O mito dos Dalgyal Gwishin (e o Noppera-bo)

Na mitologia coreana, um gwishin não é senão uma espécie de espírito ou fantasma. Existem várias versões para explicar a sua génese e evolução, com a mais comum a dizer que estes seres são espíritos de pessoas falecidas a quem não foram prestados os devidos rituais fúnebres. Nesse sentido, a sua ideia geral pouco se parece afastar de algumas crenças ocidentais para circunstâncias semelhantes, e nem sentiríamos a necessidade de dedicar quaisquer linhas ao tema. Porém, o ponto digno de interesse é que os Coreanos acreditam em diversos tipos de espíritos, sendo um dos mais curiosos o Dalgyal Gwishin, que é como quem diz “Fantasma-ovo” ou “Espírito-ovo”.

O mito dos Dalgyal Gwishin

Poderiam perguntar, naturalmente, como é que um fantasma pode ser um ovo, ou um ovo pode adoptar uma forma fantasmagórica. Parece no mínimo estranho, não é…? E, na verdade, não conseguimos encontrar uma versão completamente horizontal que explicasse a génese desta estranha criatura, mas é curioso que este Dalgyal Gwishin exista tanto na Coreia como no Japão (onde adopta o nome de Noppera-bo). Nessa segunda versão, é dito que este yokai – que é como quem diz, “criatura mitológica” – podia ser uma das muitas formas que uma kitsune adoptava para assustar as pessoas. Será que a Gumiho coreana também partilha desse estranho poder? Não sabemos, mas o grande mito associado a ambas as formas do espírito aqui em questão é curiosamente consensual nos dois países.

 

 

Essencialmente, quando alguém vai a passear na rua pode ver, à distância, uma mulher bela que parece estar a chorar e/ou a pedir ajuda. Quando a pessoa se aproxima do local, possivelmente movida por uma certa compaixão, este ser vira-se para ela e demonstra não ter quaisquer feições vísiveis, mas apenas uma espécie de ovo em vez de uma cara. Como é natural, isto assusta tanto a pessoa que ou ela morre ali mesmo, ou fica de tal forma traumatizada que não consegue dormir durante vários dias, acabando por morrer de cansaço.

 

 

Mas as linhas de hoje ainda não acabam aqui. Se encontrámos, no passado, pessoas japonesas que criam já ter visto criaturas como a Kuchisake-onna, convém ainda dizer que nunca encontrámos ninguém que nos tenha dito que viu um Noppera-bo ou um Dalgyal Gwishin. Até conheciam os nomes, sabiam esta história essencial com mais ou menos os mesmos contornos – uma criatura destas até pode ser vista no premiado filme A Viagem de Chihiro, “千と千尋の神隠し” – mas consideravam-na um mito mais do que uma lenda, talvez ligado ao culto dos antepassados, que ainda é muito prevalente em algumas culturas orientais. Por isso, se alguém viu um destes seres, por favor deixe-nos um comentário e conte-nos mais…!

“O Sonho das Nove Nuvens”, um clássico coreano

O livro a que dedicamos as linhas de hoje não é fácil de encontrar, até porque não parece existir em qualquer tradução portuguesa. Ainda assim, é um dos mais famosos livros da literatura clássica coreana, onde é chamado “구운몽“, com o nosso O Sonho das Nove Nuvens a ser uma tradução aproximada do título original – em Inglês, chamam-lhe “The Cloud Dream of the Nine“, e foi através de uma tradução nessa língua que conseguimos aceder a essa obra da autoria de Kim Man-jung, para a escrita das linhas seguintes.

O Sonho das Nove Nuvens, de Kim Man-jung

A história pode ser resumida assim –  Hsing-chen era um jovem monge budista que, após encontrar oito “fadas” (assim lhes chama a tradução, certamente imperfeita*), começou a sentir desejos terrenos. Aparentemente para os expurgar, ele foi então enviado para o mundo terreno, onde, ao longo das suas aventuras, foi conhecendo oito belas mulheres, casando com algumas e obtendo as restantes como concubinas. E se até esse instante quase-final esta obra talvez pouco destoasse no panorama dos romances dos nossos dias, há ainda aqui uma sequência adicional que, no final, não pode deixar de surpreender os leitores ocidentais.

 

A obra termina com Hsing-chen a acordar e a entender, por via de um seu mestre, que as suas aventuras terrenas não passaram de um mero sonho. Ele aprende que a verdadeira felicidade não passa pela fama, riqueza ou pelos prazeres do corpo (como as suas aventuras poderiam sugerir ao leitor), mas pelo desapego físico característico do budismo. E, nesse sentido, é um ciclo que completa o início da obra, fazendo de toda a história uma espécie de grande fábula moralizadora, relembrando, de certa forma e por exemplo, o Sonho do Quarto Vermelho chinês.

 

 

Será que vale a pena aos leitores ocidentais lerem esta obra? Neste caso em particular, tudo parece depender do seu interesse na cultura coreana. Este não é um livro simples, percebê-lo numa forma completa implica até ter conhecimentos significativos de crenças religiosas orientais (como o Taoismo), e isso poderá assustar quem estiver menos preparado para essa dificuldade. Por isso, é uma obra literária mais indicada para quem tiver um interesse significativo na cultura que a produziu, até por ser, segundo conseguimos apurar, uma das mais famosas obras da península coreana.

 

 

 

*- É comum a tradução de obras orientais com uma readaptação à mitologia ocidental, por exemplo o caso da Fenghuang vs. “fénix”, e isso pode induzir em erro quem for ler a tradução. É muitíssimo provável que o original não fale de “fadas”, mas de algo mais semelhante a ninfas, ou a alguma figura mitológica coreana.

O mito do Bulgasari (ou Pulgasari)

O ser conhecido pelo nome de Bulgasari, ou Pulgasari, vem-nos de terras da Coreia, e de um tempo em que a do Norte e a do Sul ainda se encontravam unidas. Agora, o curioso, e certamente aqui até muito digno de nota, é que o seu mito está pejado de diversas versões, sendo impossível determinar qual foi a mais antiga de todas elas. Este é um problema tão significativo que mesmo quando foram feitos filmes sobre este tema, as suas tramas se apresentam como tão diversas que se torna completamente impossível tentar determinar em que consista a história original por detrás desta criatura. E portanto, o que aqui trazemos hoje é uma forma simplificada da história, com apenas aqueles elementos que ou são famosos, ou parecem constar em várias das suas versões.

O mito do Bulgasari (ou Pulgasari)

Diz-se então que a criatura que viria a ser conhecida sob o nome de Bulgasari foi criada por um monge budista num período de perseguição. Talvez apenas para ocupar o seu tempo, ou em alternativa para criar uma espécie de ser que o pudesse proteger, ele pegou em bagos de arroz cozido e com eles formou um ser completamente fictício, onde podem ser reconhecidos sem dificuldade, por exemplo, os dentes de tigre e uma tromba de elefante. Depois, foi alimentando este estranho ser com pequenas agulhas de metal… e isto levou a que ele fosse crescendo, crescendo e crescendo cada vez mais. Até que se tornou um grande problema na região, como é habitual em casos como este (recorde-se, por exemplo, o “nosso” caso nacional da Porca de Murça). Teve de ser chamado o exército local, que atacou este Bulgasari com flechas, espadas, lanças, e outras armas semelhantes, mas por muito que tentassem vencê-lo, ele limitava-se a interpretar todas essas tentativas como um delicioso manjar.

 

Como foi, então, derrotado este monstro? Fruto das muitas versões da história, a completa verdade é que não sabemos. Uns dizem que lhe foi atirado fogo, o que lá destruiu os bagos de arroz que o compunham, matando-o; outros dizem que caiu num buraco e agora vive no interior da terra; e há até quem diga que ele foi espalhando o caos por toda a Coreia e ainda hoje se encontra “algures”, em busca de mais comida metálica para alimentar a sua gula.

 

 

Finda esta breve história do ser que também hoje é conhecido na Coreia por Pulgasari, há ainda aqui um outro curioso elemento a ter em conta. Para quem até já conhecer a lenda japonesa de uma criatura chamada Baku, certamente que terá notado que os dois monstros se assemelham bastante, de um ponto de vista físico. A grande diferença é que enquanto a criatura coreana come metal, a japonesa se alimenta de sonhos (daqueles que se têm durante a noite, e não os bolos desse nome!). É provável que tenham tido uma fonte comum, potencialmente chinesa, mas que esta se tenha perdido ao longo dos séculos, levando ao estado actual das lendas japonesa e coreana, em que pouco de estável se sabe seja sobre a origem destes monstros, ou sobre os seus destinos finais…

Um breve lenda de Amitaba

A lenda de Amitaba conta-se entre muitas outras associadas ao Budismo e que são quase desconhecidas no nosso país. Assim, falar sobre ela implica uma breve introdução ao tema, com algumas informações que poucos parecem conhecer em Portugal. Há já alguns anos contámos aqui os elementos essenciais da história de Buda, ou de Sidarta Gautama, a figura fundadora do Budismo. Contudo, se esse homem foi o fundador de uma famosa religião, também existem muitas outras histórias ligadas a ela. Algumas delas limitam-se a adicionar elementos à história desse fundador – relembre-se, por exemplo, o que se diz sobre a mãe de Buda – enquanto que outras nos relatam as aventuras de várias outras figuras budistas, algo que podemos considerar como uma espécie de santos do Budismo – relembre-se, também a título de exemplo, aquele nosso famoso “Buda Gordo“; ou Bodidharma, o criador do chá. Nesse seguimento, existem quase infinitas lendas que podemos associar aos “santos” dessa religião, cada qual com elementos muito únicos, como a história de hoje nos poderá fazer ver.

A lenda de Amitaba

No seu cerne, Amitaba foi um santo budista como muitos outros, mas o que o distingue de figuras semelhantes é o facto de ele ter sido o criador daquilo que se chama o “Budismo da Terra Pura”. Sobre ele, conta-se então que antes de atingir o seu Nirvana ele prometeu que todos aqueles que o evocassem no futuro, por uma única vez que fosse no decurso das suas vidas, poderiam mais tarde vir a renascer na tal Terra Pura, uma espécie de paraíso terreno em que tudo segue os preceitos da sua religião. Para tal, bastaria apenas e somente dizer uma única e breve frase – 南无阿弥陀佛 em Chinês, 나무아미타불 em Coreano, 南無阿弥陀仏 em Japonês ou नमोऽमिताभाय बुद्धाय em Sânscrito… que é como quem diz “Refugio-me no Buda Amida” ou “Refugio-me em Amitaba”; na versão aprendida por um dos nossos colegas no Japão, a frase pode até ser apenas Namu Amida Butsu. O processo, na sua vertente mais formal e religiosa, pode ser como mostra este vídeo:

Face à simplicidade do processo, fica o convite para que quem tem interesse nestas coisas o tente… e depois, um dia no futuro, nos diga se funcionou ou não!

A toupeira e a estátua, uma história da Coreia

A história de hoje, da toupeira e a estátua, vem de terras da Coreia, muito antes desse país se ter separado em dois. Seguindo os nossos paradigmas ocidentais, poderíamos defini-la como uma fábula, que até se assemelha bastante a alguns contos recolhidos em Portugal. Essa semelhança é fascinante, mas também ser pouco conhecida na Europa, pelo que achámos que poderíamos aqui recordar toda a história.

A história da toupeira e a estátua

Era uma vez uma família de três toupeiras que vivia próxima de uma estátua budista. A filha do casal, muito bonita, aproximava-se da idade para casar, e como bons pais o seu pai e mãe queriam casá-la com o melhor e mais poderoso homem* que conseguissem encontrar. Após pensarem muito no tema, decidiram que ela poderia casar com o Céu, porque este olhava de cima para todos nós.

Aproximaram-se dele com uma proposta, mas o Céu disse-lhes que não era o mais poderoso, já que o Sol era capaz de decidir as cores que lhe impunha – azul durante o dia, negro durante a noite, e assim por diante! Foram então falar com o Sol, a quem colocaram uma proposta semelhante, mas também este lhes disse que não era o mais poderoso – o Rei das Núvens tinha o poder de decidir se a sua luz chegava à terra ou não! Como tal, foram falar com o Rei das Núvens, que lhes revelou que ele também não era o mais poderoso – o Vento tinha a capacidade de o afastar de qualquer local com um mero sopro! Portanto, aproximaram-se depois do Vento com a mesma proposta, mas também este lhes disse que não era o mais poderoso – existia uma estátua budista que nem ele conseguia mover do local!

O casal de toupeiras, agora já bastante frustrado, foi então falar com a estátua budista que estava próxima da casa em que viviam. Inesperadamente, também esta lhes confessou que não era a mais poderosa, porque uma toupeira era capaz de escavar por baixo dela, fazendo-a cair e partir-se em mil pedaços! E então, marido e mulher aperceberam-se que a resposta era bem mais simples do que pensavam e acabaram por casar a sua filha com uma bela toupeira da sua região natal.

 

São muitas as lições que poderíamos extrair desta fábula, mas – como as de Esopo na sua forma original – elas são mais que muitas, não existindo uma resposta correcta ou uma errada. Em alternativa, cada leitor pode encontrar nela uma lição que lhe pareça apropriada para o seu próprio contexto, e é esse o convite que deixamos a quem ler estas linhas.

 

 

*- Neste sentido compreenda-se como “homem” um qualquer ser do sexo masculino, não necessariamente um humano.