Encontrado o túmulo de Rómulo?!

Túmulo de Rómulo (fotografia de Andrew Medichini/AP)

Recentemente foi encontrado em Roma o túmulo de Rómulo, mas só hoje foram publicadas fotografias do local (ver acima, podem carregar na imagem para ler mais sobre o assunto, em Inglês), daí termos demorado alguns dias a escrever estas linhas. O curioso é que não existia qualquer esqueleto no seu interior. Porquê?

Porque, como contámos anteriormente, acreditava-se que esta figura fundadora de Roma não tinha morrido; como tal, a existência do seu corpo era impossível, sendo este túmulo exclusivamente o local em que era prestado um culto significativo ao herói.

Esta é uma novidade interessante, pelo que convém adicionar que, segundo lemos, se espera que o local possa vir a ser visitável pelo público dentro de dois anos.

Porque está um tritão representado no Palácio da Pena?

Tritão  do Palácio da Pena

Quem visitar o chamado “Pórtico do Tritão”, no Palácio da Pena, em Sintra, poderá ver uma belíssima representação de um tritão, um deus marinho menor, por cima de uma das portas. Mas o que faz esse monstro marinho no local? Bem, se consultarmos um site “oficial” do local, aqui, podemos ler o seguinte:

Há duas possíveis origens para este Tritão, ambas literárias. Uma é a obra de Damião de Góis de 1554, onde é mencionado um Tritão que tinha sido avistado a cantar com uma concha numa praia perto de Colares. Mas também Luís de Camões menciona um Tritão no Canto IV dos Lusíadas, cuja descrição lembra o monstro [do Palácio] da Pena.

Esta informação sempre nos pareceu enganadora, na medida que poderá dar ao leitor a sensação de que a associação de um tritão à cultura portuguesa nasceu no século XVI. Quando tanto Damião de Góis como Camões se referem a um tritão, fazem-no quase certamente porque em diversas fontes da Antiguidade (nomeadamente Plínio e Cláudio Eliano, se a memória não nos engana) existiam referências à existência de uma caverna próxima de Lisboa em que podia ser ouvido o canto de um tritão.

Esses autores nunca nos falam da região de Colares (essa identificação parece provir de Damião de Góis), nem são muito específicos no local do acontecimento, dizendo-nos exclusivamente que era próximo da cidade que viria a ter o nome de Lisboa. Mas o que esta menção tem de notável é o facto de ser um dos mais antigos mitos associados à futura capital de Portugal, juntamente com o dos cavalos lusitanos, o da suposta fundação da cidade por Ulisses e o do Tejo (de que falaremos algum outro dia).

 

Dada a fama dos mitos, é natural que tanto Damião de Góis como Camões tenham decidido torná-los parte das suas obras, imortalizando-os entre uma nova audiência. E, nesse seguimento, se o tritão do Palácio da Pena é mesmo o referido nestas duas obras (algo de que não temos a certeza…), faz todo o sentido que tenha sido representado no local pela sua relação com os antigos mitos, os mais antigos associados ao nosso país e, por isso, um digno exemplo da história mitológica de Portugal.

O Passo Honroso, símbolo do amor de Suero de Quiñones por Leonor de Tovar

Falar deste Passo Honroso, símbolo do amor de Suero de Quiñones por Leonor de Tovar, é um tema perfeito para este Dia dos Namorados. É um belíssimo (e, admita-se, romântico) episódio que tem tanto de lenda como de realidade. Na imagem pode ser visto um torneio medieval, como aqueles que hoje vemos em diversos filmes. O que poucos saberão, no entanto, é que esses torneios, e toda uma mística que os envolve, têm um fundo de verdade, de que iremos dar um breve exemplo.

O Passo Honroso, símbolo do amor de Suero de Quiñones por Leonor de Tovar

Simplificadamente, em 1434 um cavaleiro de Leão (no norte de Espanha), de seu nome Suero de Quiñones, decidiu organizar um torneio com o objectivo de honrar a sua amada, a bela Leonor de Tovar, antes de terminar a sua peregrinação a Santiago de Compostela. Por isso, com permissão do rei ele e nove companheiros ocuparam uma ponte (que ainda existe, e pode ser vista aqui), e decidiram que quem a quisesse cruzar teria de os defrontar em combate, ou em alternativa dar-lhes uma luva, em evidente sinal de cobardia, e depois atravessar o rio a nado. Queriam partir 300 lanças antes de abandonar o local, o que, segundo as regras do evento, equivaleria a combater pelo menos 100 cavaleiros diferentes.

O torneio começou a 10 de Julho de 1434 e terminou a 9 de Agosto do mesmo ano, quando os organizadores já estavam demasiado cansados e feridos após 166 batalhas contra 68 cavaleiros diferentes, delas resultando um único morto e zero derrotas para os defensores, como nos é referido no Libro del Passo Honroso – uma crónica do evento que até contém estatísticas dos combates e muita outra informação, e pode ser facilmente encontrada online.

 

Não encontrámos registo do que Leonor de Tovar terá pensado de toda esta grande prova de amor do Passo Honroso, mas sabe-se que em dada altura casou efectivamente com Suero de Quiñones, tornado muito famoso por todo este evento, e tiveram um filho e uma filha.

Fica sempre o convite para que alguém dos nossos dias organize, por amor, um evento semelhante a este. O de Hospital de Órbigo, a localidade onde tomaram lugar estes eventos, repete-se todos os anos no primeiro fim de semana de Junho.

A Lenda das Arcas de Montemor-o-Velho

A lenda das arcas de Montemor-o-Velho, também conhecida (mas erradamente) como uma lenda das arcas de Montemor-o-Novo é, na verdade, apenas uma só, que o contexto de algumas versões – que a associam ao tempo dos Mouros – permite identificar com a cidade próxima de Coimbra, a velha Mont Maior dos Árabes. E falamos de “versões”, aqui, com toda a justiça deste mundo, porque ouvimos e lemos as mais diversas versões de toda esta história, que em comum têm o grande facto de mencionarem, bem próximo do final da trama, duas misteriosas arcas, que parecem continuar a ser procuradas até aos dias de hoje.

Montemor-o-Velho, o castelo da lenda das duas arcas

Na verdade, fruto de existirem tantas versões diferentes desta lenda, acaba por ser difícil conseguir resumi-la aqui, mas todas elas têm em comum um elemento muito conhecido – que numa altura agora difícil de precisar foram escondidas no interior das muralhas do castelo de Montemor-o-Velho duas grandes arcas. Uma delas contém riquezas sem fim, enquanto que a outra, fisicamente igual em tudo à primeira, contém todos os males deste mundo. Como tal, por muito que as pessoas anseiem descobrir a primeira – e dizem vagas histórias dos nossos dias que elas continuam a ser procuradas no agora-famoso local – os poucos que dizem ter encontrado pelo menos uma delas temem sempre abri-la, com medo de tornar este mundo num local pior.

 

Será verdade, esta lenda das arcas de Montemor-o-Velho? Ou será que as duas arcas gémeas se escondem, em alternativa, em Montemor-o-Novo, no Alentejo? Visto que figuras tão eminentes como José Hermano Saraiva contaram esta lenda e a associaram à povoação próxima de Coimbra, não temos qualquer razão real para duvidar dessa identificação. Porém, já acreditar na verdadeira possibilidade da existência das duas arcas é algo muito diferente – a crer-se numa verdade da história, como se explicaria que alguém tivesse conseguido colocar numa singela arca todos os males do mundo? A Caixa de Pandora teve origem divina, e presume-se que só um verdadeiro deus conseguisse criar uma arca semelhante, mas nenhuma das versões que ouvimos o lemos informa qualquer proveniência etérea da mesma – e, assim, toda esta história se trata de uma mera lenda nacional, e nada mais…

 

 

P.S.- Curiosamente, esta não é a única lenda do género em Portugal. Num local de nome “Abóbeda”, em terras do Alentejo, acreditava-se que existiam dois potes enterrados, um com ouro e outro com veneno, sendo que este último tinha – por razões agora desconhecidas – uma sardinha de ouro na tampa. Apesar dessa ténue e estranha distinção entre os dois potes, também a abertura de um deles parecia ser temida pela população local…

A verdadeira lenda da Porca de Murça

A chamada Porca de Murça

Imaginem-se, por um breve momento, a passear na vila de Murça, no norte de Portugal, conhecida pelo que é chamada a Porca de Murça. Ao cruzarem o Largo 31 de Janeiro poderão encontrar a estátua presente na imagem acima. Mas… o que vêem representado nela? É uma porca, um javali, um urso, ou um outro animal?

 

Queiramos ou não, a resposta a essa questão é um elemento fulcral da lenda da Porca de Murça. Numa dada altura do passado nacional esta estátua celta foi encontrada perto da povoação em questão, e dela derivou a lenda de que, em tempos já há muito idos, um enorme animal tinha assolado aquela região, até que foi atacado e morto pelos habitantes, restando dessa grande batalha apenas a memória imortalizada na estátua que pode ser vista ali na fotografia.

 

Mas, a acreditar nessa breve lenda, qual foi o animal a atacar os aldeões, e que pode ser visto tanto na estátua como no emblema da vila? Uma enorme porca de Murça? Uma ursa? Um javali? Outro animal? É, talvez mais que tudo, aquilo que nela quisermos ver, uma reinterpretação de uma antiga estátua, cujo significado original já há muito se perdeu nas areias do tempo…