O Massacre de Lisboa de 1506

Falar do Massacre de Lisboa de 1506 é, hoje e talvez mais que tudo, falar de um episódio da história de Portugal que está agora quase esquecido. Isso até faz um certo sentido – tendemos a definir-nos como um “povo de brandos costumes”, entre o qual os massacres são raros… – mas não deixa de ser um episódio bastante chocante da história nacional, que também ficou conhecido como o Pogrom de Lisboa (para quem o desconhecer, um pogrom é um “movimento popular violento organizado contra uma comunidade judaica”, como informa o dicionário da Priberam) ou a Matança da Páscoa de 1506 (em virtude da altura do ano em que teve lugar). Agora, poderíamos, como é habitual, recordar aqui todo o episódio pelas nossas próprias palavras, mas decidimos fazer algo um pouco diferente – vamos contá-lo aqui com as mesmas palavras que outrora encontrámos e transcrevemos de um antigo documento legal presente na Torre do Tombo:

O Massacre de Lisboa de 1506

Em Domingo de Pascoela, 19 de Abril de 1506, pela manhã, estando El-Rei D. Manuel em Avis por causa da peste, começou em Lisboa o horrível motim e matança dos Cristãos Novos, a que deu origem certo reflexo de Sol que se derivava no Santo Cristo da Igreja de S. Domingos, que uns diziam ser milagre, e outros negavam que o fosse.
Fr. João Moucho, natural de Évora, e Fr. Bernardo Aragonez, frades do mesmo convento, foram o principal incentivo daquela emoção, porque com diabólico furor sairam a pregrar pelas ruas contra os Judeus a incautos.
Muitos amotinados ouve, em que entravam bastantes estrangeiros, que carregados de roubos navegaram para suas terras. O número de vítimas, lançadas ao fogo, vivas umas, e mortas outras, passou de duas mil, de todos os sexos e idades. A desordem demorou três dias. El-Rei acudiu severo a punir tamanhas atrocidades, e muitos culpados sofreram a última pena, não escapando os dois frades, que morreram queimados vivos. Todos os outros foram postos na minha do castelo, e as chaves do Convento entregues ao Prior de Santa Justa. A cidade perdeu os seus foros, que recuperou depois.
Esta foi a primeira perseguição directa que sofreram os Judeus em Portugal, e que aumentou o ódio contra eles. O que pinta a eles se haverem tornado ricos pelas suas traficâncias, e por consequência soberbos e orgulhosos; defenderem com audácia os mistérios da sua fé; e talvez olharem com desprezo os Cristãos. Tudo isto chamou contra si a Inquisição, que tão barbaramente os tiranizou.

Em suma, num tempo em que grandes pestes afectavam o nosso país, um pequeno “milagre” parece ter ocorrido no interior da belíssima Igreja de São Domingos, em Lisboa. Os Cristãos presentes pensaram logo tratar-se de um verdadeiro milagre, um Cristão Novo – ou seja, um ex-Judeu, que ainda era visto com desconfiança – atreveu-se a afirmar o contrário, e esta demonstração da sua pouca fé parece ter acendido um rastilho de ódio que levou à morte de milhares de Judeus nos dias em que se seguiram, neste chamado Massacre de Lisboa de 1506. Os culpados não escaparam à Justiça, mas – e como o texto indica – foi este episódio histórico um principal impulsionador da (então futura) presença da Inquisição em Portugal, onde viriam a ser condenados e a falecer muitos outros Judeus.

 

Agora, se este Massacre de Lisboa de 1506 está hoje quase completamente esquecido, quem for à cidade ainda poderá encontrar, muito próximo da Igreja de São Domingos e do local em que estes episódios outrora tomaram lugar, uma pequena homenagem aos que faleceram durante o episódio. Num semicírculo adornado com uma Estrela de David constam as seguintes palavras, que aqui recordamos ao terminar o tema de hoje:

1506-2006
Em memória dos milhares de Judeus vítimas da intolerância e do fanatismo religioso assassinados no massacre iniciado a 19 de Abril de 1506 neste largo.
5266-5766 [*]

 

*- Estas são as mesmas datas já apresentadas acima, mas convertidas para o calendário judaico.

Um Palácio Desconhecido em Sintra?

Por estes dias, ou até pelos últimos anos, um dos grandes problemas da vila portuguesa de Sintra é que está sempre demasiado cheia de turistas. Uma só fila para ir ver o Tritão do Palácio da Pena, ou o chamado Palácio da Vila, pode ter centenas e centenas de metros de comprimento e prolongar-se durante várias horas, enquanto que locais como o Convento dos Capuchos ou o Palácio de Monserrate, muito provavelmente por estarem um pouco mais longe do centro da vila ou serem menos conhecidos do grande público, têm muito menos visitantes.

Um Palácio Desconhecido em Sintra?

E depois existem locais que muito raramente são visitados pelas pessoas, como a Capela de São Mamede de Janas ou o pequeno mas belo palácio visto na imagem acima. É actualmente pertença de privados (mas que até pode ser visitado ocasionalmente), já foi dito “casa assombrada” num filme para adolescentes, e a quinta em que se insere até tem uma belíssima gruta. Mas não é, repita-se, caso único. Também poucos são os vistantes da zona de Adrenunes, e de outros tantos sítios que não estão assim tão longe da própria vila de Sintra… e é uma pena. Fica, portanto e para o futuro, o convite para que se visite não só o que é bastante conhecido, mas igualmente o que tem o seu charme ainda bastante desconhecido do grande público!

A lenda de Wetaskiwin

A lenda que aqui contamos hoje vem de uma expressão dos nativos canadianos relativa a Wetaskiwin Spatinow. Já iremos ao seu significado, mas por agora basta dizer que a pequena cidade canadiana tem uma lenda para explicar esta origem do seu nome.

A lenda de Wetaskiwin

Em outros tempos, possivelmente na segunda metade do século XIX, viviam na área que se viria a tornar Wetaskiwin duas tribos nativas, os Cree e os Blackfoot. Os respectivos territórios eram separados por um pequeno rio, e os seus limites tendiam a ser respeitados pelas duas nações índias, excepto quando sentiam necessidade de comida e o enorme grupo de bisontes locais cruzava o rio para o lado oposto. E isto acontecia diversas vezes, até porque os animais queriam preservar as suas próprias vidas, até que um dia uma das tribos – já não sabemos precisar qual das duas foi a responsável inicial – lá se zangou com a ocorrência e declarou guerra à outra.

 

Os dois exércitos dirigiram-se então para uma colina local, a futura Wetaskiwin, mas seguindo por lados opostos nunca se viram. Por isso, na sua busca de encontrar a localização dos opositores, dois bravos guerreiros – um de cada tribo, a Criança Búfalo e o Pequeno Urso – subiram até ao topo da colina e espreitaram para o lado contrário… e quando isso aconteceu, ambos deram imediatamente de caras um com o outro! Pela honra das respectivas pátrias, decidiram então combater só com as mãos, sem outras armas, e o conflito prolongou-se por horas e dias. Depois, admitindo a necessidade de descansar, ambos se separaram por um momento. Um deles tirou da sua vestimenta um pequeno cachimbo, fumou-o, e… entendendo que também o seu opositor necessitava de relaxar, passou-lhe o mesmo instrumento. Quando se aperceberam do que tinham feito, já era tarde demais!

 

O que aconteceu aos dois guerreiros? Talvez não seja muito fácil de perceber na cultura portuguesa, mas eles tinham fumado, por completo acidente, o chamado “cachimbo da paz”. As regras de ambas as tribos, como em muitas outras na América do Norte (e até na xenia dos Gregos), diziam que ao fazerem este acto comum, tudo tinha de ser perdoado entre eles. E assim o foi feito, a guerra depressa terminou, e a colina em que o episódio tomou lugar passou a ser conhecida como Wetaskiwin Spatinow, “a colina em que a paz foi feita” pelos Cree e Blackfoot. Claro que depois o nome foi sendo simplificado, até se chegar ao actual.

 

Tema terminado? Ainda não, por aqui faltar um pequeno elemento curioso – a mesma cidade é hoje mais conhecida por alguns anúncios locais que apregoam que, com uma pequena musiquinha, “Cars cost less in Wetaskiwin“, i.e. os carros custam menos na cidade. Podem ouvir abaixo:

Será verdade, ou apenas um outro mito local? Não sabemos, mas os poucos habitantes de Wetaskiwin a quem perguntámos sobre isso afirmaram que sim, que os carros são, de facto, menos caros na cidade. Por isso, se algum leitor ou leitora estiverem no Canadá, mais precisamente na província de Alberta, e quiserem comprar carro, já sabem onde ir…

A lenda do Aqueduto de Segóvia

Naquilo a que podemos chamar a vida real, sabe-se que o Aqueduto de Segóvia, localizado no centro de Espanha, foi construído pelos Romanos. É um facto pura e simplesmente irrefutável. Mas, ainda assim, não deixa de existir uma curiosa lenda espanhola sobre a sua construção.

Se procurarem na internet imagens deste famoso aqueduto, poderão facilmente aperceber-se do seu tamanho, mas o que pouca gente nota é um pormenor curioso, que pode ser visto na imagem abaixo, e que passa pela existência actual de um pequeno nicho na construção em que está colocada uma estátua da Virgem Maria, que uns dizem ser a Virgen del Carmen e outros a Virgen de la Fuencisla, sendo esta última a padroeira da cidade. De onde vem ela? É, em parte, isso que toda esta lenda local procura explicar.

A Lenda do Aqueduto de Segóvia

Para falar desta lenda, esqueça-se então os Romanos. Pense-se numa Espanha medieval em que este Aqueduto de Segóvia ainda não existia, que é uma condição necessária para toda esta história. Depois, ela conta-nos que, algures nos tempos da Idade Média, uma jovem local trabalhava para uma família nobre e tinha de, com muitas dificuldades, ir buscar água para eles todos os dias. Dia após dia, noite após noite, ela descia uma montanha, andava algumas centenas de metros, subia outra montanha, e só assim conseguia ir buscar o líquido vital, como lhe competia.

Um dia, apareceu-lhe no caminho uma estranha figura. Era o Diabo, que assim se lhe apresentou e lhe prometeu construir algo que tornaria muito mais fácil toda esta procura por água, desde que ela lhe concedesse a sua alma. Incrédula, a jovem muito pensou na proposta, até que decidiu aceitá-la mas com uma pequena ressalva – ele só lhe ficaria com a alma desde que conseguisse construir a totalidade da estrutura numa só noite.

Assim foi combinado, e o Diabo trabalhou toda a noite para construir este tal Aqueduto de Segóvia, mas à medida que o dia se aproximava ele distraiu-se um pouco. Não se tem bem a certeza do que aconteceu – as versões da lenda variam nesse ponto – mas ele lá se distraiu e deixou por construir um pequeno nicho em toda a estrutura. Face a isso, quando o sol lá nasceu, este novo aqueduto estava quase terminado mas não totalmente… e então a jovem ganhou esta espécie de aposta, não só tendo preservado a sua alma, mas também obtido uma importantíssima nova forma de transportar água para a sua cidade. E quanto ao local que o Diabo deixou por construir, em honra da Virgem, que poderá ter intercedido em favor da jovem, foi aí colocada uma das suas representações!

 

Agora, passando desta lenda do Aqueduto de Segóvia para a realidade, é evidente que tudo isto é mera ficção, até porque a estrutura em questão já existia há diversos séculos nesta cidade quando se chegou aos tempos da Idade Média, mas não deixa de ser uma curiosa forma de se tentar explicar a sua existência. O mesmo também acontece no nosso país, mais precisamente em relação a um conjunto de pontes no norte do país, que também aí se dizem ter sido construídas pelo Diabo, mas a verdade é que… estas lendas são é fruto de um tempo em que as populações já não conseguiam compreender como é que dadas estruturas antigas tinham sido feitas, o que se aplica tanto nas referidas pontes do nosso país, como em grandes estruturas no estrangeiro, como aquela a que dedicámos as linhas de hoje…

A lenda de Dom Thedon e Ardínia

Em dia que se supõe dedicado ao amor decidimos que teríamos de aqui contar uma história amorosa, e optámos pela de Dom Thedon e Ardínia. Na verdade ela já estava planeada há algum tempo, desde que aqui falámos de Maria Coroada e a Granja do Tedo, por ser a lenda utilizada no local para justificar o nome da povoação, mas chegou finalmente a hora de ela ser recordada por aqui.

A lenda de Dom Thedon e Ardínia

Conta então esta lenda que naquele sempre vago Tempo dos Mouros viveu nesta zona, provavelmente até no castelo de Lamego, uma princesa moura de nome Ardínia. Como é comum em histórias como estas, ela apaixonou-se por um cavaleiro cristão de nome Thedon (ou Tedo, ou Thedo, entre outras variantes). O sentimento da jovem foi partilhado pelo cavaleiro, e então eles fugiram para o Mosteiro de São Pedro das Águias, a alguns quilómetros de distância, onde casaram secretamente.
E tudo estaria bem se a história acabasse por aqui, nos mais plenos amores dos seus heróis, mas o pai de Ardínia depressa soube da ocorrência e decidiu procurar pela filha. Face ao grande crime que ela tinha cometido, o da conversão ao Cristianismo, ele sentiu que tinha de a encontrar. E fê-lo, matando-a na sequência do seu crime, e atirou o seu corpo a um rio próximo. Depois, Thedon, sabendo da morte da sua amada, atacou os soldados do pai desta, mas eles eram demasiados para os conseguir vencer. Também o mataram a ele, deitando igualmente o seu corpo ao rio local, que por toda esta bela desventura passou a ser conhecido como o Rio Tedo.

 

Lendas como esta são muito comuns em todas as regiões de Portugal – relembrem-se, a puro título de exemplo, as lendas do belo castelo de Almourol – e normalmente são utilizadas para se justificar o nome de algum elemento local. Aqui, neste caso em particular, claro que o nome de “Tedo” não poderá deixar de nos soar invulgar, e daí a necessidade da introdução na história de um cavaleiro com um nome igualmente pouco vulgar. “Pouco vulgar”, esclareça-se, no mundo real, mesmo naquele suposto tempo da Idade Média, porque nos romances de cavalaria de outros tempos abundam nomes claramente fictícios… e talvez também este tenha nascido de um deles? Não encontrámos nenhuma prova a favor ou em contrário, mas nunca se sabe…. E por isso, os amores de Dom Thedon e Ardínia são, no mínimo, uma forma local de se explicar o nome de um rio, sem que se saiba que verdade há por detrás de toda a sua história.