A lenda do Basilisco de Urrialdo

Apesar de breve, esta lenda do Basilisco de Urrialdo não deixa de ser notável, porque contribui para explicar algo que, de outra forma, seria difícil de compreender. Mas já lá iremos, comece-se por uma breve introdução a todo o tema.

Um Basilisco que não o de Urrialdo

Já cá falámos anteriormente sobre o monstruoso basilisco, uma criatura que, segundo uma tradição especificamente ibérica, nascia de um ovo de um galo quando este fazia 7 anos de idade. Até aqui falámos da lenda de uma destas criaturas que, segundo a história, viveu em Viena, na Áustria, mas esse caso não foi único, existindo lendas de mais algumas criaturas dessa espécie por toda a Europa, e a de hoje vem do país de “nuestros hermanos”.

 

Conta-se então que existiu, algures no município de Vitoria (no País Basco), uma pequena fonte em que outrora viveu um basilisco. Ele foi aí colocado por um feiticeiro, que posteriormente até acabou por matá-lo, mas as populações locais tinham tanto medo do animal, que possuía a estranha característica de os matar somente com o olhar, que tiveram de abandonar completamente a região, fazendo restar da antiga povoação de Urrialdo apenas e somente uma igreja que o tempo se encarregou de destruir. Nela se acreditou que existiu, até inícios do século XX, um pequeno esqueleto do famoso animal (que nos ficou conhecido como o Basilisco de Urrialdo por esse local onde viveu), mas hoje já nada de palpável resta para o afiançar.

 

E, portanto, esta é uma daquelas lendas que parece ter existido para se explicar o porquê do completo abandono de uma povoção. Naturalmente que não é um caso único… mesmo em Portugal, existem algumas pequenas lendas para explicar eventos semelhantes. Uma delas diz-nos que uma determinada povoação – terá sido ela Idanha-a-Velha, ou uma outra? A memória escapa-nos neste instante – foi abandonada porque estava constantemente infestada por grandes formigas, o que causava muitos problemas aos habitantes locais, acabando por levá-los a ir viver para outro sítio. Certamente que existem muitas outras histórias assim, mas repita-se que a sua finalidade é quase sempre uma e a mesma – tal como este Basilisco de Urrialdo, que explica o abandono dessa povoação do norte de Espanha, também muitos outros locais tiveram as suas calamidades animais, vegetais ou miraculosas, por vezes mais lendárias do que reais, para explicar um abandono por parte dos antigos habitantes…

As Ruínas Romanas de Vila Cardílio

Há alguns dias passámos em romaria pelas Ruínas Romanas de Vila Cardílio, a cerca de cinco quilómetros do centro da cidade portuguesa de Torres Novas. Elas estiveram fechadas ao público por alguns meses, conforme até nos foi comunicado na altura, mas agora já reabriram numa forma bastante limitada – essencialmente, o possível visitante tem um acesso gratuito às ruínas da própria vila romana, como pode ser visto abaixo, e essa visita é actualmente complementada com alguns painéis explicativos, mas o (pequeno) centro interpretativo permanece ainda temporariamente encerrado e vazio de quaisquer conteúdos para os visitantes.

Ruinas Romanas de Vila Cardilio

Vale então a pena a visita a este local, também chamado, de uma forma mais simplificada, as Ruínas Romanas de Cardílio? Elas são uma espécie de Conímbriga em miniatura, onde neste momento poderão ver alguns mosaicos, colunas incompletas, e a generalidade dos espaços que se costumam encontrar numa villa romana. Contudo, neste preciso momento a visita ainda apresenta muito pouco que possa interessar ao visitante comum, devendo notar-se especialmente que nem o famoso painel de mosaicos que deu nome ao local, com as suas palavras latinas “Viventes Cardilium et Avitam Felix Turre“, pode agora ser encontrado no recinto. Presume-se que ele esteja guardado em local seguro, bem como as outras coisas outrora encontradas neste sítio arqueológico, para uma exposição que no futuro virá possivelmente a ter lugar no tal centro interpretativo, o que é bem compreensível, mas por agora isso também deixa todo o local muito despojado de motivos de interesse para quem não tiver um interesse mais académico em conhecê-lo.

 

Sendo assim, a visita a estas Ruínas Romanas de Vila Cardílio está, no momento em que escrevemos estas linhas, bastante condicionada à ideia de um potencial visitante já saber de antemão o que espera vir a encontrar. Se ele quiser perceber bem toda a história do local, ou conhecer o que foi sendo encontrado por lá ao longo do tempo, por agora ainda não é possível fazê-lo. Talvez volte a sê-lo daqui a uns meses. Mas se, como foi o nosso caso pessoal, passarem casualmente pelo local e o virem aberto ao público – segundo conseguimos apurar, o seu horário é de terça a domingo, das 10h ás 13h e das 14h ás 17h – porque não dar um pequeno pulinho lá, por uns breves minutos, e ficar a conhecer, no mínimo dos mínimos, mais uma das muitas casas romanas que foram sendo encontradas no nosso país?

Os cartazes esquecidos do Monte Estoril (e a Avenida do Lago, que não o tem!)

Hoje, ao falar-se sobre estes cartazes esquecidos do Monte Estoril, talvez mereça começar-se o tema com uma brevíssima introdução mais pessoal. Por vezes, vamos tirando fotografias para ilustrar publicações futuras ou para recordar algum pormenor mais digno de nota, como aconteceu com o tema da Nossa Senhora do Guincho. Alguns desses temas acabam por tomar forma e aparecer por aqui (e.g. o caso da Lenda da Peninha), mas outros vão ficando pelo caminho ou sendo adiados (quase) indefinidamente. E o tema de hoje parte desse último grupo, de algo que por repetidas vezes se pensou abordar por aqui, mas que de forma igualmente repetida se foi adiando, até que uma leitora francesa nos pediu mais informação sobre isto, levando-nos a finalmente escrever sobre tudo isto…

A entrada do Jardim Carlos Anjos, no Monte Estoril

Indo então ao tema de hoje, no Monte Estoril, muito próximo da povoação portuguesa de Cascais, existe um pequeno jardim de nome Jardim Carlos Anjos, em homenagem ao principal fundador da zona. Muito mais poderia ser dito sobre o tema, mas o que nos interessa, hoje, é um cartaz que pode ser visto à sua entrada, que está colocado mais ou menos ao centro na imagem acima. Ele está dividido em quatro partes, três delas com conteúdos publicitários e uma quarta com informação turística. Agora, isto pouco ou nada teria de especial, não fosse o facto do cartaz se encontrar no local há décadas, sem jamais ter sido actualizado, o que permite ao visualizador fazer uma espécie de viagem no tempo até ao passado de toda esta região.

Um dos cartazes do Monte Estoril

Começando do lado esquerdo, a primeira parte do cartaz anuncia o que parecem ser duas empresas de aluguer e venda de imóveis, a “Stella Gameiro, Lda.” e a “Gameiro & Graça, Lda.” Segundo foi possível apurar, a segunda destas ainda existe, continua até no que chamavam “Birre Commercial Centre”, mas os números de telefone já mudaram há muito (no cartaz, ainda tinham apenas sete dígitos, sem indicativo).

Por baixo, um pequeno anúncio a um “Patrick”, que se dizia “Cabeleireiro – Estilista”. Ele já não está no local anunciado, fechou aí em 1996.

Segue-se um anúncio ao “Clube Mimosa”, que nessa altura tinha “banquetes, salas de conferências, health club, tennis, lojas diversas, piscinas aquecidas, putting green”. Mais abaixo chamam-lhe também “Complexo Turístico Mimosa, Lda.” O local ainda existe, mas parece ter perdido esse seu fulgor inicial, com muitas das lojas a serem substituídas por outras ao longo do tempo.

Depois, uma loja chamada “Isto e Aquilo”, que vendia “Artesanato Português” e que estava localizada no cascalense Largo da Misericórdia. Aparentemente já não existe, talvez perdida entre dezenas de lojas semelhantes que agora existem nessa vila.

Ainda, uma empresa que se parece ter chamado “Y Ludus”, ou “Ludus”. Quase nada se diz sobre ela, não existe uma morada ou número telefone, tornando impossível localizá-la.

 

Continuando para a segunda parte do cartaz, esta é curiosa porque apresenta o Estoril em três línguas – Português, Inglês e Francês – mas fá-lo sem que exista uma verdadeira correspondência de tradução entre elas. Dizem, é verdade, mais ou menos o mesmo, mas a forma como o fazem parece ter sido adaptada para melhor cativar o interesse de cada um dos povos. Para quem estiver com curiosidade sobre o seu conteúdo, basicamente eles apresentam o que existe na localidade de uma forma bastante breve.

Outro dos cartazes do Monte Estoril

A terceira parte, reproduzida acima, apresenta um restaurante, obviamente belga, de nome “La Cuisine de Belgique”, localizado apenas na “Praia do Guincho”. Presume-se que na altura não existissem muitos restaurantes por lá, mas o que se sabe é que já não existe nessa forma original. É provável que tenha sido reocupado pelas chamadas “Furnas do Guincho”, um restaurante de preços exorbitantes para enganar turistas.

 

Finalmente, a quarta das quatro partes destes cartazes do Monte Estoril voltam a anunciar o “Clube Mimosa”, referindo mais algumas das suas características, mas também apresenta outras lojas.

A primeira, de nome “Riders – Loja Inglêsa de Equitação”, dizia ter “everything for the horse and rider”, terminando uma enunciação do que vendia com “(…) and many other items for the none rider”. Estava localizada no hipódromo de Cascais.

A segunda, de nome “Health Club Gemini”, existia no número 514 da Avenida Sabóia, também aqui no Monte Estoril. Já não existe há mais de uma década, tendo sido substituído por diversas outras lojas antes de se tornar, mais recentemente, uma das infindáveis imobiliárias da zona.

Abaixo, uma misteriosa “Casa Manuel”, localizada em Bruxelas(!), que dizia ter “Tout le regal du Portugal” e prometia ao leitor “vacances perpetuelles”. Uma breve pesquisa revelou que o local ainda parece existir – é um restaurante – mas poderá ter mudado de local.

O último local anunciado nestes cartazes era o “Coconuts”, que estava localizado na Estrada da Boca do Inferno 7, em Cascais, e anunciava ter “tiger-bar, café califórnia, terrace, pool, tropical-drinks, fruit-juices, snacks, sweets, coffee, liquers, beers, wines, champagne, white bar, vip-bar, ocean-bar, tenns, private parking, live music, disco, coneerts, video, tv, films, slides”. Já encerrou, e todo o espaço é hoje um hotel.

 

Em suma, estes cartazes do Monte Estoril, hoje quase esquecidos no seu local original, preservam-nos uma altura muito específica da evolução da região, em que esta tinha muitos turistas estrangeiros. Poderia dizer-se que ainda os tem hoje, seria correcto, mas o curioso das publicidades presentes no cartaz é que parecem focar-se maioritariamente num público estrangeiro, como se os habitantes locais fossem secundários.

 

É tudo por hoje? Ainda não… resta uma pequena curiosidade, relacionada com este mesmo tema. Algumas das lojas apresentadas no cartaz estavam localizadas numa “Avenida do Lago” do Monte Estoril. Ora, quem for ao local, a menos de um quilómetro de onde estão os próprios cartazes, poderá aí encontrar a avenida mas… nada de “lago”, no verdadeiro sentido da palavra! Que lhe aconteceu? A história é antiga e refere-se à própria génese desta localidade. Nessa altura, pensou-se em fazer um grande lago no local, como ainda hoje o há no Campo Grande lisboeta, que até iria ter a sua própria estação de eléctrico (para quem quisesse descer até à praia e apanhar o comboio para Lisboa), mas com o passar do tempo, e igualmente por falta de fundos, lá se percebeu que a ideia não valia muito a pena e desistiu-se dela. Nesse seguimento, hoje resta no local essa “Avenida do Lago” quase circular, como que a demarcar o contorno que o próprio lago ia ter, mas sem que lá existam as águas, os patos e os barcos que outrora se pensaram colocar neste sítio. Existe, curiosamente, é um jardim do lago, em que o espaço se desejava inserir, mas que ainda hoje permanece assim, estranhamente incompleto, mas sem que já alguém pergunte onde estão essas águas…

A Lenda de Loreley

É difícil falar-se de uma verdadeira lenda de Loreley – ou Lorelei – porque, contrariamente ao que é habitual, neste caso específico sabemos a sua origem. Parte dela foi escrita em 1801, por um tal Clemens Brentano, enquanto que outra parte originou em 1824 por Heinrich Heine. Poderia achar-se, assim, que uma delas, ou ambas, se basearam numa lenda pré-existente, potencialmente oral, mas dado que as duas “versões” são significativamente diferentes, isso parece demonstrar que não existia qualquer lenda na sua origem, mas apenas e somente uma espécie de história muitíssimo geral que ambos os autores utilizaram para os seus próprios propósitos.

A lenda de Loreley

Na história de Clemens Brentano, datada de 1801, esta Loreley era apenas uma mulher que foi traída pelo seu apaixonado e acusada de feitiçaria. Como era comum na época – e já aqui explicámos porque eram essas supostas “bruxas” acusadas – isso deveria levá-la à sua morte, mas o bispo local preferiu apenas condená-la a viver num mosteiro para o resto dos seus dias. Depois, quando se encontrava a ser transportada para esse local, ela passou no local da rocha visível acima e pensou ver, muito à distância, o seu amado a retornar, preparado para a salvar do temível destino. Subiu à rocha para o ver melhor, mas acabou por cair da mesma, tornando-se uma espécie de figura tutelar do local.

 

Agora, na história de Heinrich Heine, esta datada de 1824, Loreley já é uma espécie de sereia local, que, sentada no topo destas rochas, atraía todos os navegadores para a sua destruição. Um dia levou à morte do filho de um nobre local, que se tinha apaixonado por ela, como já tinha acontecido a tantos outros anteriormente. Quando soube o que se tinha passado, esse nobre lá enviou o seu exército para o local, procurando matar o “monstro”, mas esta figura simplesmente se afundou nas águas e foi para o seu palácio secreto… e não mais voltou a ser vista, mas os seus gritos continuam a poder ser ouvidos nas noites de lua cheia, como é comum em histórias como estas.

 

Nunca ouvimos a Loreley na primeira pessoa, convém frisar isso. Porém, é bastante claro que, dado o facto de todo este local estar associado a diversos acidentes aquáticos, alguém decidiu começar a contar uma espécie de história que pudesse ajudar a explicá-los. Contudo, a natureza destas duas primeiras histórias é muito diferente, não tem um verdadeiro tronco comum excepto ao nível do nome da personagem principal (que já era o de um rochedo local…), deixando perceber que mais do que existir uma lenda da Loreley em que se inspiraram, existia era um nome e um conjunto de incidentes que necessitavam de explicação, algo que Brentano e Heine tentaram colmatar à sua maneira. E, por isso, mais do que uma lenda, estas são duas breves histórias de um local que, com o passar do tempo e uma fama crescente, se tornaram uma espécie de pseudo-lenda alemã…

Uma misteriosa Nossa Senhora do Guincho

Próximo da praia do Guincho, em Cascais, Portugal, pode ser encontrado um pequenino santuário com uma imagem de uma Nossa Senhora. Ele pode ser visto no Google Maps aqui, mas já não se parece saber muito bem o que faz por lá. É fácil notar a existência de algum culto popular no local, até porque frequentemente estão lá algumas flores, colocadas por alguém de identidade desconhecida, mas… qual é a história escondida por esta imagem, a que poderíamos chamar, de uma forma puramente tentativa, a Nossa Senhora do Guincho?

A Nossa Senhora do Guincho?

Seria, obviamente, interessante contar aqui uma qualquer espécie de história ou lenda para explicar esta presença no local, mas não parece existir uma, até porque aí também foi colocada, algures no espaço de tempo que separou os anos de 2009 e 2018, um pequeno azulejo de Nossa Senhora de Fátima, como pode ser visto na imagem acima, dando a subentender que quem o fez, por muito religioso que fosse, já desconhecia qualquer história notável para este local.

Ao mesmo tempo, não nos parece que alguém tenha morrido aqui. Em casos semelhantes, como o de Maria do Carmo de Mello, existe quase sempre uma cruz no local, frequentes vezes acompanhada pelo nome da pessoa e uma potencial data de uma ocorrência para ela significativa, o que também não acontece aqui.

 

As presenças marianas em memoriais como este são, a maior parte das vezes, pequenas referências a algum milagre que outrora teve lugar nesse local, uma espécie de ex-voto, como no conhecido caso da Nossa Senhora da Arrábida, de que já cá falámos antes. Neste caso específico, e tomando até em conta o facto do santuário estar localizado muito próximo de um farol, é provável que a imagem aí tenha sido colocada por algum navegante cuja vida só foi preservada da fúria de uma qualquer tempestade com o auxílio de algo – ou alguém – que lhe pareceu ser a imagem celestial da Virgem Maria, e à qual poderíamos chamar “… do Guincho” dada a sua localização próxima dessa notável praia. Desconhecemos, é importante admitir isso, se alguma vez ela foi mesmo denominada Nossa Senhora do Guincho, ou se teve o nome de outra versão da Virgem – como a Nossa Senhora da Guia, figura com um santuário a poucos quilómetros de distância – mas se existiu outrora uma qualquer lenda associada a este pequeno local, já (quase?) ninguém a parece saber hoje em dia.

Poderá ter sido a Virgem Maria a aqui salvar alguém, poderá ter sido o próprio farol, é agora difícil saber, mas conhecendo-se outros locais semelhantes a este, é aqui apropriado afirmar que este pequeno memorial aí foi colocado para agradecer alguma coisa que o oferente pensava ter acontecido por auxílio divino. E, na falta de informação mais concreta, estas breves linhas terão de nos chegar…