nem sequer vai a meio.
Quase um século mais tarde, em 1931, um britânico de nome James Churchward publicou um livro de título The Lost Continent Mu. Segundo ele próprio relata, nas suas viagens pela Índia encontrou, num local completamente desconhecido, um monge desconhecido que, após alguma relutância inicial, lá o levou a um local também desconhecido e lhe mostrou uns documentos muito antigos, que supostamente só três pessoas conseguiam ler, e que contava a história do continente aqui em questão. A repetida ênfase no “desconhecido”, nas linhas anteriores, é propositada – tenha-se em atenção que, mesmo que se queira acreditar em toda esta história, o seu autor parece seguir um conjunto de padrões ficcionais que já existiam na Idade Média, relativos à descoberta misteriosa de um documento que potencialmente mudaria toda a história como a conhecemos – o exemplo de Ânio de Viterbo é provavelmente o mais famoso na Europa.
Agora, muito inesperadamente, esta obra, cujo título pode ser traduzido como O Continente Perdido Mu, não conta o que James Churchward nos diz ter lido. Isso talvez fosse interessante, mas o que o autor faz, em alternativa, é dizer que coisas como… Mu foi a origem de todas as civilizações, era o Paraíso bíblico, existiu há mais de 35000 anos, foi lá que primeiro surgiu o sinal da cruz, e viviam lá 64.000.000 de pessoas que falavam “Naga-Maya”. Nunca explica como conseguiu ele saber todas estas coisas, ficando apenas a vaguíssima ideia de que o poderá ter lido nos tais documentos misteriosos a que teve acesso.
Essa sequência de informações misteriosas prolonga-se nesta primeira obra de James Churchward – ele depois escreveu outras – por páginas e páginas. Num dado instante conta até saber como é que nasceu o antropofagia – se Mu era uma civilização muito avançada, quando o continente em questão desapareceu nas águas, os poucos sobreviventes começaram a ter de se comer uns aos outros para a sua própria subsistência, algo que o autor afirma, com todas as certezas do universo, que nunca ninguém tinha feito até essa altura.
Mas a estranheza de tudo isto ainda não fica para aqui. Numa altura especialmente curiosa da obra, o autor confessa que não tinha ainda compreendido a origem de uma “trindade” que ainda existe em várias religiões dos nossos dias. Então, conta que o seu “velho amigo hindu” (que nunca tem um nome identificável…) lhe dirigiu as seguintes palavras:
Há uma lenda sobre isso. Pode ser verdade ou pode ser um mito. Não consigo dizê-lo. A lenda diz que a Pátria-mãe [i.e. Mu] consistia em três terras, que cada terra foi levantada por um deus diferente, pelo que três deuses foram necessários para levantar todo o continente. Mas os três deuses eram, na verdade, apenas um, todos juntos como os lados de um triângulo.”
Este trecho da obra é digno de nota porque, na sua essência, nos caracteriza as histórias de Mu como, na verdade, o são – um mito pleno de incertezas, que parece ir sendo construído ao longo da obra a belo-prazer de James Churchward. Quem a for ler com atenção, nota, sem grande dificuldade, repetidas fantasias e inconsistências. O momento em que ele explica como descobriu que este continente existia há 35000 anos quase faz rir – ele parece calcular essa idade não com base em quaisquer provas, mas por comparação com outros calendários que ele supõe relacionados com o seu tema. E como é que descobriu que em Mu viviam 64.000.000 pessoas? Mais uma vez, fica a supor-se que ele terá lido isso nos tais documentos misteriosos que nunca mais ninguém – que fosse identificável – alguma vez nos disse que viu ou leu.
Caso ainda não seja completamente claro, a ideia de Mu, enquanto um continente perdido, é apenas e somente um mito e mais pura ficção. Nada tem de credível, de um ponto de vista científico, e o facto do próprio autor nunca dizer claramente o que supostamente leu – a obra, pelo menos no primeiro livro, nunca relata o que foi lido – até sugere que, na altura, Churchward ainda não tinha decidido a totalidade dos contornos que viria a dar à sua história, nas obras seguintes – The Children of Mu (1931), The Sacred Symbols of Mu (1933), Cosmic Forces of Mu (1934) e Second Book of Cosmic Forces of Mu (1935) – que não fomos ainda ler, mas cujos títulos sugerem uma ligação crescente ao Misticismo. Mesmo que Mu tenha existido, a sua verdadeira história certamente não pode ser encontrada nestas obras de James Churchward, nem nas muitas fantasias que se lhes seguiram, e que continuam a inspirar novas histórias até aos nossos dias de hoje.
E qual a origem de Lemúria?
A origem de Lemúria é um pouco menos fantasiosa. Essencialmente, em meados do século XIX um zoólogo britânico, de nome Philip Sclater, apercebeu-se de algo curioso – existiam fósseis de criaturas semelhantes a lémures em Madagáscar e no sul da Índia, mas não em África (e daí o nome que deu ao continente). Isso fê-lo supor que, em tempos muito mais antigos, teria existido nessa zona um local desaparecido, que ligava esses dois territórios, mais ou menos assim:

Toda esta história também ficaria por aqui, não fosse o facto de, anos mais tarde, personagens como Helena Blavatsky terem reaproveitado este e outros conceitos para os seus propósitos pessoais, sugerindo, neste caso em específico, que Lemúria tinha mesmo existido e era a terra primordial de todas as raças humanas. Não existe, como é evidente, qualquer prova real disso mesmo, nem de que este continente alguma vez tenha existido, nascendo a ideia de uma mera hipótese científica que foi colocada por um inglês há cerca de 150 anos.