O mito de Jormungandr, a Serpente de Midgard

Se há uns dias nos pediram um mito nórdico, hoje decidimos falar aqui sobre a Serpente de Midgard, também conhecida como Jormungandr, Jormungand ou Midgardsormr. Esses seus nomes significam, respectivamente, algo como “enorme monstro” e “serpente do mundo” (relembre-se que o mundo = Midgard, neste contexto), por razões que se tornarão fáceis de compreender face aos mitos que a envolvem. Não são muito substanciais, mas dada a importância significativa desta figura vale a pena resumi-los por cá.

A genealogia da Serpente de Midgard

Contava-se então que esta Serpente de Midgard, ou Jormungandr, era uma das filhas de Loki, possivelmente um dos mais famosos deuses nórdicos, bem como irmã de Fenrir, a que já cá fizemos alusões antes. Se, hoje em dia, a relação deste deus específico com Thor é bem conhecida, até através de filmes da Marvel que adaptam parte da história de ambos, talvez por aí se consiga compreender a relação muito directa que esta criatura tem com o deus em diversas histórias.

 

Uma primeira história diz que num dado dia Thor foi desafio a levantar um gato. A tarefa poderá parecer-nos muitíssimo simples, a não ser que o felino em questão fosse muito pesado, mas o que ele não sabia é que esse animal era uma versão metamorfoseada da Serpente de Midgard. Assim, só com imensa dificuldade é que consegue levantá-lo um pouquinho do chão – diz a lenda que se tivesse sido capaz de o erguer ainda mais, o próprio universo poderia ter sido destruído!

Jormungand ou Midgardsormr, a Serpente de Midgard

Uma segunda diz-nos que um dia, quando Thor estava a pescar, após vários contratempos o deus atirou um enorme anzol para o mar. Quando sentiu ter apanhado algo e puxou o seu anzol de volta, o deus apercebeu-se então que tinha capturado Jormungandr, que já se preparava para o atacar com o seu veneno mortalíssimo. Pegou no seu famoso martelo para se defender e matar a serpente, mas quem o acompanhava, temendo bastante o que viria a acontecer na sequência desse confronto – e já lá iremos! – limitou-se a cortar a corda que prendia o anzol, repondo a normalidade por detrás de toda a situação. Mas, se essa parte do mito fica por aqui, parece-nos ainda importante frisar que esta trama parece ter sido bastante popular, podendo ser vista representada em monumentos como o que decidimos apresentar acima.

 

Mas a terceira, e sem qualquer dúvida a mais importante de todas as histórias que envolvem esta criatura, é mais inquietante e merece indubitavelmente ser contada na sequência da anterior. Quando o gigantesco acompanhante de Thor cortou a corta que o deus usava para pescar, conforme já contámos, fê-lo por saber de antemão o resultado do confronto entre estes dois grandes opositores. Qual era ele, poderão perguntar… bem, o confronto de este deus das trovoadas com Jormungandr, a Serpente de Midgard, era uma das condições necessárias para a ocorrência do  Ragnarök, o fim do mundo. Para tal tomar lugar, este filho de Odin deveria ferir mortalmente o seu opositor serpentesco, que em troca o envenenaria, num episódio que acabaria por causar a morte de ambos.

 

Mas… porque era então esta figura mitológica nórdica tão importante? Não poderia resumir-se a mais uma criatura entre tantas outras? Qual a ligação entre ela e essa estabilidade do mundo e/ou do universo, a que parecem fazer alusão as histórias acima? Talvez ainda não o tenhamos tornado suficientemente claro para quem não conhecer os mitos originais, mas um dos nomes deste infame animal era Midgardsormr, ou “serpente do mundo”, por se crer que era tão – mas tãooooo! – grande que circundava todo o nosso mundo, chegando depois a morder a sua própria cauda*. Portanto, retirá-la dessa posição, mesmo que pelo mais puro acidente, era muitíssimo perigoso…

 

Sim, esta Serpente de Midgard, também conhecida como Jormungandr ou Midgardsormr, até poderia mesmo ter sido apenas mais uma criatura mitológica como tantas outras, mas foi essa sua ligação ao Ragnarök, a esse previsível fim do mundo nos mitos do norte da Europa, que contribuiu pelo menos em parte para a sua imortalização na cultura ocidental. Existiam muitas outras pré-condições para a eventual ocorrência desse derradeiro evento (e.g. a morte de Baldur é provavelmente uma das mais famosas), pelo que certamente voltaremos a todo esse tema no futuro…

 

 

*- Para quem estiver a pensar nisso, esta famosa imagem, muito conhecida entre nós como um ouroboros, não é originária dos mitos nórdicos, até porque também pode ser encontrada recorrentemente em muitas outras culturas pelo mundo fora. Mas esse é um tema fascinante, pelo que prometemos voltar a ele um outro dia!

O mito de Sibilja

Existem mitos que não podem deixar de nos fazer sorrir. O mito de Sibilja é um deles, por toda uma estranheza que nos transmite, que pouco destoaria num desenho animado para crianças – e mesmo aí, é provável que alguém viesse dizer que esta história da Mitologia Nórdica é demasiado inverosímil!

O mito de Sibilja

Conta-se então que o rei Eysteinn, na Suécia do século VIII da nossa era, possuía uma vaca mágica, venerada como uma deusa, cujo mugido era capaz de incapacitar todos os combatentes adversários. Se ela estivesse feliz e contente (o que implicava dar-lhe muito comida e carinhos, entre outras coisas que tais), Sibilja lá se punha a mugir e toda a batalha estava ganha. Nada mais simples, e durante vários anos foram até muitos os exércitos que caíram sob este fabuloso, e aparentemente inevitável, poder!

Até que um dia, o rei e a sua Sibilja lá acabaram por ser derrotados. Para tal, os opositores dispararam uma flecha contra a cabeça da vaca, causando-lhe dor e forçando-a a fugir pelo campo fora. Depois, quando ela se começou a aproximar dos atacantes, estes pegaram num homem muito gordo, atiraram-no pelo ar e, caindo ele em cima da vaca, esmagou-a (o que não é uma tarefa nada fácil). O resto da batalha procedeu normalmente, com um combate entre dois exércitos, acabando com a derrota de Eysteinn.

 

O que podemos acrescentar a todo este mito de Sibilja? Se existem muitas outras histórias, por todo o mundo, de animais particularmente perigosos – a “nossa” Porca de Murça, os Neades, a Kitsune, etc. – o que toda esta história tem de notável é o facto do monarca sueco ter em seu poder um animal com poderes mágicos que adaptou às lides da guerra. Não existem muitos exemplos, pelo menos na literatura da Antiguidade e da Idade Média, de criaturas mitológicas que tenham sido como que “capturadas” e usadas em combate, apesar de ser uma ideia muito reutilizada em filmes, séries e videojogos dos nossos dias. Por isso, se alguém se lembrar de outros exemplos com mais de 500 anos, por favor deixe-nos um comentário com essa informação!

O mito de Siegfried (e Sigurd)

Há alguns dias, quando aqui falámos sobre Fafnir, sentimos alguma dificuldade em separar essa figura do mito de Siegfried, provavelmente o maior e mais significativo de todos os heróis nórdicos e germânicos. Nesse sentido, recorde-se até o que a Saga dos Volsungos, um texto do século XIII, diz em relação a ele, no instante do seu funeral:

Nunca irá existir neste mundo outro homem como Sigurd, nunca irá nascer alguém que o possa equiparar em nada, e o seu nome será sempre famoso na língua germânica, e em toda a Escandinávia, enquanto o mundo existir[!]

Relembre-se que Sigurd não é mais do que um dos nomes de Siegfried na Mitologia Nórdica, adoptado para o mesmo herói numa outra cultura, mas pouco, ou quase nada, os distingue – usamos aqui o seu nome alemão por ser, hoje em dia, o mais famoso dos dois. Contudo, se as suas principais aventuras se parecem ter mantido ao longo dos séculos (bastará que se compare o texto mencionado acima com a Canção dos Nibelungos, ou mesmo com a trama do ciclo Anel de Nibelungo de Wagner), elas são contadas de uma forma significativamente diferente, o que torna difícil sintetizá-las aqui. Assim, contamos aqui, de uma forma breve, os três principais momentos da grande história associada a este herói:

O mito de Siegfried

O Mito de Siegfried e Sigurd: Um Herói, Dois Nomes

Siegfried, conhecido também como Sigurd na tradição nórdica, é uma das personagens mais importantes da mitologia germânica e escandinava. Apesar de ter nomes diferentes nas duas culturas, a essência do herói é a mesma. Sigurd é a versão nórdica de Siegfried, mas o nome alemão é, hoje em dia, o mais famoso devido à popularidade das lendas germânicas e obras como o ciclo Anel de Nibelungo de Wagner. A mitologia de Siegfried mistura elementos de aventura, traição e tragédia que fazem deste herói uma figura lendária, comparável a outros grandes heróis da antiguidade como Aquiles.

1. O Confronto com o Dragão Fafnir

O primeiro dos grandes feitos de Siegfried (ou Sigurd) é a batalha contra o dragão Fafnir, uma criatura que guardava um grande tesouro. A história varia em alguns detalhes entre as versões nórdica e germânica, mas o elemento comum é o confronto épico em que Siegfried vence a besta. A versão mais interessante descreve Siegfried escondido num buraco, esperando a passagem do dragão. Quando Fafnir passa, o herói atinge-o com um golpe fatal no coração usando a sua lança. Este feito dá a Siegfried enorme fama e faz com que ele seja lembrado como o matador de dragões.

Após a morte de Fafnir, Siegfried adquire novos poderes, banhando-se no sangue do dragão, que o torna invulnerável, exceto por uma pequena parte das suas costas onde uma folha se prendeu, impedindo o contato com o sangue. Este detalhe sobre a sua vulnerabilidade será crucial para os acontecimentos futuros na história do herói.

O mito de Siegfried

O que torna este episódio tão significativo é que ele marca o início da lenda de Siegfried como um herói invencível, famoso em todo o mundo por ter matado o dragão Fafnir. Mais tarde, essa fama ecoa até no nome do seu neto, Sigurd Olho de Cobra, que herda parte da grandeza do avô ao ser nomeado em sua homenagem.

2. O Romance e a Traição com Brunilda

O segundo momento crucial na vida de Siegfried é a sua relação com Brunilda, uma valquíria despromovida em algumas versões da lenda. A história de amor entre Siegfried e Brunilda é trágica, marcada por enganos e traições. Embora Siegfried seja o responsável por muitos feitos heróicos, Brunilda acaba por casar-se com outro homem, acreditando que ele foi o autor desses feitos. Este mal-entendido é um ponto central da narrativa, pois leva à humilhação de Brunilda e à sua vingança.

A vingança de Brunilda é desencadeada quando ela descobre a verdade, através de uma discussão acalorada com a esposa de Siegfried. Durante a discussão, a esposa de Siegfried revela segredos humilhantes, como o facto de ter sido o seu marido, e não o de Brunilda, a desvirginá-la. Também menciona um anel que Siegfried roubou de Brunilda e lhe ofereceu como presente. Estas revelações enfurecem Brunilda, que, sentindo-se profundamente traída e envergonhada, jura vingança.

Brunilda e Siegfried

3. A Morte de Siegfried: A Tragédia de um Herói Traído

O terceiro e mais dramático momento da vida de Siegfried é a sua morte, que ocorre de forma traiçoeira. Furiosa com a humilhação que sofreu, Brunilda incita o seu marido a matar Siegfried, revelando-lhe o único ponto fraco do herói – a parte das costas que não foi tocada pelo sangue do dragão. Este detalhe, aparentemente pequeno, é suficiente para determinar o destino trágico de Siegfried.

Na versão mais famosa do mito, Siegfried é morto durante uma caçada. No final da caçada, ao inclinar-se para beber água de uma fonte, é atingido nas costas por uma lança, no seu ponto fraco. A morte de Siegfried é quase idêntica à de Fafnir, o dragão que ele havia derrotado, caindo vítima de uma maldição. O ouro de Fafnir, que havia sido motivo de disputa, é finalmente lançado ao rio Reno, encerrando o ciclo da maldição.

A morte de Siegfried

O Legado de Siegfried e Sigurd: Um Herói Imortal

A lenda de Siegfried ou Sigurd, como é conhecido na tradição nórdica, é uma das mais ricas e complexas da mitologia germânica e escandinava. A sua história é marcada por grandes feitos, amores trágicos e uma morte traiçoeira. Siegfried é imortalizado em obras literárias e musicais, como a *Canção dos Nibelungos* e o ciclo *Anel de Nibelungo* de Wagner, onde a sua figura ganha uma dimensão épica.

Além disso, a história de Siegfried reflete um tema comum em muitas mitologias: a vulnerabilidade dos heróis. Apesar de ser invencível na batalha, o herói acaba por sucumbir devido à traição, uma ironia que só aumenta a sua tragédia. Siegfried, tal como Aquiles e outros heróis lendários, mostra que mesmo os mais poderosos podem cair, vítimas de enganos e inveja.

Com isso, o mito de Siegfried continua a ser contado e recontado ao longo dos séculos, mantendo-se vivo na memória coletiva e na cultura popular. A sua fama como matador de dragões e a sua morte trágica garantem que o seu nome perdure enquanto as lendas forem contadas, confirmando as palavras da *Saga dos Volsungos*:

Nunca irá existir neste mundo outro homem como Sigurd, nunca irá nascer alguém que o possa equiparar em nada, e o seu nome será sempre famoso na língua germânica, e em toda a Escandinávia, enquanto o mundo existir.

O mito de Fafnir

O mito de Fafnir conta-se entre os mais conhecidos da Mitologia Nórdica, em particular a forma como este dragão foi derrotado e morto pelo herói Sigurd/Siegfried. Poderia então pensar-se, como em muitos outros exemplos semelhantes, que esta figura era apenas uma criatura mitológica como tantas outras, numa tradição que pouco separa Ratatosk do Dragão da Cólquida, mas na verdade esta figura não é pura e simplesmente um dragão.

O mito de Fafnir

Conta-nos então o mito de Fafnir que, originalmente, este era um anão que tinha dois outros irmãos, Regin e Otaro. Este último tinha o poder de se transformar em lontra (daí a origem da palavra inglesa otter…), e sob essa forma foi morto, de forma acidental, pelos deuses. Talvez para se redimirem dessa acção, talvez por terem sido capturados e compelidos a tal, os deuses deram ao pai de Otaro algum ouro, entregue no próprio corpo do falecido filho – mas, se referirmos que este “prémio” foi entregue por Loki, o mais enganador dos deuses nórdicos, depressa se percebe que ele não vinha sem um senão, estando condenados à destruição todos aqueles que o viessem a possuir (ou apenas um anel muito especial que fazia parte desse tesouro, dependendo da versão).

Pouco depois de terem recebido esta oferta, Fafnir e Regin mataram o próprio pai e apoderaram-se de todo o seu tesouro, mas foi esse primeiro dos dois irmãos que acabou por ficar com ele para si mesmo. E assim, à medida que o tempo foi passando, tornou-se mais e mais avarento, acabando até por levar o seu tesouro para uma caverna, transformando-se num verdadeiro dragão.

Anos mais tarde, com a ajuda de Regin, Siegfried encontrou o local, derrotou este dragão e apoderou-se daquele que viria um dia a ficar conhecido como o “ouro do Reno”. Mas o mito, ou lenda, como preferirmos chamar-lhe, ainda não fica por aqui – bebendo o sangue deste monstro, o mais famoso dos heróis nórdicos ganhou poderes místicos, como a capacidade de entender o significado do canto dos pássaros; comendo o seu coração, ganhou o dom da sabedoria; e, segundo outras versões, tomando banho no seu líquido vital recebeu até o dom da invulnerabilidade, com a excepção de um ponto em que, coberto por uma pequena folha, o sangue acabou por não tocar a sua pele!

 

Por toda esta história se compreende que, afinal de contas, o mito de Fafnir não é apenas o de um dragão, mas sim um anão que em virtude da sua avareza e de uma maldição lendária acabou por se tornar numa criatura mitológica. E esta sua história moral, de certa forma, viria até a ter um impacto significativo nas obras de J. R. R. Tolkien, como pode ser visto pelo caso de Smaug (das aventuras das personagens do Senhor dos Anéis), uma outra figura dracónica que tem muitas semelhanças com esta, ao ponto de os dois companheiros de uma mesma espécie até terem alguns monólogos comuns entre eles. Mas isso já é uma história para outros dias…

 

[Para terminar esta publicação de hoje, e visto que o confinamento em Portugal está novamente a terminar, voltamos agora ao nosso ritmo de publicação habitual, de 1-3 publicações por semana. Temos mesmo de o fazer, porque apesar de ser interessante publicar-se um novo tema todos os dias, é igualmente muito difícil prolongar esse ritmo por muito tempo!]

O mito nórdico de Mimir

O mito de Mimir, também conhecido mais geralmente como o do Poço de Mimir, refere-se a uma figura da Mitologia Nórdica que tem, essencialmente, dois mitos associados a ela. Não sabemos se são dois mitos distintos, ou apenas duas versões diferentes de um só evento mitológico, mas não deixam de ser significativamente parecidas na forma como terminam e como estão associadas ao deus Odin.

Odin e o mito do Poço de Mimir

Na versão provavelmente mais famosa do mito de Mimir, este era um gigante que possuía um poço cuja água dava imensa sabedoria a quem a bebesse. Odin, o grande monarca dos deuses nórdicos, aproximou-se do local e queria beber dessa água, mas o gigante disse-lhe que só o poderia fazer se sacrificasse algo em troca. Assim, o deus abdicou de um dos seus olhos, mas ganhou a capacidade de ver o passado, o presente e o futuro.

Mas numa outra versão (ou um mito distinto?), durante uma guerra a cabeça de Mimir foi cortada e enviada – miraculosamente viva – para Odin, que a manteve sempre consigo, usando-a sempre que necessitava de algum conselho, garantindo assim que tomava sempre as melhores decisões.

 

Em qualquer dos dois casos, o mito de Mimir explica a origem da grande sabedoria do deus Odin. Ela não era inata – recorde-se que os deuses nórdicos eram quase humanos nas suas imperfeições, e muitas vezes nem sequer eram imortais (como no caso de Baldur) – mas sim adquirida através de um qualquer evento que ligava estas duas figuras. Não sabemos como isso acontecia nas versões mais antigas de toda a história (o relato destas linhas é da Edda Poética e da Edda em Prosa, entre outras fontes tardias), mas é muito provável que ela já unisse, de uma qualquer forma agora incerta, Odin e Mimir de alguma forma.